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Redes sociais e sociedade (ou o mundo está ao contrário e ninguém reparou part. II)

por em 28/08/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Redes sociais e sociedade (ou o mundo está ao contrário e ninguém reparou part. II)

Sendo bem sincero, o ano já passa da metade e com esse governo tudo parece um turbilhão de emoções. Muita coisa acontecendo, pouco se discute o assunto e já partimos pro próximo tema. Na semana que escrevo esse texto teve: mais conversas sendo reveladas da Vaza Jato, o presidente falando de forma extremamente preconceituosa com o povo Nordestino, jornalista sendo ameaçado de prisão e mais de 500 dias e ninguém sabe quem mandou matar Marielle. Se você entrar na rede social mais próxima vai encontrar todos essas notícias comentadas de forma polarizada, até chegar o próximo assunto polêmico.

Na primeira parte do texto eu comentei como as redes sociais manipulam os nossos sentimentos. Na segunda parte vou comentar sobre política e como tem um aspecto perigoso para a democracia, passando por movimentos políticos, raiva e como sentimentos são usados para se fazer política.

Revoluções por meio das redes sociais

Tunísia foi onde deu início a primavera árabe.

Lembro que, no ano de 2011, no qual fiz o vestibular, começava a acompanhar as notícias no Brasil e no mundo. Na época o assunto do momento era uma onda de manifestações e protestos que ocorriam no Oriente Médio e no norte da África. Eles reivindicavam melhores condições de vida, contra corrupção e governos autoritários entre outras exigências, mais tarde esses movimentos ficaram conhecidos como Primavera Árabe.

O papel das redes sociais na Primavera Árabe foi fundamental, servindo como veículo de comunicação dos manifestantes que viviam nos países autoritários com o restante do mundo. No momento em que ocorria foi considerada uma vitória da globalização e da democracia, o poder estava na mão do povo.

De acordo com Jason Lanier, que trabalhava no Vale do Silício em 2011,

“Na época, reivindicamos aquilo como sendo uma glória nossa. A ‘Revolução do Facebook’ e a ‘Revolução do Twitter’ foram tópicos comuns na época (…) As redes sociais puseram um exército moderno na ponta dos dedos de usuários comuns. Outras revoluções já haviam acontecido, mas algo era diferente dessa vez. (…) Não havia nenhuma figura carismática em particular. (…) Não havia nenhum manifesto unificado, nenhum acordo geral nem mesmo uma discussão especialmente focada no que viria depois da revolução. O termo ‘democracia’ foi lançado, mas houve pouca discussão sobre o que significava.” (1).

Chegamos agora no Brasil, ano de 2013, especificamente junho. Conhecido como Jornadas de Junho, o movimento teve início com o aumento da taxa de passagem do ônibus – de 2,80 para 3,00 -, mas logo tomou proporções inimagináveis, mobilizando no dia 20 daquele mês cerca de 1,25 milhão de pessoas ao redor do país.

20 de Julho de 2013

Segundo dados do IBOPE (2014) sobre as Jornadas de Julho, cerca de 77% dos manifestantes tiveram conhecimento dos protestos por meio do Facebook, 1% por meio do Twitter, 8% de ambas as redes, e 13% não se mobilizaram pelas redes sociais

Os resultados das jornadas em 2013 mostraram-se em 2018, grupos criados naquela época (como ex. MBL) se utilizaram do poder em suas mãos para aumentar a polarização no país. Citando o que o tio Ben falou para o jovem Peter Parker “com grandes poderes devem vir grandes responsabilidades”. Algo que, diga-se de passagem, esses grupos não fizeram.

 

Raiva, Bugs e Zebra

 

Divertidamente (2015)

Já aconteceram várias vezes comigo, de, ao ler ou ouvir alguma notícia (geralmente relacionado a política), pensar “ não é possível o que esse cara falou”. Meu primeiro impulso nessa situação é o de raiva, de xingar muito no Twitter e abominar qualquer pessoa de minha convivência que concorde com o que foi dito. 

No livro Cérebro Imperfeito (2012), de Dean Buonomano, o autor comenta como nossa mente é cheia de Bugs e atalhos, para realizarmos a ação mais imediata (2).

Um questionário rápido, responda às primeiras duas perguntas e a seguir diga a primeira coisa que vier a cabeça na terceira questão:

  • 1. Em qual continente fica a Angola?
  • 2. Cores opostas no tabuleiro de Xadrez?
  • 3. Diga o nome de um animal:

Cerca de 20% das pessoas respondem “zebra” para a frase 3, e por volta de 50% falam um animal originário da África. Porém, quando precisam dizer o nome de um animal em qualquer outra situação, menos de 1% das pessoas responde “zebra”. Nessas questões se utilizam conhecimentos já pré estabelecidos na nossa mente, como por exemplo: o continente da Angola seria África e as cores do xadrez preto e branco, com essas duas associações em sua cabeça é previsível qual animal venha na sua mente de imediato (2). 

