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A Ética do Trabalho e a Linguagem do Capitalismo*

por em 28/01/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

A Ética do Trabalho e a Linguagem do Capitalismo*

Em um podcast sobre dicas de inglês, um dos participantes mencionou a existência da expressão all-nigther que seria utilizada para designar as pessoas que “viravam a noite”. No entanto, segundo explicou, a expressão somente poderia ser empregada em referência às pessoas que passavam a noite trabalhando, ou então, estudando. Aparentemente, esta não é uma informação tão precisa, uma vez que é possível fazer uso de tal neologismo para atividades boêmias que ultrapassam os limites da meia noite e alcançam a aurora de um novo dia.

De qualquer forma, é interessante pensar que a distinção entre trabalho e estudo feita pelo podcaster parece apenas fazer sentido para não anglófonos. De maneira geral, as palavras trabalho e educação andam lado a lado nos países de língua inglesa, em especial nos EUA. A explicação para isso, talvez esteja no fato de que os dois principais países que usam o inglês são também locais que adentraram à modernidade tendo o protestantismo como sua fé principal.

Em seu clássico livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, Max Weber atenta para o fato de que, quando comparados aos católicos, os protestantes possuíam maior propensão a aderir à lógica do mercado, dos mecanismos do trabalho, do apego à carreira nas indústrias e a opção pela vida frugal (associados à poupança).

“Noutras palavras”, como descreveu o sociólogo alemão, “os camaradas artesãos católicos mostram uma tendência mais acentuada a permanecer no artesanato, tornando-se portanto mestres artesãos com freqüência relativamente maior, ao passo que os protestantes afluem em medida relativamente maior para as fábricas para aí ocupar os escalões superiores do operariado qualificado e dos postos administrativos” (WEBER, 2004, p. 32-33).

Ainda que o trecho acima tenha recorrido a um exemplo da Alemanha, é interessante observarmos que a ideia central de sua tese nasceu após uma visita de Weber ao EUA. Ao perceber essa vocação para o trabalho na sociedade norte-americana semelhante ao seu país natal, pensou em algo que aproximasse os dois lugares, sendo que o protestantismo (especialmente o calvinismo) apareceria como um ponto de contato. Isso porque

“na terra natal de Benjamin Franklin (Massachussets) o ‘espírito do capitalismo’ […] existiu incontestavelmente antes do ‘desenvolvimento do capitalismo’ (já em 1632 na Nova Inglaterra, havia queixas quanto ao emprego do cálculo na busca de lucro, em contraste com outras regiões da América)” (WEBER, 2004, p. 48).

Outra constatação feita pelo sociólogo na relação de protestantes e católicos com o trabalho, o salário, a carreira e o lucro está na forma como a educação passa a ser entendida por ambos os grupos, ou melhor, na maneira como ela contribui para a disseminação desse capitalismo “metafísico”, pois “a peculiaridade espiritual inculcada pela educação, e aqui vale dizer, a direção conferida à educação pela atmosfera religiosa da região de origem e da casa paterna, determinou a escolha da profissão e o subsequente destino profissional” (WEBER, 2004, p. 33).

Aqui nosso texto volta ao início. É interessante notarmos como termos utilizados no universo do trabalho são recorrentes no ambiente da educação nos EUA. Assim, enquanto lá se faz o homework (trabalho de casa, em uma tradução literal), aqui, país católico, fazemos o dever de casa, ou a lição. Não incomum é o emprego de expressões como good job (bom trabalho, em uma tradução literal) para o aluno que cumpre bem as atividades em sala de aula nas terras do Tio Sam.

Para aumentar ainda mais a distância entre nós, cabe lembrar que os primeiros professores no Brasil não apenas eram católicos, como também padres jesuítas. Rubem Alves (1982) já tinha percebido como a herança jesuítica ainda reverbera sobre os docentes no Brasil onde a função não é vista como um trabalho (passível de ser entendido segundo a lógica do mercado), mas sim como uma vocação, quase um sacerdócio. Da mesma maneira, existe certa aversão dos educadores brasileiros em pensar a educação enquanto uma mercadoria.

De qualquer forma, seria possível dizer que, desde cedo, as linguagens semelhantes utilizadas em ambos ambientes, apresentam ao jovem educando referências do mundo do trabalho com o qual ele já se sente parte integrante, como um operário em formação? É claro que, como expõe o brilhante livro de Weber, existem muitos outros elementos que ajudam a entender como se dá a expansão do “espírito do capitalismo” e, neste sentido, qual seria o papel da linguagem na mesma?

