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Mulheres na ciência – Entrevista com a Claudinha

por em 21/05/2018 em Ciência | Nenhum comentário

Mulheres na ciência – Entrevista com a Claudinha

A ideia de fazer uma entrevista surgiu ao ouvir o Ponto G, sugestão da Debbie, após uma pequena crise sobre qual mulher escrever, associada a uma troca de e-mails entre as redatoras aqui do portal Deviante, na qual foi sugerido que escrevêssemos sobre alguma mulher que tivesse nos inspirado em algum momento da vida. E eis que me vem à cabeça a minha entrevistada, a Claudinha, amiga querida com a qual compartilho hobbies, amor pela leitura e gosto pela ciência.

Bora conhecer esta mulher inspiradora!

Suzane Melo: Conte um pouco sobre você, de onde é, o que estudou, um pouco sobre a sua pesquisa.

Claudinha: Bom, eu sou Claudinha, tenho 28 anos, caiçara, calunga de São Vicente (SP), torcedora do Santos FC e bibliófila assumida rsrsrs. Toda minha trajetória acadêmica em nível superior foi na UFABC (Santo André e São Bernardo), onde eu fiz bacharelado em ciência e tecnologia, licenciatura e bacharelado em química, mestrado e doutorado em Biossistemas. Na pós-graduação eu estudei sobre a relação do citomegalovírus humano (um vírus bem comum na população mundial) com glioblastoma multiforme (o mais maligno câncer de cérebro), no mestrado eu detectei o vírus em amostras cérebros de pacientes e no doutorado eu estudei a relação do vírus na quimioterapia

Digam “Oi” para a Claudinha.

Suzane Melo: Me conte sobre a sua trajetória acadêmica. Como foi se tornar pesquisadora?

Claudinha: Bom, a UFABC nasceu num tripé ensino/ pesquisa/extensão, então entrar para o mundo das ciências foi bem natural. Tudo começou em 2008 quando eu conheci a Prof.ª Maria Cristina e o mundo da virologia. Eu cursei a disciplina de microbiologia com ela, e pedi (na cara de pau mesmo) para fazer uma iniciação  científica (IC) com ela. Na época não tínhamos laboratório e a IC foi teórica. Logo depois veio o laboratório onde eu fiz o meu TCC, depois o mestrado e o doutorado (em São Bernardo do Campo – SP), além de ter tido a experiência de poder fazer parte do meu trabalho fora do Brasil, na Escócia, com bolsa de doutorado sanduíche. Mas assim, fazer pesquisa no Brasil é mais do que ser pesquisador, é fazer um pouco de tudo, desde ser contador, comprador, técnico de laboratório, etc… Eu brinco que sai do doutorado com um título e uma experiência de vida que poucos têm: começar um laboratório do zero

Suzane Melo: Como foi sair da pesquisa teórica e ir para a bancada do laboratório?

Claudinha: Para mim foi muito natural. Quando eu fui para a bancada, eu já sabia a teoria de todas as técnicas que eu iria realizar, então foi uma transição bem tranquila, e diria até esperada.

Suzane Melo: Como é mulher e fazer ciência?

Claudinha: Eu digo que tive muita sorte na vida, eu nunca sofri nenhum tipo de preconceito de nenhuma forma por ser mulher na ciência. Apesar disso é nítido que os pesquisadores sêniores são em sua grande maioria homens, porque as mulheres daquela época não tiveram a mesma oportunidade que eles. Além disso é bem mais difícil publicar sem o nome de algum desses pesquisadores mais conhecidos do que quando eles estão de co autores.

Suzane Melo: A ciência é algo muito presente na sua vida, não só por conta da sua pesquisa. Você realmente acredita que ela seja importante. O que você pensa sobre divulgação cientifica feita por cientistas?

