vida besta - 2

É sexta-feira. Você sai do trabalho com a sensação de que está fugindo de um presídio e segue em direção à Avenida Paulista. Lá você se sente em casa, no meio de todas aquelas pessoas estranhas e distantes e cercado pelo ruído caótico do trânsito que segue apressado e sem destino. Você pensa “hoje não vou exagerar, não vou beber demais e não vou fazer nenhuma besteira”. É aniversário de uma amiga sua e você encontra várias pessoas de quem gosta e de quem sentia muita saudade mas não havia percebido até aquele momento.

Você está se divertindo, comendo e bebendo, contando novidades, ouvindo histórias engraçadas e falando sobre diversos assuntos. Ouve sobre um longo relacionamento que mais uma vez quase acabou por causa de ciúmes, e uma história sobre uma amiga que releva toda as pilantrices e sacanagens do noivo porque pretende casar com ele por dinheiro. Você se sente bem, a noite está agradável e tranquila quando alguém que você não esperava entra no bar e senta ao seu lado. Você gosta dessa pessoa. Se apaixonou por ela desde o dia em que se conheceram, mas, como ela não sentia o mesmo por você, acabaram se tornando apenas amigos e você aceitou isso como alguém aceita um prêmio de consolação. Passado um tempo, devido a sua natureza teimosa e turbulenta e motivado por uma série de eventos que o deixaram mais confiante e menos apegado, você declarou a ela seus sentimentos, de uma maneira descarada e casual e, como já era esperado, não foi correspondido. Você levou isso numa boa mas percebeu que algo dentro de você mudou e acabou esquecendo a coisa toda.

Você conversa com ela displicentemente e finge que a presença dessa garota não afeta cada molécula do seu corpo. Você fica nervoso, acende um cigarro, pede mais um chopp e faz mais um rasgo na bolacha de papelão embaixo do seu copo para não perder a conta de quantos já tomou. Ela levanta para ir ao banheiro e você a observa se afastando, seus quadris balançando e seu cabelo castanho e liso ondulando como numa propaganda exageradamente produzida de condicionador. Quando ela volta, senta numa cadeira afastada da sua e você se sente um merda depois de perceber a cara triste que fez ao ver isso acontecer. Olha para seu copo vazio. Pede mais um chopp e faz mais um rasgo na bolacha encharcada embaixo do seu copo. Volta a conversar com seus amigos, esquece um pouco que ela está lá e volta a se divertir. Ela senta novamente perto de você. Seu amigo levanta para ir embora e convida todo mundo para ir ao forró. Você odeia forró. Não gosta do público que frequenta um forró, não gosta da música e definitivamente não sabe dançar. Ela diz que vai e te convida para ir também. Você, que é uma pessoa não muito estúpida e bastante sincera, diz a ela que odeia forró, que não gosta da música e que não sabe dançar. Ela diz que está fazendo aula de dança e que gostaria de ir. Diz “Vamos bailar?”. Você pede mais um chopp, faz o oitavo rasgo no círculo de papelão e começa a considerar a possibilidade de ir a um baile de forró.

Meia hora depois seu amigo liga, dizendo que vai passar no bar para pegar as garotas e todos irem ao forró. Pede para você avisá-las Você passa o recado e ela insiste que você vá. Você então assume sua atitude sincera e brutal e diz a ela que só iria num forró se ela fosse. Ela não entende – ou finge não entender- e você deixa sua intenção ainda mais clara. Diz que só iria com ela se fosse para beijá-la no meio do salão. Ela ri, fica acanhada e fala seu nome de um modo carinhoso. Aquele modo que você sabe que ela só fala quando está sendo educada o bastante para não te dar um fora explícito. Você não liga. Pergunta porque ela não acredita que você realmente gosta dela. Ela diz que sabe bem o que você quer, que você gosta dela do jeito que gosta de todas as outras de quem você sempre falou. Você decide apostar tudo e conta que já chorou por causa dela duas vezes. É mentira, foram no mínimo quatro. Conta que quando ela vai embora você termina a noite com o coração partido. Ela diz, rindo de um modo diferente e mais reservado, que seu coração é enorme e tem lugar para todas as garotas com quem você sai. Você diz que ela não te conhece e pensa, mas não diz, que seu coração é vazio e está ali, frio e cinzento, só esperando por ela. Percebe então, pela primeira vez, como tem receio de se envolver com alguém novamente. Você está lá, atrapalhado com esse pensamento novo quando ela te abraça forte e fica abraçada durante um longo tempo e você pensa que o momento do beijo está se aproximando. Ela se afasta e te olha de uma maneira terna e amorosa. Você pergunta porque ela não acredita que você está falando sério e ela diz, com um olhar distante, que agora está começando a acreditar e te dá um beijo no rosto, um beijo demorado, daqueles que você sabe que quando terminam, vêm seguido por um beijo na boca. Você vê uma garota sentada em outra mesa assistindo a tudo e a encara. Ela te encara de volta com um olhar firme e você questiona a sinceridade dos seus sentimentos. O beijo no rosto termina, o beijo na boca não acontece. Ela pergunta se você não quer mesmo ir ao forró. Você diz que ela sabe porque você iria. Ela ri e diz que quer que você vá para dançar com ela. Você a lembra que não sabe dançar e ela diz que vai te ensinar. Você diz que não quer ir só para dançar e ela diz que está chamando você para dançar. Você pensa e diz que não, pois sabe que vai novamente terminar a noite com o coração partido. Ela dá de ombros, se despede e vai embora.

Seu celular toca e um amigo o convida para ir à uma casa noturna chamada Inferno. Fica perto do bar onde você está e você decide que precisa se distrair depois de toda essa confusão. Pede mais um chopp, faz mais um rasgo no papelão, fuma mais um cigarro, paga a conta e segue rumo ao Inferno.

Você desce a rua Bela Cintra em direção à rua Augusta com uma sensação estranha apertando seu peito. Um sentimento de vazio, como se tivesse desperdiçado uma oportunidade. Enquanto passa pelos puteiros dizendo “não, obrigado” a todos os porteiros que te convidam para entrar e conhecer a casa, você repassa mentalmente os diálogos que teve com ela. Tenta achar algum sentido em suas palavras. Alguma mensagem subliminar, alguma intenção disfarçada. Ela disse que queria apenas dançar, mas ao mesmo tempo disse que começava a acreditar que você realmente estava falando sério. E você estava! Você tenta chegar a alguma conclusão clara do que aconteceu. O longo abraço, o beijo demorado no rosto, o olhar distante. Você lembra da garota sentada na outra mesa olhando para você e reflete se naquele momento você não se distraiu e perdeu a chance de beijá-la, mas afasta esse pensamento, tentando ficar concentrado na busca de alguma revelação que possa surgir de todos esses acontecimentos.

Você pára na esquina da rua Augusta e fica pensando nisso quando ouve alguém chamar seu nome, olha em volta e não vê ninguém. Ouve novamente, agora mais nítido, mas não vê ninguém conhecido e começa a descer a rua. Passa por prostitutas, bêbados, mendigos, hordas de emos sentados na calçada, até que chega à porta do Inferno, onde a fila é enorme e não parece se mexer. Acende um cigarro e pensa que ela deve estar dançando com alguém nesse exato momento. Um mendigo pára na sua frente e começa a explicar que está passando por um momento de dificuldade e pergunta se você não tem um trocado para ajudá-lo a comprar uma bebida. Você pensa que todos têm problemas para resolver. Todos estão passando por algum tipo de dificuldade. Diz que não tem nada e o mendigo vai embora, agradecendo sinceramente pela sua atenção. Você então é arrebatado por uma súbita onda da cansaço e pensa que nenhuma droga criada pelo homem ou pela natureza é mais entorpecente do que um coração confuso. Liga para seu amigo que está no Inferno e diz que vai para casa porque a fila está muito grande e você está cansado, e então sobe a rua com passos rápidos e determinados a chegar até seu carro, que está num estacionamento atrás do Conjunto Nacional, e ir o mais rápido possível até o forró.

