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O papel das especiarias nas Grandes Navegações – parte 3/4: a busca por rotas alternativas no séc. XV

por em 10/06/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

O papel das especiarias nas Grandes Navegações – parte 3/4: a busca por rotas alternativas no séc. XV

Como foi discutido no texto anterior, o preço das especiarias estava tão elevado na Europa Ocidental, que o negócio mais promissor seria estabelecer um novo monopólio, uma rota que não passasse por regiões dominadas por outros povos, chegando diretamente à fonte das especiarias, onde se poderia negociar diretamente com seus produtores.

A alternativa inédita e exclusiva seria não pelo continente, mas sim por mar. A primeira ideia de rota marítima que pareceu viável seria pelo oceano Atlântico, contornando o continente africano e chegando ao Oriente pelo oceano Índico.

Novas tecnologias náuticas eram necessárias para essa aventura em mar aberto. O investimento para tal era tão alto que dificilmente seria levantado por comerciantes autônomos ou mesmo nobres. Um Estado soberano, porém, teria sim condições que arcar com tais custos, e foi o que o Reino de Portugal (já estabelecido desde o século XIII) fez, com investimento do próprio reino e também da Ordem de Cristo (a cruz que adornava as velas das caravelas portuguesas era emblema dessa ordem religiosa).

Na primeira metade do século XV, os portugueses já tinham se lançado ao oceano conquistando gradativamente 3.000 km da costa atlântica da África, desde Ceuta (ponto africano mais próximo da Europa) até a foz do Rio Senegal, incluindo os arquipélagos da Madeira, de Açores e de Cabo Verde. A motivação oficial que tinha justificado o financiamento por parte da Coroa Portuguesa e da Ordem de Cristo para essas incursões era a cristianização da África, ou seja, uma espécie de continuação das Cruzadas e da Reconquista da Península Ibérica, desta vez para além-mar (nesse ponto da história, os mouros já tinham sido quase totalmente expulsos da Europa, e agora seria a vez dos portugueses levarem o cristianismo para as terras dos mouros). Camões inclusive, em Os Lusíadas, apresentou essa motivação para justificar o heroico avanço dos portugueses sobre as terras africanas:

“Não sofre o peito forte, usado à guerra,
Não ter inimigo já a quem faça dano;
E assim, não tendo a quem vencer na terra,
Vai cometer as ondas do Oceano
Este é o primeiro Rei que se desterra
Da pátria, por fazer que o Africano
Conheça, pelas armas, quanto excede
A lei de Cristo à lei de Mafamede.”

CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas, Canto IV, 48ª estância.
Obs.: “Mafamede” é uma das traduções para “Muḥammad”, ou seja, sinônimo de “Maomé”.

A partir de 1482, com a ascensão de João II ao trono, a Coroa Portuguesa estabeleceu seu plano de chegar às Índias contornando o continente africano. Os portugueses, então, continuaram suas “Cruzadas Lusíadas”, tanto que, em 1487, Bartolomeu Dias conseguiu o feito inédito de contornar o Cabo da Boa Esperança no extremo sul da África.

Nesse mesmo período, Cristóvão Colombo tentou convencer o rei português a financiar uma viagem alternativa, que, segundo ele, seria ainda mais curta: navegar o oceano Atlântico a oeste para se chegar ao Oriente e às Índias. Essa teoria se baseava nos estudos do astrônomo, matemático e cosmógrafo florentino Paolo dal Pozzo Toscanelli. No entanto, com o retorno de Bartolomeu Dias trazendo as boas novas de ser possível contornar o Cabo da Boa Esperança, a Coroa Portuguesa preferiu dar continuidade ao plano mais garantido de contornar a África ao invés de se arriscar em uma ideia que dependia da esfericidade da Terra, que, apesar de ser relativamente bem estabelecida entre os intelectuais da época, não era uma unanimidade.

Em laranja à esquerda está a estimativa da posição do Extremo Oriente a oeste do oceano Atlântico segundo Toscanelli. Para comparação, esta representação mostra em azul claro a posição real do continente americano, desconhecido na época. Cathay, Mangi e Cippangu são os nomes como eram conhecidos o norte da China, o sul da China e o Japão (respectivamente) – nomes esses que se popularizaram na Europa por terem sido assim registrados por Marco Polo em suas viagens pelo oriente asiático no século XIII. Antillia seria uma ilha mística no meio do caminho para o Oriente e, por isso, deu nome às ilhas do Caribe que Cristóvão Colombo de fato encontrou posteriormente. (fonte)

Sem sucesso com os portugueses, Colombo tentou convencer a Coroa Espanhola (recentemente unificada pelo casamento de Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela). Foram anos de negociação até convencer os monarcas espanhóis em 1492, partindo então para o oeste e chegando no mesmo ano às ilhas que Colombo acreditou ser parte das Índias, tanto que chamou os nativos dessas terras de “índios” e relatou ter encontrado árvores de “canela”, mas que “infelizmente tinha um sabor diferente do que conheciam na Europa”. Apenas nas viagens de Américo Vespúcio, a partir de 1497, é que foi identificado que esse conjunto de terras na verdade não se tratava da Ásia, mas sim de um continente novo (chamado então de América em homenagem a ele).

Em 1497, Giovanni Caboto (também conhecido como John Cabot), em nome da Coroa Inglesa, também tentou chegar às Índias navegando para oeste no Atlântico assim como Colombo. Mas no meio do caminho, Caboto encontrou a América do Norte, chegando onde hoje é a costa atlântica do Canadá.

