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As adolescências do(s) remake(s) de Rebelde

por em 25/02/2022 em Ciência, Entretenimento, Notícias | Nenhum comentário

As adolescências do(s) remake(s) de Rebelde

É começar a falar de adolescência que os ânimos se exaltam, a paciência encurta e chovem estereótipos! Percebe-se uma certa repulsa dessa época por quem já a vivenciou, referindo-se a essa fase como combativa demais, excessivamente questionadora e sentimental, além de muitas vezes se assumirem – e julgarem outros – como rebeldes sem causa ou “aborrecentes”. Mas de onde saiu a ideia que todo adolescente se rebela?

Quando estava na faculdade, tive a oportunidade de estagiar com adolescentes e desde então me pergunto frequentemente porque tanto deboche e desrespeito com essa fase da vida tão incompreendida. Veja bem, não estou dizendo que eles são incriticáveis e nunca erram, mas sim que poderiam ser melhor acolhidos, de modo semelhante ao que fazemos – ou tentamos – com as crianças.

Da mesma forma que atribuímos o choro excessivo dos pequenos à falta de repertório comportamental para expressar o que sentem, dizemos que o adolescente é rebelde e conflituoso por causa dos “hormônios da puberdade”. Porém, apesar de terem um fundo de verdade, ambas as informações estão distorcidas: tanto por não sabermos o que é excesso de choro – ninguém nunca mediu ou definiu parâmetro para saber o que seria uma quantidade normal – quanto porque a puberdade e suas alterações hormonais são parte da adolescência, e não toda ela.

Mia Colucci e sua frase mais icônica

De onde saiu tanta rebeldia?

Ao analisarmos obras ficcionais é comum encontrar certos padrões de personagens, um dos que mais se repete é o do adolescente que não segue regras. Baderneiro, é o pesadelo de qualquer cuidador, sendo geralmente quem se envolve em encrenca por ser irresponsável e ingênuo.

Pensando no quanto a ficção pode nos ajudar a entender como concebemos a adolescência e sua suposta rebeldia, vamos fazer um pequeno recorte da novela Rebelde e seu remake na Netflix

Rebelde, novela mexicana produzida pela Televisa e exibida no Brasil pelo SBT entre 2004 e 2006, é um remake da novela argentina Rebelde Way, de 2002. A franquia já recebeu versões indiana, portuguesa, chilena e brasileira, sendo a mexicana a que obteve maior expressão a nível mundial, tendo dado origem até a uma banda que encerrou as atividades em 2009.

Bandas das versões argentina, mexicana e brasileira da novela

Como toda novela que tem como público-alvo a juventude, essa se passa em uma escola e aborda conteúdos como relações familiares, amizades, sexualidade e uso de substâncias. Em Rebelde, o cenário é composto por um colégio interno de ensino médio voltado aos filhos dos mais ricos e poderosos do país, o Elite Way School (EWS).

Considerada uma escola exclusivíssima, que só atende a nata da sociedade, o EWS tem uma filosofia rígida, pautada na disciplina, excelência acadêmica e correção dos “espíritos rebeldes”. Esses valores são observados na prática com as proibições de manifestações artísticas dos discentes, protestos e outros tipos de mobilizações do corpo escolar.

O EWS possui ainda um acordo governamental pelo qual disponibiliza bolsas de estudo para estudantes de baixa renda que forem aprovados no exame admissional. Mas a permanência desses na escola é posta à prova por um grupo autodenominado “A Seita”, que cria situações constrangedoras aos bolsistas, a fim de que sejam expulsos e o padrão elitista do colégio se mantenha.

Os 215 episódios da primeira temporada iniciam com a narração de uma frase indicando a temática que será abordada, trazendo em ordem decrescente os seguintes: autoconhecimento, amor, família, amizade, amadurecimento, medo, espiritualidade, sexo, aparência, relações escolares, datas especiais e vingança.