No caminho, antecipando como será o momento em que você vai encontrá-la, pensa que esse gesto impulsivo e sincero é uma prova concreta dos seus sentimentos por ela. Você está confiante. Acende um cigarro e dirige rápido pela avenida Rebouças até entrar na Faria Lima. Faz o retorno e pára o carro no estacionamento ao lado do lugar chamado Grito da Ema. Os nomes dos lugares, você pensa, estão cada vez mais estranhos.

Dentro da casa você se depara com um grande salão lotado de gente e percebe que não pensou em como faria para encontrá-la ali dentro. Sente um princípio de desespero ao pensar na possibilidade de passar a noite inteira perambulando sem conseguir encontrá-la. Até que ela surge na sua frente. De início ela não o vê e você caminha em sua direção. Seus olhos cruzam com os dela e ela abre um sorriso enorme. Você a abraça e diz em seu ouvido “agora você acredita em mim?”. Ela diz que sim, rindo e te puxando para fora do salão. Você encontra seu amigo, que te lança um olhar de cumplicidade e diz “sabia que você viria”. Você responde que existem apenas duas coisas nesse mundo que fazem um homem percorrer grandes distâncias: mulher e dinheiro. Ele concorda e te entrega uma cerveja. Todos fumam cigarros e bebem cervejas e voltam para dentro do salão. Ela puxa você para um canto e diz que vai te ensinar a dançar. Te mostra como é fácil, que são só dois passos pra lá, dois passos pra cá. Você acha fácil e começa a dançar. Não é fácil. Você se sente estúpido e descoordenado. Tenta se convencer de que ninguém está olhando, mesmo percebendo que sim, algumas pessoas estão prestando atenção em vocês dois. Mas você se concentra no lado bom da coisa: seu rosto mergulhado nos cabelos dela, aquele perfume maravilhoso invadindo seus pulmões, o corpo dela colado ao seu, as coxas dela se esfregando nas suas enquanto ela rebola com o ritmo da música. Você pensa que aquilo tudo está valendo a pena. Depois de algumas músicas ela pára de dançar e toma mais uma cerveja. Você compra outra cerveja e sai para fumar outro cigarro. Percebe que, apesar haver outras mulheres, seu interesse está focado e elas passam despercebidas. Você volta para o salão e ela está dançando com seu amigo. Ele dança muito bem e você se sente inadequado, fora do seu lugar. O sentimento de confiança que você tinha até agora começa a se dissipar vagarosamente.

Ela vê que você voltou e te puxa para dançar. Diz que você aprende muito rápido, que está sabendo “conduzir a parceira direitinho”. Você se empolga novamente e diz que só ela mesmo para fazer você dançar forró. Ela diz que existe um momento na dança onde você pode fazer o que quiser com ela. Você se anima e pergunta maliciosamente “o que eu quiser?” e ela responde que sim, que você pode girá-la ou puxá-la de volta, mudar a direção dos passos e tudo mais. Você diz que isso não tem graça e que se for para fazer o que quiser com ela, prefere beijá-la. Ela ri e dá tapinhas de leve nas suas costas. Você pára de dançar e a encara. Conta pra ela, olhando profundamente em seus olhos, como se sentiu mal quando ela foi embora. Como subiu a rua Augusta praticamente correndo para pegar o carro e ir encontrá-la. Como aquele era o tipo de lugar que você nunca iria, se não fosse para estar com ela. E diz como odeia dançar, mas que vale a pena passar por isso só para poder ficar abraçado com ela, sentindo seu perfume e o calor do seu corpo. Ela sorri aquele sorriso que você não queria ver e dá tapinhas de leve no seu peito. E diz no seu ouvido “eu te falei que queria que você viesse aqui pra dançar comigo. Só pra dançar.” com aquele tom de quem se absolve de alguma acusação criminosa. Você a abraça e diz que não está cobrando nada, mas que precisava falar aquilo, e sente como se uma faca gelada tivesse atravessado seu corpo. Seu amigo chega animado e puxa os dois para dançar. Não tem idéia do que está acontecendo. Você fica mais uns vinte minutos. Não quer parecer dramático demais e ir embora antes de todos, mas se sente destruído. Todos a sua volta parecem felizes. E todos parecem dançar muito bem.

Você acompanha ela e seu amigo até o carro dele, pensa em oferecer uma carona a ela mas decide que isso só iria piorar as coisas. Se despede dos dois como se nada tivesse acontecido. Entra no seu carro, dirige até sua casa, entra no seu apartamento, troca de roupa e vai dormir. Acorda no dia seguinte com uma dor de cabeça enorme e uma ressaca moral devastadora. Pensa que deveria ter ido para o Inferno e ficado lá, sem criar ilusões e histórias mirabolantes. Você percebe então que está atrás de uma paixão arrebatadora e fica se agarrando a qualquer sinal mal interpretado, pensando que o momento tão esperado finalmente chegou. Você chega a conclusão de que não adianta forçar, que essas coisas acontecem na hora que devem acontecer e, principalmente, sem qualquer envolvimento ou decisão da nossa parte. Elas acontecem sozinhas e nos arrastam sem pedir permissão. E numa conclusão triste mas tranquilizante você pensa que, enquanto isso não acontece, sempre existirão todas as outras.

/ dia 22.7.07 / 8 Comentários

vida besta - 1

Você chega em casa às dez da noite após um dia maldito de trabalho. Entra no banheiro, tira as lentes de contato e quando vai colocar seus óculos, uma das lentes se desprende da armação, cai no chão de azulejo e se espatifa como se fosse um copo de cristal. Cacos de vidro se espalham pelo banheiro, corredor e quarto do apartamento. Você grita "filha da puta", levanta a cabeça, olha para o seu reflexo no espelho e começa a colocar novamente as lentes de contato e uma semana depois fica 500 reais mais pobre por causa de um parafuso de 3 milímitros que estava mal apertado.

/ dia 22.7.07 / 1 Comentários

divertida

Estou na festa de aniversário do Rodrigo, meu amigo de infância e ex-vocalista da minha ex-banda que se chamava SHAMBALLA. É, esse era o nome da banda. Não, não era uma banda de axé. Tocávamos rock and roll, adorávamos Beatles, entre outras coisas. Mas o nome da banda, que deveria ter sido visto como um sinal claro e flamejante de que aquilo não iria dar certo por muito tempo, é uma outra história, pra ser escrita noutra madrugada.

Cá estou eu, na festa do Rodrigo, que se casou há um ano ou dois, mais ou menos, e estou lhe dando os parabéns pelo seu aniversário e pela notícia de que ele vai ser pai. Fico feliz por ele. Quem conheceu o Rodrigo sempre soube que ele teria uma história mais ou menos asim. Bem-sucedido, casado, apaixonado e, agora, prestes a ser pai pela primeira vez. Dos que fizeram parte da banda, ele é um dos que se saíram bem.

Estas festas são nostálgicas. E eu adoro nostalgia. Encontro amigos que não vejo há anos e ouço histórias das quais havia me esquecido completamente. Ouço histórias repetidas, que já ouvi trinta vezes, e mesmo assim, literalmente choro de rir. Me lembram bons tempos e bons amigos.

Estou distraído, comendo um pedaço de sanduíche de provolone com salame e tomate seco, quando chega a mãe do Scappini, outro amigo meu de infância. A mãe dele é a Marilena. Ela acena de longe e me chama, com um sorriso no rosto. Vou até ela ainda mastigando, dou um beijo em seu rosto e pergunto, tampando a boca com a mão, como ela está. Ela não responde. Ainda sorrindo, mas agora de uma maneira, percebo, um tanto marota - essa é a palavra exata aqui: marota - enfia a mão no bolso e tira um pedaço de papel retangular, dobrado ao meio. Me entrega e diz "Olha aqui, pega", e me dá o papel como se fosse segredo.

Eu pego o papel. Ela continua: "Olha Mandruca...".

