Pages Menu
TwitterRssFacebook
Categories Menu

WestWorld bugou não apenas a sua cabeça

por em 19/01/2017 em Ciência | 12 comentários

WestWorld bugou não apenas a sua cabeça

Alguém disse por aí que a melhor ficção é aquela que fala da realidade. E quando o assunto é psicologia humana essa é uma das maiores qualidades de Westworld. Ao contrário do que possa parecer aos olhos desavisados pode parecer que a série é sobre avanços tecnológicos que hoje ainda estão apenas em nossos sonhos ou em estágios muito embrionários. Sim, a série tem muito disso, mas isso é o pano de fundo para explorar temas muito mais profundos, um pretexto eu diria. Essas questões orbitam especialmente entre moral, ética e psicologia humana. Como nos dois primeiros sou apenas um leigo curioso, vou me ater ao terceiro.

[ATENÇÃO ESSE TEXTO CONTÉM SPOILERS]

Dolores em diversos momentos é confrontada com informações que não fazem sentido pra ela, informações que não casam com a realidade que ela vive. Nesses momentos a atriz Evan Rachel Wood consegue muito bem expressar a mistura de perplexidade e desconforto que isso gera. Essa bugada tem nome, chama-se Dissonância Cognitiva. Esse foi um conceito introduzido inicialmente por Leon Festinger na década de cinquenta (Festinger, 1957).

Nós evitamos por natureza entrar em Dissonância Cognitiva pois ela causa um desconforto. Buscamos uma coerência entre as nossas representações mentais do mundo e o mundo em si. As nossas cognições podem estabelecer três tipos de relação:

Consonante: existe uma coerência entre a representação e o fato (vivo em uma cidadezinha do meio oeste americano, olho pros lados e vejo feno, carruagens, etc.)

Irrelevante: não existe relação entre as duas coisas (sou um Ser Humano e meu cavalo é marrom)

Dissonante: existe contradição entre a representação e o fato (vivo no início do século XIX e acho uma foto colorida de um lugar que é impossível de existir)

Segundo Festinger, para lidar com esse desconforto lançamos mão de quatro principais estratégias:

– Mudar o comportamento ou cognição (encontro imagens e objetos que parecem não pertencer a esse mundo, os guardo e investigo sua origem, como Maeve fez);

– Justificar o comportamento ou cognição por mudar o pensamento sobre o assunto (menino me diz que eu não sou real, penso “essas crianças dizem cada coisa”);

– Justificar o comportamento ou cognição por adicionar novas cognições (tem coisas estranhas que acontecem aqui, mas a vida é assim, estranha às vezes);

– Ignorar ou negar qualquer informação que entre em conflito com as cognições (vejo a foto que não faz menor sentido e a ignoro);

Além de causar problemas em WestWorld isso também causa problemas aqui no RealWorld. Quando vamos discutir uma ideia com alguém e esse alguém tem uma opinião diferente da nossa, muito provavelmente entraremos em dissonância cognitiva. Especialmente se a outra pessoa começa a argumentar melhor que nós e tem bons pontos. Aquele desconforto de admitir que estamos equivocados e o ideal seria dar o braço a torcer também é Dissonância Cognitiva.

O Ser Humano é capaz de fazer ginásticas mentais para não entrar em dissonância cognitiva. Exemplos podem ir desde profecias não cumpridas à incriminação de políticos. Vocês lembram que era para o mundo ter acabado em 2012? Depois que, obviamente, ele não acabou diversos argumentos ad hoc surgiram para justificar a falha na previsão, como novas interpretações da profecia, supostos erros nas interpretações anteriores, etc. Ou seja, qualquer coisa menos: “É, acho que o que eu acreditava piamente por tanto tempo e que organizei minha vida para me preparar pra isso não é verdade”.

Esse efeito também pode ser verificado em coisas menos catastróficas como a política (ou não). Em estudo publicado na American Economic Journal: Applied Economics (Mullainathan & Washington, 2009) os pesquisadores demonstraram que votar em um candidato automaticamente torna as futuras opiniões sobre ele mais positivas. Ou seja, se você votar no candidato X seu cérebro já está enviesado (mas não 100% determinado) a tecer comentários e a ter percepções mais favoráveis do que se não tivesse votado nele. Assim evitamos de “dar o braço a torcer” cognitivamente falando.

Podemos ver que o efeito identificado por Festinger interfere diariamente em diversas áreas da nossa vida e em diversas decisões que tomamos. Mas ao contrário do que alguns fatalistas possam afirmar, tomar conhecimento dessa característica nossa nos torna mais aptos a vencê-la e tomar decisões melhores. Vença sua dissonância e mude de opinião, ouça argumentos contrários e permaneça na busca da melhor alternativa!

 

A ideia aqui é iniciar uma série de textos sobre a psicologia de WestWorld, se for interessante, continuarei com outros temas como consciência, natureza humana, entre outros.

 

REFERÊNCIAS:

Festinger, L. (1957). Cognitive dissonance theory. 1989) Primary Prevention of HIV/AIDS: Psychological Approaches. Newbury Park, California, Sage Publications.

Mullainathan, S., & Washington, E. (2009). Sticking with your vote: Cognitive dissonance and political attitudes. American Economic Journal: Applied Economics1(1), 86-111.

%d blogueiros gostam disto: