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Quem foi Johanna Döbereiner?

por em 19/06/2018 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Quem foi Johanna Döbereiner?

No imaginário popular, cientistas são aqueles caras malucos, de cabelo bagunçado, sem vida social e que passam o dia no laboratório fazendo contas ou tentando clonar pessoas. Mas você, querido leitor do Deviante, sabe que não é bem assim, cientistas são pessoas como eu, você e, até mesmo, aquele seu crush. Cada um deles tem interesses específicos nas mais diversas áreas possíveis e, além da parte acadêmica, podem ter uma história de vida comum ou para lá de interessante. A história que eu vou contar hoje é de uma pesquisadora que não nasceu no Brasil, mas que fez sua vida e sua carreira aqui em terras tupiniquins e contribuiu imensamente para o avanço da agricultura.

Johanna Döbereiner foi extremamente celebrada em seu meio, embora não tenha ficado necessariamente conhecida pela população em geral. De indicação ao Nobel de Química ao recebimento de muitos outros prêmios, sua carreira fez sucesso mundialmente. Mas, afinal, o que foi que essa mulher fez de tão importante assim?

Johanna nasceu em 1924 na cidade de Aussig, na Checoslováquia. Após o término da Segunda Guerra Mundial, se refugiou na Alemanha para escapar da perseguição às minorias que falavam alemão em seu país. Morando em Munique, decidiu cursar engenharia agronômica e trabalhou no campo, em uma fazenda que cultivava trigo, para custear seus estudos. Se formou em 1950.

Recém-formada e recém-casada, ela e o marido, Jürgen Döbereiner, vieram morar no Brasil, na cidade de Seropédica-RJ. Foi onde começou sua vida de pesquisadora, trabalhando no Instituto de Ecologia e Experimentação Agrícola do Serviço Nacional de Pesquisas Agronômicas, que mais tarde se tornou a Embrapa Agrobiologia. Em 1956 conseguiu sua nacionalidade brasileira.

Desde o início de sua carreira, Johanna se dedicou à microbiologia do solo, área que lhe rendeu grande destaque e com a qual trabalhou até os 75 anos, quando faleceu, em 2000. Seus principais trabalhos estão relacionados à fixação biológica de nitrogênio (FBN), que é a habilidade que alguns microrganismos têm de metabolizarem o nitrogênio atmosférico, transformando-o em um produto que as plantas são capazes de absorver. Se quiser entender melhor sobre FBN, tem esse texto aqui que eu escrevi sobre o rizóbio, bactéria que coloniza leguminosas e tem extrema importância para a nossa economia (SPOILER: a soja é uma leguminosa).

Aliás, a soja e o rizóbio contribuíram para que Johanna Döbereiner se tornasse mundialmente famosa. Vamos fazer um exercício juntos aqui: Tente imaginar a década de 60, em que pouco se falava de meio ambiente e a Revolução Verde estava florescendo. Os Estados Unidos já haviam se estabelecido como o maior produtor mundial de soja, consumindo uma quantidade massiva de adubo nitrogenado para a produção do vegetal. Agora imagine, em meio a este cenário, uma mulher agrônoma. Imaginou? Você acha que a vida dela era fácil em um meio tão masculino? Então continue imaginando essa mulher, mas agora ela está contestando o uso excessivo de fertilizantes e defendendo a associação entre plantas e bactérias para a obtenção de nitrogênio. Será que você realmente consegue imaginar quantos agrônomos a desacreditaram? Quantos produtores desconfiavam da não adubação nitrogenada? Pois, ainda assim, ela ganhou a discussão e quem ganhou com isso foi o Brasil.

Seu programa de pesquisa sobre o assunto foi a base para o surgimento do programa brasileiro de melhoramento de soja, em 1964, e, como resultado, o Brasil alcançou o segundo lugar como maior produtor mundial da leguminosa. E tudo porque os produtores nacionais tiveram uma diminuição considerável em seus custos de produção, podendo oferecer preços competitivos no mercado internacional. A economia gerada pela prática até hoje chega a bilhares de dólares todos os anos.

Acho que já deu para entender a importância dessa pesquisadora para o Brasil, não é mesmo? Acontece que as coisas não começaram aí. Antes de ser incluída na discussão da soja, Johanna observava que algumas gramíneas estavam constantemente verdes, mesmo sem adubação. E foi então que veio a inovação, ao invés de estudar a fixação biológica em leguminosas, como já se conhecia, a pesquisadora decidiu estender seus estudos a outros tipos de plantas, no caso as gramíneas. Desta forma, em 1958, Johanna isolou uma nova espécie de bactéria capaz de fixar nitrogênio em cana-de-açúcar e a nomeou Beijerinckia fluminensis.

Voltando ao nosso exercício de imaginação, como você acha que foi a recepção no ambiente acadêmico a esse tipo de fixação biológica totalmente nova? Sorte nossa termos uma pesquisadora obstinada e certa dos seus achados. Suas pesquisas continuaram e levaram à descoberta de nove espécies de bactérias que se associam a gramíneas e fixam nitrogênio. Dentre as espécies descritas temos bactérias do gênero Spirillum (que depois foi renomeado para Azospirillum), gênero que, nos dias de hoje, possui uma espécie denominada Azospirillum brasilense cujo potencial para associar-se ao milho é explorado comercialmente em alguns produtos.

Johanna conduzindo experimento em casa de vegetação. Fonte

Atualmente, a busca por microrganismos capazes de realizar a FBN continua. Diversos são os estudos com cana-de-açúcar, por exemplo, com o intuito de otimizar a FBN e permitir que a associação da planta com bactérias garanta boa parte da necessidade de nitrogênio e economia na adubação.

E tudo graças a Johanna e sua equipe. Seu pioneirismo e dedicação à pesquisa renderam mais de 500 publicações ao longo de quase 50 anos de carreira. Renderam também prêmios como o Bernardo Houssay (OEA, Agricultura, 1979), da Unesco (1989) e de Ciência e Tecnologia do México (1992); os títulos de doutora Honoris Causa concedidos tanto pela Universidade da Flórida (1975), quanto pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (1982); e sua nomeação como membro da Academia de Ciências do Vaticano pelo Papa Paulo VI. Mas as homenagens mais legais, na minha opinião, vieram de cientistas mexicanos e alemães, que descreveram duas novas espécies de bactérias fixadoras de nitrogênio e as nomearam de Cluconacetobacter johannae e Azospirillum doebereinerae. Fofo, né?

Notícia do Jornal de Itaguaí, cidade de onde Seropédica ainda era um distrito na época. Fonte

E então? Você imaginava que tinha existido uma pesquisadora no Brasil tão importante para a agricultura, sendo referenciada no mundo todo? Se quiser saber mais sobre ela, a Embrapa Agrobiologia tem uma página dedicada à Johanna Döbereiner com muitas informações e fotos (a imagem de capa desse texto veio de lá, inclusive). Pessoas como ela não deveriam ser conhecidas apenas no meio acadêmico, mas sim por todo mundo.