Claudinha: Existe um abismo entre o que se faz dentro da academia e o que chega na sociedade. A divulgação científica nada mais é do que uma ponte entre dois mundos. O grande problema aqui é que vivemos praticamente numa torre de Babel: os cientistas vivem, na sua maioria, tão encerrados em seus mundos, que lhes falta habilidades básicas de comunicação para tentar explicar o que fazem, o que estudam e por que estudam. Eu acho que, mais do que importante, a divulgação científica é essencial, mas talvez deixar só nas mãos dos cientistas não seja a melhor maneira. Eu acredito muito no trabalho em conjunto: os cientistas mostrando o que fazem, profissionais da comunicação trazendo para uma linguagem mais popular (simples, mas não simplória) e pessoas que transitam entre esses dois mundos mediando essa conversa.

Eu vejo a divulgação científica como uma maneira de retornar para a sociedade o que eles investiram (a maioria das pessoas nem sabem que seus impostos são revertidos em pesquisa). Achar que a divulgação científica é uma perda de tempo é basicamente falar para a sociedade que ela é irrelevante no processo, o que é uma mentira tremenda!!!!

Suzane Melo: E sobre cientistas que acreditam que divulgação cientifica é perda de tempo?

Claudinha: Se pensarmos de maneira crítica, vários dos problemas que temos hoje na ciência é por causa da falta de apoio popular proveniente dessa falta de comunicação: os cortes em ensino/pesquisa, as campanhas anti-vacinação, os tratamentos sem comprovação científica que vão entrar no SUS (gerando um maior gasto de dinheiro público), etc… Tudo isso é nossa culpa, da falta de olhar para a sociedade e mostrar o que fazemos e por que fazemos. A falta de cultura científica no Brasil é culpa sim dos cientistas e só vai mudar quando eles perceberem que o mundo é maior que a sua casca de noz.

Um exemplo bem rapidinho que aconteceu comigo: eu estava olhando umas células no laboratório e as moças que fazem a limpeza estavam lá. Eu perguntei para elas se queriam olhar no microscópio e elas ficaram encantadas!!! Mas o mais importante e que mexeu comigo foi o que uma delas disse: que gostava de aprender as coisas diferentes. Quantos laboratórios elas não limpam todos os dias? Quantos cientistas não estão ao redor delas e quantos deles pararam para conversar com elas? O quanto nós não acabamos desprezando essas pessoas, não por maldade, mas por sempre achar que não temos tempo?

E onde fica nossa responsabilidade social dentro de tudo isso?

A academia precisa refletir sobre isso…. Fazemos ciência, mas para que (m)?

Suzane Melo: Por que ser cientista? Se é tão difícil fazer ciência no Brasil?

Claudinha: Quando eu entrei no mundo da ciência, minha ideia era mudar o mundo, era ganhar um Nobel e achar a cura do câncer. Ainda não mudei o mundo e não ganhei o Nobel (questão de tempo rsrsrs), mas fazer ciência é deixar a sua contribuição na história, é fazer com que o mundo seja um pouquinho menos desconhecido, é fazer com que possamos conhecer um pouco mais da vida, do universo e tudo mais. Fazer ciência no Brasil dá mais trabalho porque temos que ir contra a corrente (contra a burocracia da Anvisa, contra os reagentes que se perdem porque cai a luz e o freezer descongela, etc.…), mas não deixa de ter a mesma premissa de qualquer outro lugar do mundo: ajudar a fazer do mundo um lugar melhor e isso não depende das condições, depende da sua resiliência.

Suzane Melo: Você participou do cientista beta, certo? Como é o programa?

Claudinha: Toda criança nasce cientista. O que acontece no meio do caminho são pressões sociais e econômicas que as fazem perder o rumo. O Cientista Beta faz com que os adolescentes voltem a ter esse brilho nos olhos para a descoberta, para a pesquisa e para o aprendizado. No Cientista Beta, alunos de ensino médio com uma ideia de pesquisa (que pode ser qualquer coisa) são selecionados para terem mentorias com pessoas que já passaram pelo caminho das pedras, os mentores. A função dos mentores é dar suporte para esses alunos, mostrando caminhos e pessoas com as quais eles podem falar para desenvolver o projeto, além de dar suporte emocional, que muitas vezes é o que mais falta para esses alunos. Os mentores são incríveis, têm histórias sensacionais, e a Kawoana (líder do projeto) é uma das pessoas mais inspiradoras que eu conheço

Suzane Melo: Como foi participar dele?