Abro o papel. Está escrito "Eliana", telefone tal e tal, com uma letra caprichada, de aluna de colégio particular. Letra de mão. O L garrafal, o pingo do i redondinho, um círculo quase fechado inteiro. Fico olhando para o papel.

"Essa menina, Mandruca, - ela continua – é um barato. Ela é farmacêutica e isso e aquilo, mora perto da sua casa. Eu alugo meu apartamento pra ela e ela é um amor. Eu estava falando com ela e ela disse como é difícil, e é mesmo, né?, hoje em dia, conhecer um rapaz le-gal."

Ela fala assim às vezes, meio espaçado.

"Aí Mandru-ca, eu disse pra ela, ah, tem um amigo do meu filho que eu que-ria te apresentar. E e essa moça é assim igual você, Mandruca, di-ver-ti-da!"

A mordida que eu dei no sanduiche ainda está na minha boca. Fiquei olhando pro pedaço de papel e parei de mastigar. Por isso, quando eu pergunto, da maneira mais canalha que consigo, se ela é bonita, falo com a boca cheia, colocando a mão em frente ao rosto pra impedir que um pedaço de tomate seco voe na Marilena. A Marilena é um amor. Conheço ela desde que conheço o Scappini, e isso faz mais de 25 anos. Ela responde:

"Ela é ótima. Super inteligente, boazinha, moça de família, bonita, é honesta, sempre paga o aluguel direitinho. E é independente, trabalha, mora sozinha, ali perto da sua casa."

Todo mundo sabe o que significa quando a gente pergunta se fulana é bonita e a resposta é loooonga e cheia de outros detalhes que não tinham sido perguntados. Relevo essa pista e pergunto como uma moça tão direita e independente simplesmente deu seu telefone pra ela, esperando que um desconhecido ligasse convidando-a para sair. “Ela está desesperada?”, pergunto. Acho que essa minha atitude estúpida não passa de uma forma de querer parecer à vontade com o que está acontecendo.

“Ela é ótima, Mandruca”. – continua -. “Falei de você pra ela. Contei que você também mora sozinho, trabalha, que é legal. Ela é muito parecida com você. E e di-ver-ti-da. Vale a pena, viu?. Liga pra ela. Liga mesmo”.

Nunca me senti tão... solteiro. De repente existem pessoas se esforçando para me apresentar garotas. Mães de amigos fazendo propaganda minha para desconhecidas. Deve ser assim que a Marilena me vê. O amigo solteiro do filho casado dela. “Coitado. Tão legal, tão inteligente, divertido, di-ver-ti-do, mas solteiro”.

Uma senhora está sentada na mesa ao lado de onde estamos, assistindo tudo, com uma expressão de divertimento no rosto. A Marilena percebe o olhar e diz: “É que eu estou louca pra arrumar uma esposa pro Mandruca, ele é amigo do meu filho”. Dou um sorriso amarelo e sem graça, desses que fazem a cara da gente encolher, e ela sorri de volta, balançando a cabeça em sinal de aprovação, se divertindo às minhas custas.

Nunca me senti tão... solteiro. Solteirão.

Agradeço a Marilena e prometo que vou telefonar para a Eliana. Guardo o papel na carteira, pego uma cerveja e e saio do salão de festas para fumar um cigarro. Encontro o Scappini e conto o que a mãe dele acabou de fazer e pergunto se ele sabia disso. “É claro” – ele responde – “Ela veio o caminho inteiro me falando dessa merda”. Maldito. Nem pra me avisar.

Passo o resto da noite reparando nos meus amigos, a maioria casados ou acompanhados pelas namoradas. Alguns já tem cabelos brancos e vão às festas usando calças sociais e camisas de manga curta. As mulheres já com cara de mães de família, reclamando do cansaço, os peitos caídos e os cabelos tingidos.

/ dia 12.6.07 / 12 Comentários

desculpas

Queria poder pedir desculpas por todas as vezes que fui idiota, que não fui eu mesmo, que tentei impressionar, que passei a impressão errada.

Queria poder pedir desculpas pelas atitudes impensadas, pelos erros cometidos, pelas vezes que tentei ser alguém que não era.

Queria pedir desculpas pelas vezes que te tratei mal.

Pelas vezes que deixei um momento fantástico passar despercebido, pelas vezes que fui distraído, que fui ausente. Por todas as vezes que fui canalha e filho da puta, insensível, rabugento, mal humorado, desleal e infiel.

Por todas as vezes que eu não enxerguei como você estava sempre ali pra mim, pronta e de coração aberto, ignorando essa bagunça gigantesca e insuportável que eu sou.

Por todas as vezes que deixei de ligar, que esqueci, que fiz pouco caso, que te evitei, que banquei o inocente, que fui doloroso e cruel.

Por todas as vezes que te fiz de porto seguro quando eu me sentia solitário e rejeitado.

Por todas as vezes que esqueci de tudo o que você foi pra mim e te tratei como todas as outras.

Pelas vezes que deixei de lado tudo o que vivemos juntos, quando ainda éramos felizes e apaixonados e achávamos, na nossa ingenuidade de casal adolescente, que aquilo duraria para sempre.

Por todas as vezes que não cuidei de você quando você precisava, depois de você ter cuidado tanto de mim sempre.

Por todas as vezes que fiz você se sentir como uma qualquer, te feri e te joguei fora num canto solitário e sem luz e te abondenei com seus pensamentos que eu conheço tão bem.

Queria poder te pedir desculpas por todas as vezes que te julguei, que te considerei não merecedora desse amor amargo, mesquinho e egoísta que vive dentro desse meu coração que hoje parece não sentir mais nada.

Queria que você soubesse que você foi a última a entrar aqui e se acomodar. E que você foi a última a fazer esse coração de cimento batido e paredes frias ser um lugar agradável e aconchegante e que durante todo o tempo em que você morou aqui, ele foi.

/ dia 24.5.07 / 6 Comentários

conclusões saudáveis

Não tenho tudo que amo
mas que se foda.

/ dia 2.5.07 / 3 Comentários

pirajá

Combinei de encontrar com a Carla no Pirajá e pra variar cheguei 20 minutos atrasado. Estacionei atrás do Habib’s e quando desci do carro surgiu um flanelinha que já começava sua ladainha de “posso tomar conta senhor”, que foi interrompida pelo meu sorriso de sou um cara legal e vou te dar algum dinheiro se você não riscar meu carro, seu folgado de merda.

Procuro pela mesa onde Carla está sentada enquanto penso em várias desculpas aceitáveis que posso despejar em cima dela e ainda assim me sair bem na história toda. O bar está lotado e sou obrigado a dar passos minúsculos para passar espremido no meio da multidão. Ao mesmo tempo em que procuro pela mesa, faço um levantamento mental de todas as pessoas que estão no lugar — basicamente das mulheres. — É sempre assim quando chego em algum lugar. E não precisa ser num bar ou numa festa. Faço isso em todo lugar que vou. Pode ser no mercado, na padaria, no hospital, numa fila de banco, num ônibus ou no metrô. Já é instintivo. O que acontece é que eu adoro a caça. Adoro escolher uma mulher e ficar observando, vendo se vale à pena me aproximar, se há interesse. Sou capaz de ficar horas assim, sondando, escolhendo, caçando.

Sou viciado em observar as pessoas. Trejeitos, costumes, maneira de se vestir, de carregar uma sacola ou uma mochila, de fumar um cigarro ou beber uma cerveja, como se encostam numa parede, como se apóiam na mesa ou se seguram nas barras dentro do ônibus ou do metrô, como lêem um livro ou um jornal, como reagem à outras pessoas. Mas o que eu mais gosto de observar nas pessoas, o que mais sustenta esse meu vício, são os olhares. Os olhos entregam tudo. É como ler uma ficha detalhada sobre alguém. Os olhos deixam vazar a alma. Pelo menos para mim.

