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Conto: O Réveillon na Paulista – Parte 2

por em 22/04/2020 em Entretenimento | Nenhum comentário

Conto: O Réveillon na Paulista – Parte 2

Parte 1

Leonardo e Andréa estão se preparando para o primeiro Réveillon em São Paulo, após o casamento em Minas Gerais há apenas 2 meses. Ela está super ansiosa e agitada para o evento, afinal sempre teve vontade de participar desta festa, mas nunca tivera oportunidade. Já Leonardo não está tão animado assim. – Nunca gostei de lugares com muita aglomeração! – vivia dizendo para Andréa. Mas resolveu ceder e fazer a vontade de sua esposa.

Saíram lá do bairro da Vila Madalena por volta das 21h e resolveram ir de metrô. Em São Paulo essa é a maneira mais prudente de se locomover quando ocorrem eventos grandes como o Réveillon da Paulista..

No caminho, tudo foi tranquilo. Pegaram o metrô e o trecho até a estação mais próxima do evento não levaria mais do que 20 minutos. Foram conversando e aproveitando o clima de festa que já se instalava na cidade. Muitos que estavam no vagão, tinham o mesmo destino dos dois. Alguns passageiros, que voltavam do trabalho, faziam questão de criticar a festa, outros simplesmente não se importavam… Mas a grande maioria estava eufórica.

Desceram na estação Consolação e resolveram seguir o caminho a pé – um caminho de não mais do que 10 minutos em dias normais – até as proximidades do MASP, o Museu de Artes de São paulo, que é o local onde o palco está montado e onde ocorrem os shows da virada.

Andréa não conseguia conter sua euforia e Leonardo, apesar do incômodo de ir à um local abarrotado de gente, estava bastante satisfeito por ver sua esposa naquele estado. No caminho, conheceram um casal que veio do estado do Paraná e outro que veio do estado de Goiás. Como não tinham amigos, resolveram formar um grupinho para assistir ao show, aos fogos e comemorar a passagem de ano juntos.

Tudo transcorreu como previsto. Curtiram os artistas, beberam, dançaram, pularam. Na hora da queima dos fogos, Leonardo sentiu uma forte emoção invadindo seu peito. Havia muito tempo que não se sentia assim, com alguém da sua família. A última vez foi no Réveillon de 1994 quando tinha apenas 10 anos. Naquele ano, seus pais sofreram um acidente de carro no caminho de volta para casa, após terem comemorado a virada do ano na casa de um grande amigo. Por um milagre, Leonardo não sofreu nenhum ferimento grave naquele acidente, mas seus pais morreram e foi a última vez nos últimos 20 anos que se lembrava de um Réveillon feliz.

Já eram quase 2h da manhã quando Andréa resolveu chamar Leonardo para irem embora. Apesar da euforia, estava cansada e precisava dormir porque no dia seguinte iria ser seu plantão no Hospital das Clínicas, onde era uma das enfermeiras no setor de cardiologia. Foram caminhando pela Av. Paulista no sentido da estação de metrô, onde tomariam seu transporte de volta. No caminho, Leonardo sugeriu para Andréa que parassem em algum lugar para comer e ela aceitou prontamente, pois estava varada de fome àquela hora da madrugada. Decidiram então ir à um lugar que fica em uma das ruas que atravessam a Av. Paulista, há duas quadras de distância.

Ao entrarem nesta rua, Leonardo percebeu que tinha algo balançando bem próximo ao muro de um dos prédios que fazem esquina com a avenida. Curioso, puxou Andréa pelo braço e foram se aproximando daquele objeto. 

Estava escuro e as luzes do poste não estavam acesas, uma leve garoa caía dificultando ainda mais identificar o objeto a uma certa distância. Ao se aproximarem, Andréa sentiu seu corpo todo gelar, como se todo o sangue tivesse fugido de suas veias. Segurou Leonardo pelo braço, para tentar impedi-lo de fazer qualquer coisa, mas ele parecia hipnotizado pela cena e, com uma das mãos, segurou uma das pernas da cadeira, que estava pendurada. Então girou o objeto para si e o que viu fez seu coração quase explodir de terror.

