Há alguns meses, participei da tão sonhada cerimônia de colação de grau da faculdade. Depois de 6 anos e meio e com atrasos, eu finalmente cheguei à reta final. E acabaram me perguntando:“Qual a sensação?”, “O que você vai fazer daqui para frente?”, “Mas você trabalha na área já?”. Então…esse texto vai ser sobre o sentimento da decepção.

Já trabalho na área desde 2016 e, por isso, acabei fazendo a faculdade de maneira mais devagar para dar conta de tudo. E, desde então, comecei a reparar muito na relação dos mestres, das matérias que eles ensinam e o que eu convivia no meu dia-a-dia. No fim dos semestres, fui percebendo que apliquei no mundo real somente uns 40% das matérias que estudei. Esse valor, serviu como base para ingressar e ter uma noção de como ser uma boa profissional, mas o aprendizado mesmo acabou sendo a medida que trabalhava.

“Mas olha, todas as áreas estão assim, não é só com a sua…por que você está com este drama todo?”. Reconheço essa realidade, mas a frustração se tornou maior pelos mestres não quererem mudar seu estilo de aula, ou modernizar suas disciplinas por estarem tão focados em pesquisa. A área de tecnologia hoje sofre mudanças constantes. É fato que nenhuma universidade consegue acompanhar totalmente esse ritmo.

Mas a decepção fica no sentido que nossas faculdades de tecnologia mal e mal fornecem a base para quem quer ingressar nessa área. Nossas matérias de bases não fornecem todo o conteúdo de base que ainda é necessário para o aluno se situar no mercado ou na área de pesquisa. E as aulas que nos são ministradas sempre seguem para o modelo arcaico, que não instiga o aluno a realmente entender o que está fazendo e não mostra nenhuma aplicação no mundo real.

Isso tudo gera um desgaste enorme ao ingressar no mercado de trabalho. O aluno precisa reaprender todos os conceitos de base para resolver um problema e percebe que passou grande parte da faculdade somente repetindo exercícios, como um macaco treinado para pegar uma banana, descascar e comer, para não morrer de fome.

Estranhamente, as matérias da faculdade acabaram focando mais em cálculos, como um curso de matemática, do que realmente instigar o aluno a entender o que é a tecnologia e como você se integra com ela. Passamos semestres e semestres fazendo listas e mais listas de exercícios de forma repetitiva. Quando há algum componente a mais no currículo de um aluno, geralmente este se resume em Iniciações Científicas e Artigos, sempre voltado para a área de pesquisa. Frustra ir para uma sala e perceber que grande parte do que é lecionado não vai ter valia e tão pouco ser usável. Frustra muito perceber que quem leciona vai sempre lecionar a mesma coisa todo semestre e não se importa em mudar, desde que seu lattes esteja em dia.

É compreensível que mudar uma grade curricular é de grande complexidade. Mas, mesmo mudando, existe o fato que os próprios mestres/doutores que lecionam não estão situados no que acontece fora do mundo acadêmico (e também não querem sair do modus operandis da pesquisa). Existem as exceções, claro.

Existem aulas super dinâmicas e mestres que lecionam fabulosamente. Mas é perceptível que grande parte destes sempre acaba indo lecionar em universidades após trabalharem um tempo no mercado. Consequentemente suas aulas são muito menos abstratas e com mais modelos reais, seus projetos e trabalhos dão ânimo aos alunos e sempre envolvem debates e conversas.

Já tive professor, por exemplo, que seus trabalhos mostravam a proporção do que é um problema de computação no mundo real. Outro professor também, mesmo responsável por uma matéria bastante teórica, conciliou todo o conteúdo a um único e enorme trabalho, em que o aluno faria gradualmente ao longo do semestre, para assimilar realmente o que foi visto em teoria. Isso que é ensinar, minha gente!

E ficou notório que a educação brasileira nunca esteve tão fora dos eixos, formando profissionais incapacitados e estudantes que não conseguem pensar fora da caixa. A educação de base do país já é um grande problema que merece textos e mais textos para ser debatido. Mas a educação universitária destacou muito essa irregularidade ao longos dos últimos anos pela quantidade de pessoas que ingressaram/formaram no ensino superior nos últimos anos.

Uma solução primária exige mostrar essa realidade para nossos mestres e doutores. Não os culpo, de forma alguma, pois eles foram ensinados a serem dessa forma já que a academia brasileira não muda suas doutrinas já tem uns bons anos. E por terem cargos quase vitalícios, quem já trabalha nesse ritmo há mais de 20 anos muitas vezes não consegue aceitar que o que é lecionado já não condiz com o que é necessário.

A solução impossível é adequar as funções que um professor precisar ter. O pesquisador, hoje, é obrigado a dar aula, auxiliar os alunos, pesquisar, publicar artigo e ainda ter orientandos. É extremamente similar àquele aluno que precisa fazer 10 matérias e acaba não fazendo nenhuma bem feita. Diminuir as funções melhoraria muito esse problema, fazendo com que o professor consiga focar em poucas coisas e gerar resultados melhores.

Enfim, o tema exige muita reflexão e tempo para resolução. Esse problema não é um dos únicos que enfrentamos com relação à educação no país, e nem de longe é o pior. Mas é sim, de enorme impacto, principalmente por influenciar nossos pesquisadores e profissionais do país todo.

Loraine Oliveira Duarte. Engenheira da Computação, Desenvolvedora e apaixonada por tecnologias.