Eu tenho essa capacidade de saber como uma pessoa é, sua personalidade, seu caráter, sua essência, na primeira olhada que dou nela. Basta observar os olhos por alguns segundos e pronto. Está tudo ali, nítido, despido, revelado, sem qualquer proteção. E não tem erro. Sempre acerto em cheio. Me disseram que eu tenho “o dom de ler a essência das pessoas”. Disseram também que o nível mais alto dessa percepção permite ver até as vidas passadas de alguém com apenas um olhar. Soou como uma maldição. O que eu tenho, essa minha percepção, está na medida certa. Que as vidas passadas fiquem para trás.

Continuo tentando localizar Carla e cruzo com uma morena gostosa de uns trinta anos que deve adorar dar de quatro e olhar para trás fazendo uma cara de vadia e pedindo mais forte e depois com uma loira linda e bem vestida que não deve beijar nem chupar muito bem, mas tem um ótimo coração e poderia ser a melhor amiga de muita gente. Passo por uma mesa só com mulheres e me imagino trepando com todas ao mesmo tempo, depois percebo que elas são meio feias e tiro a idéia da cabeça. Cruzo com uma garota de uns 19 anos, cabelos pretos e curtos, vestindo uma camiseta regata preta e com uma tatuagem de orquídea no ombro e seus olhos verdes cruzam com os meus e sinto um arrepio porque ela sustenta o olhar e dá um sorriso meio malicioso, mas não olha para trás quando eu olho e cruza com dois caras que vestem camisas floridas e jeans e usam gel no cabelo e colarzinho estilo Luciano Huck e também olham para trás quando ela passa e eu penso que vadia e volto a procurar pela Carla, que reconheço com muita dificuldade sentada numa das últimas mesas do lado de fora do bar com uma lata de Coca-Cola decepcionante colocada ao lado de um copo com gelo e limão vazio e penso “que droga, a noite não vai ser como eu tinha imaginado”.

Carla observa com um olhar decepcionado o movimento dos carros que passam pela rua e não me vê chegando, o que é bom porque não vê minha expressão decepcionada quando a vejo pela primeira vez. Olho uma segunda vez, só para confirmar o que meus instintos já denunciaram logo de cara: essa noite vai ser inundada por uma torrente de monotonia e tédio absoluto.

Ela está usando uma blusa bege nada sedutora, com uns babados estranhos na frente. Os cabelos pretos e levemente ondulados estão presos para trás num penteado muito sem graça. Tem a pele morena, usa batom vermelho vivo e uns brincos enormes do tipo que enrosca no cabelo ou cutuca o olho quando a gente tenta morder a orelha ou beijar o pescoço. Pra piorar tudo, — sempre pode piorar um pouco mais — sua postura é de quem já se sente derrotada. Juro que se ela estivesse sentada com uma cara de quem está puta da vida comigo eu teria ficado mais empolgado.

Mesmo assim ainda tento cultivar uma esperança patética de que as coisas podem melhorar e me endireito, chacoalho a cabeça para clarear as idéias e me aproximo da mesa com um sorriso no rosto.

— Não causa uma boa impressão chegar atrasado no primeiro encontro, né? — digo, fazendo cara de quem está esperando uma bronca.
Ela olha pra mim e sorri instantaneamente.
— Imagina. O que aconteceu?
Droga. Que fraca. Podia ter falado “eu já estava indo embora” ou “tive que dispensar três caras que quiseram sentar aqui comigo”.
— Tive um problema com o carro. — digo, percebendo que podia ter falado qualquer coisa.
— Isso acontece. — diz, e depois, com um olhar sinceramente preocupado. — Mas está tudo bem?
— Está. Tudo bem. — sento na cadeira em frente à dela e faço um sinal para o garçom. Peço uma cerveja Sol com limão e depois me arrependo porque não quero ficar com gosto de limão na boca.

Começamos uma conversa tediosa e premeditada, primeiro falando da noite em que nos conhecemos. Dou uma risada e digo que estava realmente bêbado. Ela diz que não bebe. Depois começa com o questionário padrão de o que você faz e onde mora e gosta disso e não gosta daquilo. Isso só piora a situação. Me diz que é advogada e que trabalha numa repartição pública no centro da cidade e que odeia o trabalho, mas que pelo menos ganha bem. Conta que levou um murro na boca quando estava no trem, indo para o trabalho e que a briga começou ao lado dela e sobrou um soco no ar que foi aterrisar bem na sua cara. Me mostra o machucado na bochecha. Não sinto pena. Até tento. Pergunto onde mora e ela diz algum lugar do qual nunca ouvi falar, na puta que pariu da zona leste — também conhecida como “no man’s land” — e digo que as obras do Aerotrem são as ruínas de Pittan Camon, mas ela não entende. Começa a me contar sobre sua vida, mas eu não estou mais ouvindo, não assimilo mais as informações. Estou decepcionado. Com ela. Comigo.


Carla me conta seus planos para o futuro e eu repito na minha cabeça — Não adianta insistir. Eu já sei que não vai dar em nada. Pra que teimar? Lutar contra o inevitável? — Eu deveria ter ficado em casa, alugado um filme e dormido no sofá.

Uma hora de conversa fiada e cinco cervejas pra mim e mais uma Coca pra ela. Estou olhando dentro dos seus olhos. Ela olhando pra mim com uma expressão de apaixonada, a cabeça caída para um lado de forma débil, um sorriso tímido nos lábios. Digo vem até aqui e ela fala vem você e eu brocho quase que completamente e por pouco não me levanto e vou embora.

— Vem aqui. — repito. Então ela arrasta a cadeira pra perto de mim até encostar seu ombro no meu. Eu queria que tivesse levantado, andado até onde estou e me beijado ainda em pé. Em vez disso fica ali parada, olhando com aquela expressão pateta estampada na cara.

Ela não é feia. Na verdade é quase bonita. Só é desprovida de personalidade. É vazia, comum, regular, tamanho único, modelo padrão, edição ilimitada, linha de produção. Não temos nada em comum. O que está acontecendo agora não vai dar em nada, não tem futuro. Eu já sei que ela não é o quem estou procurando. Mesmo assim, endireito o corpo e lhe dou um beijo caprichado. Uma das mãos embrenhada nos seus cabelos que eu agilmente soltei e a outra acariciando suas costas e sua cintura. Minha língua trabalhando graciosamente dentro de sua boca, os lábios úmidos se esfregando, mordidas suaves, beijos no pescoço, o brinco enorme cutucando meu olho, a respiração ofegante. Carla dá um gemido fraco, depois outro mais alto, mais agudo, e me afasta bruscamente, suspirando.

— Que foi? — digo, com um sorriso sacana.
— Nada.
— Não, pode falar. Eu fiz alguma coisa? Peguei pesado?
Ela dá um sorriso, me olha ofegante e balança a cabeça. — Não, não é isso. É besteira, deixa pra lá.
—Tá bom — digo, enquanto me aproximo para uma nova investida.

Capricho ainda mais no segundo beijo. Isso é uma coisa engraçada. Não importa o quanto eu estou decepcionado ou como não tenho interesse nenhum em conquistar essa mulher, a hora do beijo é sagrada. Tenho que dar o melhor de mim. Me empenhar mesmo. Sei lá, é uma questão de honra. Ela pode me achar o maior canalha do mundo, mas nunca vai poder reclamar do meu beijo.

Carla solta um gemido grave, gutural, e me afasta novamente.
— Tá bom. — digo. — Pode falar.
Ela está com a cabeça baixa, não sei se de vergonha ou de tesão. Olha pra mim, inclina o rosto para um lado e diz:
— É que seu beijo é tão...especial.
— Especial?
— É.
— Especial. Especial como? — Lembro da propaganda da Sadia. Especial é com eeeeee. Malditos publicitários. A noite está ficando cada vez pior.
— Ah, é bom. É bom até demais. — dá uma risadinha tímida.
— Obrigado. — digo com falsa modéstia e um sorriso amarelo. — Então deixa eu continuar te beijando.
— Não.
— Não? Por quê?
— Porque eu...perco a cabeça.
— Mas isso é bom, não é? — Já estou ficando puto.
— É, mas é muito cedo.
— Cedo pra quê?
— Pra perder a cabeça. A gente nem se conhece direito.