Acabara de encontrar um homem sentado, com um vestido todo branco, peruca e uma corda amarrada em seu pescoço que o segurava pendurado. Seu rosto estava sem vida e haviam marcas de arranhões em seu pescoço. Mas o que fez o casal ficar realmente aterrorizado foi perceber que os lábios daquele homem estavam costurados com uma linha preta e contornados com uma batom vermelho, cor-de-sangue.

*  *  *

São 3h da manhã e Nathalia está sozinha em seu apartamento, deitada no sofá segurando uma taça de vinho em uma das mãos e uma garrafa na outra. Aquela já era a terceira garrafa da noite… Sentia-se especialmente só naquela noite, apesar de sentir-se assim o tempo todo, desde que terminou seu relacionamento de 5 anos com Pedro, quando descobriu que ele a traía com outro homem. Ela sabia que ele era diferente, mas achava que era um homem de fino trato. Jamais imaginaria que o homem ao qual se entregou nos últimos 5 anos era gay. Desde o ocorrido ela se afundou na tristeza e esteve bem próxima de cair em depressão, não fosse a agitação do seu trabalho e as aulas de Muay Thai que fazia quase todas as noites.

Nathalia havia acabado de completar 35 anos e estava super feliz com seu casamento, que havia sido marcado para daí 6 meses. Mesmo não sendo exatamente uma mulher romântica ou que acreditava em príncipe encantado, além de nunca ter se imaginado entrando em uma igreja para se casar, com Pedro ela desenvolvera o desejo de ter uma pessoa bacana para dividir sua vida e o que mais viesse daí por diante.

Naquele dia fatídico, ela resolveu não ir para sua aula de Muay Thai para fazer uma surpresa para Pedro, chegando em casa mais cedo. Sabia que, naquele dia, ele estaria em uma reunião até mais tarde, diferentemente da maioria das vezes, já que trabalha de casa por ser um profissional autônomo. Antes de ir para casa, passou em uma loja e comprou uma lingerie super sexy, para fazer uma surpresinha especial. No caminho de volta, fez planos para tomar um bom banho, ficar bem cheirosa e esperar Pedro com aquela roupa que acabara de comprar. Chegou ao seu apartamento e, ao abrir a porta da frente, notou algumas roupas jogadas na sala e achou a cena estranha. Seu ímpeto a levou até o quarto quando deu de cara com uma cena chocante aos seus olhos: seu companheiro transando com outro homem na cama deles!!

Ela passou as últimas semanas tentando entender se a tristeza dela estava mais relacionada ao fim do relacionamento e, como consequência, ao fim de seu casamento, à traição de seu companheiro ou ao fato de ele ser gay e ela nunca ter percebido.

As 3 garrafas de vinho estavam fazendo um efeito potencializado no corpo e na mente de Nathalia, então resolveu parar de pensar em sua situação e dormir um pouco. – Amanhã acordo ao meio-dia e decido o que irei fazer! – Finalmente tinha conseguido uma semana de férias e poderia fazer o que quisesse!

Nathalia foi acordada com o toque do seu celular e, ao tentar abrir os olhos, sentiu uma dor latejante na cabeça. – Oh, cacete!! Quem será?!

Abriu os olhos com muita dificuldade e observou pela janela da sua sala que ainda estava escuro. Antes de atender, olhou a hora no celular e ainda eram 4h da manhã. Olhou para a tela do celular, era o Mathias, seu chefe! – Puta merda! O que ele quer a essa hora? Será que ele esqueceu que eu tenho uma semana de férias?!? – Bocejando, resolveu atender:

– Oi, Mathias! Você esqueceu que hoje eu já estou naquela minha tão sonhada semana de férias?

– Oi Nathalia, bom dia! Cadê os seus modos? Não, eu não esqueci e sua voz está rouca! O que andou fazendo?

– Você agora vai ficar controlando minha vida? Já não basta me acordar às 4h da manhã, interromper minhas férias e ainda vai ficar me enchendo?

– Nada disso. Eu estou apenas preocupado com você. Sei que o último mês foi difícil e fiquei pensando o que você estaria fazendo neste Réveillon para tentar se animar um pouco. Percebo que a noite foi boa!

– Engraçadinho! Não é nada disso. De qualquer forma, obrigada pela preocupação. Mas se foi só por isso que você me ligou, Feliz Ano novo e nos vemos daqui uma semana…

– Calma, Nathalia! Você sabe que eu não te incomodaria a essa hora se não tivesse algo importante para te pedir. Preciso que você venha até a Av. Paulista perto do Conjunto Nacional. Encontramos um cadáver e preciso que você nos ajude.

