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A escrita chinesa

por em 20/06/2022 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

A escrita chinesa

Olá, leitoras e leitores.

Recentemente eu comecei um curso para aprender o básico do Mandarim, a principal língua falada na China. É um idioma que assusta, mas na verdade é fascinante e não tão complicado assim. Pensei em trazer algumas curiosidades que descobri. Nesse texto vou falar da escrita e de sua história.

Sobre o meu curso

Antes de falar da língua em si, acho interessante falar do curso que chegou até a mim, não pra contar sobre a minha experiência, mas porque esse curso tem um significado político muito interessante.

O curso foi oferecido dentro de uma parceria da Universidade de Sichuan, uma universidade chinesa, com o Núcleo de Relações Internacionais do Estado de Mato Grosso (NURIMAT).

Dentro disso, alunos, técnicos e professores das universidades federais e estadual e do instituto federal mato-grossenses puderam fazer o curso gratuitamente de forma online com professores da universidade chinesa.

Essa parceria não tem apenas fins acadêmicos, mas interesses políticos. A China é o principal importador de produtos do Mato Grosso, portanto, temos uma exemplo bem interessante de soft power para estreitar as relações paradiplomáticas entre esses dois agentes.

Escrita chinesa

A escrita chinesa ou  汉字 (lê-se hànzì, mas falo sobre essa forma de representação em outro texto) é uma escrita por logogramas. Isso significa que, diferente da nossa escrita, em que os símbolos representam sons, no hànzì, os símbolos representam morfemas, ou unidades de significados.

Para exemplificar, dentro da escrita chinesa temos alguns tipos de logogramas que vamos ver a seguir.

Pictogramas e sua história

Nos pictogramas, o símbolo imita a coisa que ele quer representar. Porém isso pode ser um pouco difícil de se enxergar, porque as representações foram sendo simplificadas com o passar do tempo.

Capa do livro “China: Empire of the living symbols” de Cecilia Lindovist. A imagem da capa tenta mostrar a representação dos símbolos 山 (shān), que significa “montanha” e 水 (shuǐ), que significa “água”.

Esse processo de simplificação se deu ao longo de muito tempo. As primeiras aparições dos pictogramas que se conhecem datam do fim do 2º milênio antes da era comum (AEC) e aparecem inscritas em ossos de animais e cascos de tartarugas.

Os ancestrais dos caracteres chineses inscritos no que acredito ser um pedaço de casca de tartaruga.

É possível acompanhar as transformações desses caracteres em inscrições mais recentes, como em objetos de bronze do final da dinastia Shang até as dinastias Qin e Han (por volta de 1300 a 219 AEC).

Espécie de bacia de bronze com caracteres chineses antigos. Se observar bem, é possível perceber que já não há tanto o aspecto de desenhos como nos de casco de tartaruga da imagem anterior.

Para terem uma noção melhor das mudanças dos pictogramas, seguem as transformações da palavra peixe.

Formação da palavra peixe 鱼 (yú). A primeira imagem é a foto de um peixe, acompanhada por um desenho representativo encontrado em ossos antigos em que se pode identificar as barbatanas e a cabeça do peixe, e mais 5 imagens, cada uma mais abstrata que a outra, até chegar no atual símbolo 鱼.

As transformações podem ser mais ou menos intuitivas, como nessa do pássaro.

Formação da palavra pássaro 鸟 (niǎo). Na primeira imagem é possível identificar, nos traços, a cabeça com o bico, o corpo e as patas do pássaro. A imagem vai mudando, as vezes de forma não tão intuitiva, até formar 鸟

Ideogramas

No caso dos ideogramas, o símbolo representa uma ideia, o que pode ser obtido através dos pictogramas. Um que eu acho bem interessante é a palavra raiz.

Como a raiz é a parte de baixo de uma árvore. Então, para escrever essa palavra, primeiro você deve saber que árvore é representada pelo pictograma 木 (). Como a raiz é a parte de baixo da árvore, sua representação é um traço na parte de baixo desse símbolo, 本 (lê-se běn). É como se a pessoa estivesse dizendo: “é essa parte aqui da árvore”.

Ainda existem os ideogramas compostos, como 林 (lín), que são duas árvores e representam bosque.

Ideogramas com indicações fonéticas

A maior parte dos caracteres chineses são uma combinação de ideogramas, ou seja, de representações de sentido, e componentes fonéticos, representações de som. Afinal, é um pouco difícil representar a maioria das nossas palavras por desenhos.

É o caso da palavra mãe, 妈 (). Se olharem para o símbolo, verão que ele tem duas partes separadas.

