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O que seríamos se não fosse nossa memória?

por em 09/05/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

O que seríamos se não fosse nossa memória?

Você já deve ter visto alguma vez na Sessão da Tarde o filme do Adam Sandler Como se fosse a Primeira Vez (2004), no qual ele se apaixona pela personagem da Drew Barrymore, porém descobre que sua amada sofre de perda de memória recente, o que faz com que ela se esqueça dos acontecimentos do dia anterior. Apesar desse filme ser moralmente errado (imagine sua vida editada pelo Adam), a patologia apresentada pela personagem é baseada em casos reais. Quão importante são nossas lembranças para definir quem somos? Imagina sua memória ficar presa numa viagem no tempo que o passado de anos atrás parece ontem e o amanhã não existe.

Em seu livro “O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu”, Oliver Sacks fala de diversos casos bizarros na área da Neurologia. Um dos casos relatados é o de Amnésia Anterógrada. No capítulo, o autor pergunta “Que tipo de vida (se tanto), que tipo de mundo, que tipo de eu podem ser preservados em um homem que perdeu a maior parte de sua memória e, com ela, seu passado e seu ancoradouro no tempo?” (1)

Memória para que te quero?

acho que uma péssima opção para quem tem problemas de memória é ser detetive.

Memória pode ser definida como: o processo que seres vivos têm de armazenar no sistema nervoso (SN) dados ou informações sobre o meio que os cerca, para assim modificarem o próprio comportamento (2).

Esse processo acontece em fases. A primeira é da aquisição, que consiste na entrada de um evento qualquer nos sistemas neurais relacionados à memória, qualquer coisa “memorável”, seja um som, um cheiro, uma emoção ou um objeto. Esses eventos podem ter origem no mundo externo conduzido ao SN por meio dos sentidos (tipo o perfume do(a) Crush), ou então do interior do indivíduo surgido dos nossos próprios pensamentos e emoções (3).

A segunda fase é a da seleção, qualquer evento que ocorre é múltiplo e complexo, por isso, para que a aquisição ocorra, deve haver uma seleção dos fatos pegando pontos mais importantes dos acontecimentos. Ocorre a aquisição, depois selecionamos alguns fatos e, por último, vem a retenção, os aspectos de cada evento que ficam de algum modo disponíveis para serem lembrados (3). Depois desses processos, vem o esquecimento que falarei mais na frente.

tipo quando eu sinto saudade da ex. só lembro dos momentos bons.

Por exemplo ao assistir o Vingadores Guerra Infinita (2018), logo ao sair do cinema, você é capaz de lembrar de muitas cenas, diálogos e acontecimentos do filme. Com o passar do tempo, só vai estar armazenado algumas momentos mais impactantes, como a chegada do Thor em Wakanda. Porém, dificilmente vai lembrar de algum diálogo aleatório no meio do filme. Obviamente, o tempo que essas memórias ficam guardadas variam de pessoa para pessoa.

Os tipos de memória se dividem quanto ao tempo (curta, média e longa duração) e à natureza (explícita e operacional). No desenvolvimento do texto vamos focar somente no tipo natureza. Explícitas são aquelas que podem ser expressada por meio de palavras, tipo o jantar de ontem à noite ou a data de um acontecimento histórico. As operacionais requerem aprendizados adquiridos de forma inconsciente, por exemplo, ao ouvir um barulho repentino e alto, sua ação imediata seria encolher os ombros como forma de proteção, ou algo que requer múltiplas habilidades, por exemplo, tocar um instrumento musical (6).

Vale ressaltar que a expressão “armazenar memória” (mais ou menos o que acontece no DivertidaMente) não é correta. Toda vez que nos lembramos de algo, a gente recria o evento com a nossa própria mente. Nossa memória não é como um computador que pega um arquivo armazenado e o reproduz perfeitamente, ela é mais complexa. Tente lembrar de algum acontecimento junto com seu amigo, provavelmente ambos vão relata-lo de forma diferente.

Memória e aprendizado andam de mão juntas. Seja quando você é criança, pega um brinquedo, solta e ele vai em direção ao chão inúmeras vezes, aprendendo a não soltar o brinquedo; seja quando você é adulto e tenta aprender alguma língua nova. A memória, de certa forma, molda quem somos. Imagine se você esquecesse tudo o que aconteceu no ano passado. Você seria o mesmo esse ano?

“É preciso começar a perder a memória, mesmo que a das pequenas coisas, para percebermos que é a memória que faz nossa vida. Vida sem memória não é vida […] Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nosso sentimento, até mesmo nossa ação. Sem ela, somos nada” (1).

Esquecimento (ou cadê a chave mesmo? rs)

… continue a nadar, continue a nadar…

Já aconteceu inúmeras vezes comigo: chegar em casa, guardar a chave e 5 minutos depois “eita!! cadê a chave”, ou procurar o celular com a lanterna… do celular. Com o passar do tempo, alguns dos aspectos dos acontecimentos podem sumir em partes ou por completo, esse mecanismo é chamado de esquecimento (3).

O esquecimento é uma propriedade normal da memória. É importante para filtrar certos aspectos mais relevantes ou importantes de certo evento (3). No caso da chave citada acima, tente deixar a chave sempre em um lugar específico. Seu cérebro vai guardar essa informação pra quando surgir o pensamento “onde está a chave?” e logo vai responder “no mesmo lugar de sempre. Ufa!!”.

