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Redes sociais e Sociedade (ou de quantos likes eu preciso para me sentir bem? Part I)

por em 01/08/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Redes sociais e Sociedade (ou de quantos likes eu preciso para me sentir bem? Part I)

Um dia resolvi postar uma foto no Instagram, de manhã cedo,  na calçada de casa, com aquela luz perfeita, me fotografei e postei. Recebi vários likes, da menina que eu gosto, de amigos antigos, de pessoas que não via fazia tempo. Isso de certa forma me deixou bem. Outro dia resolvi fazer o mesmo ritual e quase ninguém curtiu. Passei o dia atualizando o feed a espera de curtidas e nada. Veio o pensamento “será que a menina não gosta mais de mim??”, “será que meus amigos estão fazendo coisas mais importantes por isso não curtiram? e eu aqui preocupado com o Instagram!!”

Jason Lanier em seu livro “10 argumentos para você deletar suas Redes Sociais” de 2018 (1), comenta como estamos sendo feitos de escravos na internet, perdendo nossa empatia e editando a nossa verdade para que acredite naquilo que queremos. Afinal, quantos likes no Instagram eu preciso para ficar bem?

História das redes sociais (qual foi sua primeira?)

Por morar no interior do Ceará minha vida toda, a internet demorou a chegar de modo popular aqui. Lembro que meu primeiro contato com redes sociais foi já no final do Orkut em 2009. Em 2011 migrei para o Facebook, 2014 Instagram e só no ano passado (2018) fui usar o Twitter (a melhor diga-se de passagem). A história das redes sociais começa muito antes disso.

comunidade mais popular da época do Orkut

Rede social pode ser definida de forma geral como: qualquer meio de comunicação entre pessoas. Assim, o uso de cartas pode ser definido como uma rede social. Nos período dos anos 60, algo parecido com a internet de uso militar norte americano, uma tecnologia chamada ARPANET, tinha como função a comunicação entre universidades no ano de 1969 (para saber mais desse período). A popularização da internet fez com que as pessoas se conectassem mais instantaneamente.

Chegando aos anos 90, mais especificamente 1994, temos a criação de algo parecido com as redes sociais de hoje  chamado GeoCities, que futuramente foi adquirido pelo YAHOO, e, em 1995, tivemos o The Globe.

Anos 2000, virada do século, a internet foi ficando popular e, com isso, as redes sociais têm seu BOOM!! Em 2002 nasce o fotolog, a primeira rede social baseada em fotografia. Era possível também comentar fotos de amigos e seguir as publicações. Na mesma época teve o Friendster o primeiro a usar o título ‘rede-social’.

Caindo no gosto da população em 2004, nesse mesmo ano veio a criação do Orkut e da maior de todas as redes até hoje, o Facebook. O Orkut dispensa apresentações, foi a rede mais popular em solo brasileiro durante muito anos, perdendo seu posto somente em 2011. Estima-se que atualmente existam 29 milhões de pessoas utilizando o Orkut (saudades das comunidades).

Jesse Eisenberg interpretando Mark Zuckerberg

Criado em 2004, atingindo a popularidade em 2006, hoje o Facebook tem em torno de 908 milhões de pessoas cadastradas e está avaliado em 104 bilhões de dólares. Caso não tenha assistido ao filme Rede Social do David Finsher de 2010 (trailer), lá aborda mais ou menos a criação. Falei resumidamente sobre redes sociais até chegar atualmente, acabei deixando de lado algumas como MSN, Twitter (caso queriam seber mais).

Como as redes sociais vêm nos controlando?

Ben Stiller no filme O Estado das Coisas, em que o personagem sente-se mal ao ver postagens dos colegas

O que você faz na internet? Eu estou sempre entre likes no Instagram e Twitter, uma série ou outra na Netflix, pesquisas para escrever aqui, ouvindo podcast, lendo muitas coisas aleatórias. Tudo o que eu faço no mundo online é natural ou estou sendo controlado por outra força da qual pouco entendo (forças Kafkianas!?)