A primeira dessas partes vem de 女 ““, que significa mulher, uma palavra que tem uma ligação semântica com mãe. A segunda parte vem de cavalo.

Apesar de o cavalo não ter relação de sentido com mãe, sua pronúncia é muito parecida, mudando apenas o tom 马 (). Eu volto no tom em outro texto, mas, pra não ficar solto, mãe tem uma pronúncia aguda mantendo o tom por um tempo, enquanto cavalo tem uma pronúncia que começa um pouco menos aguda que mãe, desce o tom de voz e depois sobe novamente.

Representação de sons e o meu nome em chinês

Por incrível que pareça, também existem cognatos em chinês. Eles podem ser palavras que ou vieram da china para o português, como chá 茶 (lê-se chá, mas com o ch falado como tchau sem o u). Porém, geralmente, são palavras que chegaram na china de fora e eles só adaptaram o som a alguma representação semelhante.

Um exemplo é a palavra café 咖啡, que se lê kāfēi (prolongando o “a” e o “e”). Outro legal é coca-cola Kěkǒu  kělè, que é representado por 可口可乐. Esses símbolos foram escolhidos porque o som é parecido com o inglês, mas também por uma jogada de marketing muito boa. Se você jogar os símbolos no google tradutor, ele traduzirá como coca-cola, porém, separados, eles significam “saborosa diversão”.

Ah, isso vale pra nomes de pessoas também. Meu nome em chinês é 安德鲁, ān dé lǔ. Se jogar no google inteiro, vai receber André, mas se separar os caracteres, cada um tem um significado bem diferente.

A abrangência da escrita chinesa

A china é um país enorme no qual são falados 81 idiomas diferentes. Os mais famosos, o mandarim (que eu usei como base para a transcrição das pronúncias) e o cantonês são ininteligíveis entre si.

Mas o curioso é que, como a escrita chinesa é uma representação de conceitos, e não de sons, a mesma escrita pode ser lida e compreendida da mesma forma por um falante de mandarim e por um falante de cantonês.

Isso significa que uma pessoa que fala só mandarim poderia se comunicar com uma que só sabe cantonês tranquilamente pela escrita ou por mensagens de texto, ou que um livro ou documento escrito com a escrita chinesa pode ser lido pelos dois.

Claro, cada um vai ler as palavras com uma pronúncia totalmente diferente, mas ambos vão entender o que está escrito.

A escrita chinesa fora da China

A escrita chinesa também é utilizada em outros países, como o Japão, o Vietnã e a Coréia.

Na verdade, nesses casos o intercâmbio não é tão simples quanto dentro dos idiomas da china.

No Japão, por exemplo, apesar de existirem palavras que coincidem, como 水, que representa água nos dois idiomas, também tem aquelas que mudam. Além disso, pelo pouco que conheço de japonês, as estruturas gramaticas parecem bem diferentes.

Já na Coréia a escrita chinesa se tornou algo mais histórico, já que para facilitar a alfabetização, o rei Sejong criou, em 1443, o Hangul, uma forma de escrita mais simplificada.

Chinês tradicional e simplificado

Outra questão relacionada à escrita chinesa dentro e fora da China é a sua simplificação que ocorreu a partir de 1956 para facilitar a alfabetização.

Por ser algo muito recente, essa mudança aconteceu apenas na China continental, mas não em outros lugares que adotam a escrita chinesa, como Taiwan ou os territórios que foram colônias europeias por mais tempo, como Macau Hong Kong.

Existe uma frase que os chineses usam para ilustrar essa diferença:

A mesma frase “Tartaruga melancólica de Taiwan” escrita, em cima, no chinês simplificado e, em baixo, no chinês tradicional. Nota-se que alguns dos símbolos têm um número consideravelmente menor de traços no chinês simplificado.

Essa mudança é um motivo de disputas. Os que preferem a escrita antiga falam que a escrita simplificada abandona a história e a tradição chinesa. Por outro lado, o governo chinês aponta os resultados na facilitação da alfabetização e afirma que a escrita passou por várias mudanças ao longo dos anos, portanto uma nova mudança não seria abandonar a história, que ainda pode ser estudada e mantida.

Claro que essa disputa é, também, política, e representa interesses conflitantes entre China e Taiwan, que não reconhece a República Popular da China; ou entre China e Hong Kong, que luta para manter sua autonomia em relação ao governo chinês.

Finalizando

Espero que tenham gostado desse primeiro texto sobre a escrita chinesa. Pretendo fazer outros textos com algumas curiosidades do que aprendi sobre mandarim, pra mostrar como não é tão difícil quanto parece, então até a próxima.

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