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Fim da Ciência no Brasil: O tiro pode sair pela culatra

por em 17/08/2018 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Fim da Ciência no Brasil: O tiro pode sair pela culatra

“Para um pouco.

Para e olha ao teu redor.

Sinta tudo que te rodeia.

Não pensa nada, ainda…

Mentalmente, agrega tudo o que usa no decorrer do teu dia, ao teu ser.

Agrega tuas vestimentas, tuas ferramentas e teus utensílios.

Agrega tudo aquilo que compõe tua pessoa, para ti mesmo e para os outros.

Sinta que tudo isso na verdade és tu mesmo.

Sem esses “acessórios”, que tipo de pessoa seria?”

Nosso país, de dimensões continentais – sempre achei ótima essa qualificação -, por incrível que pareça, sempre lutou contra a fome. O sistema de colonização extrativista, inicialmente imposto, era como uma sanguessuga, que explorava nosso clima privilegiado e território abundante para produzir produtos primários de alto valor no mercado externo. A cana de açúcar tomou conta da colônia portuguesa, que, com certeza – não podia perder a rima óbvia! –, privilegiava uma elite econômica.

A cultura da Plantation, que consistia na monocultura em larga escala e direcionamento de toda a produção para exportação, persistiu por muito tempo, e fomentou os tradicionais ciclos econômicos do Brasil Colônia e Império (cana-de-açúcar, algodão, cacau e café). Este modelo era totalmente extrativista e se beneficiava da fertilidade inata do solo, nunca antes explorado e rico em nutrientes.

Viemos ao século XX com a política controlada por uma oligarquia, que mantinha a teia para manter seu lucrativo negócio a pleno vapor, com a perpetuação dos monocultivos de café, algodão, cacau e agora ainda a extração da borracha.

Todos esses produtos eram comodities e não compensava ao produtor rural, que ainda era aquele grande detentor de terras, produzir alimentos de primeira necessidade. Assim, produtos como feijão, trigo e açúcar eram escassos no comércio. A lei da oferta e procura se encarregava de tornar estes itens disponíveis apenas para a população mais abastada.

Mesmo na época do “Milagre Econômico”, quando o país experimentou um grande desenvolvimento econômico e progresso industrial, a agropecuária seguiu exercendo importante papel na economia do país. Porém, era época de exploração pecuária baseada no extrativismo, sem preocupação com a sustentabilidade do sistema. Práticas como aragem da terra, a falta de reposição de nutrientes e monocultivo, garantiam a produção de alimento com produtividade regressiva, pois, além de retirar o nutriente do solo e não repor, a falta de práticas de conservação do solo é responsável por erosão e assoreamento dos cursos d’água.

“Para um pouco.

Para e olha ao teu redor.

Olha pra tudo que te rodeia.

Não pensa nada, ainda…

Mentalmente, define todas as pessoas que convive no decorrer do teu dia.

Agrega a elas suas vestimentas, suas ferramentas e seus utensílios.

Agrega tudo aquilo que compõem essas pessoas para ti, e para as outras pessoas.

Observa que tudo isso na verdade é o que elas representam pra ti.

Sem esses “acessórios”, que tipo de pessoas seriam?”

A população crescia a galope, e a produção de alimentos insuficiente encontrava a limitação de área. Nossos mercados se abarrotavam de produtos do gênero alimentício provenientes do exterior. Nossas terras extensas, porém pobres em nutrientes, lixiviadas pelo mau uso, já estavam exauridas e não produziam mais.

Neste contexto nasceu a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), em 1972, que teve seus princípios básicos descritos em um documento elaborado por um grupo de trabalho dentro do Ministério da Agricultura, o Livro Preto – me sugere que o nome do documento foi escolhido por um Teletube. Este documento cita que

“a agricultura, de um modo geral, continua organizada de forma tradicional e sua expansão, sob vários aspectos, apresenta, ainda, grandes distorções. O seu crescimento ocorre, principalmente, em virtude da expansão da fronteira agrícola (…) não se observando de maneira significativa um aumento de produtividade com emprego de novas técnicas”. E afirma que “a pesquisa agrícola e tecnológica é de fundamental importância. Dos índices de aumento, principalmente da produtividade agrícola e dos novos processos de tecnologia de produtos agropecuários, dependerá o incremento da oferta de alimentos, a expansão das exportações e a melhoria de renda dos produtores”.