Passo delicadamente os dedos na barriga dela, logo acima da cintura da calça. Ela fecha os olhos e suspira alto. Parece que estou tentando seduzir uma virgem. Qualquer toque faz ela tremer. Tento beijá-la mais uma vez, mas ela me afasta e dá um sorrisinho idiota.

— Vamos conversar mais um pouco. — diz.
— Conversar? Sério que você só quer conversar? — estou perdendo a noção. Não costumo falar assim.
— É. A gente podia conversar mais.
— Mais? Sobre o quê?
— Ah, sei lá.
— Tá bom. Que revista você lê? Capricho? — estou chegando ao meu limite.
— Não. Eu gosto de ler a revista Caras. E você?

Pronto. Pirei de vez.

— Eu? Eu vou embora. — digo, tirando minha carteira no bolso de trás da calça.
— O quê? — pergunta, fingindo não ter escutado o que acabei de falar.
— Eu vou embora. — repito, olhando diretamente pra ela, deixando a frase bem clara. Tiro vinte reais da carteira e jogo em cima da mesa. Tiro o maço de Lucky Strike do bolso da minha jaqueta marrom, acendo um cigarro e dou um sorriso.
— Mas por quê você vai embora? — ela pergunta.
— Fica aqui e pensa bem. Tenta descobrir. — Pego a garrafa de cerveja pela metade e me levanto. — Tchau.

Me enfio no mar de gente que cerca as mesas do bar e vou andando rápido, trombando todo mundo. No meio da multidão, me esfrego na bunda da morena de cabelos pretos e tatuagem de orquídea e dou uma baforada quente na sua nuca, trombo com os dois moleques de camisa florida e colarzinho, encaro um deles, que prefere encarar o chão, chego até meu carro, faço gesto de pinto pro flanelinha que vem correndo da outra ponta da rua, saio com o carro deixando para trás um rastro de borracha queimada e jogo a garrafa de cerveja contra o muro do Habib’s. Vou pra casa bater uma punheta pensando em alguma atriz pornô e dormir sem escovar os dentes. Essa noite foi uma perda de tempo.

Ligo o rádio e coloco o primeiro CD que consigo tirar do porta-luvas, ao mesmo tempo em que contorno a Praça Panamericana. My Friend, do Groove Armada, começa a tocar suavemente nos alto-falantes e aos poucos tudo vai se acalmando. Dou um longo trago no cigarro, abaixo todo o vidro do carro e passo sorrindo por um farol vermelho.

A vida é boa novamente.

/ dia 1.11.06 / 7 Comentários

manhã

Sexta-feira de manhã e estou deitado em minha cama com os olhos abertos e fixos no teto. Estou na mesma posição desde que acordei, meia hora atrás . A luz do sol tinge as paredes do quarto de amarelo e laranja e iluminam uma cortina de poeira que flutua preguiçosamente no ar.

Enquanto estou deitado, pássaros cantam alegremente lá fora, voando freneticamente entra as árvores e os fios de eletricidade, comemorando o começo de um novo dia.

Pessoas desconhecidas sorriem umas para as outras e dizem bom dia quando se cruzam na porta da padaria sentindo o cheiro revigorante de pão fresco e compram o jornal na banca do outro lado da rua, ansiosas para descobrirem quais as tragédias matinais de hoje.

Homens de meia-idade e esperança zero se enfileiram lado a lado no boteco da esquina e pedem a primeira dose do dia. Caninha 51, Cinar ou Rabo de Galo. Depois, o café da manhã. Um pingado e um pão com manteiga na chapa.

Taxistas empurram seus carros desligados na fila do ponto e voltam a se sentar no banco de madeira improvisado enquanto esperam pelos passageiros da manhã e assistem aos dias se arrastarem em câmera lenta enquanto suas vidas escorrem sarjeta abaixo e suas barrigas aumentam sem que percebam.

Crianças uniformizadas viajam em alta velocidade no banco da frente do carro de seus pais, que dirigem enlouquecidos a caminho da escola para deixarem seus filhos modelos e perfeitos, mesmo que acidentais, recebendo uma educação padrão e incompleta durante seis horas numa instituição que para os pais é ótima e bem recomendada, mas para os filhos é um interminável pesadelo cheio de velhos amargos e desiludidos que não têm mais para onde ir ou o que fazer com suas vidas e por isso passam seus dias ensinando matemática e história e língua portuguesa e geografia de maneira mecânica e repetitiva e descontam toda sua frustração nos pequenos monstrinhos mal criados e esnobes que são obrigados a aturar diariamente em troca de um salário miserável que não segura as contas nem até a metade do mês.

Funcionários de bancos conferem o dinheiro no caixa e se preparam para agüentar aquele bando de gente impaciente e mal educada que quer tudo na hora e acha que estão sempre tentando roubar seu dinheiro.

Operários balançam dentro de ônibus e trens lotados por toda a cidade, culpando o governo por suas vidas miseráveis e trabalhosas e sentindo o orgulho amargo de serem homens honestos e batalhadores, pensando em como seriam suas vidas se fossem milionários.

Adolescentes dirigem a caminho da faculdade em seus carros populares que ganharam de presente dos pais por passarem no vestibular do curso que não tinham certeza se era exatamente aquilo que queriam fazer para o resto de suas vidas mal começadas. A cabeça cheia de planos e sonhos mal traçados e nebulosos, sem uma perspectiva clara do que é realmente a vida e de como as coisas funcionam no mundo.

Aposentados se debruçam no portão da frente de suas casas e pensam no que vão fazer hoje depois que colocarem o lixo pra fora e onde já se viu estacionar o carro em frente suas casas, porque a calçada é pública mas é deles.

Eu ainda não me mexi.

A preguiça tomou conta do meu corpo. Não quero mexer um músculo. Quero ficar aqui o dia inteiro, na mesma posição. Quero pular esse dia. Fazer de conta que nunca existiu. Não tenho nenhum motivo específico para isso, a não ser a preguiça generalizada que se espalhou pelo meu corpo. Não estou deprimido, não estou revoltado, nada. Só estou com uma puta de uma preguiça.

Continuo encarando o teto. Meus braços e pernas estirados no lençol branco e macio da cama de casal. Pensamentos aleatórios bóiam na minha cabeça: “poderia sair com os meus amigos, tomar uma cerveja ou alguma coisa assim...tenho que pegar meu carro na funilaria...está pronto há uma semana e eu ainda não fui buscar...parece que eu não gosto desse carro... Eu não gosto mesmo. Nunca gostei. Não tem personalidade...vou vender esse e comprar o carro que eu sempre quis ter...eu poderia assistir um filme que não vejo há muito tempo...Os Intocáveis...tá aí um filme bom...tenho que passar no estacionamento da Paulista...ver como estão as coisas por lá...largar mão de ser preguiçoso, tomar um café da manhã e pegar o Metrô... reparar nas pessoas, sentir o ar da manhã...aproveitar e passar na Livraria Cultura...tomar um café no Conjunto Nacional e observar executivos frustrados e freaks à deriva perambulando pela avenida”.

Um músculo finalmente se mexe.

E levanto o corpo imitando um vampiro de filme preto e branco e sinto uma leve tontura. Procuro o controle remoto da TV no meio dos lençóis. Encontro o controle, sento na beirada da cama com o rosto há um metro da televisão e a ligo. O som de um tiroteio no último volume explode no quarto e acaba com paz matinal que ainda pairava ao meu redor. Estou prestes a xingar a televisão quando percebo que o filme que está passando é Os Intocáveis. A cena do tiroteio na ponte do Canadá, quando Eliott Ness e seu grupo confrontam mafiosos contrabandeando bebida. Volto até a cabeceira da cama e empilho dois travesseiros e uma almofada para me encostar e assistir. Sean Connery finge que está interrogando um mafioso que Elliot Ness matou no fundo da cabana. O personagem de Connery, Malone, quer impressionar um outro mafioso, que foi capturado e está dando uma de durão. Malone enfia o revólver na boca do mafioso morto e começa a contar até três, depois explode os miolos dele. A bala atravessa a cabeça do cadáver e estilhaça a janela. Ness se espanta. O mafioso grita. Eu vibro. Sorrio para mim mesmo e decido ficar em casa. Peço minha opinião:

- O que você acha?
- Depois dessa? Fica em casa. Aproveita e tira o lixo.

