Pages Menu
TwitterRssFacebook
Categories Menu

Redes sociais e sociedade (para que serve empatia mesmo? part. III)

por em 30/09/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Redes sociais e sociedade (para que serve empatia mesmo? part. III)

Um dos mais literais exemplos de empatia que vemos é no filme do Adam Sandler, Trocando os Pés (2014), em que seu personagem encontra uma relíquia mágica que permite  transformar-se no dono do sapatos que ele usar. O enredo do filme deriva de um velho ditado popular :“só julgue alguém depois de ter caminhado com seus sapatos”. Empatia, uma palavra que está na moda não por a estarmos usando, mais sim por a estarmos perdendo.

Na primeira parte do texto eu comentei sobre sentimentos nas redes sociais, na segunda parte em como a política vem usando desse sentimento para chegar ao poder, no final dessa trilogia vou falar sobre como as redes sociais vêm nos fazendo perder a empatia, e talvez essa perda seja o fator principal para o mundo louco em que vivemos hoje. 

O que é Empatia?

Lembra do filme do Blade Runner (baseado na obra de Philip K. Dick)? Nele existe um teste intitulado Voight-Kampff, que se baseia em uma série de perguntas de fundo emocional. Ao responder o teste, as pupilas dos olhos se dilatam involuntariamente e, combinando as respostas das perguntas e a reação das pupilas, é possível saber se o entrevistado é humano ou replicante.

Blade Runner, 1982

O objetivo do teste é avaliar a empatia do suposto replicante, por exemplo, ao fazer uma pergunta como: 

  • Você está em um deserto. O cágado está deitado de costas, de barriga para o ar, esperneando, tentando virar-se. Mas não consegue. Só com a sua ajuda. O que você faria?.

A resposta mais óbvia possível é: 

  • Ajudaria a se virar imediatamente. 

Ao ver a situação, mesmo não sendo um humano, eu apresento uma empatia com o animal e vou ajudá-lo.  

Talvez empatia seja algo que nos faz humanos, deriva de um sentimento de se colocar no lugar do outro. Por que, ao assistir uma série, nos sentimos emocionados? Ou ver alguém fazer uma atitude legal, como um daqueles pedidos de casamento cinematográficos, nos desperta sentimentos bons?

Esses sentimentos decorrem de um sistema neural, chamado neurônios espelhos (NE). Descobertos em meado dos anos 90, num estudo realizado com macacos, no qual foi observado que os NE eram ativados nos animais quando realizavam uma atividade específica ou quando observavam outros indivíduos realizando as mesmas tarefas.

ação do NE entre mãe e filho

De acordo com a Profa. Dra. Edna Bertini “Não se trata de um processo dedutivo, mas da capacidade de compreensão imediata da experiência emocional do outro porque identificamos a mesma experiência em nós mesmos (…) Trata-se, portanto, de um processo de ressonância. Compreendemos a ação do outro de modo automático como se ele fosse nós mesmos”. 

Apesar de uma curta história, o conceito de empatia vem mudando e se adaptando com o decorrer do tempo. A palavra surgiu há apenas um século derivada do alemão Einfühlung, que literalmente significa sentir, porém pode ter outros significados com: brincar, semblante, animação, dentre outros. Em 1900 o termo era usado como forma de se colocar, ou projetar seus sentimentos no mundo. Por exemplo, o indivíduo imagina um cacho de uvas, logo a sensação suculenta na boca aparecia.

A empatia é definida atualmente como um habilidade de comunicação que incluem 3 componentes(2):

  • Cognitivo: Capacidade de entender acuradamente, os sentimentos e perspectivas de outra pessoa;
  • Afetivo: Sentimentos de compaixão e simpatia pelo próximo, além de preocupação pelo bem-estar da mesma;
  • Comportamental: Entendimento explícito do sentimento e da perspectiva da outra pessoa de tal maneira que se sinta profundamente compreendida.

Um Jornal nacional específico para você

Em ambos os textos anteriores dessa trilogia, comentei como os algoritmos estão sendo usados de forma errônea para nos vender algo, seja uma ideia ou algum produto. Recebemos estímulos individualizados ao utilizar o smartphone e nessa individualização perdemos a capacidade de sentir o que o outro sente.

Voltando novamente ao livro de Jason Lanier “10 argumentos para você deletar suas Redes Sociais” (2018), segundo ele, todos nós estamos em mundos diferentes, privados, nossos sinais que vão de um para o outro perdem o sentido. Nossa percepção da realidade sofre (1). 

Vamos a um exercício imaginativo. Em um Jornal Nacional específico para você, o que passaria nele? As notícias, necessidades da população e opiniões sobre determinado assunto, na tua percepção seriam semelhantes a de seu vizinho, e seriam semelhantes a pessoas que vivem em regiões diferentes?