Os algoritmos podem ser entendido como uma receita para executar uma tarefa ou resolver um problema. Ou seja, se seguir os passos perfeitamente de uma receita de bolo, logo, pode-se esperar que o resultado vai ser o bolo. No meio online, usando como exemplo o Spotify, se eu escuto Belchior e Zé Ramalho (<3), o algoritmo do Spotify vai procurar algo parecido (músicos nordestinos, MPB, etc…) e logo vai concluir que talvez eu goste de Geraldo Azevedo, Alceu Valença e afins (está certíssimo). 

filme O Círculo onde uma empresa tecnológica ultrapassa os limites da privacidade com objetivos próprios

Algoritmos serem usados para mostrar algo que possamos gostar, tudo bem. Mais existe um potencial  para fazer propaganda ou vender algo, potencial esse que vêm sendo utilizado em exaustão. Antes se consumia propaganda de forma coletiva, ou seja você estava na sala com sua família assistindo uma novela e no intervalo todos viam o mesmo comercial. Não era adaptado individualmente, era uma abordagem sorrateira, mais passageira (1).

De acordo com Jason Lanier “todos que estão nas redes sociais recebem estímulos individualizados, continuamente ajustados, sem trégua; é só estar usando o smartphone. O que antes podia ser chamado de propaganda deve agora ser entendido como uma modificação de comportamento permanente e em escala gigantesca.” (1).

Likes são como chocolates?

série Community T04E08

Inegável que a popularização da internet e dos Smartphones moldou o nossos hábitos. Basta imaginar 15 anos atrás, como faria para se comunicar com um amigo que mora longe ou, sempre foi uma curiosidade pessoal, como alguém pesquisava para escrever o TCC antes da Internet. Temos acesso rápido a tudo o que queremos, possuímos redes sociais com vários “amigos virtuais”, porém, concomitantemente, nos sentimos mais sozinhos e notícias falsas se espalham cada vez mais. 

Muito antes da invenção da internet, surgiu um método científico chamado Behaviorismo, que estuda maneiras novas e mais metódicas da análise do comportamento humano e de animais. Apesar de existirem discordâncias entre o behavioristas quanto a sua definição (tem-se uma treta muito maior que não pretendo abordar neste texto, por passar bem longe de minha área de formação), de forma bem geral, pode ser definido como “uma filosofia da ciência que observa o comportamento dos indivíduos ou animais, do que fazemos ou não, e o porquê de fazermos”. (2)

Um experimento realizado por B.F. Skinner, intitulado caixa de Skinner, montou uma caixa que mantinhas ratos presos de modo que recebiam agrados quando realizavam algo específico (3). Um exemplo de condicionamento clássico parecido ao do Skinner vemos na série The Big Bang Theory (T03E03). Quando a personagem da Penny realiza algum comportamento que não incomode o Sheldon (como não sentar no seu lugar ou falar mais baixo), ele a oferece um chocolate. Uma forma de recompensar seu comportamento que é chamada reforço positivo. Ainda no mesmo ep. quando o Leonard  questiona o que ele está fazendo, o Sheldon o reprime jogando água nele. Seria o chamado reforço negativo.

T03E03

Voltando ao primeiro parágrafo do texto, sobre o meu relato das fotos no Instagram, quando recebo um Like tenho um reforço positivo. Ele me faz bem, me levando a dar likes em outras pessoas. Já quando a foto não tem o resultado esperado de curtidas, a sensação é inversa. Sou como a Penny e a espera do chocolate acaba gerando uma ansiedade ao não recebê-lo.

Ao usar as redes sociais estaríamos sendo cobaias de métodos behaviorista sem sequer saber? Teriam as redes sociais a capacidade de moldar nossos comportamentos? 

“Precisamos lhe dar uma pequena dose de dopamina de vez em quando, porque alguém deu like ou comentou em uma foto ou uma postagem, ou seja lá o que for (…) Isso é um circuito de feedback de validação social (…) exatamente o tipo de coisa que um hacker como eu inventaria, porque explora uma vulnerabilidade na psicologia humana (…) Os inventores, criadores — eu, Mark [Zuckerberg], Kevin Systrom no Instagram, todas essas pessoas —, tinham consciência disso. E fizemos isso mesmo assim (…) isso muda a relação de vocês com a sociedade, uns com os outros (…) Isso provavelmente interfere de maneiras estranhas na produtividade. Só Deus sabe o que as redes sociais estão fazendo com o cérebro de nossos filhos” 