Aumento o volume da TV e me enrolo num lençol.

/ dia 1.11.06 / 0 Comentários

desconhecida

A lembrança da sua existência ressoa na minha mente. Embriagado, tento colocar em palavras o que me lembro ao seu respeito.

Sua voz sibilante, dizendo “foda-se” despretensiosamente. Sua risada e seu jeito de garota dizendo que não sou certo, que não sou real, e duvidando da minha existência, insistindo nas máscaras inexistentes da minha presença.

Sua despreocupação, atravessando a rua sem olhar, ignorando os perigos eminentes, uma fênix negra dançando a minha frente, zombando da minha seriedade e da minha ingenuidade.

Agora você está longe, desfrutando o descanso merecido e mentiroso, enquanto eu amaldiçôo minha falta de malícia. Queria ter te visto uma vez mais antes da sua partida traiçoeira e duplicada, duas semanas disfarçadas de uma. Sua voz ainda ressoa na minha cabeça. Desvio inesperado de eventos que me tirou do meu caminho planejado e seguro e me obrigou a mergulhar nesse mar de angústia e espera.

Você, vivendo embaixo de coqueiros, cercada por um paraíso de calmaria e uma imensidão de tranqüilidade temporária, enquanto me afogo num mar de incertezas e expectativas infundadas.

Quero partir teu coração. Quero me vingar. Fazer você sofrer e implorar. Quero sentir seu sulco fluindo na minha boca, sua carne tremendo nos meus lábios, seus gemidos ressoando sôfregos no meu ouvido. E te redimir em meus braços, generosos e intensos como você ternamente se lembrava enquaanto estava esticada na tua ilha de ternura e calmaria. Esses dias não são nada.

Não te conheço, mas te quero. Nem que seja por puro egoísmo. Te quero pra mim, eternamente entregue aos meus caprichos. E quero me entregar aos teus. Deliberadamente derrotado diante do teu charme. Te espero, num desespero contido e irracional. Que ninguém perceba, por favor. Que ninguém leia essas palavras, porque meu orgulho não pode aturar tal entrega.

Não te conheço, mas te quero. Conto os dias que restam para você voltar. Para voltar pra mim, abrandando minha angústia, preenchendo meu coração insatisfeito e descolorido. Secando minhas lágrimas.

E eu nem te conheço, mas você supera todas as outras. Invade minha memória com tua voz sacana e teu jeito despretensioso e lindo que me cativou. Com teu olhar esticado, teus olhos felinos e tímidos me olhando de longe, arrancando meu sorriso sincero e me atraindo, hipnotizado.

Te quero, não consigo te esquecer. E nem te conheço.

/ dia 4.9.06 / 0 Comentários

nunca

Nunca leia orelhas de livros antes de comprá-los, nunca leia sinopses nas contra-capas dos filmes antes de alugá-los e nunca, nunca ouça as críticas do Rubens Edwald Filho.

/ dia 3.9.06 / 2 Comentários

elogios

- Aaaaaaai, cavalo.
- Huuum...obrigado.
- Não foi elogio.
- Ah...

/ dia 3.9.06 / 0 Comentários

devaneios subterrâneos

Sempre gostei de andar de metrô, principalmente por causa das pessoas. A roleta russa de vidas e histórias entrando e saindo dos vagões é fascinante. Se você fica viajando e reparando em uma ou outra pessoa então, cara, dá pra ficar louco.

“Essa garota pode ser a mulher da minha vida. Vou falar com ela. Não dá. Desceu na estação Sumaré.”

“Esse cara deve ser um psicopata” –algumas pessoas devem pensar isso quando olham pra mim. Tenho cara de cozido mesmo, fazer o que. Já tentei andar com uma expressão menos cisuda mas me senti idiota e desisti.

Gosto de ver mulheres no metrô. Lindas, horríveis, decididas ou totalmente derrotadas. Estão sempre com pressa. Sempre indo pra algum lugar. Apesar da minha cara de cozido, já flagrei uma ou outra olhando pra mim, querendo caçar assunto. Eu faço uma pose, claro, quem não faz? TODO MUNDO faz pose. A diferença é que uns sabem disfarçar melhor que outros. De qualquer maneira, nunca fui falar com nenhuma delas. Nenhuma das garotas do metrô. O máximo que me lembro ter conseguido foi espremer um sorriso falso da minha carranca, e o resultado deve ter sido horrível.

Mas pense bem. O que eu poderia possivelmente dizer para uma garota num vagão do metrô? Claro, se ela estiver lendo um livro ou ouvindo música ou com alguma coisa que possa gerar um assunto fica mais fácil, mas sem isso, as possibilidades são mínimas:

- Oi, você pega sempre o metrô nesse horário?

ou

- Em que estação você desce?

ou a pior de todas:

- Oi, você...[TUUUUUUUUUUU] chegou na estação e ela desceu. A mulher da minha vida dessa semana.

E não venha me dizer que “não precisa falar nada”. Isso funciona em alguns casos, e eventualmente você acaba falando alguma coisa. Mas no metrô é impossível tentar falar com todo aquele ruído ensurdecedor berrando no seu ouvido. E depois de algum tempo “só olhando” tenho quase certeza que a garota acaba ficando assustada e pensa “esse cara deve ser louco.”

Outra coisa que eu adoro no metrô é o barulho ensurdecedor que ele faz quando passa em alta velocidade pelos túneis. É o som do juízo final. Quando o mundo acabar, isso é o que será ouvido no mundo todo. Um ruído crescente e metálico que vai aumentando e ficando mais intenso e inevitável até se transformar num grito demente e ensurdecedor e estridente que vai aumentando e aumentando e chacoalhando tudo e as luzes piscando e cuspindo faíscas e as pessoas gritando e o pavor se espalhando e o metal gritando e raspando raspando e aumentando até que cessa repentinamente...

e só se ouve o TUUUUUUU de aviso da porta se fechando. O mundo começando uma nova viagem e eu e todas as mulheres da minha vida e todo o resto simplesmente vai ter deixado de existir.

/ dia 3.9.06 / 0 Comentários

cólera contida

O ministério da saúde adverte:
Cólera contida causa câncer de estômago, pulmão e garganta, além de gastrite, úlcera e outros males à saúde.
recomendação: Diga “foda-se” regularmente.

/ dia 3.9.06 / 0 Comentários

meu caminho

E bloqueando o caminho entre a mediocridade e o sucesso, existe apenas eu.

Eu, com meus defeitos e minha covardia. Eu. Dizendo que o caminho é realmente difícil e tortuoso. Eu, com minha fraqueza de espírito, segurando um espelho que mostra o reflexo da potencialidade do sucesso, reconhecido claramente quando visto de longe, mas turvo e anuviado quando vislumbrado de perto com uma mínima parcela de coragem. A imagem de concretização se desfaz quando observada de perto. E em seu lugar resta apenas a covardia. Um vulto do que eu poderia ter sido. Do que poderia ter alcançado. Uma imagem envelhecida, como uma foto antiga e desbotada.

Bloqueando o caminho entre tudo o que posso ser e a imensidão de possibilidades que pode se abrir, existe apenas eu.

Eu, com minha visão limitada e meu medo da crítica. Eu, irredutível no meu castelo de falsa perfeição. Eu, cercado por um exército de soldados malditos e armados com lanças envenenadas de motivos e razões. Eu, afundado até o pescoço num pântano movediço de traumas de infância. Eu, escondido atrás de uma cortina de vergonha e receio, observando a uma distância segura o que poderia ser minha vida se eu simplesmente me dedicasse mais. Eu, vagando alienado no espaço, deixando a vida passar diante dos meus olhos enquanto acredito que há tempo para tudo, enquanto os minutos escorrem descontrolados pelos meus dedos flácidos.