Enquanto isso, os portugueses continuaram tentando chegar à Índia pela rota que contornava a África, até que, em 1498, Vasco da Gama finalmente realizou a tão almejada viagem. Nessa primeira expedição de Vasco da Gama à Índia em nome da Coroa Portuguesa, na qual ele chegou com a frase “Viemos buscar cristãos e especiarias”, o lucro estimado foi de 6.000%.

Quem também chegou à Índia foi Pedro Álvares Cabral, em setembro de 1500, tendo antes dado uma passadinha de 10 dias pela primeira vez nas nossas terras brasileiras em abril do mesmo ano, evento este chamado de “Descobrimento do Brasil”. Na verdade, “descobrimento” não seria a palavra mais adequada nesse caso, já que essa era a parte das terras recém descobertas no Atlântico pertencentes aos portugueses conforme o Tratado de Tordesilhas de 1494. Ou seja, Portugal já tinha conhecimento de terras suas naquela região, inclusive com incursões de portugueses e espanhóis de 1497 a 1500 pelo norte e nordeste das terras brasileiras durante expedições em que exploravam o novo continente.

Na Índia, Pedro Álvares Cabral construiu uma feitoria para o comércio de especiarias na cidade de Calicute. Porém, a população local resistiu, saqueando a feitoria e matando dezenas de portugueses, entre eles o escrivão Pero Vaz de Caminha (aquele mesmo da carta ao Rei D. Manoel I que descrevia as primeiras impressões do Brasil e de seus habitantes). Em 1502 e 1503, Vasco da Gama retornou à Índia, dessa vez com navios de guerra, destruindo embarcações comerciais árabes e instalando novas feitorias portuguesas.

Vasco da Gama em Calicute, na Índia. Ilustração de 1898 do pintor português Veloso Salgado. (fonte)

A partir de 1510, novas expedições portuguesas deram continuidade ao plano de dominar as fontes das especiarias, chegando à Malásia e, posteriormente, guiado por malaios, às Ilhas Molucas, conhecidas como “Ilhas das Especiarias” (pois era o único lugar onde se obtinha cravo-da-índia e noz-moscada, além de fornecer também outras especiarias desejadas), passando a negociar diretamente com produtores das ilhas.

Galé armada com canhões tipicamente utilizada no transporte de especiarias entre as ilhas produtoras e as feitorias no oceano Índico. Nesta representação, a embarcação está tripulada por portugueses e indianos. Ilustração de 1596 do explorador holandês Jan Huygen van Linschoten. (fonte)

Para fortalecer a presença no oriente, nas décadas seguintes, os portugueses ainda chegaram à China (onde estabeleceram a colônia de Macau) e ao Japão. A partir desse momento, deu-se início à entrada de missionários portugueses e espanhóis no Japão, onde passaram a ter grande influência até a expulsão dos cristãos na década de 1610 pelo shogun Tokugawa Ieyasu.

Durante o século XVI, o foco português estava em suas colônias orientais produtoras de especiarias, mas o Brasil também teve sua importância servindo como posto nesse tráfego Portugal-Oriente. Isso porque os portugueses aprenderam que, devido às correntes marítimas (no sentido anti-horário no Atlântico Sul), contornar o sul da África fazendo uma “curva aberta”, passando, portanto, pela costa brasileira, era mais fácil do que descendo rente à costa africana (apesar da distância).

Rotas que os portugueses faziam para ir e voltar das Índias Orientais, se utilizando das correntes marítimas. No hemisfério norte (acima do Equador, linha de grau 0°) as correntes favorecem a nevegação no sentido horário, enquanto no hemisfério sul (abaixo do Equador), é mais fácil navegar no sentido anti-horário. Por isso, os portugueses começavam a rota navegavando pela costa africana somente até a linha do Equador, e depois abriam para a costa brasileira, para a partir daí atravessar o Atlântico novamente, a fim de cruzar o Cabo da Boa Esperança no extremo sul da África. No retorno, a rota também seguia os sentidos das correntes marítimas. (fonte)

Portugal, com seu pioneirismo nas Grandes Navegações, conseguiu atingir o Extremo Oriente e ter, assim, o controle sobre a fonte das valorizadas especiarias na Europa Ocidental, sem ter que passar por uma cadeia de comerciantes em terra. Se nada tivesse mudado nos séculos seguintes, Portugal manteria seu posto de potência econômica por séculos, mas outras nações também despertaram seus desejos sobre as recém atingidas ilhas do oceano Índico. No próximo texto, vamos entender os desdobramentos dessa história que moldaram algumas das fronteiras como as conhecemos hoje.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BURRESON, Jay; LE COUTEUR, Penny; Tradução Maria Luiza X. de A. Borges. Os Botões de Napoleão: as 17 moléculas que mudaram a história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.

MUNRO, John. The Consumption of Spices and Their Costs in Late-Medieval and Early-Modern Europe: Luxuries or Necessities?. University of Toronto

RODRIGUES, Ronaldo da Silva; DA SILVA, Roberto Ribeiro. A História sob o Olhar da Química: As Especiarias e sua Importância na Alimentação Humana. Brasília, 2009. Publicado na Química Nova Escola, Vol. 32, N° 2, 2010

Arre Caballo – “Descubrimiento de las Molucas”

Arre Caballo – “Llegada de los portugueses a China”

Encyclopædia Britannica – “European exploration”/“The exploration of the coastlines of the Indian Ocean and the China Sea” 

Encyclopædia Britannica – “Spice trade”

Wikipédia – “Calecute”

Wikipedia – “Christopher Columbus”

Wikipédia – “Descoberta do Brasil”

Wikipédia – “Descoberta do caminho marítimo para a Índia”

Wikipédia – “Descobrimentos portugueses” 

Wikipedia – “East India Company”

Wikipédia – “Pedro Álvares Cabral”

Wikipédia – “Vasco da Gama”

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