“A questão das Malvinas era uma luta entre dois carecas por um pente” – Jorge Luis Borges, escritor argentino, fevereiro de 1983.

Em 1982, o Reino Unido e a Argentina disputaram militarmente um arquipélago rochoso, gélido, pouco atrativo e pouco habitado no Atlântico Sul. Foi o maior confronto aeronaval desde a Segunda Grande Guerra e teve impacto significativo em ambos os países, assim como nas próprias Malvinas/Falklands.

O Antes…

Para início de conversa, a soberania sobre o arquipélago é um tema espinhoso desde o século XVIII. Logo após a virada do século, a Argentina enviou um navio para as ilhas a fim de proclamar sua soberania, em 1820, e criou um assentamento em 1828.

Todavia, os britânicos, aproveitando-se da crise que minava o governo de Juan Manuel Rosas (1829-52) – sim, aquele mesmo que foi batido pela coalizão formada pelo Império do Brasil e a Banda Oriental do Uruguai na disputa pela hegemonia da região do Rio da Prata – expulsaram os argentinos em 1831-32, estabelecendo sua “própria soberania”, em 1833.

Falkland Islands profile - BBC News

Todas as tentativas dos governos argentinos para resolver a questão esbarraram na intransigência diplomática britânica, apesar de a ONU, em dezembro de 1965, ter sugerido um acordo, uma solução pacífica para o quiprocó.

O que explicaria a insistência argentina em relação a um monte de rochas a muitos quilômetros do seu litoral, no recôndito sul atlântico?

O valor econômico e estratégico dessas ilhas, que estão sob um lençol de petróleo, com boa localização no Atlântico Sul e uma pesca altamente rentável, está bom para você? Ou prefere o número 1 com bacon?

Em 1976, o exército argentino derrubou o governo eleito de Maria Perón e empossou uma junta militar. Direitos humanos foram suprimidos com extrema brutalidade, ao passo que a inflação logo corroeu a economia.

Documentação argentina comprova desaparecimento de brasileiros durante a ditadura – Fórum Paranaense de Resgate da Verdade, Memória e Justiça

Em 1981, o general Leopoldo Galtieri tornou-se o ditador da vez. A restauração da soberania argentina sobre as Malvinas seria uma saída para a crise política, econômica e social: o governo conseguiria popularidade e o povo argentino voltaria sua atenção para um empreendimento externo, o que diminuiria a pressão da oposição sobre a ditadura militar.

O “romântico” Galtieri supôs que teria apoio dos EUA, não só pelos compromissos fixados pelo Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (1947), mas também porque militares argentinos vinham atuando conjuntamente com tropas do Tio Sam em sua política de intervenção na América Central.

A míope ditadura “enxergava” um pouco mais: propostas britânicas para um acordo negociado sobre o futuro das ilhas foram suspensas, após críticas parlamentares em 1980. O Reino Unido anunciou a retirada de sua presença naval no Atlântico Sul e recusou dar aos ilhéus plena cidadania britânica. Para o governo argentino, eram sinais da falta de interesse britânico nas Malvinas.

Em meio a razões estratégicas e a avaliações incorretas, em 19 de março de 1982, um navio de transporte de tropas da marinha argentina levou um grupo de comerciantes de sucata para a remota ilha Geórgia do Sul, uma possessão britânica 1.280km a sudeste das ilhas Malvinas/Falklands. Entre eles encontravam-se fuzileiros navais, que fincaram a bandeira argentina no local.

O Durante

Em 02 de abril, forças da Argentina desembarcaram nas Malvinas/Falklands – a primeira invasão de domínio britânico desde a Segunda Guerra Mundial.

A discrepância na guerra que se avizinhava era enorme: os argentinos se encontravam a pouco menos de 500km de distância das ilhas, ao passo que os britânicos estavam a mais de 12.000km ao norte e tinham apenas uma guarnição de 68 fuzileiros navais – prontos para se render – e um navio patrulha armado com dois canhões de 20mm para proteger o território.

Foi uma vitória inicial arrasadora, valendo-se do princípio de guerra da surpresa, impondo humilhação ao limitado e inexpressivo efetivo britânico presente no arquipélago.