No entanto, existe outro eu, no final do caminho, acenando tranqüilamente, com um sorriso fácil estampado no rosto.

Eu, confiante, sóbrio e em paz comigo mesmo.

/ dia 3.9.06 / 0 Comentários

alta fidelidade

Estou tendo uma verdadeira overdose de Alta Fidelidade.Comprei o livro de Nick Hornby - - que já li uma vez - essa semana e hoje ao chegar em casa eu sabia, antes mesmo de olhar no guia de programação, que o filme estaria passando na TV. Decidi assistir apenas uma parte e acabei vendo o filme até o final. Pela décima quinta vez. Agora estou ouvindo a trilha sonora do filme enquanto escrevo isso.

Não sou nenhum aficionado pelo filme – ou pelo livro ou pela trilha – mas o que acontece é que Alta Fidelidade é simplesmente genial. Ele resume praticamente todos os sentimentos masculinos que dizem respeito a relacionamentos, auto-estima e perspectivas de vida.

Tudo bem. Eu assisti ao filme quinze vezes. Acho que isso me qualifica como aficionado. Mas não é pra menos. Com toda essa invasão de programas como Sex And The City e Desperate Housewifes, onde o homem comum é rotulado como insensível e acomodado, e os únicos que se importam com as mulheres são caras solteiros de meia idade com corpo atlético e pinta de galã, um filme como Alta Fidelidade trás um sentimento reconfortante de realidade.

O personagem principal, Rob, é um cara de 35 anos, rabugento, amargo e até meio cruel. Ele é dono de uma loja de discos chamada Championchip Vinyl, que não vê muitos clientes. Ele não tem dinheiro e também não tem muitos amigos. Fuma compulsivamente e é viciado em música pop. Mesmo assim ele não deixa de ser um cara legal. Tem um ótimo gosto musical e um senso de humor sarcástico e ao mesmo tempo divertido. Devo confessar que me identifico com ele em vários aspectos.

O que me atrai tanto nesse filme [e no livro] é que eu sei que todo homem passa pela mesma crise que Rob. Todo homem já se sentiu rejeitado, mal amado, sozinho, melancólico e miserável. E Rob encara todos esses sentimentos de frente e disseca e enfrenta cada um deles até a última gota de cólera e suor.

Ele enfrenta as inseguranças e desaprovações de sua mãe e se sente aterrorizado pelo comodismo e apatia de seu pai. Lida com suas incertezas e com o sentimento de que, se um dia decidir sossegar o rabo e se casar, vai perder a chance de conhecer a próxima grande mulher da sua vida. Sofre quando é trocado por outro como se fosse um pano de pia que já não retém a sujeira tão bem como antigamente. Ele sente a agonia de perceber que estamos fadados a pular de um relacionamento a outro e que tudo isso é um ciclo interminável de fantasias juvenis mal resolvidas que nunca, nunca mesmo, irão se realizar.

E isso sim é ser homem.

Tem um cara no ônibus que eu pego que é patético. Ele senta sempre no mesmo lugar e todos os dias coloca o walkman e fica olhando para todas as mulheres que entram no ônibus e então escolhe uma que considera bonita –o que nem sempre é o caso– e se oferece para segurar sua bolsa ou sacola ou mochila. Claro que a mulher aceita e ele fica lá, segurando as coisas dela e ouvindo música e olhando com o canto dos olhos como se fosse um cachorrinho que fica sentado ao lado da mesa esperando ganhar um osso ou um resto mastigado de carne. É realmente patético. O que será que ele espera? Conhecer a mulher da vida dele no ônibus porque se ofereceu pra segurar sua bolsa? Não estou dizendo que esse tipo de coisa não acontece. Já conheci uma garota na fila do raio-x do hospital do Servidor Público. E foi lindo. Ela era linda. E anotou seu telefone no meu braço engessado num ponto que eu não conseguia enxergar e tive que telefonar pra ela em frente ao espelho de casa. Coisas assim acontecem. Não com a freqüência que deveriam, mas acontecem.

A questão é que homens estão sempre, incondicionalmente, procurando. Nós vivemos para esse tipo de coisa. Eu mesmo caço assunto no ônibus [e no metrô e na rua e no hospital e nos meus sonhos mais monótonos] e alimento constantemente a fantasia de conhecer alguém de uma forma inusitada. Homens são assim.

E quando sofremos alguma desilusão ou traição ou rejeição, nós sofremos. De verdade. E aí enchemos a cara e entramos numa temporada de caça ainda mais enfurecida e intensa para tentarmos compensar esses sentimentos que destroem a gente por dentro. E depois bebemos um pouco mais.

A possibilidade de conhecer uma pessoa nova e interessante sempre está pairando no ar e é aterrorizante pensar que um dia não teremos mais isso. Que um dia teremos que desistir, sossegar, se comportar. Mas, competindo com isso, existe a idéia de conhecer aquela mulher que vai fazer todas as fantasias passarem despercebidas. Rob encontrou isso. Eu não.

Ainda.

/ dia 3.9.06 / 0 Comentários

a vida imitando a arte

Fui ao cinema assistir Perto Demais, que é um filme incrível, com diálogos geniais. Um romance cru e verdadeiro, que me fez parar de pensar em como fazia tempo que eu não via um filme realmente bom.

Ao meu lado estava um casal de uns trinta anos de idade. No meio do filme o cara vira para mulher e diz “estou odiando esse filme”. Isso me fez pensar que, se esse fosse o primeiro encontro deles, ele nunca faria esse comentário. Talvez pensaria, mas nunca seria assim tão sincero. Em que ponto a gentileza desaparece e dá lugar à amargura? O que faz as coisas mudarem tanto? Será que é o convívio? Depois de um certo tempo as pessoas desistem de ser agradáveis e gentis porque os dois já estão juntos há tanto tempo que não existe mais propósito em querer agradar com pequenos gestos?

Fiquei refletindo sobre isso até perceber que, toda vez que o Jude Law aparecia, a mulher virava para o cara e dizia “ele é uma graça, né?”. Ela disse isso umas cinco vezes. Ele repetiu que estava achando o filme um saco mais umas três vezes. Quando o filme acabou, os dois se levantaram, ela parou para ler os créditos e ele saiu da sala sozinho. Ela olhou em volta, não o encontrou e saiu sozinha na minha frente. Encontrou o cara na porta, pegou na mão dele e foi embora.

Fiquei pensando em quanto tempo o relacionamento deles ainda iria durar. Uma história tão triste e verdadeira quanto a do filme.

/ dia 7.2.05 / 0 Comentários

instantes de jorge luiz borges

Prometi a mim mesmo não colocar textos de outros autores neste site, já que a proposta aqui não é ficar postando conteúdo diversificado pra gerar page views. Mas, escrevendo o texto abaixo [2005 e grandes expectativas], não pude deixar de lembrar de Jorge Luiz Borges.

A sensação que temos no ano novo é sempre a mesma: começar uma vida nova. Deixar todos os erros para trás e, por mais chavão que seja, começar de novo. Tudo isso sabendo que o ano é novo mas a vida é a mesma, e que essa zerada de placar acontece só na nossa cabeça e, talvez, no plano espiritual/astral/cósmico.

Movido por essa sensação de “format c:/”, lembrei de “Instantes”, do escritor argentino Jorge Luiz Borges. E comecei a chorar.

Soa piegas pra cacete, mas o que acontece é que sempre que leio esse texto eu choro e choro e choro feito um desgraçado, soluçando e rindo ao mesmo tempo. Soluçando de emoção e rindo da situação, porque eu já conheço cada palavra decor e mesmo assim, basta ler a primeira linha que começo a chorar incontrolavelmente e demora mais ou menos meia hora até eu conseguir parar. Basta pensar numa frase que já me dá um nó na garganta.

Não sei explicar porque isso acontece. Mesmo. É um texto maravilhoso, sem dúvida, mas a reação que essas palavras causam em mim sempre será um mistério. Quando leio esse texto, não sinto tristeza. As palavras parecem tocar minha alma, exorcizando demônios que vivem adormecidos dentro de mim. E depois de todo o choro, me sinto purificado.

