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Não existe trabalho ruim; o ruim é ter de trabalhar: Seu Madruga e o conceito de trabalho para os ibéricos

por em 16/12/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Não existe trabalho ruim; o ruim é ter de trabalhar: Seu Madruga e o conceito de trabalho para os ibéricos

Hey Judes, como estão?

Me digam uma coisa: o que vocês fariam se ganhassem sozinhos na loteria? Com certeza vocês já pensaram sobre isso, não? Nesse momento, enquanto escrevo cada uma dessas linhas e de acordo com o site da Loteria, o valor em EXPECTAÇÃO é de R$50 mi enquanto para a Mega da Virada supera os R$ 89 mi. Mas, e aí? O que você, jovem Jude, trabalhador, buscador de um lugar à sombra, comedor de marmita e pegador de transporte público lotado… O que você faria com essa verba toda?

Eu não sou nenhum Herculano da pedra ametista ou Jão Bidu, mas arriscaria dizer que seu primeiro pensamento foi de largar o trabalho, mandar às favas seu chefe e curtir a vida viajando por aí ou coisas do tipo, certo? Se errei, além de comprovar que não sou nenhum vidente, você deve conhecer alguém com um discurso semelhante. Se acertei, não se sinta mal, pois existe uma explicação histórico-cultural para isso e, mais ainda, como Seu Madruga personifica essa herança em seu famosíssimo “não existe trabalho ruim, o ruim é ter de trabalhar”.

Pois é, esse sentimento de resistência ao trabalho e uma certa inclinação ao ganho “fácil” ou sem muitos esforços, além da própria forma como encaramos o trabalho em essência, não é próprio do índio indolente ou do negro malandro como disse um certo general de quatro estrelas – que nem é de dez estrelas. Muito pelo contrário! Esse desgosto pelo trabalho é um traço de característica próprio da península ibérica, logo, no nosso caso, uma herança lusitana.

Esse traço está diretamente ligado ao aspecto religioso, uma vez que contrapõe o catolicismo real de Portugal e Espanha ao protestantismo oriundo dos movimentos reformistas e que apresentou atrelamentos às camadas burguesas, por exemplo, interferindo diretamente na visão sobre o trabalho. A contraposição se dá de forma que, na perspectiva ibérica, o trabalho manual afasta o homem de Deus por estar voltado à própria exaltação ao buscar a perfeição por meio da manipulação de objetos.

Além disso, o serviço braçal não acrescenta nada à essência divina. Assim, sob uma máscara de religiosidade, esconde-se também uma disputa linguística entre o ócio ibérico, considerado nobre entre os portugueses, e à negação do ócio, ou a propensão ao negócio, próprio das nações mais ao centro do continente europeu.

No entanto, não vamos pensando que os lusitanos traíram sua visão no que se refere à colonização, pois o modelo aqui adotado tendeu a reforçar essa relação ócio-trabalho. Essa indisposição ao trabalho é o fio condutor e a pedra angular que sustenta o regime colonial, primeiramente pela tentativa de escravização do nativo. Esse intento não será findado, porém mudará de natureza, uma vez que os aldeamentos e as conversões alteraram as dinâmicas sociais e produtivas indigenistas configurando, dessa maneira, uma vertente sufocante da dominação colonizadora. Nesse sentido, a dominação se expressava pela instituição de um modelo agrícola que trazia a reboque rígidas disciplinas, orações e fixação à terra. Todo esse esforço tinha como objetivo tornar os nativos civilizados e, consequentemente, aptos ao trabalho braçal.

A relação estabelecida com os nativos também acabou por reforçar a hierarquia social já conhecida e estabelecida pelos invasores lusitanos. Nela, seguia-se a seguinte ordem: portugueses = senhores; indígenas = livres e selvagens; negros africanos = escravos. No entanto, a liberdade de que gozavam os nativos não passava de aparente, uma vez que os jesuítas já haviam determinado o “produto final” que deveriam se tornar os homens da terra. Então, para alcançar seu objetivo, tanto presenteavam os bons comportamentos, que os inclinava à conversão, quanto punia fisicamente os hábitos que os afastavam de Deus. E assim, foram traçados limites claríssimos e nada sutis sobre as possibilidades de cada grupo utilizando, inclusive e especialmente, a educação jesuítica.

Dessa maneira, os ibéricos expressavam sua repulsa pela moralidade fundamentada no culto ao trabalho onde nas formas de vida coletiva se contrapunham os princípios aventureiro e trabalhador. E esse choque é quem dá as cartas nas relações de trabalho assim como exerce influência direta sobre os rumos do desenvolvimento das atividades produtivas. Como exemplo temos o conflito entre caçadores/coletores e lavradores nos agrupamentos rudimentares.

Além disso, é bem possível que essa similaridade “produtiva” tenha interferido, de alguma maneira, no trato lusitano com os nativos, tendo em vista que o objetivo final fala tão alto que o colher sem plantar evoca uma visão edênica anterior ao pecado original e o mundo posto como entregue aos homens. No entanto, essa é uma interpretação pessoal a partir da correlação existente entre a religiosidade ibérica e o trabalho enquanto prática manual, onde o ideal trabalhador voltado à prática do trabalho é tido como mesquinharia para o aventureiro que, por sua vez, anda à busca de recompensas imediatas.

A colonização do Brasil, entretanto, mostra não a oposição entre os tipos aventureiro e trabalhador, mas a conjugação de ambos na mesma temporalidade. Os portugueses buscavam recriar aqui a sua “casa” adaptando-se às condições da terra e de seus habitantes com o intento de reproduzir o sistema social lusitano. Assim, o problema não resolvido em primeiro momento era justamente o trabalho, uma vez que a escravização indígena não progredira, a solução recaiu sobre o negro africano. Essa realidade absorvia também a tríade: grandes espaços para trabalhar x necessidade de muita mão de obra x inaptidão ibérica e nativa ao trabalho braçal e mecânico.

Nossas terras simbolizavam fonte de riquezas a custo de ousadia como era nas Índias e não de trabalho. Assim, a produção agrícola era compensada pelos imensos lucros gerados pelos braços negros. Contudo, a agricultura não era prioridade nem em terras lusitanas – lembremos que o relevo português não ajudava muito – muito menos no princípio da ocupação das terras brasileiras. E o modelo aqui implantado não superava nem se diferenciava muito do modo indígena. Possível que a diferença mais consistente fique a cargo do anseio desmedido lusitano em extrair o máximo do solo com o mínimo esforço. No que tange às diferenças com os castelhanos, a principal diz respeito ao não envolvimento desses com os nativos. Ao contrário, dominavam-nos.

Portanto, temos que o domínio lusitano se principia de maneira morosa, relapsa e minimamente preguiçosa sem, contudo, esquecer da natureza do homem português. Afinal de contas, o ruim mesmo é ter que trabalhar, não é?

REFERÊNCIAS

http://loterias.caixa.gov.br/wps/portal/loterias/landing/megasena/

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/vice-hamilton-mourao-teve-o-presidente-como-calouro-na-academia.shtml

https://www.gramatica.net.br/sem-categoria/etimologia-de-negocio/

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. São Paulo, Ed. Companhia das Letras, 2016;

KOCH, Maria da Glória. Os Vivos e os Mortos na América Portuguesa: da antropofagia à água do batismo. Campinas, Ed. Unicamp, 2001.

Fonte da imagem destacada

Tem também um texto bem legal aqui no Portal do Marcos Sorrilha em parceria com a Debbie Cabral sobre isso

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