Ainda na trama, 6 jovens dão origem à banda RBD, composta por: Diego Bustamente, filho de um político rico; Mia Colucci, filha de um empresário; Roberta Pardo, filha de uma cantora famosa; Giovanni Mendez, filho de um casal de novos ricos; Miguel Arango e Lupita Fernandez, bolsistas da escola.

Quem é rebelde?

De acordo com a música tema da novela, se é rebelde quando não segue os demais, frase corroborada pelo dicionário Michaelis, que considera rebelde quem não obedece a alguma autoridade legítima, trazendo como sinônimos os termos indisciplinado, revoltado e indomesticável. E esses significados não são à toa, apresentam como base estudos que abordam essas características como inatas aos jovens. É como se um dia o agora adolescente acordasse e resolvesse que ia ser sempre “do contra”, se opondo a tudo e qualquer coisa sem nenhum critério.

Porém, ainda existem alguns outros pesquisadores que, na tentativa de fazer essa ideia parecer mais palatável, associam a rebeldia da juventude com o papel social desempenhado pelos jovens – ora tratados como crianças, ora como adultos. Estes seriam combativos e cheios de opiniões justamente em uma tentativa de se fazer ouvir, definir seus próprios valores e mostrar que estão crescendo.

A novela mexicana segue justamente esse tipo de premissa, descrevendo a rebeldia dos estudantes como a desobediência às regras do EWS. Uma pesquisa (link no final do post) fez um levantamento interessante e contabilizou 88 violações das regras escolares nos 215 episódios da primeira temporada. Teve de tudo: fuga do colégio interno, furto, uso de álcool e drogas, brigas, protestos e muitos namoros.

Mas, apesar das violações às regras da escola – e a alguns artigos do código penal –, ser rebelde é retratado como algo positivo, justamente por questionar e problematizar os excessos cometidos pela diretoria da instituição, como a proibição de manifestações artísticas.

Um ponto curioso são as noções de ética e valores dos estudantes, que frequentemente apontam a incoerência entre discurso e prática dos adultos. Repudiam a discriminação por classe social feita pela Seita – ajudando inclusive a desmontar o grupo –, apoiam a permanência dos bolsistas, denunciam situações de assédio, auxiliam colegas a lidar com familiares tóxicos e ainda incentivam uns aos outros para seguirem seus sonhos profissionais, ainda que rompam com tradições e expectativas familiares.

Percebemos aqui então o desenvolvimento humano através da experimentação. São jovens que, ao passarem por experiências que consideram injustas, manifestam seu desconforto na tentativa de modificar o contexto vivido. E sabe o que é mais curioso? Fomos nós quem os ensinou a fazer isso – ainda na infância.

Quem rebela os rebeldes?

A essa altura do texto talvez você já imagine a resposta dessa pergunta, mas a coisa é mais complexa do que parece. Ao falar de adolescência, remetemos sua origem ao verbo latino adolescere, cujo significado fala do crescimento rumo à maturidade, algo bem semelhante ao que é postulado hoje.

E apesar da multiplicidade de concepções sobre a adolescência, elas compartilham um ponto comum: o entendimento dela como uma ponte, um meio para atingir seu ideal, o adulto. Desde a perspectiva mais biologicista, até a mais histórico-cultural, a finalidade do adolescente é chegar na vida adulta. Não causa estranhamento para vocês?

Nunca nos referimos aos bebês como seres se transformando em crianças. Da mesma forma, o adulto não atinge seu apogeu ao se tornar idoso. Então meio que acabou sobrando para os adolescentes…

Com essa compreensão de que o alvo do adolescente é – ou deveria ser – se tornar adulto, fica fácil caracterizar vários comportamentos como inapropriados ou subversivos, afinal eles seriam uma bomba de hormônios que precisaria ser domada, controlada para atender aos requisitos do que se espera de um adulto.

Dessa forma, a adolescência vira sinônimo de incompletude, trazendo consigo o imperativo de descobrir logo quem se é, adotando valores identitários maduros que em tese vão garantir um bom futuro. Mas alguém se importa com o HOJE da vida do adolescente?