Se um dia eu for capaz de escrever algo que cause uma reação tão incontrolável e avassaladora em alguém, como essas palavras causam em mim, poderei morrer feliz.

Ainda estou chorando. É difícil enxergar o monitor com os olhos cheios de lágrimas e respirar com o nariz entupido.

Sem mais, deixo aqui as palavras de Jorge Luiz Borges.


Instantes

Se eu pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito... relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido,
na verdade bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.

Correria mais riscos, viajaria mais,
contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvete e menos lentilha,
teria mais problemas reais e
menos problemas imaginários.

Eu fui uma dessas pessoas que viveu
sensata e produtivamente cada minuto da vida;
claro que tive momentos de alegria.

Mas, se pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida,
só de momentos, não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma
sem um termômetro e uma bolsa de água quente,
um guarda-chuva e um pára-quedas;
se voltasse a viver, viajaria mais leve.

Se eu pudesse voltar a viver, começaria a
andar descalço no começo da primavera e
continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e
brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo...


/ dia 31.12.04 / 0 Comentários

2005 e grandes expectativas

Quinta-feira, dez da noite e estou aqui curtindo meu penúltimo dia de 2004 em São Paulo. Boa parte da vizinhança já foi viajar, todos os meus amigos também. Eu vou amanhã. Hoje queria sair pra uma balada desenfreada, regada à música tecno, cerveja e cigarro, mas acabei ficando em casa por falta de turma.

No e-mail, dezenas de mensagens melosas desejando um feliz ano novo e um ótimo 2005 cheio de realizações e blá blá blá. Não li nenhuma delas com atenção. Porque a maioria das pessoas que me enviaram essas mensagens não fala comigo há muito tempo. Teve um cara que eu até esqueci que existia e que me mandou uma mensagem desejando sinceramente que eu e minha família fossemos felizes no ano que vai nascer. Argh. Mensagens de fim de ano via Orkut. Um mal que eu não vi chegando. Mas tudo bem. No fundo no fundo, bem lá no fundo, virando à esquerda e seguindo em frente, existe uma pontinha de sinceridade nessas mensagens.

Por outro lado, recebi de peito aberto os votos de felicidades e grandes realizações vindos dos meus amigos e amigas com quem mantenho contato e que escreveram ou ligaram ou que fizeram pessoalmente e de todo coração esse discurso loopado.

E para essas pessoas desejo que, aproveitando o início de um novo ano, repensem suas vidas, mudem o que não as satisfazem e insistam naquilo que as completam. Que aqueles planos e projetos que permaneceram adormecidos ou abandonados, por falta de tempo ou recurso, reapareçam definitivos e revigorados e acabem se concretizando. Que aproveitem a zerada do cronômetro para olharem para suas próprias vidas de uma perspectiva diferente, pois alegria e tristeza sempre estão lá. É tudo uma questão de ponto de vista.

Que amores esquecidos ressurjam ou desapareçam para sempre. Que novos amores em potencial sejam vislumbrados a cada esquina, mesmo que durem apenas alguns segundos, pois até paixões-relâmpagos devem ser vividas. Que amores duradouros se consolidem ainda mais e se provem irredutíveis e inquestionáveis.

Que todos aprendam a viajar mais leve, cometer mais erros e levar menos coisas a sério, como escreveu Jorge Luiz Borges.

E se nada disso acontecer... bom, sempre há o ano seguinte.


/ dia 30.12.04 / 0 Comentários

beatnick dreams

Esta noite sonhei que era um beatnick. Vestia calças jeans desbotadas e camiseta branca de algodão e dirigia enlouquecidamente um cadilac branco e azul por intermináveis estradas de terra que cortavam o país enquanto conversava sobre o mundo e as pessoas e porque as coisas acontecem, debruçado sobre o volante e com um cigarro pela metade pendurado entre os lábios. Conhecia gente nova a cada parada e à noite saía com os amigos para curtir diversos bares e ouvir jazz e bop e aproveitar cada momento de uma existência louca e sem destino, extraindo a essência da vida até sua última gota e pedindo mais e mais até atingir um ápice inimaginável de prazer e satisfação de estar vivo.

Acordei atrasado, corri atrás do ônibus até o ponto e segui em frente, esmagado numa maçaroca de gente até a Avenida Paulista para mais um dia de trabalho.

/ dia 22.12.04 / 0 Comentários

lar doce lar

Eu aqui, dentro do meu lar recém conquistado, cercado pelas regalias de uma vida moderna, enquanto do lado de fora só vejo pobreza e sofrimento.

Eu aqui, vivendo a vida com a qual sonhei desde os 15 anos, quando meu anseio por conquistar o que era meu finalmente começou a se manifestar, e lá fora só existem esperanças despedaçadas e sonhos abandonados.

Aqui eu vivo feliz e satisfeito, amparado pelos meus bens materiais que consegui com muito ou pouco esforço. Vivo feliz, cercado pela emoção do meu DVD, o entretenimento da minha TV, minha conexão rápida, meu microondas infalível e minha fiel geladeira.

E enquanto isso, do lado de fora, só vejo casas despedaçadas, crianças mal alimentadas que correm felizes, ainda inconscientes da opressão e do desespero que vão ser obrigados a encarar daqui algum tempo.

No ponto de ônibus fico lado a lado com aquele bando de gente que vai levando suas vidinhas medíocres e sem propósito. Que seguem religiosamente cada capítulo de suas novelas, que culpam o governo pelos seus futuros inevitavelmente trágicos e miseráveis. Essas pessoas que desistiram de tentar. Esse povo conformado com a derrota. Essas pessoas que se acostumaram a sofrer. Acordam todos os dias no mesmo horário, correm atrás de ônibus lotados, reclamam das más condições do transporte público e se afogam nas próprias lamúrias que são ouvidas e esquecidas, chacoalhando e se debatendo enquanto viajam em alta velocidade pelos corredores de ônibus que cortam essa cidade que fede à merda, suor e fumaça.

E eu aqui em casa, lar doce lar, com o meu computador, vendo filmes pela TV a cabo, tomando cerveja e jogando com meus amigos.

Eu amo minha casa, minha maior conquista, mas detesto meu bairro.

/ dia 11.11.04 / 0 Comentários

caminho

E bloqueando o caminho entre a mediocridade e o sucesso, existe apenas eu.

Eu, com meus defeitos e minha covardia. Eu. Dizendo que o caminho é realmente difícil e tortuoso. Eu, com minha fraqueza de espírito, segurando um espelho que mostra o reflexo da potencialidade do sucesso, reconhecido claramente quando visto de longe, mas turvo e anuviado quando vislumbrado de perto com uma mínima parcela de coragem. A imagem de concretização se desfaz quando observada de perto. E em seu lugar resta apenas a covardia. Um vulto do que eu poderia ter sido. Do que poderia ter alcançado. Uma imagem envelhecida, como uma foto antiga e desbotada.

Bloqueando o caminho entre tudo o que posso ser e a imensidão de possibilidades que pode se abrir, existe apenas eu.

Eu, com minha visão limitada e meu medo da crítica. Eu, irredutível no meu castelo de falsa perfeição. Eu, cercado por um exército de soldados malditos e armados com lanças envenenadas de motivos e razões. Eu, afundado até o pescoço num pântano movediço de traumas de infância. Eu, escondido atrás de uma cortina de vergonha e receio, observando a uma distância segura o que poderia ser minha vida se eu simplesmente me dedicasse mais. Eu, vagando alienado no espaço, deixando a vida passar diante dos meus olhos enquanto acredito que há tempo para tudo, enquanto os minutos escorrem descontrolados pelos meus dedos flácidos.

No entanto, existe outro eu, no final do caminho, acenando tranqüilamente, com um sorriso fácil estampado no rosto.

Eu, confiante, sóbrio e em paz comigo mesmo.


/ dia 28.9.04 / 0 Comentários