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Psicologia, a ciência sobre “coisa alguma” que estuda a mente

por em 28/07/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Psicologia, a ciência sobre “coisa alguma” que estuda a mente

O que um psicólogo estuda? “Mente”, seria a resposta esperada. Psicólogos dão essa resposta para facilitar para leigos curiosos. Mas a verdade é que essa resposta não responde nada. É como um biólogo responder que estuda a “vida”. Em especial na psicologia, essa resposta simples parece esclarecer porque apela para intuições básicas, como a de que organismos vivos possuem uma coisa em seu interior chamada de mente, onde ocorre pensamentos e sensações. Mente talvez seja o equivalente secular de coisas mais antigas, como a força vital ou o espírito. Ao longo deste texto pretendo desafiar essa visão tradicional, mostrando que a tal “mente” na verdade equivale a diferentes processos, a diferentes sensações experienciadas por um corpo que funciona acoplado a um mundo do qual nunca se desconecta, tudo isso mediado pela linguagem.

De espírito a software

Quando as pessoas dizem que psicólogos estudam a mente humana, elas estão sendo levadas por vieses biológicos e pelo senso comum judaico-cristão ocidental. Tendemos a achar que qualquer coisa que se mexe como se estivesse viva possui um centro vital, uma essência no comando. As religiões em toda sua diversidade cooptam esse viés criando suas próprias versões dessa lógica, como o espírito ou a alma. “Mente” é uma versão secular disso. Em vez de espírito, cada indivíduo teria sua própria mente. Apesar de ser herdeiro tanto do platonismo quanto do cristianismo, foi Descartes que sistematizou filosoficamente essas intuições. Segundo o dualismo cartesiano, a mente seria formada por uma substância imaterial, diferente do resto do mundo sensível (incluindo o corpo), formado por matéria. A psicologia humana seria explicada pela interação dessas duas substância, imaterial e material (como elas interagem é um tremendo problema filosófico que não vêm ao caso aqui).

 

Para as ciências cognitivas mainstream, a mente seria arquivos dentro de arquivos, links dentro de links.

Nenhum psicólogo hoje realmente acredita nessa alma imaterial, mas a estrutura explicativa do dualismo cartesiano permanece. O surgimento da informática em meados do século XX inspirou os cientistas cognitivos a conceberam a psicologia por um panorama filosófico-conceitual que entende a “mente” como um processo computacional. Pensamentos seriam computações, as quais dependeriam do funcionamento dos neurônios conectados pela complexa arquitetura cerebral. Numa analogia que muitos cientistas cognitivos têm encarado muito literalmente, a mente seria um software rodado pelo hardware cerebral.

O dualismo cartesiano e o computacionismo das ciências cognitivas possuem vários dos mesmos pressupostos conceituais: a mente sendo abstrata, interiorizada, o comando central do corpo. A grande diferença seria o status ontológico atribuído à mente. Para Descartes a mente era o espírito, por definição imaterial. Já para o computacionismo a mente estaria mais para um programa de computador, físico no sentido de fazer parte do mundo físico assim como um software. A mente estaria mais para o Dropbox do que para o ectoplasma. Não é à toa que um dos horrores da série Black Mirror é a realização de todos os temores sobrenaturais por vias tecnológicas.

 

Existe uma coisa chamada “mente” na natureza?

Existe outro pressuposto dividido entre esses dois paradigmas, isto é, o de que fenômenos mentais existem na natureza. Em vocabulário filosófico, seria dizer que estados mentais são natural kinds. Isso significa que vontade, intenção, desejo e medo são tão reais quanto, digamos, a água. Quer dizer, água é H2O, assim como desejos seriam estados computacionais específicos (como numa máquina de Turing), instanciados pela ativação de áreas cerebrais específicas.

Uma outra forma de explicar essa não correspondência entre estados mentais e estados físicos/naturais seria dizer que, digamos, a existência de 50 conceitos mentalistas não requer que existam 50 fenômenos físicos correspondentes. A linguagem mentalista seria uma espécie de ilusão, mas uma ilusão necessária. Vou tentar explicar essa utilidade com um exemplo.

