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O papel das especiarias nas Grandes Navegações – parte 2/4: o comércio até o séc. XV

por em 24/04/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

O papel das especiarias nas Grandes Navegações – parte 2/4: o comércio até o séc. XV

Durante os vários séculos do período que denominamos Idade Média, as especiarias do Oriente eram raras e valorizadas na Europa. No texto anterior sobre as especiarias, entendemos qual era a sua utilização e quais os efeitos das substâncias químicas que as compõem. Agora, vamos ver como que elas viajavam por mais de 10.000 km vindas do Sudeste Asiático até chegar ao seu destino.

O transporte marítimo de mercadorias do Oriente e Sudeste Asiático até o Oriente Médio era realizado pelo oceano Índico por navegadores comerciantes árabes, persas e etíopes. Existiam também rotas comerciais terrestres pela Ásia Central, mas o comércio de especiarias, que é o foco deste texto, ocorria por via marítima.

As linhas indicam os fluxos de navegações no oceano Índico durante a Idade Média, levando para postos comerciais do Oriente Médio (tais como Alexandria, Meca e Bagdá) mercadorias do Oriente e Sudeste Asiático, em especial das Ilhas Molucas (conhecidas como “Ilhas das Especiarias”), Ceilão, Índia, China e Ilhas Filipinas. (adaptado da fonte).

 

Lendas como a de “Sinbad, o Marujo”, que está presente entre as histórias de “As Mil e Uma Noites”, remetem a esse período da Idade Média em que navegadores árabes e persas se lançavam aos mares do oceano Índico em direção ao Oriente e à África. Ilustração do francês Edmund Dulac representa Sinbad em uma Bagdá comercial e ativa. (fonte)

No Oriente Médio, as especiarias seguiam de cidade em cidade até os postos no mar Mediterrâneo, a partir de onde entravam na Europa através do monopólio da República de Veneza, para só então serem levadas para as demais cidades europeias.

E por que Veneza? Ela já tinha começado a enriquecer no século VI, ainda no início da Idade Média, com a produção e o comércio de sal (produto essencial para a conservação de alimentos), o que possibilitou à cidade a formação de uma rica república comercial. A posição como polo comercial foi reforçada ao longo da Idade Média em virtude de laços com o Império Bizantino e com os califados do Oriente Médio, o que possibilitava para os mercadores venezianos o acesso a mercadorias do Oriente para oferecer ao restante da Europa.

As Cruzadas, ocorridas dos séculos XI a XIII, foram ainda mais prósperas para Veneza, que pôde conquistar territórios e portos no mar Mediterrâneo, além de ter lucrado com o fornecimento de embarcações e equipamentos de guerra para os cruzados. O poderio econômico veneziano possibilitou a formação de uma poderosa frota marítima. A força naval estabelecida e a vitória sobre a República de Gênova em guerras pelo monopólio do comércio no Mediterrâneo (século XIV) garantiram para Veneza a exclusividade de comércio com os portos nas regiões do Egito, Palestina e Síria pelos quais as especiarias vindas do Oriente chegavam ao Ocidente. Dessa forma, nos séculos finais da Idade Média, o comércio de especiarias na Europa pelo mar Mediterrâneo (comércio este que já era realizado por essa região desde a época do Império Romano) se tornava exclusividade de Veneza e nenhum Estado teria força suficiente para tomar dela. As especiarias eram transportadas por galeras (grandes embarcações movidas por dezenas de remos) armadas subsidiadas pelo Estado veneziano, que navegavam em sistema de comboio. Nem mesmo piratas, que haviam sido comuns nessas águas nos séculos passados, eram páreos para a frota veneziana.

Rotas comerciais de Veneza no século XIV representadas pelas linhas na cor azul (exclusivas de Veneza) e magenta (compartilhadas com Gênova). O comércio de especiarias entrava na Europa por rota exclusiva de Veneza e seguia, a partir de Veneza, para o restante da Europa por rotas marítimas (para as cidades portuárias) e por vias terrestres e fluviais (para dentro do continente). (adaptado da fonte)

Além disso, durante as Cruzadas, houve um fluxo (até então incomum) de nobres dos reinos da Europa Ocidental pelos mercados do Oriente Médio e pela própria Veneza. Isso ajudou a propagar as especiarias para seus reinos e, consequentemente, uma maior procura por elas ao longo dos séculos seguintes.

