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Colagens na música parte 1 – A genialidade de Daft Punk

por em 16/09/2021 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Colagens na música parte 1 – A genialidade de Daft Punk

Na contemporaneidade, as produções artísticas se apropriam de uma liberdade que vai além das caixinhas predeterminadas que colocam cada expressão artística em um lugar delimitado. Uma das questões mais discutidas, praticadas e analisadas nas artes nos tempos atuais é a inespecificidade. São manifestações artísticas que não podem ser classificadas em uma categoria específica. Discorro mais sobre nesse texto.

Na produção artística contemporânea, além da inespecificidade, é interessante discutir também sobre o conceito de colagens. Gonçalo Tavares, escritor e professor português, trouxe o conceito do “sem-resposta, sem fórmula”. Realmente, não faz sentido que produções artísticas se baseiem em algum tipo de fórmula, ou resposta pronta. A arte não é engessada, presa em si mesmo. Pressupõe-se que haja liberdade para extrapolar limites pré-definidos, para que criações artísicas (dentro de todas as esferas) possam trazer inovação, e que possam ser enriquecedoras para a sociedade que as consome. É nesse contexto que trago o conceito de colagens nas artes, em especial aqui, na Música.

Segundo Iwasso, designer gráfico paulista, podemos pensar no processo de colagem nas artes como uma “atualização da poética do fragmento na produção artística contemporânea”. Ainda sobre a relevância das colagens na contemporaneidade, o mesmo autor afirma que “produto de seu tempo, as experiências com a colagem, então, refletiam uma nova subjetividade, em diálogo direto com as mudanças culturais e epistemológicas trazidas pelo avanço da incipiente sociedade industrial, onde termos como velocidade, aceleração e fluxo eram redefinidos”.

As ideias deste designer gráfico paulista podem ser analisadas na canção Giorgio by Moroder, de Daft Punk. A dupla francesa, surgida em 1993, fez do uso do sintetizador e outros elementos contemporâneos uma grande inovação. Num primeiro momento pode ter causado estranhamento, já que “não é sem atrito que os elementos intrusos dessa cultura de massa em desenvolvimento irão, aos poucos, figurar no universo da arte”. Um dos potenciais críticos da arte é causar esse “atrito”, que posteriormente acaba sendo incorporado nas vivências dentro e fora da arte.

Também entendemos como libertadora a não divisão (ou pelo menos uma divisão com limites menos sólidos) entre grande arte e cultura de massa. “Um vasto debate teórico, portanto, mantém-se subjacente a essa produção, tentando resgatar, num contexto onde os limites entre a “grande” arte e a cultura de massa se tornavam progressivamente menos sólidos, o que ainda restava para garantir a primeira enquanto tal”. Dessa forma, novas possibilidades se abrem para criações artísticas.

Daft Punk é um exemplo de artistas que abrangem muitas dessas rupturas, repensando o modo de se criar e de consumir arte também. A “tecnologia da informática se desenvolveu e se popularizou de modo extremamente rápido e contínuo, tornando-se ferramenta indispensável no funcionamento da sociedade contemporânea”. Assim, podemos perceber como pode ser interessante incorporar elementos novos, por vezes tecnológicos, nas artes.

Na canção Giorgio by Moroder, o produtor musical Giovanni Giorgio é homenageado por ser o grande pioneiro na música eletrônica. O italiano, de oitenta e um anos, produziu grandes artistas como a Donna Summer, e conta, nessa canção, um pouco da sua história. Ele relata como começou sua carreira artística e que impulsos o levaram a determinadas rupturas. Giorgio foi muito livre (e por isso genial) nas suas criações, e podemos observar que Daft Punk tem uma visão muito próxima da dele sobre suas criações artísticas.

Essa canção está inserida no álbum Random Access Memories, de 2013, que também contém as populares e dançantes Get lucky e Lose yourself to dance. O nome do mesmo, que pode ser traduzido como Memórias acessadas aleatoriamente, é bastante instigante, já que nos dá uma imagem mental que pode ser entendida como memórias sendo resgatadas, uma a uma, sem uma ordem definida, e sendo traduzidas para músicas e falas. Não exatamente o título do álbum se relaciona com uma possível aleatoriedade de ideias na produção artística da banda, mas sim com um imaginário, que cada um de nós possui, em que nossas próprias memórias (como as memórias de Giorgio acerca da sua adolescência) se encontram desordenadas em nossas mentes. A tentativa de resgatá-las para poder contar a sua própria história, como Giorgio faz na canção, é uma atividade humana presente no cotidiano de todos nós.