Como citei em meu texto sobre memória, ela funciona de forma associativa relacionando alguns eventos em outras situações, como sentir o perfume que uma Crush usava e lembrar imediatamente dela (a Crush nesse ex. seria a zebra do parágrafo anterior). Na declaração do presidente ao associar as pessoas da minha região como “paraíba”,  minha primeira reação é de lembrar de vezes que vi esse termo ser usado de forma preconceituosa com meu familiares. A zebra nesse exemplo seria a raiva que eu sinto. Apenas para deixar claro isso não minimiza a frase extremamente xenofóbica que foi dita.

hrrr..

No livro 21 Lições para o Século XXI (2018), de Yuval Harari, o autor comenta em como sentimentos mais primitivos como a raiva ou o medo são usados como ferramenta política. O exemplo usado é o do terrorismo: o que mata mais em um ano, terroristas ou o açúcar? ou, pra quem tem medo de andar de avião, a maior probabilidade é de se acidentar em um avião ou no carro (3)? Talvez seja a importância que damos a determinada notícia, por exemplo um acidente de avião é noticiado exaustão enquanto de carros faz parte do cotidiano. 

Ainda de acordo com Harari, votamos conforme a nossa emoção naquele momento. Deixar a população em alerta o tempo todo, com por exemplo uma suposta ameaça comunista, nos leva a ter reações menos racionais.

Ditadura sutil e Demagogos

Como falado na primeira parte do texto, ao utilizar um smartphone recebemos estímulos individuais, encontramos gente que compartilha da nossa mesma visão (1). Independente de sua opinião sobre determinado assunto, por exemplo, pessoas que acreditam na terra plana (cerca de 7% da população brasileira), não importa o quão absurdo seja, no meio online vão encontrar “respaldo” que confirme essa visão.

Voltando às notícias, usando como exemplo a reforma da previdência, quem concorda encontrará uma série de argumentos que comprovem sua visão, não importa se tenha algum respaldo. O Brasil vive um momento no qual o poder da narrativa se sobrepõe ao do científico. 

A estratégia que vem sendo usada no governo de Bolsonaro é justamente a de nos encher de absurdos deixando o sentimento de todo mundo alterado. Enquanto pro seu público ele se torna um “mito”, pras pessoas que se opõem a ele, se torna uma indivíduo cada vez mais asqueroso.

Nas palavras do sociólogo espanhol Professor Manuel Castells,“o Brasil vive hoje numa ditadura sutil, onde o imaginário da população caminha na direção oposta aos do direitos humanos e da liberdade”. Castells é só mais um dos muitos pensadores que reconhece que tem algo muito estranho acontecendo em terras brasileiras. Nesse grupo temos Steven Levitsky (Como morrem as Democracias), Jason Stanley (Como funciona o Fascismo), dentre outros.

Ainda de acordo com o Professor Castells,

Nosso mundo da informação é um mundo baseado nas redes sociais e nas redes sociais há de tudo. Elas permitem a autonomia dos indivíduos, acreditávamos que era um instrumento de liberdade e é, mas é uma liberdade que é usada tanto pelos manipuladores como pelos jovens que tentam mudar o mundo”. 

Os Demagogos políticos, como Trump nos EUA e Bolsonaro aqui no Brasil, flertam com teorias conspiratórias, despertam sentimentos de paixão e raiva, nos levando a irracionalidade e chegando assim ao poder. Demorei mais ou menos 10 dias pra escrever esse texto e as notícias do primeiro parágrafo já foram substituídas por outras e talvez quando você estiver lendo já será diferente. Resta saber se iremos ficar nessa por 4 longos anos. 

O texto já está gigante, pretendo voltar numa terceira parte falando sobre “Empatia”, vale uma olhada nas referências caso queira saber mais do assunto. Comentários, críticas e sugestões são sempre bem vindos. Abraços!  

 

REFERÊNCIAS:

(1). Jason Lanier, 10 argumentos para você deletar suas Redes Sociais, de 2018, Intrínseca.

(2). Dean Buonomano, O cérebro Imperfeito, 2012, Elsevier Editora Ltda. 

(3). Yuval Harari, 21 Lições Para o Século XXI, 2018, Companhia das letras. 

TedX do Yuval Harari: Why fascism is so tempting — and how your data could power it

Vídeo do canal Meteoro BR: Brasil a Ditadura Sútil

 Entrevista com o sociólogo espanhol Professor Manuel Castells

Palestra completa de Manuel Castells: Seminário Comunicação, Política e Democracia

 

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