Claudinha: Participar do Cientista Beta foi uma injeção de ânimo, de acreditar que dá sim para fazer ciência não importa onde você esteja. O que você precisa é ter apoio e conhecer as pessoas certas. O projeto que eu ajudei foi de desenvolvimento de uma metodologia de ensino de matemática para o ensino fundamental. As minhas mentoradas são incríveis e conseguiram voar muito alto (na verdade elas nem precisavam de mim rsrrs)! E não só elas. O céu é o limite para esses adolescentes. O que precisamos é não cortar as asas deles.

Suzane Melo: Você ama ler. Lembrei que você também escreve (lembro dos seus blogs) rsrs. Pode falar um pouco sobre a importância da leitura e sobre como se tornou amante da leitura?

Claudinha: Adoro ler, mas não posso dizer que escrevo né, eu no máximo rascunho  rsrs. A literatura entrou na minha vida aos poucos, eu não nasci num ambiente de leitores (meus pais nunca tiveram livros em casa), mas acho que eu sempre fui inquieta demais por aprender. Lembro que tudo começou na quarta série, na minha escola havia um projeto de catalogação de livros, aí cada aluno tinha que ler um livro e fazer uma resenha pra deixar na biblioteca. Isso me abriu vários mundos dos quais eu nunca mais me separei (obrigada Pedro Bandeira e Marcos Rey). No ensino médio eu tive a oportunidade de ter uma biblioteca ainda maior pra ler (acho que passei por quase todos os livros de literatura que tinham lá na época). No começo da faculdade, deixei os livros um pouco de lado, mas no meu segundo ano, quando comecei a ter meu dinheiro, tive a oportunidade de começar a minha biblioteca que até hoje só cresce! Livros são hoje o presente padrão das pessoas para mim rsrsrs. A literatura me permitiu viver mil vidas em uma e conhecer os mais diferentes lugares sem sair de casa. Mais do que isso, a literatura me ensinou a ver como as pessoas e lugares são diferentes, me ensinou a empatia e me ensinou que nem todos os heróis e heroínas usam capas.

Suzane: Gostaria de dizer algo mais? Mandar algum recado?

Claudinha: Eu gostaria só de falar sobre a situação política/social que vivemos hoje: é difícil ser brasileiro hoje. É difícil lidar com o desemprego, com a falta de condições nas escolas, nos hospitais; lidar com que parece uma roubalheira sem fim na política. Eu sei que é difícil acreditar em dias melhores, que às vezes parece iminente um novo 64, mas eu peço, por favor, acredite! Acredite num futuro melhor e que os bons são maioria, mas não apenas acredite numa fé sem ações: busque conhecimento de causa, de fatos, busque saber quem são as pessoas que querem te representar! Vote sabendo em quem você está votando, use as redes sociais para seguir (literalmente) o seu candidato e cobre do mesmo se eleito. Faça valer o seu voto, faça a sua parte para que o Brasil seja um país gigante não só pela própria natureza, mas por ter um povo grandioso!

Suzane Melo: Aproveitando a oportunidade. Alguma indicação de leitura?

Claudinha: Vish, várias!!!!

Para entender um pouco sobre a crise da América Latina eu indico “As veias abertas da América Latina”, livro genial.

Para entrar no mundo do feminismo (ou pelo menos foi como eu entrei): “Orgulho e Preconceito”, da genial Jane Austen.

Para aprender sobre a inexistente meritocracia no Brasil: “Capitães da areia”, de Jorge Amado.

Para aprender sobre como lutar pelo que acreditamos e por aqueles que amamos: Harry Potter (série) – JK Rowling

A lista é extensa demais, mas esses são livros que, de alguma forma, mudaram a minha vida ?

PS: Perguntei para ela como deveria mencioná-la no texto. Eis a resposta (e minha piadinha besta. :P)

Suzane Melo: Ah! Como coloco seu nome? Dra. Claudinha? :P rsrs

Claudinha: ?????

Só Claudinha está bom ???

Não faz sentido em querer diminuir a distância entre a sociedade e a academia e colocar um título que na maioria das vezes é só usado para aumentar a distância entre as pessoas ???

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