Pages Menu
TwitterRssFacebook
Categories Menu

Resenha: A Terra inabitável

por em 07/06/2021 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Resenha: A Terra inabitável

“Como vamos” criaturas bípedes que habitam esse planeta azul que chamamos de Terra? Espero que todos estejam bem. Normalmente eu intercalo um texto sobre matérias introdutórias de Matemática e Física do ensino médio e fundamental com resenhas de leituras que acabo fazendo durante o decorrer do ano. A leitura com certeza é uma das melhores coisas que qualquer ser humano pode fazer independentemente  de sua língua, origem e formação. Os livros acabam sendo nossos companheiros de vida por ser os instrumentos que nos transportam para outras realidades ou nos levam a lona com a realidade trazendo informações ou reflexões de assuntos variados. Alguns livros podem nos alegrar, deixar triste, entusiasmados e por aí vai. Uma das leituras que me deixou meio que nocauteado esse ano foi “A terra inabitável” de David Wallace-Wells. O autor é jornalista e trabalha como editor, o que aproxima não só eu como todos os redatores do Portal Deviante, pois o principal assunto de seus textos são a ciência e o futuro do planeta.

 

 

Antes de falar sobre o livro, preciso contar um breve histórico de como o descobri. Uma das preocupações que faz com que eu pare e reflita é a questão das mudanças climáticas. Infelizmente a cada dia que passa, percebo que o assunto acaba sendo deixado de lado por motivos variados na mídia e na própria academia. Seja por motivos banais ou por um negacionismo coletivo. Infelizmente o assunto específico incomoda, e não é “socialmente bacana” estragar o almoço de domingo com a família para debater um assunto que afeta diretamente a nossa vida (Só um adendo, se você está se reunindo com seus familiares nos finais de semana no meio de uma pandemia como se nada estivesse acontecendo, você está errado). Talvez seja mais fácil falar do seu time de coração que está desfalcado para o jogo de logo mais por causa de um surto de Covid-19, ou quem vai estar no próximo paredão, ou sobre política e ficar correndo atrás do rabo tentando de modo falho fazer uma futurologia de quem serão os candidatos para 2022.

As mudanças climáticas estão postas na mesa para todos verem. Seja você rico ou pobre, se tem escolaridade ou não, se possui posses ou não, criança, adolescente, adulto ou idoso. Por mais que tentemos fechar os olhos para o assunto, é impossível não olhar para frente e ver a catástrofe chegando (semelhante as “Ondas de Covid-19” vindas da Europa, antes de atingir as Américas). Nosso planeta tem algumas experiências com catástrofes. Lembremos que o resultado de toda vida descriminada como “inteligente” ou para chegarmos nos dias de hoje, o planeta passou por várias extinções em sua história. Cinco para ser mais preciso. O que traz uma certa ideia de que, independentemente do que acontecer no futuro, o planeta sobreviverá.

Um dos livros que eu estava aguardando para ler este ano era “How to Avoid a Climate Disaster” ou em português “Como evitar um desastre climático” do bilionário e fundador da Microsoft Bill Gates. Sei que nem todos são fãs do cara, e nem sei se deveriam, mas Gates se tornou nos últimos anos uma voz importante sobre os problemas da humanidade. Quem não viu o Ted dele falando sobre a próxima pandemia e que não estávamos preparados para tal? Gates pode ter sido elevado a status de guru ou Nostradamus contemporâneo por alguns aficionados, mas ele só deu voz a artigos e argumentos que vários cientistas e acadêmicos já demostravam no início dos anos 2000 (Surtos de SARS e MERS). Para quem assistiu o documentário “O código Bill Gates” da locadora vermelha, sabe que ele é um cara devorador de livros e vive bem informado. Depois de sua saída definitiva da Microsoft ele acabou juntando forças com sua ex-esposa Melinda Gates (pelo menos até eu terminar esse texto eles tinham anunciado o divórcio) e com sua fundação trabalhou em vários projetos para tentar melhorar de forma considerável a vida de muitas pessoas ao redor do mundo.

 

Ele traz no livro um problema crítico em nossas vidas que o desenvolvimento nada sustentável da humanidade está nos levando a um caminho sem volta. E sempre que você tenta solucionar o problema de forma simplista, você cai nas garras na cadeia de produção e percebe que para fabricar algo que você considera sustentável, o “produto” anda por uma “esteira” de poluição onde envolve a extração de insumos até o deslocamento do produto até a sua casa. E foi em um desses capítulos que Gates indica o livro do David Wallace-Wells.

O livro em seu todo parece grande, mas David nos presenteia com pelo menos cem páginas de notas, o que torna o livro bem fundamentado para todos os argumentos. Imaginar que estamos a caminho do que provavelmente será a sexta extinção não é fácil. O livro começa nos mostrando basicamente que todas as extinções anteriores, exceto dinossauros, foram causadas pelas mudanças do clima. Sim existem hipóteses e mais hipóteses sobre a extinção dos parentes das galinhas, mas este não é o foco. Um fato importante é que cerca há de 250 milhões de anos o carbono aqueceu o planeta em 5°, o que desencadeou a liberação de metano deixando a vida na Terra por um fio. Hoje lançamos carbono na atmosfera em um ritmo alucinante (pelo menos dez vezes mais rápido). Esse número representa uma taxa cem vezes mais rápida do que qualquer outro momento da história. Nas últimas três décadas, lançamos metade do carbono graças a queima de combustíveis fosseis. E o impressionante é que nesse ritmo poderemos chegar até o fim do século com um aquecimento de 4°C.