– Não faz o menor sentido você me pedir isso, Mathias. Já conversamos mais cedo e você me disse que o Júlio ficaria no meu lugar durante minhas férias. Ligue para ele. Eu preciso dormir porque eu planejo acordar ao meio-dia e planejar minha semana de descanso.

– O Júlio já está aqui, mas eu preciso que você venha rápido e, quando chegar, vai entender porque é tão importante que venha…

– Que merda, Mathias1 Eu estou bêbada, dormi apenas uma hora e não tenho a menor condição de ir. Não consigo entender o que me faria sair de casa agora! Te ligo daqui uma semana…

– Nathalia, você se lembra do Carlos Scopelli?

– Claro que sim! O que o Carlos tem a ver com isso?

– Foi o corpo dele que encontramos aqui na Paulista…

Nathalia sentiu um baque como se tivesse levado um soco no estômago. Ficou alguns instantes em silêncio e, finalmente, disse:

– Eu… chego aí em 40 minutos! – E desligou o celular.

Ela ficou enjoada ao pensar que Carlos, seu amigo de infância, havia sido encontrado morto na Av. Paulista. – O que ele fazia por lá? Será que alguém tentou assaltá-lo e ele reagiu? Não… O Carlos jamais reagiria a um assalto… Só pode ter sido sequestro relâmpago ou… – Então ela se levantou para ir se vestir e, com esse movimento, sentiu uma dor fulminante em sua cabeça! – Preciso tomar um banho e muito café!

Já passava das 5h da manhã quando Nathalia chegou ao local em que Mathias e seus colegas a esperavam. Era uma madrugada quente, mas uma garoa bem fina caía na cidade. Ao se aproximar do grupo, perguntou:

– Cadê ele?

– Bom dia, Nathalia!

– Mathias, quero saber tudo o que aconteceu. Esta notícia caiu como uma bomba em minha cabeça.

– Por que demorou tanto? Você havia dito 40 minutos e já se passou mais de uma hora! Pedi para o IML levar o corpo embora. Ali do outro lado da rua se encontra o casal que encontrou o cadáver. Vá até lá, converse com eles. Arranque tudo o que conseguir. Entendeu?

Nathalia simplesmente assentiu, percebendo que seu chefe estava mais tenso e sério do que o normal.

Mathias era um homem moreno, de cabelos lisos e espessos e olhos negros. Passava dos 1,95m de altura e era bastante encorpado. Com a voz grave e empostada, intimidava as pessoas com quem falava. Era apenas 3 anos mais velho que Nathalia e estudaram juntos na faculdade de Direito, tendo se formado 2 anos antes dela. Apesar da pouca idade, sempre soube que queria se tornar delegado e, após sua graduação, entrou para a academia de polícia e iniciou sua carreira como militar. Depois de três anos, resolveu se tornar investigador da polícia civil e sempre esteve no departamento de homicídios. Foi para o exterior aprender como a polícia de outros países atua, voltou para sala de aula e se especializou ainda mais em sua área. Como sempre foi competente, e era bastante estudado, foi subindo de posto até chegar ao cargo máximo da polícia civil. Essa dedicação toda ao trabalho acabou o impedindo de formar uma família, mas isso não o incomodava. Cada vez que resolvia um caso e prendia um assassino, ele sentia que sua missão estava sendo cumprida. Mesmo tento anos de experiência e participado da resolução de muitos casos, sem contar os anos que foi militar e todas as invasões que fora escalado a participar, nunca tinha encontrado um cadáver naquelas condições e, talvez, esse fosse o motivo de sua tensão.

Nathalia atravessou a rua, cruzou com Julio no meio do caminho e foi conversar com o casal. Andréa estava sentada no chão e não esboçava nenhuma reação, como se sua alma tivesse sido sugada do corpo. Leonardo parecia estranhamente tranquilo, apesar do choque e, quando Nathalia se aproximou, tomou a iniciativa da conversa:.

– Bom dia, meu nome é Leonardo. Aquela é minha esposa Andréa e peço que não a incomode. O que presenciamos aqui foi demais para ela e ainda não conseguiu se recuperar do choque.

