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O churrasco nosso de cada dia e antibióticos: uma relação invisível

por em 10/11/2021 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

O churrasco nosso de cada dia e antibióticos: uma relação invisível

Caminhando para a reta final da série de textos sobre bactérias, antimicrobianos, uso indiscriminado e resistência, no texto de hoje vou tratar do uso desses medicamentos na agropecuária e o impacto que isso pode causar na saúde humana.

Para acompanhar a série toda, acesse os textos anteriores: ideia geral do tema, diferenças entre antibióticos e anti-inflamatórios, morfologia bacteriana e mecanismos de resistência bacteriana a antimicrobianos.

O uso de antimicrobianos dentro da agropecuária e veterinária pode ter diversas finalidades. No uso individual, pode servir para tratar infecções clínicas em animais de companhia, como acontece na saúde humana. É quando seu gato ou cachorro tem uma infecção urinária, por exemplo, e o veterinário prescreve um antibiótico para alguns dias. Na pecuária também é utilizado desta forma quando uma vaca leiteira tem mastite, mas não é a rotina.

A rotina na criação de animais é utilizar o antimicrobiano em massa. É difícil administrar antibióticos para poucos animais quando você fala de milhares deles num ambiente restrito. Nesses casos, o costume é utilizar o antibiótico em dose plena quando um animal está clinicamente doente, mas essa medicação acaba sendo feita para todos. A intenção do produtor é “prevenir” o surgimento de infecção nos outros que ainda não estão doentes, mas convivem com o enfermo ou que estão sob alto risco de adquirir uma infecção. O termo utilizado para essa prática é metafilaxia.

Outra forma de utilizar essa medicação de forma profilática, ou seja, preventiva, é dando sub-dose ou dose plena do antibiótico para todos do rebanho. Essa forma também é bastante utilizada para crescimento animal. Para atingir esse objetivo, o antibiótico é colocado na água ou ração e não há controle algum sobre o quanto de antibiótico cada animal está ingerindo.

Não é nem preciso falar que isso gera resistência, pois como vimos no texto anterior, expor a bactéria continuamente a uma dose não letal de antibiótico favorece a perpetuação de bactérias capazes de combater a droga. É o princípio da seleção natural.

Há estudos que sugerem que o uso da droga para promoção do crescimento não é mais custo-benéfico. No passado, tínhamos dados que apontavam que o uso do antimicrobiano poderia aumentar o ganho em até 10%. Entretanto, com o uso de melhores técnicas de criação e alimentação de animais, percebeu-se que o antibiótico não tem ação direta no crescimento, mas corrige a deficiência alimentar ou de condições de higiene.

Mas quanto representa no total o uso de antibióticos na agropecuária? Infelizmente, os dados sobre consumo nessa área ainda são pequenos quando comparados com os dados disponíveis na saúde humana. Ainda assim, estimativas apontam que 50% dos antibióticos produzidos na China (aproximadamente 210 000 toneladas) são utilizados na alimentação de animais. Nos EUA, o consumo passava os 80% e 70% dos antimicrobianos empregados na criação tinham outra finalidade que não o tratamento de infecções.

Um estudo publicado em 2015 estima que o consumo dessa classe de medicamento aumentará 67% até 2030 quando comparado a 2010. Entre os países com maior consumo encontra-se o Brasil. Em 2010, éramos o terceiro país no mundo em consumo de antibióticos para criação de gado e estima-se que sejamos o segundo país com o maior aumento bruto até 2030, atrás apenas da China.

Mas e qual o problema de usar o antibiótico dessa forma? É por que quando eu como a carne eu estou consumindo o antibiótico? Se sou vegetariano não preciso me importar?

Não é bem assim… Claro que há o consumo na carne dos animais, mas a maior parte do antibiótico ingerido por eles não é metabolizado e é excretado no meio ambiente. Ainda, o esterco é frequentemente utilizado como adubo. Isso espalha o antibiótico por áreas extensas e favorece a contaminação do solo e lençol freático, favorecendo também a contaminação de frutas e vegetais. Sem contar que no solo também temos diversos microrganismos que contribuem para a produção de nutrientes e que podem ser suscetíveis a essas drogas, gerando um desequilíbrio na natureza.

