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Sobre viajantes, turistas e a incrível volta aos anos 70.

por em 12/09/2019 | Nenhum comentário

Sobre viajantes, turistas e a incrível volta aos anos 70.

Que se registre em todos os livros de história, no dia 16 de julho de 2019 o Brasil (ou seria com Z?) conseguiu voltar 40 anos no tempo em matéria turística. O feito levou o país de volta aos saudosos anos 70, quando, para promover o turismo internacionalmente, se apostava num tripé: natureza, mulheres (sim, este cartão postal da capa era vendido até pouco tempo atrás) e, claro, samba (um conceito síntese que abraça os dois outros pés do tripé). Com o brilhante slogan “Brazil visit and love us” (voto que a tradução foi do “chança-to-be” Dudu Bolsotrumpmigues), conseguimos misturar google tradutor com um convitinho maroto a sacanagem. O Brazil abandona um plano desenvolvido ao longo de quase 16 anos, que continha seus erros, mas ao menos era capaz de projetar uma imagem sem clichês do país,  o Marca Brasil. Além do brilhante slogan, o símbolo da campanha esbanja criatividade e um cheirinho de naftalina com “a bandeira nacional reestilizada” no melhor estilo “tenho um sobrinho que é fera nesses negócios de computador, ele faz!”. Nada contra o lábaro estrelado, mas não serve a nenhum tipo de ideal que não seja esse nacionalismo pixotesco, tão caro ao atual governo.

Nosso país é sem sombra de dúvidas um dos maiores casos de subaproveitamento em matéria de turismo. Nos últimos 16 anos o Brasil foi sede dos maiores eventos do mundo, não apenas os esportivos, mas também eventos gigantescos como UNCTAD (2004) em SP que reuniu milhares de pessoas, reuniões políticas importantes etc. Durante este período podemos dizer que havia um tubo de dinheiro conectado ao Brasil nos primeiros 12 anos, investimentos que permitiriam resolver o maior gargalo da atividade turística nacional (não só dela) e os problemas de infraestrutura de acesso e conexões em um país continental. Claro, ocorreram as reformas nos aeroportos, algumas ainda em marcha com módicos 7 anos de atraso, bancadas com dinheiro público e depois gentilmente cedidas ao capital privado. A malha rodoviária teve avanços, alguns portos foram reformados, mas no geral obras paliativas e que não resolveram os problemas das grandes cidades como Rio (metro em linha reta e que conta com participação de ônibus!), São Paulo (o monotrilho até o aeroporto não chega ao aeroporto – abração ao sindicatos dos taxistas), Brasília (que tinha um projeto de VLT que simplesmente resolveria o trânsito da cidade por uns 50 anos, mas não saiu do papel).

Viajar pelo Brasil é uma tarefa para dispostos. Além de uma malha aérea pequena e centralizada na mão de 3 empresas, os trechos são em grande maioria ligações entre capitais. Para ir de Porto Alegre a Recife, por exemplo, o caminho é muitas vezes POA-SP-BSB-REC, em uma epopeia que pode durar algumas horas. Quem é da região norte ou pretende visitar sabe bem dos maravilhosos horários de saída 2,3,4:15 da manhã, ou simplesmente não ter opção de voos para aquele dia. Já ir de carro é sempre uma aventura, com estradas que sofrem com a falta de manutenção, longos trechos sem apoio de postos de gasolina (quem viaja pelo centro-norte do Brasil sabe do que estou falando), etc. Não falarei sobre malha ferroviária, nem marítima ou fluvial porque elas basicamente inexistem. Somado a isso tudo existe uma cultura de promoção externa do país. Ou seja, não se promove, divulga, vende, e principalmente apresenta o Brasil a quem mais deveria saber dele, os brasileiros. As campanhas de divulgação internas só acontecem em períodos de alta (faça um breve exercício e lembre que as campanhas de massa só aparecem nos meios de comunicação em junho/julho e dezembro/janeiro), ou seja, quando as pessoas que têm a intenção de viajar já fizeram suas reservas e vão viajar de qualquer jeito.