Embora a maioria dos Estados-membros da Organização dos Estados Americanos – OEA – apoiasse as pretensões argentinas, o Conselho de Segurança da ONU manifestou-se contra a ação do governo de Buenos Aires.

Os EUA deram apoio ao Reino Unido, mas consideravam como “impossibilidade militar” uma invasão britânica bem sucedida.

Nas terras da rainha, o ataque provocou uma crise política, e o governo conservador de Margaret Thatcher foi acusado de negligenciar as ilhas e de dar à Argentina sinais incorretos sobre seu futuro.

Para recuperar as ilhas, uma força-tarefa de 30 belonaves, mais embarcações de apoio e de transporte foi organizada. Uma base aérea foi instalada na ilha de Ascensão, no meio do Atlântico, e estabelecida uma zona de exclusão de 370km no entorno das Malvinas/Falklands, dentro da qual todas as embarcações ou aeronaves argentinas seriam atacadas.

Ilhas do Atlântico Sul - histórico e importância geopolítica - Mar Sem Fim

A ilha Geórgia do Sul foi retomada pelos britânicos em 25 de abril. Helicópteros britânicos atingiram o submarino ARA Santa Fé, forçando-o a atracar na ilha.

Bombardeiros Avro Vulcan (guarde este nome!), da Royal Air Force (RAF), atacaram o aeroporto de Stanley – principal cidade das Malvinas/Falklands e base das forças armadas da Argentina na ilha – em 1º de maio. A viagem de 16 horas da ilha de Ascensão requeria que os bombardeiros fossem reabastecidos em pleno voo. Jatos Sea Harrier, decolando do porta aviões HMS Hermes, despejavam bombas de fragmentação sobre Stanley e sobre a pista de Goose Green.

Nenhum dos aeroportos das ilhas podia receber jatos. Assim, caças e outros aviões argentinos tinham que operar a partir do continente, tentando alvejar a força-tarefa que se aproximava.

Enquanto isso, em mar aberto, o submarino nuclear HMS Conqueror afundava o cruzador ARA General Belgrano, em 2 de maio, matando 323 combatentes, sendo que os outros 700 foram resgatados. As perdas neste incidente representaram cerca de metade do total de fatalidades argentinas no conflito.

O ataque foi alvo de críticas, uma vez que a embarcação estava fora da zona de exclusão e rumava para longe das ilhas. Um barco de patrulha também argentino foi alvejado e danificado no mesmo dia. As perdas convenceram a Armada argentina a confinar suas embarcações nos portos pelo resto do conflito.

Dois dias depois, uma aeronave Dassault Super Etendard, da Força Aérea Argentina, atingiu o HMS Sheffield, ferindo-o mortalmente – o impacto provocou um incêndio que matou 20 tripulantes e feriu outros 26; o navio acabou afundando no dia 10 de maio de 1982, quando era rebocado.

Os primeiros desembarques britânicos nas ilhas ocorreram em 14 de maio, por intermédio de uma incursão na ilha Pebble que destruiu na pista 11 aeronaves argentinas. Uma semana depois, 4 mil combatentes desembarcaram perto do estreito de San Carlos, na ilha Malvina Oriental, no lado oposto ao da principal base argentina em Stanley. Raides aéreos afundaram quatro navios britânicos na área.

Os súditos da rainha dirigiram-se para o sul a fim de atacar as tropas argentinas em Goose Green. Depois de dois dias de luta, em 28 de maio, a vitória britânica abriu caminho para Stanley.

Em 11 de junho, as forças britânicas estavam em condições de atacar posições defensivas em Stanley. Dois dias depois, elas capturaram o monte Tumbledown, última linha de defesa em torno da cidade. Na manhã seguinte, 14 de junho, as tropas argentinas renderam-se.

 

O Depois…

O fracasso das Malvinas/Falklands causou a renúncia de Galtieri, poucos dias após a rendição. Além da derrota humilhante, a revelação de abusos e o despreparo das tropas desmoralizaram a Junta Militar argentina. O governo ficou com o general Reynaldo Bignone, que negociou a transição do poder para os civis. Em outubro de 1983, Raúl Alfonsin era eleito presidente.