Incontáveis vezes eles se deparam com situações complexas, que podem ultrapassar os limites daquilo que conseguem lidar. Situações de violência física, sexual, psicológica, bullying, crescimento quase abrupto das responsabilidades, pressões escolares sobre o futuro profissional acontecem enquanto sua rede de apoio diminui drasticamente.

Esses fatores criam um cenário onde comportamentos problemáticos expressam, além da  falta de repertório comportamental de enfrentamento, a fragilidade emocional momentânea e a busca disfuncional por acolhimento. Ao conversar com esses jovens, é comum ouvir comentários como “ninguém me escuta” ou “ninguém me entende, só dizem que vai passar” e na falta de educação emocional para promover uma cultura de criação de vínculos, os isolamos e ainda reclamamos quando não nos contam algo.

O mito do rebelde sem causa

Voltando à ficção, em 2022 o EWS reaparece de cara nova. Agora a escola musical é uma das principais formas de ingresso no mercado fonográfico, atraindo diversos jovens com o sonho de viver da música. Seu caráter elitista permanece, mas dessa vez os antes insurgentes membros do RBD agora são fonte de inspiração, tendo até um espaço dedicado a homenageá-los na instituição.

O grupo é visto pelos estudantes como um modelo de talento e persistência para alcançar os sonhos, enquanto a escola os vê como um ponto fora da curva que acabou gerando ainda mais lucros ao EWS, enterrando todos os escândalos associados a isso. Mas os integrantes do RBD só se tornam lendas na instituição justamente quando viram adultos.

Apesar do rebranding forçado que o colégio precisou fazer, aparentando estar mais tolerante e apoiador das artes, certas coisas não mudaram: a rigidez no trato com os estudantes, o estímulo a competitividade e o pouco diálogo quanto às necessidades dos discentes – ainda que a diretora atual tenha sido egressa da instituição.

Continuam sendo abordados problemas sociais que fazem parte do cotidiano juvenil, agora acrescidos de temas como gordofobia, LGBTfobia, xenofobia e consentimento. Fica óbvio que os problemas do lugar não estavam relacionados a apenas privar os estudantes de se expressarem artisticamente, mas sim à falta de um diálogo aberto e honesto com os jovens – não vou detalhar mais para evitar spoilers.

Temos então um conflito: ao mesmo tempo em que elogiamos os jovens por sua capacidade de inovar, de defender as causas em que acreditam e buscar mudanças sociais, os obrigamos a aceitar normas e tradições sem nem ao menos lhes dizer o porquê. É como se eles fossem passarinhos presos em gaiolas que, ao serem soltos não conseguem voar, pois tiveram as asas cortadas.

 

REFERÊNCIAS

BACCEGA, M. A.; BUDAG, F. E.; RIBEIRO, L. M. Rebelde(s): consumo e valores nas telenovelas brasileira e mexicana. Comunicação & Educação[S. l.], v. 18, n. 1, p. 95-104, 2013.. Disponível aqui.

BERTOL, C. E.; SOUZA, M. de. Transgressões e adolescência: individualismo, autonomia e representações identitárias. Psicologia: Ciência e Profissão [online]. 2010, v. 30, n. 4 Disponível aqui.

MESQUITA, A. M. Rebelde Mexicano: A relação do fã com o uniforme do Elite Way School. 2021. 72 f. Monografia (Graduação em Design-Moda)-Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2021. Disponível aqui.

PAPALIA, D. E.; FELDMAN, R. D. Desenvolvimento humano. 12ª ed. Porto Alegre: Artmed Editora, 2013.

REBELLO, B. M. F. Da novela à escola: rebeldes em ação. Orientador: Cleide Rita Silvério de Almeida. 2008. Dissertação (Mestrado em educação) – Universidade Nove de julho, [S. l.], 2008. Disponível aqui.

SANTOS, T. A. dos. Educação e comunicação de massa: ideologia subjacente à novela Rebelde. 2014. Trabalho de conclusão de curso (Licenciatura em Pedagogia) – Universidade de Brasília, 2014. Disponível aqui.

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