Carece ao brasileiro interesse pelo país, carece ao ministério do turismo, Embratur (ok, ok, hoje em dia tem a função de promover o brasil no Exterior, mas também produz o plano que vai nortear a divulgação) despertar no brasileiro o desejo de querer conhecer o país. Quantos dos amigos que estão lendo estas linhas já foram, por exemplo, a algum estado fora da sua região? Quantos conhecem as festas tradicionais como São João no Nordeste ou o Círio em Belém ou a Carvalhada em Goiás?  Eventos tradicionais que têm alta capacidade de atração e são mal promovidos. Não falo isso tirando da conta o custo das viagens, como disse, a dificuldade de locomoção é o maior empecilho do turismo nacional. Mas com um pouco de planejamento é possível mudar o perfil do turismo interno, começar a cultivar uma geração de viajantes e não turistas. A diferença nos termos é que o viajante que tem interesse na região em que visita sempre está disposto a viajar para um destino não convencional. O viajante é aquele mochileiro que vemos rodando o país, seja de ônibus, barco, carona etc. São esses os que desenvolvem o turismo em pequenas vilas e que por vezes acabam sustentando estes lugares fora de temporada.

Nosso novo plano de divulgação vai na contra mão desse tipo de visitante. Ao simplificar o plano Marca, programa brasileiro de desenvolvimento de uma imagem turística que foi baseado no caso de Barcelona, nossa promoção turística caminha pra trás décadas e joga pela janela um trabalho que vinha sendo desenvolvido por uma equipe de técnicos que estão no ministério e na Embratur há mais de uma década. Este governo aposta no tripé da década de 70, na ideia falsa de que só “as belezas do Brasil e o jeitinho do brasileiro” irão atrair turistas do mundo inteiro. Voltaremos a promover basicamente turismo de sol & praia, um dos menos rentáveis, e viraremos a cara a grupos de viajantes que trazem maior divisas ou, nas palavras do atual presidente, que em sua capacidade singular de síntese mostra toda sua ignorância e preconceito em 13 palavrinhas, “O Brasil não pode ser o país do turismo LGBT, temos famílias”.

O turismo é uma opção importante para a economia de um país, Espanha (15% do PIB) e México (10% do PIB) são alguns exemplos de como um projeto a médio prazo pode trazer soluções. A nosso favor temos uma grande amplitude climática, não temos muitos eventos naturais, um litoral imenso, meios de hospedagem típicos, que normalmente agradam aos visitantes (pousadas), gastronomia, cultura, uma população interna gigante. O que nos falta é aprender a gostar do Brasil. Nos falta promover para nós mesmos que a viagem a lugares como São Miguel do Gostoso no RN pode ser tão incrível quanto uma semana em Punta Cana. Que o Jalapão pode ser tão atrativo e enriquecedor como uma viagem a Buenos Aires. Que São Paulo, Rio, BH têm museus importantíssimos. Que Brasília é uma cidade linda cercada de cachoeiras. Que Manaus ostenta um dos principais festivais de ópera do mundo. Que em Joinville se pode ver o ballet Bolshoi. Que produzimos na chapada diamantina um dos melhores cafés do mundo. Em suma precisamos olhar pra dentro, desenhar o que queremos para o futuro e não olhar pra fora e pra trás.

 

Pra quem quiser saber mais: https://www.viajenaviagem.com/2019/08/marca-brasil-erros/

http://www.turismo.gov.br/assuntos/5299-planos-de-marketing.html

https://www.efe.com/efe/portugal/economia/turismo-contribuiu-14-9-do-pib-espanhol-em-2017/50000443-3561215


James Milk. Alguém disposto a provar que relações internacionais e diplomacia fazem tanto parte da sua vida quanto pão de queijo.

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Jobs-to-be-done: New Coke, Kodak, IKEA e o que a história do Milk-Shake fez por nós!

por em 11/09/2019 | Nenhum comentário

Jobs-to-be-done: New Coke, Kodak, IKEA e o que a história do Milk-Shake fez por nós!