De uma forma geral, é difícil relacionar que doenças provenientes de animais de criação causem infecções em humanos. Mas diversos estudos já demonstraram que há aumento da resistência em bactérias isoladas de fazendas que fazem o uso de antibióticos como promotores de crescimento quando comparado a fazendas que não o fazem. Dois exemplos que retratam bem essa relação: a província de Quebec no Canadá aboliu o uso de uma cefalosporina na criação de frangos voluntariamente em 2005. O monitoramento realizado através da pesquisa de Salmonella Heildelberg resistente a esse antibiótico em granjas da região demonstrou que houve queda abrupta na prevalência do microrganismo com consequente diminuição da prevalência em humanos (de 61% para 7% em frangos e de 36% para 6% em humanos).

Outro caso é do uso de avoparcin na Dinamarca, que introduziu o medicamento como promotor de crescimento em fazendas de frangos e porcos em 1988. Em 1995, num inquérito em fazendas do país, constataram que 80% dos frangos de fazendas que utilizavam a droga eram colonizados por VRE (Enterococcus resistente a Vancomicina, um antibiótico de amplo espectro), enquanto não havia nenhum caso em fazendas “orgânicas”. Após a proibição do uso de avoparcin naquele país, a prevalência de animais colonizados por VRE caiu, assim como em humanos.

Além do antibiótico proveniente da agropecuária, há outras fontes de contaminantes de água e solo: o resíduo da indústria farmacêutica pode ser uma fonte, assim como o esgoto gerado nos hospitais. Temos também o exemplo de pessoas que descartam restos de medicamentos vencidos no lixo comum ou pela descarga da bacia sanitária. Ou mesmo uma pessoa que está utilizando uma droga receitada por um profissional e excreta parte dela intacta nas fezes e/ou urina. Não temos dados sobre o impacto que essas práticas geram na natureza, mas também não podem ser menosprezadas.

Cabe ressaltar que o objetivo dessa série de textos não é causar pânico! Mas muitas vezes não temos noção da extensão do problema. Na verdade, nem sabíamos que era um problema.

No próximo e último texto vamos discutir um pouco sobre o conceito Saúde Única proposto pela OMS e quais são as ações estão sendo tomadas dentro deste Programa com o objetivo de reduzir a emergência de bactérias resistentes. Até lá!

 

Referências:

McEwen, Collignon PJ. 2017. Antimicrobial resistance: a

one health perspective. Microbiol Spectrum 6(2):ARBA-0009-2017.

McEwen, Collignon PJ. 2017. Antimicrobial resistance: a one health perspective. Microbiol Spectrum. 6(2):ARBA-0009-2017. Disponível em: https://journals.asm.org/doi/epdf/10.1128/microbiolspec.ARBA-0009-2017

Van Boeckel, T. P., Brower, C., Gilbert, M., Grenfell, B. T., Levin, S. A., et al. 2015. Global trends in antimicrobial use in food animals. Proc. Natl. Acad. Sci. USA. 112(18):5649–5654. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4426470/

Maurizio Ferri, Elena Ranucci, Paola Romagnoli & Valerio Giaccone (2017) Antimicrobial resistance: A global emerging threat to public health systems, Critical Reviews in Food Science and Nutrition, 57:13, 2857-2876, DOI: 10.1080/10408398.2015.1077192

Salmonella Heidelberg Ceftiofur-Related Resistance in Human and Retail Chicken Isolates – 2006 to 2008. Public Health Agency of Canada. Disponível em: https://www.canada.ca/en/public-health/services/surveillance/canadian-integrated-program-antimicrobial-resistance-surveillance-cipars/update-salmonella-heidelberg-ceftiofur-related-resistance-human-retail-chicken-isolates-2006-2008.html

Xiong, W., Sun, Y. & Zeng, Z. 2018. Antimicrobial use and antimicrobial resistance in food animals. Environ Sci Pollut Res 25, 18377–18384. https://doi.org/10.1007/s11356-018-1852-2

Rosenblatt-Farrell N. (2009). The landscape of antibiotic resistance. Environmental health perspectives117(6), A244–A250. https://doi.org/10.1289/ehp.117-a244

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