Com o apoio da ciência, a agricultura responde a contento. A pesquisa agropecuária, irmanada com a assistência técnica e a extensão rural promove o surgimento de soluções para o desenvolvimento do meio rural. A disponibilidade de insumos modernos, destinados a práticas melhoradas de cultivo que promovem maior produtividade com preservação do microambiente solo, a agricultura se moderniza, aumentando a produtividade da terra, do trabalho e do capital. Além do aumento da produção por meio da produtividade, a pesquisa estabelece sistemas de correção de solo e cultivares adaptados ao Cerrado, conquistando, para a produção, maior quantidade de terras agriculturáveis, suprindo assim a grande demanda crescente do mercado interno.

PRODUTIVIDADE HISTÓRICA DAS PRINCIPAIS CULTURAS BRASILEIRAS (SOJA, MILHO, FEIJÃO E ARROZ)

No contexto de pesquisa agrícola, importante citar uma das maiores pesquisadoras que o Brasil já teve, e poucos conhecem. Johanna Döbereiner, que, entre outros temas, pesquisou o potencial de fixação de nitrogênio atmosférico das associações entre plantas e bactérias fixadoras de nitrogênio. Por sua notável produção científica foi premiada ao redor do mundo inteiro, por trabalhar por uma agricultura sustentável, inclusive sendo indicada ao Prêmio Nobel de Química em 1997. (Para quem se interessar, tem também um texto aqui no Portal Deviante sobre ela)

Hoje a EMBRAPA tem uma gama de soluções para todas as culturas praticadas no país, com desenvolvimento de produtos adaptados às realidades regionais, voltados ao desenvolvimento social das comunidades rurais e com enfoque ambiental e sustentável.

REDE DE UNIDADES DA EMBRAPA E FOCO DE AÇÃO

Da mesma forma, na exploração pecuária, a EMBRAPA tem atuação destacada no mundo. Tecnologias desenvolvidas pela empresa aumentaram a produtividade da carcaça bovina, ponto fundamental de uma pecuária sustentável. Técnicas de melhoramento genético, sanidade, bem estar animal, e sistemas de baixa emissão de carbono identificam a pesquisa brasileira como referência da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) para sistema pecuário ecologicamente sustentável.

A problemática da questão ambiental que envolve a pecuária diz respeito ao carbono emitido ao ambiente pelos ruminantes. Poucas espécies conseguem obter sucesso em retira energia da celulose, que faz parte da parede celular das células vegetais. Graças e um sistema extremamente adaptado para tanto, animais da Subordem Ruminantia o fazem por processos físicos de digestão diferenciados, que incluem três compartimentos gástricos para digestão física e fermentativa e outro para digestão química. Durante essa digestão fermentativa a simbiose com bactérias celulolíticas permite que no final do processo esse composto tão pouco digerível para a maioria dos animais, se transforme em energia. Como subproduto da fermentação, ocorre a liberação de metano, que é um gás com grande potencial de efeito estufa na biosfera.

Sem entrar na discussão se a carne é primordial na nossa alimentação – ou não -, a demanda por esse alimento pela população é grande. Uma quantidade grande de pesquisa sobre o assunto vem se desenvolvendo já a bastante tempo, e um sistema de produção pecuária que, ao invés de potencial liberador de gases do efeito estufa, passa a ser fixador de carbono ao solo foi desenvolvido e comprovado pela EMBRAPA. A recuperação de pastos degradados, com introdução de espécies forrageiras de potencial de crescimento rápido, consorciação com leguminosas e introdução de espécies arbóreas, além de ser um sistema sustentável na questão de liberação/fixação de carbono, também se mostra bastante lucrativo. Este pacote tecnológico envolve práticas de correção de solo, plantio de forrageiras adaptados e potencialmente produtivas e utilização de raças bovinas que apresentem grande potencial de crescimento e produção de uma carne saudável e com características de carcaça que garanta uma carne de qualidade e características sensoriais desejáveis.