– Bom dia, eu sou Nathalia, investigadora chefe do departamento de homicídios da polícia civil do estado de São Paulo. Gostaria que você me contasse o que aconteceu.

Então Leonardo começou a relatar o ocorrido e Nathalia se esforçou bastante para não perder nenhum detalhe. Sua cabeça latejava e sentia seu estômago estava revirado, talvez pelo excesso de vinho, pela falta de sono ou simplesmente porque não conseguia conceber o fato de Carlos, seu amigo, ter sido encontrado morto e naquela situação. Além disso sentia que seus globos oculares queriam saltar de seu crânio. Anotava alguns detalhes em um bloquinho que tirou do bolso de trás da calça e, ao final do relato, resolveu fazer algumas perguntas:

– Leonardo, você percebeu algum movimento diferente ou alguma coisa por perto que pudesse ajudar em nossas investigações?

– Não, senhora! Tudo que sei, eu acabei de te contar. Podemos ir?

Nathalia era experiente o suficiente para perceber que Leonardo não estava mentindo e pediu para que se dirigissem até o investigador Júlio para que cumprissem as últimas burocracias e fossem liberados para irem para casa. 

Viu que a corda ainda estava pendurada e solicitou para subir ao topo do prédio, que não era tão alto, caso contrário a cabeça de Carlos seria arrancada com o impacto da queda. Decidiu subir os 10 andares de escada, o que levou quase uma eternidade devido ao seu estado deplorável. Chegando ao topo do prédio, havia 2 policiais tomando conta do local e ela se aproximou de onde a corda estava amarrada: uma viga metálica que sustentava uma antena  de transmissão de rádio. Procurou algum indício de que alguém tivesse passado por ali, alguma pista, mas tudo estava limpo, ao menos aos olhos de Nathalia. Quando se deu por satisfeita e decidiu descer do prédio, percebeu um reflexo vindo do outro lado e foi verificar o que era. Encontrou um espelho grande, mais alto do que ela. Se perguntou se aquele objeto teria alguma relação com o crime e não encontrou resposta em sua mente ébria, mas sabia que deveria pedir aos policiais que levassem o objeto como parte das pistas do crime. Poderia encontrar impressões digitais, restos de pele, cabelo, ou alguma outra coisa que ajudasse a levar a alguém que tivesse alguma informação importante.

Desceu a escadaria, atravessou a rua e se aproximou de Mathias que falava ao celular com alguém. Ao desligar, simplesmente perguntou:

– Alguma coisa para mim?

– Infelizmente só consegui as informações que vocês já tinham e o Leonardo não estava mentindo. Disso eu tenho certeza!

– Concordo com você.

– Encontrei um espelho grande no topo do prédio.

– Os policiais já o haviam notado, mas não acharam que tivesse alguma relação com o crime.

– Esses policiais só servem para bagunçar e sujar a cena do crime. Você sabe muito bem que qualquer mínimo detalhe é importante quando começamos uma investigação! Acho que está ficando velho, Mathias…

– Olha como você fala, Nathalia! Essa não é uma boa hora para seus comentários sarcásticos.

– Quero ver o corpo! Quero ver com meus próprios olhos o que fizeram com meu amigo. Ainda estou com dificuldade de processar tudo isso.

– Claro. Eu entendo perfeitamente que queira resolver as coisas, mas quero deixar você à vontade para decidir se quer entrar nesta investigação ou não. Afinal, você está em férias e precisa descansar.

– Minhas férias acabaram no momento que me contou de quem era o corpo!

Mathias simplesmente fez sinal de positivo com a cabeça, sabendo que a partir daquele momento poderia ficar tranquilo que o caso estava em excelentes mãos. Não poderia confiar em pessoa melhor para resolvê-lo. Apesar de parecer que ele não estava tocado com o fim do relacionamento de sua investigadora chefe, sabia que ela precisava se debruçar no trabalho para esquecer as mazelas da sua vida amorosa. Além disso, também tinha certeza que ela jamais o perdoaria se a deixasse de fora de uma investigação em que a vítima do assassinato era um amigo de infância.

Nathalia, mesmo se sentindo mal e exausta, entrou em seu carro e pegou o caminho até o IML para ver o corpo de seu amigo…

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