Se tem algo que eu gosto é de ir ao mercado. Adoro a sensação de finalizar um ciclo de cuidados domésticos, não deixando faltar nenhum ingrediente, produto de higiene ou qualquer outra coisinha que sempre compro. E, como fiscal municipal, estou sempre lá também nas minhas horas de trabalho! Por isso consigo pescar algumas outras ideias importantes que circulam junto com os suprimentos.
Quando aponto alguma falha que precisa de atenção, ultimamente estou sendo surpreendido por uma exclamação: “É, estamos com falta de pessoal. Quem cuidava dessa parte se demitiu”. Geralmente, em mercearias e lojas de bairro, o argumento ainda é composto com: “Ninguém mais quer trabalhar! O pessoal só quer viver de auxílio.”
Os jornais, vídeos de influencers, os encarregados e até mesmo os clientes indicam esse mesmo problema. Será que o cenário é realmente assim? O que pode estar por trás dessa sensação de falta de profissionais no setor supermercadista? Para muitos jovens, o emprego no setor é reconhecido como de entrada, desenvolvendo funções iniciais para que se possa seguir uma carreira como repositor, manipulador de cortes, açougueiro e até padeiro. Por que eles não querem mais?
Em maio, gosto de fazer um texto especial em homenagem ao Dia do Trabalhador (1º dia do mês). Parabéns para nossa classe! E, nesse ano, o tema não poderia ser outro senão o mais quente no cenário alimentício. Afinal, os jovens não gostam mais de trabalhar em supermercados?
Ao que tudo indica, não é só uma percepção sem fundamento. O país inteiro está enxergando a dificuldade de encontrar pessoas para trabalhar no setor. A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) salienta que 357 mil vagas para o setor permanecem abertas [1]. Em decorrência do fato, parece estar havendo uma mudança no perfil geracional daqueles que buscam emprego nos mercados.
Alinhado a isso, o Espírito Santo (estado de onde vos escrevo) destacou-se recentemente com uma medida coletiva. Em convenção com entidades representativas de trabalhadores, o setor vai manter a folga fixa de todos os funcionários aos domingos [2]. A medida visa diminuir a dificuldade em montar escala e garantir adesão de funcionários.

Imagem um. O fim da escala 6×1 se apresenta no horizonte do atacado ao varejo, e as grandes empresas estão se preparando para o iminente embate legislativo [3]. Na figura, podemos observar um corredor cercado por estantes de supermercado, com uma estante de frente, ao final, todas lotadas de produtos.
Muitos fatores estão alinhados com essa mudança de perfil, inclusive a conjuntura macroeconômica brasileira. Muitos acreditam, inclusive, que os programas sociais, como o Bolsa Família, sejam os grandes responsáveis pela falta de mão de obra [4]. No entanto, o fato de mais de 2 milhões de pessoas terem deixado de utilizar o auxílio em 2025, contradiz essa tese, pois não justifica por que ainda sentimos falta de pessoal em certos serviços.
Bom, deixa eu ajeitar meus óculos de economista aqui. A massa salarial do trabalhador tem aumentado. Muitos fatores explicam isso, mas principalmente a oferta maior de trabalhos informais, aumento da produtividade, segunda fonte de renda, indisposição a gastos não planejados (como ter filhos), etc. Esse fator por si é capaz de alterar o valor da elasticidade preço da demanda, também conhecida como elasticidade preço da procura.
Esse indicador nos informa sobre a quantidade demandada de um bem (inclusive o trabalhador) em relação ao seu preço (salário). Se, antes tinha muita gente disposta ao serviço, você podia contratar alguém por um “preço” menor, mas agora você precisa pagar bem mais, pois tem menos gente querendo trabalhar nesse setor. Logo, a elasticidade diminuiu bastante para o mesmo valor de contrato.
Mas isso tem um lado bom. Nos indica, ainda que indiretamente, que a economia está se desenvolvendo. São indicadores de desemprego em baixa, renda do trabalho maior e oferta limitada de serviços, que começam a perder escala [4]. No longo prazo, é esperado que as empresas de supermercado se atenham a esta nova realidade, o que pode ocorrer de diferentes formas.
Os supermercados podem aumentar a remuneração do contratado, fazendo com que compense suas outras fontes de renda e aumente a elasticidade preço da demanda. A terceirização de setores específicos ajuda no fator “menor oferta”, como contratar apenas um auxiliar para esquentar pão congelado comprado de terceirizada ao invés de ter uma equipe inteira de padaria. Ou talvez a saída seja investir em tecnologia, que consequentemente reduz também a demanda.