Provavelmente a resposta é: não. Porém observe o mundo que vivemos onde o Whatsapp definiu praticamente a eleição. O feed de suas redes sociais e suas caixas de mensagens já não seriam um Jornal Nacional específico para você? Já que os conteúdos mostrados são customizados, e não se sabe o quanto foram alterados. 

Anúncios no Facebook podem mudar opiniões políticas. Você já viu algum feed de uma pessoa com opiniões diferentes das suas? Lá você pode se deparar com propagandas obscuras e extremistas. Em uma pesquisa feita pela Online Private Foundation, propagandas feitas sob medida e que atendem preocupações específicas têm impacto no mundo real.

De acordo com Jason Lanier “Para mim, os apoiadores de Trump parecem malucos que, por sua vez, dizem que os progressistas parecem malucos. Mas é errado dizer que simplesmente nos afastamos e não conseguimos entender uns aos outros. O que está realmente acontecendo é que sabemos menos do que nunca o que os outros veem, então temos menos oportunidades de entendermos uns aos outros.” (1).

O filósofo espanhol Josep Maria Esquirol (2009) afirmou que “vivemos num mundo de indiferentes, uma vez que estamos submersos numa corrente de informações e de hiperconsumo; perdemos a capacidade de prestar atenção, de olhar duas vezes, de encantarmo-nos com a possibilidade de ver, ouvir e compreender aquilo que nos parece estranho, indecifrável ou incômodo. Não temos tempo para o olhar cuidadoso e o ouvido atento; somos incapazes, muitas vezes, de nos enxergarmos nas experiências do outro, nas suas alegrias e, principalmente, nos seus medos e dores.” (3).

O fato de estarmos cada vez mais imerso no nosso mundo, a chamada bolha social, faz com que não entendamos o próximo. Realmente é difícil sair da sua própria bolha social, requer muita coragem.

Museu da Empatia

Sou fisioterapeuta e um dos maiores desafios de minha profissão é o de se colocar no lugar da pessoa que se está atendendo. Por exemplo, sempre vai ser difícil para que eu entenda o que uma pessoa que sofre de um AVC (Acidente Vascular Encefálico) passa. Eu posso estudar a patologia, ler sobre, entender de onde vêm os sintomas e sinais, as limitações que o AVC traz. Mais nunca irei saber o que é sofrer um. 

Dentro dessa ideia de se colocar no lugar do outro, surge o projeto Intermuseus, que, dentre várias de suas propostas, tem a de colocar literalmente o sapato do outro, proporcionando uma experiência de estar no lugar do outro e ver o mundo com os seus olhos, o que é a essência da empatia.

De acordo com os responsáveis do projeto: “Dentro de uma caixa de sapatos gigante, o público encontra uma coleção de diferentes sapatos e de histórias que abordam nossa diversidade e nosso pertencimento comum à humanidade. Ao escolher um par de sapatos, o visitante pode calçá-los e caminhar pelo espaço enquanto ouve pelo fone de ouvidos a história da pessoa à qual eles pertenciam. A instalação propicia uma experiência participativa e envolvente e convida o público a repensar as relações sociais de preconceito, conflito e desigualdade. O público pode escolher entre 25 depoimentos de cerca de 10 minutos, todos captados e editados especialmente para a edição brasileira do projeto.”

Projetos como o do museu da empatia nos coloca na perspectiva do outro. É impossível saber o que se está passando. De acordo com Edith Stein (2004), “a empatia é justamente a percepção da existência de dois seres, ou seja, de que o outro não é idêntico, mas semelhante, possibilidade.” (4).

Em uma entrevista com os criadores do canal Meteoro BR, a dubladora da Mulher mais Sábia comenta “O outro não é seu NPC”. Pra quem não está familiarizado com games NPC significa personagens não jogáveis, que fazem parte da história do jogo para servir exclusivamente ao jogador. Entender que o outro é um ser humano com seus defeitos e virtudes e que todo mundo está lutando suas próprias batalhas no dia a dia é a chave para sairmos desses dias sombrios que estamos vivendo.  

Escrevi uma trilogia de textos sobre sair do meio das redes sociais e todos os textos tiveram como base o livro do Jason Lanier, 10 argumentos para você deletar suas Redes Sociais (2018). Vale a leitura caso queira se aprofundar mais no tema. Críticas, sugestões e comentários são sempre bem-vindos. Abraços!

REFERÊNCIAS:

(1). Jason Lanier, 10 argumentos para você deletar suas Redes Sociais, de 2018, Intrínseca.

(2). Davis, M. H.  A Multidimensional approach to individual diffences in empathy, 1980.

(3). ESQUIROL, Josep M. O respeito ou o olhar atento: uma ética para a era da ciência e da tecnologia. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

(4). STEIN, Edith. Sobre el problema de la empatia. Madri: Trotta, 2004.

Outros links:

Tricô de pais: empatia e comunicação não violenta 

Estamos Bem? Aquele sobre empatia part 1

Entrevista com o canal Meteoro BR

Modo Noturno