O conflito deixou uma profunda ferida psicológica e social no país, além de impulsionar o surgimento de grupos de defesa de direitos humanos que denunciaram crimes de tortura e negligência cometidos pelos próprios comandantes contra os recrutas (sim, foram utilizados soldados recém-incorporados no conflito).

O revés militar não anulou as aspirações argentinas; a soberania do arquipélago continua sendo reivindicada.

A conservadora Margaret Thatcher fora eleita em 1979, mas perdera popularidade por problemas econômicos. A vitória na Guerra das Malvinas/Falklands a ajudou a ganhar facilmente a reeleição de 1983 e 1987. O prestígio do Reino Unido cresceu devido à retomada do arquipélago.

O Reino Unido passou a investir fortemente na infraestrutura, defesa e economia do arquipélago, construindo bases militares e desenvolvendo a pesca e o turismo local. Em 2013, o arquipélago realizou um plebiscito em que cerca de 99% da população local votou para manter o status de Território Ultramarino Britânico.

Ilhas Malvinas: aspectos gerais e conflitos políticos

Vale a pena lembrar:  Rojão de Fogo! No dia 03 de junho de 1982, dois caças da Força Aérea Brasileira (FAB) decolaram do Rio de Janeiro para uma missão real de interceptação durante a Guerra das Malvinas/Falklands. “Black Buck” foi o termo utilizado pela Royal Air Force (RAF) para os ataques realizados pelos parrudos bombardeiros Avro Vulcan, operando a partir da Ilha de Ascensão – 7500km do alvo. Cada ofensiva dessa dependia de seis reabastecimentos em voo – seis vezes na ida e uma vez na volta. Comandada pelo capitão Neil McDougall, a missão “Black Buck Six” destruiu um radar argentino mas, na volta, a sonda de reabastecimento do Vulcan apresentou defeito. Os aviões reabastecedores acompanharam o bombardeiro até o limite do espaço aéreo brasileiro e, após verificar a situação de combustível, McDougall decidiu tentar pousar no Rio de Janeiro, dando origem à interceptação da FAB. “Rojão de Fogo” era o código da defesa da FAB para uma abordagem real. Dois F-5 decolaram e interceptaram o Vulcan a 120km da praia. Oito minutos depois, o bombardeiro nuclear pousaria na Base Aérea do Galeão. A tripulação ficaria retida no Brasil até o dia 11 de junho. A aeronave seria devolvida após a garantia de que não mais seria utilizada no conflito. Três dias depois, as forças argentinas se renderiam. O Vulcan XM597 está preservado no National Museum of Flight, em East Fortune, Escócia.

Código Rojão de Fogo: caças brasileiros interceptam bombardeiro inglês

Sugestão de leitura:

ANDERSON, Duncan. The Falklands War: 1982. Oxford: Osprey Publishing, 2002.

Operation Black Buck 1982 cover

BIRD, Andrew D. Operation Black Buck: 1982. Oxford: Osprey Publishing, 2023.

COGGIOLA, Osvaldo. A Outra Guerra do Fim do Mundo: a batalha pelas Malvinas e a América do Sul. Cotia: Ateliê Editorial, 2014.

DALLE, Rafael Diniz Mascarenhas. A Guerra das Ilhas Falklands/Malvinas: quatro décadas de um conflito que ainda não chegou ao fim. São Paulo: Dialética, 2023.

FREMONT-BARNES, Gregory. The Falklands: 1982. Oxford: Osprey Publishing, 2012.

SOUZA, César Augusto Nicodemos de. A Guerra (que foi possível) pelas Falklands/Malvinas. Rio de Janeiro: BiBLIEx, 2013.

VALERIO, Marco Aurélio Gumieri. Ilhas Malvinas – Guerra no Fim do Mundo: A Disputa entre Argentina e Reino Unido à Luz do Direito, da História e da Política Internacional. Curitiba: Juruá, 2017.

Sugestão de vídeo:

Malvinas: o diário de uma guerra

Malvinas dia x dia

Iluminados por el fuego

Malvinas ou Falklands – Caminhos da Reportagem

Um Vulcan no Galeão