“Criamos ciclos de feedback de curto prazo impulsionados pela dopamina que estão destruindo o funcionamento da sociedade (…) Nenhum discurso civil, nenhuma cooperação; apenas desinformação, inverdades. E não é só um problema americano — não se trata de anúncios russos. É um problema global (…) Sinto uma culpa tremenda. Acho que, no fundo, todos nós sabíamos — embora tenhamos fingido que provavelmente não seríamos surpreendidos por nenhuma consequência ruim. Acho que, bem, bem lá no fundo, nós meio que sabíamos que algo ruim poderia acontecer (…) Então neste exato momento nos encontramos em uma situação realmente ruim, na minha opinião. Isso está erodindo o alicerce de como as pessoas se comportam umas com as outras. E não tenho nenhuma solução boa. Minha solução é: não uso mais essas ferramentas. Não uso há anos.”

Deixar de lado as redes sociais resolve?

Her é um filme sobre solidão nas redes sociais

Estudos publicados ultimamente dizem que sim. De acordo com o The Happiness Research Institute, sair do Facebook por uma semana já apresenta resultados quanto ao bem estar, as pessoas sentem-se mais felizes e menos preocupadas.

A pesquisa foi feita da seguinte maneira, 1095 participantes dividiram-se em dois grupos. O primeiro grupo não devia se conectar no Facebook por sete dias, já o segundo continuava usando normalmente. Nesse meio tempo os pesquisadores avaliaram os estados de ânimos como preocupação, raiva, solidão dentre outros.

No último dia perguntado aos participantes do primeiro grupo em como eles se sentiam e – adivinha – eles relataram sentimentos positivos, sensação de maior produtividade, aumento da concentração, mais felizes e menos solitários. Conclusões essas que confirmam de outros estudos já publicados. 

Apesar dos resultados positivos do estudo os pesquisadores reconhecem que existiu uma dificuldade de monitoramento dos participantes, 94% dos participantes olhavam o app de forma automática e rotineira.

Voltando a pergunta inicial do texto, de quantos likes precisamos para sermos  felizes? Segundo os especialistas do The Happiness Research Institute, as redes sociais “são como um canal que só transmite boas notícias, um fluxo constante de vidas editadas que distorcem nossa imagem da realidade”. Assim, o bem-estar dos usuários é condicionado pelo que os demais pensam e pelo número de likes que conseguem no fim do dia. Respondendo resumidamente zero, nosso bem-estar não pode depender de uma rede-social controlada por um algoritmo. 

Atualmente outra medida que o Instagram vêm adotando ainda em teste é o fim das curtidas, com o objetivo de tornar o ambiente da rede social menos tóxico, o teste foi a feito no Canadá e está chegando no Brasil. De acordo com o chefe do aplicativo Adam Mosseri “Nós queremos que seus seguidores foquem no que você compartilha, não em quantas curtidas você tem”.

O texto ta grande demais, mas ainda pretendo abordar mais sobre o livro “10 argumentos para você deletar suas Redes Sociais”, comentando sobre política nas redes sociais. Tempo atrás eu escrevi um texto aqui no Deviante sobre Fake News em saúde vale dar uma conferida, Abraços!

REFERÊNCIAS: 

(1). Jason Lanier, 10 argumentos para você deletar suas Redes Sociais, de 2010, Intrínseca.

(2). William M. Baum, Compreender o Behaviorismo: Comportamento, Cultura e Evolução. de 2006, 2° edição Artmed.  

(3).Skinner, B. F. (1978). Reflections on Behaviorism and Society, cap.4. Prentice – Hall: Englewood Cliffs,N. J. Trabalho apresentado na Humanist Society, São Francisco, maio/1972. Publicação original: The Humanist, julho/agosto,1972.

Lista de filmes e séries usados aqui no texto:

Black Mirror T03E01

Big Bang Theory T03E03

Community T04E08

A Rede Social (2010)

O Círculo (2017)

O Estado das Coisas (2017)

Her (2013)

 Outros links usados no texto:

TEDx do Jason Lanier sobre redes sociais

Mamilos – 119 Redes Sociais: Guia de Sobrevivência

Estamos Bem? Aquele sobre Vício em Redes Sociais

Vídeo do Meteoro 10 razões para largar as redes sociais  

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