Em 2010 a recém criada e independente desenvolvedora Airtight Games, em parceria com a Capcom, lançou seu primeiro game, o shooter Dark Void. Com versões para PS3, Xbox 360 e PC, o game não teve boa recepção por parte da crítica e do público, as maiores reclamações foram devido a mecânica de tiros genérica, animações toscas e muitos bugs. Porém, no meio disso tudo, uma ideia chamou a atenção e, nos momentos em que foi utilizada, proporcionou momentos incríveis: o sistema de voo usando um jetpack (mochila a jato). Apesar de não ser nada original, o gameplay nessas partes era muito satisfatório e trazia uma sensação de liberdade, mexendo com um sonho bem antigo da humanidade, o sonho de voar. É com isso em mente que vamos entender como funciona um jetpack e como ele já é uma realidade no nosso mundo. Então já vista o seu e através da ciência vamos voar pelos céus de Dark Void.

Antes de tudo, talvez você esteja se perguntando: Nossa, com tantos games bons por ai que possuem um jetpack como item, por que o Augusto vai falar sobre esse Dark Void, um game que eu nunca ouvi falar e ele mesmo já está falando que é bem mediano?

https://www.youtube.com/watch?v=fQPX7eJeJ4E

Ok, vamos lá. Primeiro porque, mesmo que outros games se utilizem de um jetpack – GTA Sandreas provavelmente é o que já vem à mente (L1, L2, R1, R2, cima, baixo, esquerda, direita L1, L2, R1, R2, cima, baixo, esquerda, direita) – Dark Void talvez seja o único em que o jetpack esteja tão ligado ao seu enredo. Segundo, não é só de games nota 10/10 que vive um jogador comum, às vezes é bom experimentar games menores que, apesar de medianos, trazem ideias e mecânicas interessantes. Nesse caso em especifico, o gameplay com o jetpack, e já que eu falei tanto desse gameplay, fique com um vídeo que mostrará um pouco dessa sensação de liberdade que o game passa nesse momentos:

Agora, vamos voltar à programação normal. A história do game nos apresenta Will Grey, piloto de avião que, em 1938, fazia um voo com sua amiga Ava sobre o Triângulo das Bermudas, quando seu avião cai em uma ilha misteriosa. Na verdade o casal foi transportado para outro universo chamado Void. Nesse universo a humanidade ainda vive de forma primitiva e é controlada por uma raça alienígena chamada Watchers. Logo, Will se vê envolvido em uma guerra entre os humanos e os alienígenas. Assim, logo conhece Nikola Tesla, inventor do nosso mundo que também foi parar nesse universo. Utilizando a tecnologia alienígena, Tesla criou um equipamento que, segundo ele, poderia ajudar na libertação da raça humana, um jetpack. Agora cabe a Will, utilizando um jetpack, salvar os humanos da opressão.

Will pronto para ganhar os ares. Vejo uma inspiração em Rocketeer aqui?

No game não temos muitas informações de como esse jetpack funciona, sabemos apenas que sua propulsão é gerada por três motores principais de origem alienígena e que talvez tenha eletricidade envolvida, já que Tesla está no meio disso tudo. Porém, no nosso mundo, jetpacks já são realidade a um bom tempo, como as Olimpíadas de 1984 e o carnaval do Rio de 2010 já mostraram. Mas antes vamos a uma rápida história desse incrível equipamento.

O conceito do jetpack, assim como de várias invenções, nasceu na literatura de ficção cientifica na década de 1920, mas só a partir dos anos 50 é que a tecnologia chegou a um nível em que esse conceito pudesse ser testado.

A Hiller VZ-1

Em 1955, Stanley Hiller produziu três protótipos, para o exército americano, do que foi chamando de Plataforma Voadora Hiller VZ-1, com um ventilador e duas grandes hélices. Essa plataforma podia levantar uma pessoa a pelo menos 10 metros de altura e serviria como um posto de observação; porém, essa ideia logo foi abandonada devido ao grande barulho produzido pelos motores, que avisaria o inimigo sobre sua localização, além de também tornar o usuário um alvo fácil.