 

“Senhor, meu carro não quer pegar”

Imagine que você está jogando xadrez com um computador construído e programado para vencer qualquer oponente. Você não vai conseguir prever o próximo movimento da máquina por saber do que ela é feita, nem por saber detalhes da sua programação. Para jogar contra ela vai ser mais eficiente atribuir racionalidade à máquina. Em outras palavras, atribuir estados mentais à máquina vai ser mais eficiente do que saber detalhes sobre placas, fios, transistores, ou sobre as sequências de 0 e 1 do seu programa. Você não precisa saber nada sobre a constituição física ou sobre o design funcional da máquina, basta que ela se comporte de modo que a teoria da mente embutida no vocabulário intencional do cotidiano funcione suficientemente bem para predizer os movimentos do oponente tentando derrubar sua rainha.

Na verdade, as pessoas fazem isso o tempo todo. Por exemplo, quando seu carro parar de andar você vai dizer a um mecânico que a geringonça “não quer funcionar”. Um eletricista pode dizer construir pára-raios sem saber bulhufas sobre a física que permite que ele funcione; ele pode ter decorado os procedimentos técnicos para construir um, alegando que “o pára-raio atrai os raios, que querem se mover em direção à terra”. É evidente que nem carros nem raios possuem desejos. O ponto é que descrevê-los como se tivessem essas entidades internas funciona o suficiente, dependendo da situação.

Não é à toa que em muitas mitologias o raio é identificado com divindades. Humanos sempre atribuíram estados mentais a coisas inanimadas.

Filósofos como Daniel Dennett alegam que a mesma coisa ocorre com seres humanos. Quer dizer, não existe um mundo interno ectoplasmático nem computacional misterioso instanciando fenômenos diferentes dos fenômenos fora do corpo. A questão é que organismos humanos funcionam de modo que a aplicação de uma teoria da mente, usando termos mentalistas, funciona o suficiente na maioria dos casos. A diferença entre humanos, carros e raios é que humanos são sistemas orgânicos moldados ao longo de milhões de anos de evolução. A linguagem mentalista usada para explicar e prever o comportamento humano também passou por um longo processo de evolução cultural que permitiu um refinamento bom o suficiente para funcionar.

 

Quando a instância racional falha, apelamos para a constituição do sistema

Mas, assim como com computadores que jogam xadrez, às vezes ela não funciona. É nesses momentos que são utilizada outras esferas de análise, não mais a da racionalidade interna do sistema. Se um computador começa a jogar erraticamente, com jogadas sem sentido, um técnico vai explicar o comportamento da máquina com base no software ou no hardware, na tentativa de descobrir o defeito. Com humanos é parecido. Com as pessoas começam a agir no cotidiano de forma muito diferente do esperado, técnicos (quer dizer, psicólogos e psiquiatras) explicam seu comportamento com base em problemas cognitivos ou com base em problemas cerebrais. Ou seja, a instância da racionalidade interna do sistema é temporariamente abandonada.

Termos mentalistas são ferramentas eficientes para aumentar o poder que as pessoas têm de interferir no seu próprio comportamento, em suas próprias crenças e etc, assim como, também, para aumentar a capacidade de entender e prever o comportamento dos outros (veja mais aqui). Esse trabalho de nomear sensações físicas e ações com uma categoria de palavras mentalistas funciona como o agrupamento de indivíduos semelhantes em espécies X ou Y. Fica mais fácil entender a multiplicidade de seres vivos dessa maneira, mas isso não significa que a divisão entre espécies corresponde à realidade do fenômeno. Talvez ela seja parcialmente real, pois se não fosse não serviria para muita coisa na prática. Categorizar e nomear são procedimentos úteis, mas não inequívocos.

Isso significa que falar de “mente” mais atrapalha do que ajuda, se queremos investigar a psicologia de um ponto de vista científico. Isso porque a “mente” não é uma coisa, como uma célula ou uma partícula subatômica poderia ser “uma coisa”. Se a palavra “mente” é usada no cotidiano é porque tem seu valor prático provado diariamente. Mas valor prático não é valor científico, nem valor filosófico. No final das contas, a “mente” funciona como um atalho caso não dê para explicar que na verdade a psicologia é o estudo do que acontece com o organismo (um mosaico biológico moldado ao longo de milhões de anos de evolução) em ação, embebido no seu meio, sendo essa inserção mediada pela linguagem, facilitando e produzindo novas formas de interação e de entendimento sobre o que acontece com seu próprio corpo e com sua própria história.

 

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