A canção digamos, experimental, em homenagem a Giorgio se inicia com ele próprio contando que começou a tocar violão lá pelos seus quinze, dezesseis anos. Ele conta que sonhava em ser músico, mas que isso parecia quase impossível, porque o sonho era grande demais, e suas condições não lhe pareciam muito favoráveis.

Muito interessante entender por meio dessa letra como foi o processo de autodescoberta do Giovanni Giorgio, como ele começou a experimentar novos elementos em suas composições, e o quanto ele foi visionário. A primeira parte da canção, culminando com a apresentação de seu nome e apelido, conta uma história.

Aqui podemos pensar na inespecificidade como operador conceitual, já que a canção não se encaixa fixamente em nenhuma categoria específica. Acompanhado de uma batida musical, esse relato, que tem ares de documentário, de podcast, é ao mesmo tempo canção, é uma história de vida, uma homenagem, e também traz uma exposição de um conceito de produção artística bastante peculiar, pertencentes à visão de Giorgio e também de Daft Punk. Talvez a mesma história poderia ser contada por meio de uma canção sendo puramente uma canção, ou de um documentário-relato sendo puramente um documentário-relato. Porém, da forma inespecífica em que foi produzida, Giorgio e Daft Punk conseguem contar essa história de uma maneira muito própria, autêntica, o que é fundamental na trajetória de um artista.

A estrofe final da música nos explica que tipo de liberdade artística Giorgio procurava alcançar:

“Once you free your mind about a concept of
Harmony and of music being correct
You can do whatever you want
So nobody told me what to do
And there was no preconception of what to do”

Tradução própria:

“Uma vez que você liberta a sua mente do conceito de

Harmonia e da música correta

Você pode fazer o que você quiser

Então, ninguém me disse o que fazer

E não havia uma pré-concepção do que fazer”

Segundo Iwasso, a arte se faz “mais como processo, um modo de operar – por seleção, apropriação, recontextualização – do que como solução formal”. Realmente, Giorgio estava no caminho certo, já pensou num modo muito próprio de produção, e não seguiu nenhuma fórmula. Ele explorou mais ferramentas do que o senso comum ditava, foi além do que era considerado “correto” nas artes, e entendeu, precocemente, que na contemporaneidade temos, como diz o crítico de arte francês Nicolas Bourriaud – “uma loja cheia de ferramentas para usar, estoques de dados para manipular, redordenar e lançar”.

A partir de um arcabouço teórico formado por críticos de arte e de um exemplo bastante interessante, empolgante e conhecido que é a dupla Daft Punk, podemos fazer uma reflexão importante sobre o papel da arte em nossas vidas, o quanto elas nos salvam e o quanto pode ser dito por meio da música, da poesia, do cinema, das pinturas. É a arte que nos faz humanos, vivos, verdadeiros e vibrantes. É a liberdade tão marcante nas criações artísticas contemporâneas, como elucidado nesse texto, que nos faz quebrar barreiras para sermos capazes de enxergar o mundo por outras lentes. É essa a aposta da inespecificidade e das colagens, tanto para os artistas quanto para quem consome arte: seguir o seu próprio caminho, a sua própria verdade, com autenticidade, senso crítico, liberdade e inovação. Que sejamos mais como Giovanni Giorgio, que não se contentou com conceitos prontos, engessados, e inventou a sua vida à sua própria maneira.

Referências utilizadas nesse texto:

BOURRIAUD, Nicolas. Introdução. In: BOURRIAUD, Nicolas. Pós-produção: como a arte reprograma o mundo contemporâneo. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

IWASSO, Vitor Rezkallah. Copy/paste: algumas considerações sobre a colagem na produção artística contemporânea. ARS, São Paulo, ano 7, n. 15, p. 37-53, 2010.

TAVARES, Gonçalo M. Espanto e fragmento. In: TAVARES, Gonçalo M. Atlas da imaginação e do corpo. Teoria, fragmentos e imagens. Alfragide: Caminho, 2013.

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