Vou chamá-lo de João. Nome comum como ele era. João tinha 19 anos. Segundo filho de uma prole de quatro, sendo ele o único homem. Pai e mãe vivos, trabalhadores rurais. Sua mãe contou que João não queria estudar, só trabalhar. E trabalhava muito,  disse o pai. Entregava pizza, garçom, moto táxi. João sempre arranjava um “bico” para ganhar um dinheirinho.

Como todo jovem, João tinha amigos e gostava de se divertir. Naquele sábado, João bebeu demais, colidiu a motocicleta do amigo contra um poste. Sem capacete.

Chegou na UTI já em coma Glasgow 03 – pontuação mínima de uma escala que vai do 03 ao 15. Traumatismo craniano grave. Suspeita de morte encefálica (ME). É neste momento que eu entro nesta história.

Fazer o diagnóstico de morte encefálica tecnicamente é no mínimo trabalhoso. Necessário avaliar os reflexos do tronco encefálico, local onde os centros de controle da consciência, batimentos cardíacos e respiração estão localizados. O exame neurológico é muito preciso evidenciando a ausência de reflexos como piscamento, reação das pupilas, movimentação dos olhos, sensibilidade do labirinto. A prova de apnéia é considerada a mais importante. Dez minutos sem nenhum movimento respiratório espontâneo praticamente fecha o diagnóstico. O exame clínico deve ser realizado após 6 horas do evento que causou a lesão cerebral. O paciente não deve ter usado sedativo caso contrário é necessário aguardar 12 horas ou mais dependendo da droga que foi utilizada. Se confirmado, dizemos que o paciente está em Morte Encefálica clinicamente comprovada. Para um diagnóstico de certeza é necessário um exame que comprove ausência de metabolismo cerebral. Os exames adequados recomendados pelo consenso médico são:

  • EEG: o eletroencefalograma foi o primeiro exame utilizado no diagnóstico de morte encefálica. O EEG é capaz de mostrar a atividade elétrica cerebral. A ausência de atividade comprovando diagnóstico. Problemas: leitor do EEG deve ser muito experiente e com título na área de neurofisiologia e possibilidade de artefatos no exame é grande dificultando a leitura.
  • Doppler transcraniano: avaliar o fluxo de sangue nas principais artérias cerebrais através de ultrassonografia com doppler. Ausência de fluxo sanguíneo é diagnóstico de ME. Muito prático, talvez seja o exame mais realizado por não ser invasivo e pode ser realizado à beira do leito. Problemas: operador experiente
  • Arteriografia cerebral: avaliar o fluxo sanguíneo cerebral através de cateterização das artérias e infusão de contraste rádio-opaco. Ausência de fluxo do contraste confirma o diagnóstico de ME. Problemas: mais caro dos exames ; necessário aparelhamento complexo.

Após confirmação com um dos exames acima um segundo profissional, neurologista ou intensivista, deve repetir as provas clínicas incluindo a prova de apnéia.

Nesse ínterim, provas sorológicas são solicitadas: HIV, hepatite B e C, toxoplasmose, citomegalovírus, dentre outros.

Todos estes procedimentos são realizados enquanto informamos à família. Neste momento, todo o trabalho técnico parece nada! E por que eu lembrei logo de João?

Segundo dados do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT 2016 link abaixo) houve um aumento no número de transplantes no Brasil em 2016 com destaque para os estados de Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Ceará. Contudo, mais da metade das famílias não autorizam a doação. Os dados não explicam as causas. Por prática médica já ouvi argumentos religiosos, relatos de conspiração (tráfico de órgãos), ignorância.

Os pais de João são analfabetos. Expliquei junto com a psicóloga o que havia acontecido com o filho deles. Que apesar do coração batendo, ele não estava mais vivo. Ouviram calados. Falei sobre a doação. João era jovem, poderia ajudar muitas pessoas. A mãe de João interrompeu minha explicação: quer dizer que o coração dele vai continuar batendo? Receosa, respondi que sim mas no peito de outra pessoa. Então ele não vai morrer, doutora!

A vida médica cria cascas na gente. Mas, às vezes, a vida de verdade prega peças. Fiquei sem fala. Levantei e abracei aquela senhora. E chorei junto com ela.

E disse que João salvou a vida de pelo menos 04 pessoas (além de ajudar outras tantas com córneas, ossos e pele) doando seus rins, fígado e coração que agora bate por dois.

 

 

LINKS:

Critérios para diagnóstico de Morte Encefálica

Registro Brasileiro de Transplantes

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Iara Grisi Souza e Silva

Startrekker, apaixonada pela Ciência, viciada em conhecimento e em café, médica neurologista e intensivista nas horas vagas.