Por cerca de 200 anos (do século XI ao XIII, os anos das Cruzadas), a maioria das cidades por onde as especiarias passavam no Oriente Médio passaram a fazer parte de Estados cruzados: Gaza, Jafa, Acre, Tiro, Sídon e Beirute, pertencentes ao Reino Cruzado de Jerusalém; Trípoli, capital do Condado Cruzado de Trípoli; e Antioquia, capital do Principado Cruzado de Antioquia. Já Alepo, Damasco, Alexandria e Meca não chegaram a ser conquistadas pelos cruzados, e nesse mesmo período pertenceram a diferentes dinastias mulçumanas até que, no século XII, passaram a ser controladas pela dinastia Aiúbida de Saladino. Em 1250, no entanto, os Mamelucos (elite marcial egípcia) tomaram o poder da Dinastia Aiúbida e, nos 50 anos seguintes, conquistaram os reinos cruzados. Dessa forma, o Sultanato Mameluco de Cairo manteve domínio sobre todas as cidades citadas acima durante os séculos XIV e XV.

Extensão do Sultanato Mameluco do Cairo nos séculos XIV e XV, abrangendo importantes cidades e portos por onde as especiarias chegavam ao mar Mediterrâneo. (fonte)

O período de dominação mameluca na região garantiu relativa estabilidade para o comércio entre Oriente e Ocidente pelo mar Mediterrâneo. Mas, ao longo do século XV, disputas internas, invasões de tribos beduínas e pragas causaram uma forte crise financeira no Sultanato Mameluco. A solução para recuperar as perdas de receita foi aproveitar a posição privilegiada e aumentar as taxas do comércio, inflacionando ainda mais os preços das especiarias para seus consumidores europeus.

O preço das especiarias estava tão elevado na Europa Ocidental (dezenas de vezes maior nos mercados europeus do que na fonte no Oriente), que se deu início à busca de rotas alternativas que chegassem ao Oriente sem passar pelo mar Mediterrâneo ou Oriente Médio. Mais ao norte, havia outras rotas comerciais tradicionais para outros produtos que vinham do Oriente, com destaque para a famosa Rota da Seda, através das quais as mercadorias vindas da China passavam com relativa segurança pelo vasto Império Mongol (por toda extensão da Ásia Central e Mesopotâmia, incluindo o importante posto comercial de Bagdá) e pelo Império Bizantino (na atual região da Sérvia, Grécia e Turquia, incluindo outro importante posto: Constantinopla). Com a dissolução desses dois Impérios, que foram tomados pelo império Turco-Otomano e diversos outros povos espalhados pela Ásia Central e Mesopotâmia, e com os saques das cidades de Constantinopla e Bagdá, essa via de comércio se tornou mais perigosa e menos viável. Não foi possível, portanto, considerar a rota pela Ásia Central e Constantinopla como uma alternativa para levar as especiarias para a Europa. Dessa forma, a alternativa inédita e exclusiva não seria pelo continente.

Uma rota marítima pela qual se chegasse diretamente à fonte das especiarias sem passar por regiões dominadas por outros povos se tornou, portanto, bastante promissora. No próximo texto, veremos como as nações da Europa Ocidental buscaram essas rotas alternativas, bem como as consequências dessa busca, descobrindo novas terras e gerando novos conflitos entre si na tentativa de monopolizar o comércio de especiarias vindas do Oriente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BURRESON, Jay; LE COUTEUR, Penny; Tradução Maria Luiza X. de A. Borges. Os Botões de Napoleão: as 17 moléculas que mudaram a história. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006.

MUNRO, John. The Consumption of Spices and Their Costs in Late-Medieval and Early-Modern Europe: Luxuries or Necessities?. University of Toronto

Encyclopædia Britannica – “Spice trade”

Smithsonian.com – “The Spice That Built Venice”

Wikipedia – “Crusader states”

Wikipedia – “History of the Republic of Venice”

Wikipedia – “Mamluk Sultanate (Cairo)”

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