“Para um pouco.

Para e olha ao teu redor.

Observa o ambiente que tu moras.

Não pensa em nada, de novo.

Mentalmente aponta as bases que ergueste teu mundo, e te protegem no decorrer do dia.

Agrega a isso o que precisa para tua mantença.

Agrega a isso os valores que mantém tudo isso de pé.

Observa que a manutenção desse ambiente te mantem seguro.

Sem este ambiente talvez tu não pudesse ser quem tu és.”

O trabalho Melhoramento Genético facilmente se confunde com Arte. O processo de correlacionar características de fenótipo a desempenho, além de envolver diversas faculdades, inclui ainda um pouco de intuição. Mesmo nós, humanos, sendo peritos em identificar padrões, nossas avaliações muitas vezes são carregadas de algum viés. Para retirar o fator “preferência pessoal” da equação, foram criados modelos matemáticos como ferramenta dos processos de seleção genética, inclusive isolando o fator ambiental do fator genético. Estes modelos predizem o provável desempenho da progênie de determinado animal, em relação à média. Muito antes da genômica, estes modelos permitiram ganhos genéticos consideráveis dos rebanhos ao redor do mundo, em processos de seleção artificial.

A raça bovina Nelore se beneficiou muito dessa ferramenta. Uma parceria entre Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ) e EMBRAPA, um trabalho que serve de modelo ao mundo, desenvolveu um biotipo animal muito superior ao Nelore primitivo. Hoje a EMBRAPA trabalha com várias associações de raças, sempre buscando o aumento da eficiência produtiva animal, colaborando para a questão ambiental do sistema. A criação de animais geneticamente superiores permite utilizar de maneira mais eficiente os recursos disponíveis.

Na busca pelo aumento na produtividade e um produto de melhor qualidade, tem-se utilizado cruzamentos entre raças taurinas e raças zebuínas. A adaptação ao ambiente tropical dos zebuínos é indiscutível, porém a produtividade dos taurinos também. Porém os taurinos são muito suscetíveis a parasitas, internos e externos, o que ou inviabiliza sua criação nos trópicos ou necessita de tratamentos com químicos, que acabam por ter seus efeitos colaterais na produção e no ambiente.

Uma linha de trabalho muito interessante desenvolvido pela EMBRAPA Pecuária Sul, em Bagé (RS), está identificando geneticamente animais taurinos das raças Hereford e Braford que apresentam resistência ao carrapato, capitaneada pelo Médico veterinário Ph.D. em Melhoramento Animal, Fernando Flores Cardoso. O carrapato é um parasita que causa grandes prejuízos à pecuária, tanto pela redução de desempenho quanto na propagação de doenças. Com a utilização de marcadores Single Nucleotide Polymorphism (SNP) e o contraponto com fenótipo de resistência ao carrapato observado, foram identificados genes candidatos a terem correlação com a resposta imune do animal que ocasiona essa resistência natural ao parasita, uma pesquisa que já chama a atenção da comunidade científica mundial da área de melhoramento genético, pelo seu impacto no sistema produtivo, com a pegada redução de utilização de químicos no processo.

O PhD Fernando Flores Cardoso é Pesquisador A, trabalha na EMBRAPA Pecuária Sul, localizada em Bagé (RS), e nos deu um depoimento sobre a questão de restrição orçamentária à pesquisa brasileira, e seus impactos dentro da instituição:

“Essa crise de recursos do governo federal impactou significativamente o orçamento da EMBRAPA. Os investimentos em pesquisa já a algum tempo vem sendo afetado e mais seriamente agora. Já fazem 4 anos que não temos nenhum investimento em material e em equipamentos duráveis. Isso causa um atraso tecnológico, pois não ocorre atualização dos equipamentos da empresa. Agora também uma forte redução da verba para o custeio, o que impacta no desenvolvimento das pesquisas.”

“É uma situação bem séria especialmente para os programas de longo prazo, como o caso do melhoramento genético, que precisamos trabalhar com constância nos objetivos de pesquisa de médio a longo prazo.”