Porém existem casos em que o esquecimento é patológico, chamados de amnésia, definida como,  um estado mental em que a memória e o aprendizado estão afetados quando comparados com as outras funções cognitivas em uma pessoa, sem alteração em sua consciência (4).

Vários fatores podem causar amnésia, dentre eles:

  • Trauma: pancadas na cabeça ou traumas psicológicos.
  • Uso excessivo de álcool: uso crônico pode levar ao desenvolvimento de uma síndrome conhecida por Wernicke-Korsakoff, na qual o indivíduo fica confuso, tem amnésia, e outras dificuldades como movimentação dos olhos e incoordenação motora.
  • Uso de medicamentos: abuso de certas substâncias como benzodiazepínicos, frequentemente usados para dormir, que levam a prejuízo cognitivo (amnésia) em idosos.
  • Patologias relacionadas: Acidente Vascular encefálico (AVC), Epilepsia, Alzheimer, dentre outras.

Voltando ao filme do Adam Sandler

every breath you take…

A síndrome apresentada pela personagem da Drew Barrymore chama-se de Amnésia Anterógrada, no filme (Spoiler!!) ela tem dificuldades de obter informações novas após um acidente de carro com sua mãe. Outra patologia semelhante é a Amnésia Retrógrada, na qual ocorre o oposto, ou seja, o paciente tem dificuldades de lembrar de acontecimentos antes do trauma, não lembra de informações velhas (5).

Amnésia retrógrada é comumente acompanhada por amnésia anterógrada, ou seja, pela inabilidade de reter novas informações ou aprender. Entretanto, publicações recentes relatam casos de prejuízo desproporcional da memória retrógrada em relação à anterógrada (5).

No já citado livro “O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu” de  Oliver Sacks (1), no seu segundo capítulo, intitulado “ O Marinheiro Perdido”, um relato de caso semelhante ao do filme, em que o paciente (49 anos) conta, como se tivesse acontecido ontem e não no passado, acontecimentos da época em que servia a marinha americana.

Segundo o relato de Oliver “Uma vida rica e interessante, lembrava vividamente e em detalhes, com carinho(…) Ele recordava, e quase revivia, o tempo da guerra e do serviço militar, o fim da guerra e seus planos para o futuro (…) não parecia estar falando do passado, mas do presente, e surpreendi-me com a mudança de tempo verbal em suas reminiscências quando ele passou de seus tempos de escola para a época em que esteve na Marinha.” (1).

Ainda de acordo com o relato, foram feitos exames (eletroencefalograma, tomografia do cérebro), sem encontrar sinais de dano cerebral grave, embora a atrofia dos minúsculos corpos mamilares não se evidencie em exames desse tipo. Na época, o caso foi caracterizado como síndrome de Korsakov (amnésia comum em casos de alcoolismo), o seu era mais forte de todos os casos já relatados até os anos 70 (1).

referência bem obscura a HIMYM, será que alguém pega?

Imagina dormir com 18 anos, acordar, olhar pra suas mãos e ter 40. Imagina ver todos os seus amigos e familiares estranhos aos seus olhos. Talvez seja tão agoniante quanto acordar e não lembra quem é, seu nome ou qualquer pessoa ao seu redor.

Casos de Amnésia Retrógrada são mais comuns. Talvez você já tenha visto em alguma série, filme ou desenho animado, a personagem receber uma pancada na cabeça e não lembrar de nada. Esse tipo de amnésia pode estar relacionado também a patologia do Alzheimer, que sozinha já vale um texto.

Outro caso interessante é o inverso da amnésia, chamado Hipertimesia. Sabe o personagem do Sheldon, que lembra de absolutamente tudo que aconteceu com ele? Também vale outro texto só sobre o assunto (rs).

O texto já tá grande, críticas e sugestões podem deixar aí nos comentários (não vai esquecer rs). Também vale uma olhada nas referências. Vou deixar uns artigos relacionados ao caso. No texto, todas as imagens foram tiradas de filmes que, de certa forma, se relacionam com o tema. Vou deixar uma lista dos filmes também. Abraços!!!

Livro comentado no texto foi O Homem Que Confundiu Sua Mulher com um Chapéu de Oliver Sacks de 1985 (1).

Lista de Filmes sobre Memória:

  • Como se fosse a primeira vez (2004)
  • Memento (2000)
  • Procurando Dory (2016)
  • Brilho eterno de uma Mente sem Lembranças (2004)
  • Mr Nobody (2009)

Podcast e vídeos sobre o tema:

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

(2) CHAPOUTHIER, Georges. Registros evolutivos. Viver Mente & Cérebro: Memória, n.2, p. 8-13, jul. 2006. Ed. Especial.

(3) RIGO, Fábio; OLIVEIRA, Marcelo. Amnesia e Inferencias sobre a Memoria.

(4) Kopelman, M.D. – Disorders of memory. Brain 125: 2152-2190, 2002.

(5) Lucchelli, F.; Spinnler, H. – The “psychogenic” versus “organic” conundrum of pure retrograde amnesia: is it still worth pursuing? Cortex 38: 665- 669, 2002.

(6) LOMBROSO, Paul; Aprendizado e memória. Rev Bras Pisquiatr 2004;26(3):207-10

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