Imagem dois. Modelo de trabalho cooperativo é testado em São Paulo [8]. Nesta modalidade, ajuda na manutenção e limpeza gera descontos em produtos. O supermercado participativo propõe, subjetivamente, a redução das folhas de pagamento. Na imagem, podemos observar uma mulher e sua criança olhando um homem ensacando uma verdura verde e folhosa em uma bolsa de papel.
Condicionado a isso, temos também uma geração que está menos disposta a se aventurar em experiências profissionais depreciativas para buscar alternativas de capacitação mais sólidas. É o famoso concurseiro, estudante ou jovem empreendedor. Se as grandes redes quiserem competir contra essas oportunidades boas, ela precisa oferecer uma mudança que seja tão milagrosa quanto necessária.
Isso porque existem entraves psicodinâmicos que transformam a experiência de trabalho em supermercado em algo, muitas vezes, repulsivo. Isso quem fala é alguém que já passou por uma lógica parecida, em regime de trabalho que beirava o 7×0. Já falei sobre esta experiência aqui, inclusive em outro texto sobre o trabalhador.
Além de ser fisicamente cansativo, é um trabalho penosamente estressante. Assim o é pois o trabalhador é vítima de um confronto contínuo entre sua subjetividade, seus desejos, inteligência e necessidade de reconhecimento, contra uma relação sistêmica de trabalho que o trata como um recurso a ser extraído [6]. Ausência de tempo de recuperação psicofisiológica, alinhada com a pressão organizacional, faz com que ocorram descompensações psíquicas, vetores de adoecimento geral. Eles ocorrem com mais frequência do que é exposto nos programas de cuidado do setembro amarelo. E isso tudo sem cobertura com profissionais de saúde adequados.
Com todas essas mudanças, muitos veem uma alteração significativa no perfil dos trabalhadores. Em vez de jovens, temos reservistas militares, idosos e postos de autoatendimento ocupando as vagas [7]. Apesar de solucionar o sintoma com uma pitada de capitalismo tardio, a possibilidade passa longe de ser a solução final ao setor.
Para uma mudança real, mexer com o perfil etário dos funcionários não é necessário. Políticas de valorização constante, tempo de descanso, salário digno e apoio na saúde são alguns dos pontos mais levantados por essa geração como requisitos fundamentais para a aceitação e permanência em um emprego. Para isso, é necessário que os responsáveis entendam esse novo público interno. E com esse entendimento possam rever esses diversos riscos intersubjetivos da relação trabalho-trabalhador.
Assim, os donos podem aprender que, para que os produtos cheguem às estantes, é necessário muito mais trabalho humano do que somos capazes de imaginar. E esse valor nunca vai entrar em promoção!
Referências
[1]: PESTANA, Julia. Supermercados têm dificuldades em contratar e já acumulam 357 mil vagas em aberto, diz entidade. Portal Dinheiros, 20 mar. 2025. Disponível aqui.
[2]: VIVIANE, Machado. Por que ES é o único estado a fechar supermercados aos domingos? Mão de obra, faturamento e escala são desafios para empresas. Portal g1, TV Gazeta, 01 mar. 2026. Disponível aqui.
[3]: BEZERRA, Caio. CEO de grande rede de supermercados aprova fim da escala 6×1: “Acredito que esse é o primeiro passo”. Portal O Povo, 05 mar. 2026. Disponível aqui.
[4]: MARTINS, Gabriel. Ninguém quer trabalhar? Na verdade, mais gente deixou a pobreza e não aceita salário baixo para fazer o que antes era mal pago. Portal E.M. Foco, 03 jan. 2026. Disponível aqui.
[5]: CESPI, Beatriz de Abreu; OLIVEIRA, Raquel; KUNIGK, Cynthia Jurkiewicz. Modelagem do comportamento de Listeria innocua durante a produção de queijo artesanal. Escola de Engenharia Mauá, São Paulo.
[6]: MEDEIROS, Guilherme Ryan Barbosa Figueiredo de. Viver ou trabalhar? A jornada de trabalho como campo de batalha social. Monografia apresentada ao curso de graduação em Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito parcial à obtenção do título de Licenciado em Ciências Sociais. Centro Ciência Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. Vol 1, 78 p.
[7]: BORGES, Maria Heloisa Barbosa. Supermercados enfrentam escassez histórica de trabalhadores: vagas sobram, jovens recusam e setor apostam em idosos, reservistas e autoatendimento para sobreviver. Portal Click Petróleo e Gás – CPG, 15 out. 2025. Disponível aqui.
[8]: MARIO, Felipe. Supermercado que permite trocar trabalho por descontos chega a São Paulo. Portal Mercado & Consumo, 01 dez. 2025. Disponível aqui.