Ainda na década de 50, a Thiokol Chemical Corporation produziu um “cinturão de salto” também para o exército americano, mas seu objetivo não era o voo, e sim dar maiores capacidades de salto e velocidade ao usuário. Foi então que, em 1966, o engenheiro Wendell Moore, da Bell Aerosystems, desenvolveu o Cinturão de Foguetes, o que hoje conhecemos como jetpack. Seu combustível é o peróxido de hidrogênio (água oxigenada, mas em uma concentração bem maior do que aquela usava para descolorir o cabelo). Esse composto por si só não é explosivo, o que de certo modo torna o uso do jetpack um pouco mais seguro.

A combustão acontece quando o peróxido de hidrogênio é misturado com nitrogênio líquido e um catalizador a base de prata, gerando como produto vapor de água. Essa reação gera um vapor aquecido a mais de 700 graus Celsius, resultando em um empuxo com força de 800 cavalos que é suficiente para levantar um piloto de no máximo 79 quilos mais o peso do equipamento, uns 56 quilos, e atingir a velocidade de 128 km/h. O controle é feito através de dois “manches”, um na mão direita, que controla a aceleração e outro na mão esquerda, que controla a direção. O único problema desse equipamento? Sua autonomia, somente 21 segundos de voo.

Mas se essa invenção veio à luz em 66 por que, mais de 50 anos depois, ainda não estamos voando por todos os lados? Vamos aos vários problemas.

O maior deles é toda a física envolvida em fazer um ser humano voar. Nós não somos criaturas muito aerodinâmicas, com isso, um jetpack precisa produzir toda a força necessária para o “levantamento” e para isso é necessário muito combustível, mas quanto mais combustível, mais peso. A questão do peso limitou severamente o uso de jetpack, mas temos outro ponto também importante, a segurança. Amarrar um foguete ou motor a jato nas costas e sair voando por ai não é uma coisa lá muito segura, principalmente quando você só tem alguns segundo para pousar. Como já comentado sobre a importância do peso nesse equipamento, é quase inviável colocar algum sistema de segurança devido ao peso extra. Ainda temos questões como o som – se você já esteve perto de um motor a jato ou coisa parecida, já deve ter percebido como eles são extremamente altos. Agora, se muitos já reclamam sobre o barulho nas cidades, imagine como isso se agravaria com uma infinidade de jetpacks voando por ai.

Mesmo com todos esses problemas, se aplicássemos nossas melhores mentes científicas nesse projeto, ele se tornaria viável, mas não existe demanda para isso. Para qualquer uso que se possa imaginar para um jetpack, hoje já possuímos tecnologia mais barata e confiável para isso. Também não é muito viável transportar uma única pessoa por via aérea, aviões e helicópteros já fazem isso muito bem e levando mais pessoas. Mas para não terminarmos esse texto acabando com sonhos, vamos falar de um projeto da empresa neozelandesa Martin Aircraft que vem se mostrando promissor.

O Martin Jetpack já está sendo comercializado para quem quiser compra-lo, porém tecnicamente não é um jetpack (possui hélices). O equipamento é composto por duas turbinas movidas a gasolina e pode carregar até 120 quilos, isso ajuda na parte de segurança já que vem equipado com paraquedas para baixas altitudes que pode ser acionado se alguma coisa sair errada. A sua autonomia também é um ponto forte, podendo voar por até 30 minutos com velocidade máxima de 74km/h. O foco também é que ele seja usado em serviços de emergência, como resgate de pessoas. Assim como outros equipamentos desse tipo a decolagem, voo e aterrissagem é realizado na vertical.

E por enquanto é só pessoal. Sobre Dark Void, se alguém ficou curioso para joga-lo recomendo que antes teste a demo, talvez a sensação de voo o surpreenda e aí sim faça valer a compra. Quanto à desenvolvedora Airtight Games, infelizmente, depois de mais alguns games medianos, ela acabou fechando as portas em 2014. Seu último game foi Murdered: Soul Suspect, que eu também recomendo darem uma olhada. Fico por aqui. Como sempre, críticas e sugestões são bem vindas. Até mais.

Fontes: Kotaku, Rock Paper Shotgun, How Stuff Works, Wikipédia, Mundo Estranho, Hangar 33 e Popular Mechanics