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O coronavírus e suas consequências políticas e ideológicas

por em 31/03/2020 em Ciência, Coronavírus - Artigos, Notícias | Nenhum comentário

O coronavírus e suas consequências políticas e ideológicas

Parece pouco intuitivo, mas pandemias e surtos de doenças contagiosas afetam não apenas a saúde, mas o comportamento de indivíduos e de sociedades, interferindo inclusive na sua organização ideológica e política. Isso acontece porque ao longo da evolução foi moldado não apenas um  sistema imunológico celular, mas também um sistema imunológico comportamental. Isso porque os organismos se protegem de doenças não apenas tendo anticorpos para lutar contra os agentes infecciosos, mas também tendo comportamentos que evitam o contágio. Não quero soar sensacionalista, mas a pandemia de coronavírus pode ativar esse sistema psicológico de proteção, levando o mundo a uma onda de autoritarismo político (como se o mundo já não estivesse surfando nessa onda), moralismo, aumento de panelinhas, nepotismo e conformidade social. Ao longo desse texto vou tentar explicar como se dá essa relação entre nível de patógenos, características sociais e, principalmente, ideologia política.

As pessoas não nascem racionais, mas aprendem a ser (às vezes)

Dizer que os seres humanos são animais racionais talvez tenha sido o maior engodo dos últimos dois milênios e meio. Na maior parte do tempo as pessoas tomam decisões sem pensar racionalmente, sendo guiadas por heurísticas que tornam o pensamento mais rápido e eficiente. Por exemplo, ao andar por uma rua deserta à noite você não precisa analisar racionalmente o que causou o barulho de passos sorrateiros que acabou de ouvir. Sua reação mais rápida é apertar o passo por medo de um assalto. Fomos moldados para agir assim a maior parte do tempo, com base nesses atalhos mentais.

O sistema imunológico comportamental

Apesar de hoje em dia assaltos serem cotidianamente uma ameaça talvez maior do que doenças e animais, micro-organismos causadores de doenças foram alguns dos problemas mais presentes ao longo da história humana. Os sobreviventes que conseguiram deixar descendentes foram aqueles com tendências biológicas para se comportar de modo que evitassem contágios o máximo possível.  Talvez você pense que todas as doenças contagiosas não passem de “resfriadinhos”, mas lembre-se que em 1918 mais pessoas morreram por causa da gripe espanhola do que nas duas grandes guerras mundiais. Isso tudo numa época em que não existia avião para pessoas  deslocarem em velocidades recorde seus germes para diferentes países. Lembre-se também de que a principal responsável pela morte em massa de nativos sul americanos com a chegada dos espanhóis no continente não foi a guerra, mas as zooneses que os europeus levaram para lá. Seja como for, doenças sempre desempenharam papel letal na história humana e por isso é natural que parte da psicologia humana tenha sido moldada para evitar o contágio. E essas tendências psicológicas se manifestam no campo ideológico e na política.

A prevalência de doenças contagiosas e seus reflexos ideológicos e políticos

Existe uma associação entre o nível de autoritarismo entre as sociedades e a prevalência de patógenos entre elas. Sociedades mais autoritárias são mais fechadas, tradicionalistas, centralizadas, intolerantes e etnocêntricas.  Esse pacote de comportamentos tende a funcionar como um anticorpo comportamental e cultural contra doenças contagiosas. Essas sociedades autoritárias dificultam a circulação de pessoas (etnocentrismo e xenofobia) e de ideias (censura). O apelo à tradição dessas sociedades acaba funcionando como uma maneira de continuar aplicando regras sociais que se mostraram eficientes para lidar com algumas situações. Não é à toa que por gerações a Europa temeu o povo judeu, que por definição eram estrangeiros em vários lugares. Não estou passando pano para preconceito. O que quero dizer é que países com alta prevalência de patógenos vão culpar os estrangeiros em primeiro lugar, e seu isolacionismo bem ou mal acaba protegendo essas sociedades de patógenos de outros grupos. Esse tipo de saber (moral ou imoral) acaba sendo transferido para a tradição, e assim as gerações futuras vão repetir as mesmas ideias sem nem saber por quê. Em outras palavras, a tradição é uma espécie de catálogo de comportamentos ritualizados cuja eficiência passou no teste do tempo.

Se você ainda não entendeu a conexão com o sistema imunológico, basta pensar nos atributos ideológicos e políticos contrários. Numa democracia liberal tanto pessoas quanto ideias circulam livremente, o que aumenta a suscetibilidade de pessoas de fora trazerem germes, ao mesmo tempo em que também aumentam a produção intelectual e inovação tecnológica por causa da diversidade de pessoas pensando diferente e livremente. Tudo tem um ônus e um bônus.

A figura do grande líder que vai unir o povo e satisfazer seus anseios e necessidades. Fonte

Culturas não existem como um tapete voador passando por cima dos indivíduos e da realidade concreta. Ou seja, culturas e ideologias políticas reagem à prevalência de patógenos porque os indivíduos dessas localidades estão reagindo. Por exemplo, quanto mais alta a prevalência de doenças (ou pistas de sujeira no ambiente), mais as pessoas tendem a ser conformistas, ou seja, a obedecer ordens (e.g., como as de um governante). Nesses ambientes as pessoas também tendem a ser mais conservadoras, no sentido de endossar mais as tradições, sendo menos abertas a grandes mudanças de paradigma. As pessoas nesses ambientes mais carregados de patógenos também tendem a ser mais coletivistas. O coletivismo caracteriza todas as grandes ideologias totalitárias do século XX, do nazi-fascismo ao comunismo, o que faz sentido pois essas sociedades tendem a jogar a responsabilidade política nas mãos de um grande líder que deve conduzir o grande gado que é esse organismo uniforme, o povo. Isso é coletivismo e conformidade em sua forma mais pura.

Sociedades mais autoritárias e coletivistas (não que toda sociedade coletivista seja autoritária) costumam unir as pessoas por meio da exaltação de imperativos morais. Mais especificamente, são valores morais que promovem laços sociais transformando os indivíduos artificialmente em um povo amorfo. A moralidade ajuda nisso, transformando essa união em virtude cívica e moral. Esses cidadãos também tendem a ser menos extrovertidos e (mais previsivelmente) menos abertos a experiências novas. Isso faz sentido porque pessoas menos extrovertidas e menos abertas intelectualmente vão trocar menos ideias e a interagir menos, o que vai tanto servir de proteção contra possíveis agentes infecciosos como também vai impedir focos de oposição à ordem política autoritária.

Esse texto foi claramente inspirado pela pandemia do coronavírus. A ideia é que a ordem política não vai permanecer a mesma depois dessa crise. Isso porque os indivíduos não vão permanecer os mesmos. A ameaça invisível de uma pandemia batendo na porta não faz as pessoas viverem como antes. Talvez não saibamos disso porque nunca vivemos uma pandemia. Só sabemos delas pelos livros de História. Por isso muitas pessoas subestimam a gravidade da situação que pode começar leve mas pode rapidamente escalonar para uma catástrofe global. Nesses tempos, devemos ficar atentos não apenas para lavar as mãos, mas também para impedir a emergência de uma ordem política que venha a criar um caos maior ainda com a desculpa de colocar ordem no galinheiro.

 

Nota da Editora:

Aproveito para lembrar a todos da #desafioredatoresdeviante, pelo twitter ou pelo e-mail [email protected], para enviar perguntas para os redatores do Portal responderem!

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