Ao contrário do que possa parecer, mesmo em obras de fantasia podemos encontrar bastante ciência. Esse é o caso de Elden Ring, RPG de ação lançado em 2022 e desenvolvido pela FromSoftware, com direção de Hidetaka Miyazaki e colaboração do escritor George R. R. Martin na construção do universo. Então prepare bem sua build, pois iremos desvendar os segredos dos deuses de Elden Ring usando biologia.
Antes de tudo, vale lembrar que Elden Ring faz parte da chamada série “Souls” da FromSoftware, um conjunto de jogos de RPG de ação conhecidos pela dificuldade elevada, pela narrativa indireta e pela construção de mundos sombrios e misteriosos. Assim, diferente de muitos jogos que apresentam narrativas diretas, com longas cenas e explicações claras, os títulos dirigidos por Hidetaka Miyazaki adotam uma abordagem indireta, fragmentada e interpretativa.
Um dos principais recursos usados é a descrição de itens. Armas, armaduras, feitiços e objetos possuem pequenos textos que revelam fragmentos da história do mundo, de personagens ou de eventos passados. Muitas vezes, informações importantes sobre guerras, traições ou relações entre personagens aparecem apenas nesses detalhes aparentemente secundários, inclusive nos próprios cenários por onde passamos. Assim, muito do que iremos considerar aqui, talvez não seja a “verdadeira” história, e sim um consenso do que a própria comunidade construiu em discussões dentro de fóruns, principalmente no Reddit. Posto desse modo, vamos seguir.
Em Elden Ring, a história se passa nas Terras Intermédias, um reino outrora governado pela influência do Anel Prístino (Elden Ring), símbolo da ordem cósmica. Após a destruição do anel, o mundo mergulha no caos e os descendentes da rainha Marika disputam os fragmentos do poder, conhecidos como Grandes Runas. O jogador assume o papel de um Maculado (Tarnished) exilado que retorna às Terras Intermédias com a missão de restaurar o Anel Prístino e se tornar o Senhor Prístino (Elden Lord).
Duas figuras centrais dessa história são a já citada Marika e Radagon. Marika é a deusa soberana das Terras Intermédias e a escolhida da Vontade Maior. Como receptáculo do Anel Prístino, ela representa a Ordem Dourada.
Já Radagon, surge inicialmente como um grande campeão da Ordem Dourada. Ele lidera campanhas militares em nome de Marika e torna-se marido de Rennala, rainha da Academia de Raya Lucaria, com quem tem três filhos. Porém, Radagon abandona Rennala para retornar à capital e se unir a Marika como seu consorte.

Imagem 01: Radagon e Marika pelas mãos do artista Selann. Na imagem vemos uma homem com longos cabelos vermelhos representando Radagon e uma mulher com longos cabelos loiros representando Marika.
A relação entre Marika e Radagon gera dois filhos, Miquella e Malenia, porém os dois nascem amaldiçoados. Miquella é amaldiçoado com a juventude eterna, condenado a manter um corpo infantil para sempre, apesar de sua imensa idade e poder, já Malenia nasce com a maldição da Podridão Escarlate, uma doença degenerativa divina que consome seu corpo. Como Elden Ring é um mundo de fantasia, podemos supor que essas maldições possuem origens fantásticas e mágicas, mas se olharmos com atenção, veremos que a ciência pode explicar isso.

Imagem 02: Miquella e Malenia pela arte de Gravitydusty. A imagem mostra os irmãos Miquella e Malenia, os dois com aparência feminina, apesar de Miquella ser homem.
Para entendermos melhor, seguiremos para o final do jogo (E AQUI VEM UM SPOILER). No final, descobrimos que Marika e Radagon são a mesma entidade. Apesar de existirem como identidades distintas, com histórias, ações e até casamentos diferentes, o jogo deixa claro que ambos compartilham o mesmo corpo/essência divina. Então como eles tiveram filhos? É aqui que ciência explica.
A reprodução dos seres vivos divide-se em dois tipos principais: assexuada (um progenitor, sem gametas, descendentes geneticamente idênticos) e sexuada (dois progenitores, com gametas, variabilidade genética). Como Marika e Radagon são o mesmo indivíduo, podemos supor que a reprodução se deu de forma assexuada. E, sendo Marika uma entidade feminina, a reprodução por partenogênese seria a maneira com que isso teria ocorrido.
A partenogênese é uma forma de reprodução assexuada em que um embrião se desenvolve a partir de um óvulo não fecundado, ou seja, sem a participação de gameta masculino. O termo vem do grego parthenos (virgem) e génesis (origem), significando literalmente “origem virgem”.
Na reprodução sexuada comum, o óvulo precisa ser fecundado por um espermatozoide para formar um novo indivíduo com material genético combinado dos dois pais, porém na partenogênese, o óvulo inicia o desenvolvimento sozinho. Ela é comum em vários grupos de animais, especialmente: insetos (abelhas, formigas, pulgões), répteis (inclusive um caso ocorrido em 2006 envolvendo um dragão-de-komodo chamou atenção), peixes, alguns anfíbios e às vezes em aves.

