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Desmistificando a inteligência artificial – onde estamos e para onde vamos? – Pt.2/5

por em 04/05/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Desmistificando a inteligência artificial – onde estamos e para onde vamos? – Pt.2/5

No nosso encontro passado (você pode ler aqui) falamos um pouco sobre quais gatilhos permitiram que a inteligência artificial saísse da academia, chegasse até as corporações e começasse a ser adotada em uma velocidade bem alta pelas empresas.

Inevitavelmente, pela nossa lógica de estrutura social, a partir do momento que as corporações que fornecem produtos e serviços passam a utilizar inteligência artificial a sociedade passa a ser impactada por ela. Nesse texto vamos percorrer algumas questões sobre o impacto que a IA terá na sociedade e quais transformações podemos esperar com sua popularização.

Com a onda da adoção da inteligência artificial, todo dia saem artigos que vão desde cenários apocalípticos que parecem enredos de filmes de ficção até textos que vendem as capacidades de um uma tecnologia milagrosa baseado em computação cognitiva que revolucionará os negócios de uma empresa ou que mudará a medicina ou a forma como nos relacionamos com o contrato social, mas para onde está realmente o ponteiro da bússola está apontando?

No atual estágio de desenvolvimento e adoção da inteligência artificial, nenhum prognóstico mais ousado seria realidade, ou seja, não teremos nos próximos anos tecnologias que se encerrem em si mesmas e nem mesmo a famosa e temida singularidade.

Sendo mais específico com exemplos mundo real e atual: Um chatbot sem uma estratégia bem definida é apenas um meio a mais para realizar um atendimento e não uma inteligência que consegue interagir e tomar decisões complexas.

Uma vez que boa parte das nossas inteligências artificiais são modelos de reconhecimento de padrões construídos sobre a bases de informações existentes, até mesmo os modelos que têm altíssima acurácia estatística, sem a correta interpretação, não tem valor no mundo real.

Máquinas ainda estão muito longe de criar esse tipo de inteligência, mas isso não significa que não haverá uma revolução no trabalho e na sociedade causada pela inteligência artificial. Posso, inclusive, com algum nível de certeza, afirmar que essa revolução já começou e já está afetando a sociedade, principalmente os trabalhos mais repetitivos ou que seguem roteiros fixos.

Essas transformações nas relações de trabalho com certeza reinventarão algumas funções que existem hoje entretanto é quase impossível arriscar uma lista, mas, assim como algumas funções desapareceram na revolução industrial e continuaram desaparecendo com a evolução tecnológica desde então, o mesmo acontecerá com a adoção em grande escala da IA.

Em contrapartida novas funções irão surgir e se expandir significativamente. Um exemplo tem sido o aumento por profissionais formados ou com bons conhecimentos em estatística, guiados pela a capacidade e desejo das empresas de guardar seus dados usá-los de forma estratégica.

Na academia temos a liberdade de avaliar todas as dimensões da inteligência artificial, inclusive suas questões éticas. Então, se você leu algum artigo que conta como a inteligência artificial vai mudar o mercado de trabalho, acredite, ela vai realmente alterar as relações de trabalho e as relações sociais que temos hoje (até por que ela já está fazendo isso), mas não acredite que teremos um abalo tão grande a curto prazo que criará uma catástrofe econômica e social (maior que o corona)

O que vou escrever agora não é oriundo das mentes de cientistas da computação e pode parecer (talvez não para o público leitor daqui) um grande exercício de futurologia, mas não é isso.

Para falarmos de inteligência artificial e todos seus desdobramentos me sinto compelido a citar o livro Sapiens (2011) uma breve história da humanidade de Yuval Harari e seu sucessor, Homo Deus, uma breve história do amanhã (2015).

Em alguns trechos de Sapiens e em boa parte de Homo Deus, Harari dedica sua análise a tentar entender justamente os impactos que a tecnologia trouxe e ainda trará para a sociedade. Vou trazer uma abordagem de forma muito simples e sem “spoilers” ainda que criando os devidos links com nosso texto:

No longo prazo a sociedade deverá repensar sua estrutura social, cada vez mais a computação suportará o avanço rápido em pesquisas que permitirão que o ser humano viva mais e melhor.

Além disso com maior poder computacional e algoritmos mais sofisticados cada vez menos alguns trabalhos serão requeridos e a lógica do emprego será afetada para sempre.

No futuro, poderá não ser necessário o trabalho humano para gerar riqueza, garantir a distribuição da renda e consequente movimentação da economia, e nesse momento uma nova realidade imaginada deverá surgir para servir como cola social para essa sociedade calcada na tecnologia.

A inteligência artificial no longo prazo fará os ismos que hoje as pessoas tanto se apegam como verdades e caminhos rígidos de conduta ruírem e desses escombros surgirão uma nova forma de pensar as relações sociais.

Porém menos provável que uma grande revolução humana é a tão temida singularidade, mas isso ficará para um próximo texto.


Rodolpho Freire. Formado em ciências da computação, mestre em inteligência artificial e doutor em inteligência artificial, possui mais de 15 anos de experiência em TI na área de finanças, telecomunicações, consultoria e mídia em posições de arquitetura, infraestrutura e sistemas e dados. Na área acadêmica, foi professor e coordenador das disciplinas de IA e lógica da UMC e professor convidado da USC. Membro do board de revisores do IGI Global.

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