Tem duas áreas da linguística que ajudam a explicar isso. A Linguística Cognitiva parte do princípio “que a linguagem reflete padrões de pensamento” (EVANS e GREEN, 2015, p. 5) e a Linguística Sócio-cognitiva (VAN DIJK 2018, p. 27) relaciona esses padrões de pensamento às estruturas sociais. Consequentemente, culturas diferentes absorvem o mundo de forma diferente e, assim, cada uma representa o mundo da sua forma. A identificação do vocabulário relacionado a trabalho para jovens em idade escolar como uma consequência da história religiosa desses dois países, que incentiva a produção e o lucro, é uma prova disso. Na nossa expressão idiomática cabeça vazia oficina do diabo, quem trabalha é o diabo! Já, em inglês, the devil finds work for idle hands (o diabo encontra trabalho para mãos ociosas, em uma tradução literal).

Outro exemplo interessante da linguagem com a nossa relação com o trabalho é ganhar dinheiro. Em português, perguntamos “Quanto você ganha?”. Na verdade, não. Ninguém pergunta isso porque é falta de educação. Mas é comum ouvirmos que alguém trocou de emprego para ganhar mais. A ideia que o verbo ganhar passa pode ser de competição, mas pode não implicar mérito algum (ganhamos presente, ou ganhamos na loteria), o que diz muito sobre as nossas relações trabalhistas. Já em inglês, as pessoas earn money (merecem dinheiro). A ideia do fazer por merecer o salário corrobora com o discurso de meritocracia do capitalismo. Aliás, como bem observou Andrea Faggion (2017), não do capitalismo de tradição liberal, mas sim, em um tipo de capitalismo ligado à religiosidade popular. Como escreve a autora,

“o credo em uma concepção de justiça meritocrática parece mais condizente com a religiosidade popular, que crê em um Deus como distribuidor sumamente sábio e justo da felicidade em relação proporcional com as boas ações de cada um de nós”.

Assim, “a forma como a mente é estruturada pode ser vista como um reflexo, em parte, da forma que o mundo (incluindo nossas experiências socioculturais) está estruturado e organizado” (EVANS e GREEN, 2015, p. 14, tradução nossa). Entendamos como ‘mundo’ as diversas culturas em que as pessoas estão inseridas, já que sabemos que as realizações no mundo (de pensamento, interação, música, costumes, …) não são uniformes. As pessoas que são membros de determinada comunidade compartilham ‘modelos mentais’ (VAN DIJK, 2018, p. 31) de normas, valores, ideologias e atitudes que terminam refletidas na linguagem.

Portanto, a linguagem é a maneira pela qual damos interpretação para a realidade percebida e como transferimos aos demais os significados que estabelecemos sobre a mesma no sentido de se produzir uma interpretação comum ao grupo. Não estranhe, então, quando alguém lhe disser que “Deus ajuda quem cedo madruga”1, afinal, existe muito mais do que um sentido religioso na frase, mas, sobretudo, de valorização do trabalho como busca de se alcançar a graça divina, no caso, a tão almejada promoção na “firma”.


* Texto escrito em coautoria com Debbie Cabral

1. Curiosidade: em inglês, o provérbio correlato é “The early bird catches the worm”, algo como, “o pássaro que madruga, pega o verme” em uma tradução livre. Aqui, nossa expressão tem mais de calvinismo do que na sua versão em inglês. Deve ser essa a exceção que confirma a regra?

Referências Bibliográficas

ALVES, RUBEM. O Preparo do Educador. In: BRANDÃO, Carlos R. (et ali). O educador: vida e morte – escritos sobre uma espécie em perigo. São Paulo: Brasiliense, 1982.

EVAN, VYVYAN; GREEN, MELANIE. Cognitive Linguistics: an introduction. New York: Routledge, 2015

FAGGION, Andrea. O que significa ser um liberal? In Estado da Arte, Estadão, 2017. Disponível em: https://estadodaarte.estadao.com.br/o-que-significa-ser-um-liberal. Acesso em: 17/01/2020.

VAN DIJK, TEUN. A.  Socio-cognitive discourse studies. In Flowerdew, J.; Richardson, J. E. (eds.) The Routledge Handbook of Critical Discourse Studies. London: Taylor &Francis Group. Ch.2, 2018.

WEBER, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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