“Isso está dentro de um contexto que o país já investe pouco em pesquisa. Não foi só a EMBRAPA que foi afetada, as outras agências de pesquisa, como o CNPQ e a CAPES estão sendo muito afetadas. Temos parceria com a CAPES e o CNPQ , e seus estudantes trabalham nos nossos projetos de pesquisa, e ajudam a tocar os projetos. Também o CNPQ é uma agência financiadora, que frequentemente acessamos recursos.”

“O outro problema é a influência política nas instituições brasileiras. Conforme o governo, conforme a indicação política, mudam os investimentos nos programas. Isso acontece frequentemente. Por exemplo no último governo ocorreu um grande investimento no “Ciências sem Fronteiras”,  para mandar alunos de pós graduação para o exterior. Isso consumiu completamente os recursos do CNPQ e também da CAPES, e ficaram descobertos projetos de pesquisa importantes. Claro que essa iniciativa é importante para dar experiência aos pesquisadores, mas foi feito num dimensão que comprometeu o orçamento e comprometeu outras coisas que eram com certeza mais importantes no momento.”

“Atualmente o nosso programa de pesquisa, o LABGEN, de estatística e genômica aplicada ao melhoramento animal, sobrevive dos projetos em parceria com a iniciativa. Porém estes recursos são limitados, no nosso país não existe a tradição de investimento da iniciativa privada em pesquisa, tanto dentro da empresa como em parceria com outras instituições, como a EMBRAPA. Mas tenho a expectativa que isso vá crescer, que vá ser o futuro. Estamos nessa crise sem precedentes,  mas continuamos avançando através dessa inciativas com a financiamento privado, como com a Associação de Hereford e Braford (ABHB) , com a Conexão Delta G, com a Associação Nacional de Criadores (ANC), com a ABCZ. Entendo que é esse o caminho que vai permitir a sustentabilidade e manutenção do nosso programa de pesquisa”, conclui Fernando.

Às vezes temos uma percepção enviesada dos acontecimentos, mas reduzir recursos para um setor que é responsável pelo desenvolvimento da atividade que se constitui como a base da nossa economia, me parece ser um tiro no pé…

“Para um pouco.

Para e olha ao teu redor.

Olha pra ti e para teu mundo.

Solta a mente agora.

Percebe que em tudo que te serve e te rodeia tem um trabalho empregado.

Percebe que materiais não se fazem sozinhos.

Que soluções não aparecem nos sonhos.

Que toda tecnologia que te serve compõem tua pessoa, e te mantem de pé.

E sem a ciência nada disso seria o que é.”

Bibliografia consultada

– O Livro Preto. Sugestões para formulação de um Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária. Reedição. – Brasília, DF : Embrapa Informação Tecnológica. 2006.

– ALVES, E. R. de A.; CONTINI, E.; GASQUES, J. G. Evolução da produção e produtividade da agricultura brasileira. Embrapa Informação Tecnológica. 2008.

 Sollero, B.P., Cardoso, F.Fl., Oliveira, K.S.V., Santiago, G.G.,  Seleção de Marcadores a partir do Estudo de Associação Genômica Ampla para Resistência ao Carrapato em Bovinos das Raças Hereford e Braford.  XI Simpósio Brasileiro de Melhoramento Animal. Santa Maria, RS. 2015.

– Castro, J. Geografia da fome. 2 ed. Porto: Editora Brasília. 1975.

– Gomes, C.C.G., Cardoso, F.F., Roso, V.M. Método de Obtenção Qualificada de Fenótipos Visando à Avaliação de Genótipos Bovinos Resistentes ao Carrapato Rhipicephalus (Boophilus) microplus. Comunicado Técnico 75. EMBRAPA Pecuária Sul. Bagé/RS. 2010.

– Gomes, C.C.G., Cardoso, F.F., Roso, V.M. Predição da resistência genética ao carrapato de bovinos Braford e Hereford a partir de um painel denso de marcadores moleculares. Circular Técnica 41. EMBRAPA Pecuária Sul. Bagé/RS. 2011.


Igor Saldanha de Freitas. Entusiasta da ciência aplicada aos animais de produção, em especial bovinos. Amante das carnes, queijos e bebidas fermentadas. Busca a iluminação nos manuscritos de Darwin.