Já parou para pensar o quanto somos o tempo todo influenciados pelas propagandas, por vídeos na internet, por opiniões alheias, por uma embalagem, o produto disposto na gôndola do supermercado, ou ainda em uma gôndola virtual? Já se deu conta que nossa árvore de decisão para o consumo de um produto ou serviço está muito ligada à identificação que temos com aquela marca, seja por questões práticas, racionais ou, na maior parte das vezes, emocionais?

Quando pensamos em vender um produto ou serviço, aumentar suas vendas ou simplesmente melhorar suas características, temos a tendência de tentar descobrir quem são os nossos clientes e o que eles querem comprar. Na história temos casos interessantes que nos mostram que, se seguirmos essa premissa, corremos o risco de tomarmos decisões erradas. Henry Ford dizia que, se ele perguntasse para seus clientes o que eles queriam, provavelmente diriam que gostariam de “cavalos mais rápidos“.

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O Historiador do Futuro

por em 10/09/2019 | Nenhum comentário

O Historiador do Futuro

Em agosto, mais precisamente no dia 19, comemorou-se o dia do Historiador no Brasil. Mas nem sempre foi assim. Quando eu entrei na faculdade, o oitavo mês do ano era tão somente o mês do cachorro louco e o início oficial da temporada de “pipas” para seus aficionados empinadores.

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Raiva em herbívoros. E eu com isso?

por em 09/09/2019 | Nenhum comentário

Raiva em herbívoros. E eu com isso?

Lá vamos falar sobre a doença Raiva novamente. Dessa vez vou aqui escrever um pouco mais sobre os morcegos e os herbívoros.

Desde o mês de julho, estamos passando por um foco de raiva em herbívoros no município vizinho ao meu, Nova Brasilândia d’Oeste-Rondônia. Herbívoros são os animais que se alimentam de vegetais exclusivamente e nesse caso, refiro-me aos bovinos e equinos das propriedades rurais dessa região.

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Resenha – Ecologia até na sopa

por em 05/09/2019 | Nenhum comentário

Resenha – Ecologia até na sopa

Essa resenha é uma parceria do Portal Deviante com a Cia da Letras, que disponibiliza livros do seu catálogo para os nossos redatores escreverem as resenhas. Livro de hoje: “Ecologia até na sopa”, publicado pelo selo Companhia das Letrinhas, escrito pelas biólogas argentinas Mariela Kogan e Ileana Lotersztain, com tradução de Mell Brites, e ilustrado pelo também argentino Pablo Picyk.

Para fabricar coisas grandes se usa mais natureza do que para fabricar coisas pequenas? O que acontece quando uma espécie é extinta? Aonde vai parar a fumaça que os carros soltam? Por que temos que economizar energia? Por onde a água viajou até chegar na sopa? Através de perguntas como essas, as autoras fazem leitores de todas as idades pensar sobre os ciclos da natureza, os impactos do consumo, as origens e os destinos de tudo o que utilizamos, etc. O livro visa a divulgação desses conceitos ao público em geral, em especial para as crianças, afinal, como o próprio livro diz, “todas as pessoas podem (e devem) assumir o compromisso de cuidar do planeta por meio de pequenos atos no dia a dia.”

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Pode o medo ser usado como instrumento de controle social? (III)

por em 30/08/2019 | Nenhum comentário

Pode o medo ser usado como instrumento de controle social? (III)

A mãe suplicou gemendo: – Não fique zangado! Como não ter medo! Passei a vida toda no terror, tenho a alma coberta de medo! (Máximo Gorki – “A Mãe”)

 

Como prometido no texto dessa série passamos por ilustrações do uso de medo como instrumento de controle do Antigo Testamento à Guerra Contra o Terror levada à cabo no início do Séc. XXI. E agora, estabelecido esse uso, é tentar entender um pouco mais da nossa relação com o medo para tentar entender como foram tão bem-sucedidos seus usos. E caso esteja chegando agora – ou não se lembre – leia os primeiros dois textos aqui e aqui!

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