Imagem 03: Em se tratando de abelhas, os zangões são gerados exclusivamente através de partenogênese. Na imagem vemos como se dá o ciclo de nascimento das abelhas, pelo qual os zangões se formam por meio de óvulos não fertilizados, diferente das operárias e rainhas, que precisam de fecundação.
A principal desvantagem da partenogênese é a falta de variabilidade genética, pois a prole é um clone (ou quase clone) da mãe, resultando em baixa capacidade de adaptação a ambientes em constante mudança. Isso torna populações inteiras suscetíveis a doenças, parasitas e alterações ambientais, podendo levar à extinção local. Outro ponto é que, sem a recombinação genética da reprodução sexuada, mutações prejudiciais persistem e se acumulam ao longo de gerações. Nesse sentido, Miquella e Malenia seriam “clones” genéticos (explica inclusive a semelhanças deles com Marika) e suas “maldições”, na verdade, seriam mutações prejudiciais desencadeadas pela falta de variabilidade genética desse tipo de reprodução.
Outra questão que pode ser levantada é como Radagon, durante certo período, foi casado com Rennala e ainda teve três filhos com ela? Novamente podemos explicar com ciência. Falemos então sobre hermafroditismo sequencial.
O hermafroditismo sequencial é uma estratégia reprodutiva encontrada em alguns animais pela qual um mesmo indivíduo muda de sexo ao longo da vida. Diferente do hermafroditismo simultâneo, em que o organismo possui órgãos reprodutores masculinos e femininos ao mesmo tempo, no hermafroditismo sequencial o indivíduo começa a vida com um sexo e, em determinado momento, transforma-se no outro.
Esse fenômeno ocorre principalmente em animais marinhos, especialmente peixes (o peixe palhaço da animação Procurando Nemo, é um exemplo), mas também pode aparecer em alguns moluscos e outros organismos aquáticos. A mudança de sexo geralmente acontece como resposta a fatores sociais, ambientais ou biológicos, que tornam mais vantajoso para o indivíduo assumir outro papel reprodutivo.
Voltando para Elden Ring, podemos supor que Marika seja hermafrodita sequencial e alguma alteração no ambiente tenha feito ela virar Radagon. E que alteração seria essa? Nada menos do que a quebra do Anel Prístino. A quebra do anel, realizada pela própria Marika, causou mudanças drásticas nas Terras Intermédias. Isso pode ter afetado a biologia de Marika, que se transformou em Radagon, o qual construiu uma nova vida com Rennala, gerando filhos com ela.

Imagem 04: Todos peixes palhaços nascem machos, a falta de uma fêmea no grupo causa a transformação de um macho. A imagem é uma piada onde um transfóbico diz que mudar o sexo é antibiológico, porém um peixe palhaço está debochando disso.
Como a quebra do anel gerou caos nas Terras Intermédias, Radagon, campeão da Ordem Dourada, tentou consertar o anel, no entanto a tentativa não foi totalmente bem-sucedida, resultando em um anel fraturado e em um estado de “ordem” quebrada que persiste durante o jogo. Esse cenário também explicaria a constante alternância das presenças de Radagon e Marika em certos pontos da história.

Gif 01: Como diria Dr. Malcon: A vida encontra um meio. O gif mostra o ator Jeff Goldblum dizendo sua famosa frase no filme Jurassic Park, de 1993.
Por fim, novamente vale dizer que a história de Marika e Radagon é intencionalmente fragmentada e aberta à interpretação, reforçando o estilo narrativo característico da FromSoftware. No final, acaba sendo uma tragédia cósmica sobre poder, identidade e rebelião contra o destino imposto pelos deuses e que pode ser vista através de uma lente científica.

Imagem 05: Normalmente os jogos da série “Souls” tem histórias intrincadas, mas Elden Ring está de parabéns, viu? A imagem mostra os diversos personagens do jogo e sua complexa relação
Quanto a Elden Ring, ele é uma experiência marcante que combina liberdade de exploração, combate desafiador e uma mitologia rica. Sua abordagem inovadora dentro do gênero consolidou-o como um dos jogos mais influentes e aclamados de sua geração.
Deixe aí nos comentários o que achou do texto. Críticas e sugestões são sempre bem-vindas. Se nunca jogou Elden Ring, deixo a recomendação de que jogue, se ele não for o mais fácil da série “Souls”, com certeza é o mais acessível. Até a próxima.

Imagem 06: Essa é a árvore genealógica mais aceita entre os fãs. Na imagem vemos os complexos relacionamentos que geraram personagens importantes para a trama
Fontes: Wikipédia, Elden Ring Wiki, Terra Game On, Brasil Escola, Toda Matéria e Reddit