Talvez lendo esse número você esteja pensando que é pouca coisa. Talvez sua perspectiva esteja equivocada ou você está olhando pelo prisma errado. Alguns podem pensar: “Quatro graus não é nada. Em um dia qualquer a temperatura pode mudar até dez graus, não é mesmo? Acordo pela manhã com 20° e no almoço já está 30°”. Já ouvi esse tipo de justificativa, por isso é uma boa oportunidade para esclarecer os fatos. Quando falamos da temperatura de um dia, ou de uma determinada região, estamos falando de vários fatores que podem influenciar, (vários fatores mesmo), montanhas, costa, altitude, floresta, cidade e poderíamos listar mais uma penca de fatores que influenciam nesses micros climas. Lembrando que eu não sou nenhum meteorologista, e que fui bem generalista nessa parte. O fato que a temperatura média do nosso planeta está em 15°C e aumentando. Isso implica em vários fatores que podem acabar com a vida que conhecemos.

As pessoas acham que as mudanças climáticas só vão afetar as costas, com o aumento do nível do mar. Mas projeções das Nações Unidas são assustadoras, cerca de 200 milhões de pessoas serão refugiados do clima até 2050. Isso quer dizer que muitos seres humanos terão que deixar suas casas, suas terras e migrarem para outras regiões ou países para sobreviver. Vimos a crise migratória por causa da Guerras impostas neste século. Pessoas atravessando de barco para a Europa fugindo do destino cruel que os esperava. Agora imagina 200 milhões de pessoas. É quase a população inteira do nosso país . Qual país está preparado para abrigar essa quantidade de gente? Acho que você sabe a resposta.

Vamos pensar então na alimentação. Se nada for feito, muitas pessoas vão ter suas terras dilaceradas pelas mudanças. E não falo apenas do calor. Plantação depende de um clima ponderável, muita chuva pode estragar uma safra em poucos dias. O Brasil é um grande produtor de alimentos, mas e se o jogo virar? Se essas safras recordes começarem a despencar? Apesar de não ser muito noticiado, já temos algumas amostras de pouca chuva nas regiões do centro oeste. Um desabastecimento global poderia levar a fome para milhões de pessoas. Se por algum motivo você acha que isso não acontecerá, tente fazer um paralelo com a pandemia que estamos passando. Mesmo produzindo milhões de toneladas de comidas, países como Brasil e EUA fizeram e estão fazendo campanhas contra fome, entregando cestas básicas para tentar diminuir os impactos da pandemia. Isso porque o assunto é bem superficial, pense naqueles que realmente nem passaram perto pelo atendimento de Ongs ou dos governos.

Nosso Pantanal pegou fogo e foi totalmente negligenciado. A quantidade de carbono emitido e de bioma que foi destruída é incalculável. Uma simples queima pode fazer com que milhares ne hectares entrem em combustão e acabe virando um incêndio incontrolável. Nossa floresta Amazônica é responsável por um quarto da captura do carbono em comparação com as florestas do mundo. Mas desde 2018 o presidente da República (aquele que não deve ser nomeado) junto com o ministro do Meio Ambiente implantaram o seu plano de abrir a floresta para o desenvolvimento. O que vemos é desenvolvimento de gado ilegal, madeireiros ou grileiros. Quanto estrago uma meia dúzia de pessoas incapazes podem causar no planeta. A dificuldade de entender que proteger a floresta, implica no desenvolvimento econômico só prova o quão problemático é nosso país quando o assunto é conhecimento. A briga de torcida entre bem e mal, vermelho ou azul, Palmeiras e Corinthians acaba diminuindo o debate que deveria estar em pauta de verdade. Estimasse que entre esse ano, até 2030, o desflorestamento liberará o equivalente a 12 giga toneladas de carbono. A China é o país que mais emite carbono, cerca de 9 gigas toneladas. Então podemos concluir que a política de passar a boiada poderá acrescentar , uma China inteira e mais um pouco. Lembrando que não estamos colocando a nossa medalha de prata nas Olimpíadas do Caos que são os EUA.

Outra forma de migração populacional pode acontecer por falta água potável. Lembremos o que aconteceu no Estado de São Paulo em 2015 com a o desabastecimento. A população ficou impedida de ter água saindo pela torneira e pagando por ar por um bom tempo. E se não tivermos essa água? Será que as indústrias estão preparadas em partilhar a água destinada a elas para a produção de insumos que gastam litros e mais litros. Como em uma reportagem da Folha de São Paulo: “Um quilo de carne suína utiliza seis mil litros. A fabricação de um jeans usa dez mil litros… carne de boi consome dezessete mil litros” e por aí vai. Até o que comemos e consumimos tem que ser repensado. Não da para consumir o planeta dessa forma predatória e achar que no final venceremos. O planeta está a caminho da catástrofe climática, graças a uma geração, a responsabilidade por evitar tudo isso, cairá em nossos ombros.

Foi bonito ver a cúpula do clima com todos os chefes de estados com seus discursos prontos dizendo que precisamos reduzir, ou dizendo metas que serão alcançadas daqui a três décadas. A ambientalista Greta Thumberg fez um vídeo após a cúpula com o qual concordo: precisamos de menos papo e mais ação. A solução é complicada e complexa, o remédio é amargo. Temos que parar com o jogo do perde e ganha, pois todos perderemos no final.

 

Livro: A terra inabitável – David Wallace-Wells.

Livro: Como evitar um desastre climático – Bill Gates.

https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2019/03/saiba-quanta-agua-e-consumida-durante-a-fabricacao-de-produtos.shtml

fotos: https://www.viqua.com.br/blog/agua-e-vida

https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=06170

Modo Noturno