Texto de Bruna Sá
“Olha lá quem vem virando a esquina
Vem Diego com toda a alegria, festejando
Com a lua em seus olhos, roupa de água marinha
E seu jeito de malandro
E com magia e pura alma
Ele chega com a dança
Possuído pelo ritmo ragatanga!!
E o DJ que já conhece
Toca o som da meia-noite
Pra Diego, a canção mais desejada
E ele dança, ele curte, ele canta
Aserehe ra de re
De hebe tu de hebere seibiunouba mahabi
An de bugui an de buididipi (3x)”
(Ragatanga. Grupo Rouge, Sony Music, 2002)
Quem cresceu nos anos 2000 com certeza já dançou essa música. Seja nas festinhas de aniversário, ou no recreio da escola, ou mesmo, num domingo à tarde, pós-almoço de família (quando todos os primos ainda eram legais e faziam as coisas juntos), nós estávamos sempre performando algum sucesso da época. Dançar o hit da vez é algo que atravessa gerações. Por exemplo, nos anos 50, o Rei do Baião, Luiz Gonzaga, colocou o Brasil para dançar forró agarradinho; na mesma época, Chuck Berry balançou o mundo com o rock and roll, e muito antes disso, Tia Ciata expandia para a capital o que mais tarde viria a se tornar uma das mais importantes expressões da cultura brasileira, o samba.
Nós sempre estamos dançando! Os metaleiros “batem cabeça”, os regueiros balançam ombros e quadris, e os funkeiros, eu não preciso nem dizer. Mesmo a pessoa mais tímida e acanhada, em algum momento, já balançou seus cotovelos ao ouvir algum batuque. Mas por quê? Por que nós dançamos?
A resposta pra isso está na capacidade evolutiva do nosso cérebro em antecipar e prever o momento que a próxima batida musical, o beat, vai acontecer. Ou seja, a percepção de um ritmo é uma função cerebral complexa que vai além de simplesmente escutar, ela envolve uma colaboração bidirecional e sincronizada entre as regiões auditivas e motoras do nosso cérebro. Estruturas como o córtex auditivo, que é responsável por processar os sons recebidos do ambiente, atuam em conjunto com os gânglios da base, o córtex pré-motor e a área motora suplementar para identificar a cadência e os padrões rítmicos. Todas essas estruturas antecipam qual e como será a próxima batida e assim “planejam” como será a próxima resposta motora. É essa interação cerebral que nos leva a bater palmas, balançar os quadris, e para os agraciados com coordenação motora, realizar saltos e giros, de acordo com o beat.

Figura 1: Modelo das vias bidirecionais do processamento auditivo no cérebro humano, destacando a via anteroventral (verde), responsável pelo reconhecimento de sons e fala, e a via dorsal (vermelha), envolvida na integração e no controle sensoriomotor. Principais siglas: AC: Cortex auditivo; PMC: Cortex pré-motor; PFC: córtex pré-frontal. Fonte: Rauschecker, 2011.
Porém, a dança é, antes de tudo, uma forma de comunicação não verbal. É por meio dela que socialmente expressamos nossas emoções, nossas crenças, fortalecemos nossos vínculos ou até mesmo xavecamos. E fazemos isso há milênios! As evidências arqueológicas mais antigas associadas à dança consistem em pinturas rupestres datadas de aproximadamente 30 mil anos. A interpretação dessas figuras milenares como cenas de dança se dá por apresentarem elementos “dançantes”, como posturas corporais dinâmicas, com braços e pernas flexionados, o uso de ornamentos e máscaras e a intensa interação entre as figuras humanas. Nesses conjuntos de pinturas, as figuras humanas aparecem organizadas em círculos, em fileiras ou mesmo lado a lado, sugerindo movimentos coordenados e ações coletivas.

Figura 2: Pintura rupestre representando uma cena de dança em fileira na Toca da Entrada do Baixão da Vaca, Parque Nacional da Serra da Capivara (PI, Brasil). Abaixo, detalhes das figuras antropomórficas que foram eternizadas nas rochas em tons de vermelho e castanho, com os braços erguidos, corpo decorado com linhas paralelas e ziguezague. Fotos e desenhos por: Abreu, M.S. e Buco, C.A. Fonte: Abreu et al., 2020
De lá pra cá, a humanidade diversificou e muito suas formas de dançar. Há danças que são gritos de guerra, como o Haka do povo Maori (Nova Zelândia); que são ritos sagrados, como o Zangbeto dos povos Fon e Iorubá (Benim e Togo); que são folclóricas, como o Odori do Japão, ou mesmo que são resistência cultural, como as danças de rua (hip hop), que transformam identidade e crítica social em movimento. O mundo todo dança! Quem assistiu The Sinners (Os Pecadores) sabe exatamente do que eu estou falando.
No fim das contas, nós dançamos porque, ao longo da evolução, desenvolvemos uma incrível rede cerebral capaz de integrar a percepção auditiva, a previsão do ritmo e o planejamento dos movimentos. Mas a dança vai muito além do movimento. Das valsas europeias ao passinho do Jamal, há séculos de criatividade e transformação cultural que são traduzidos em movimento. Nós realmente dançamos porque somos seres sociais, e somos diversos. E como tão lindamente nos disse o poeta cabo-verdiano Dambará, o batuque é nossa alma!
Referências:
Aubert, M.; Setiawan, P.; Oktaviana, A. A.; Brumm, A.; Sulistyarto, P. H.; Saptomo, E. W.; et al. Palaeolithic cave art in Borneo. Nature, London, v. 564, n. 7735, p. 254–257, 2018. DOI: 10.1038/s41586-018-0679-9.
de Abreu, M. S., Jaffe, T. D. R. S., Jaffe, M., & de Andrade Buco, C. (2020). Imagens sonoras: Danças na arte rupestre da serra da capivara, Piauí, Brasil–uma introdução. ERAS: European Review of Artistic Studies, 11(2), 22-39.
Grahn, J. A. Neural mechanisms of rhythm perception: current findings and future perspectives. Topics in Cognitive Science, Hoboken, v. 4, n. 4, p. 585–606, 2012. DOI: 10.1111/j.1756-8765.2012.01213.x.
Marques, Luzia S. M. Grafias na pedra: índices evolutivos da dança. 2018. Dissertação (Mestrado em Dança) – Programa de Pós-Graduação em Dança, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2018.
Patel, A. D.; Iversen, J. R. The evolutionary neuroscience of musical beat perception: the Action Simulation for Auditory Prediction (ASAP) hypothesis. Frontiers in Systems Neuroscience, Lausanne, v. 8, art. 57, 2014. DOI: 10.3389/fnsys.2014.00057.
Rauschecker JP. An expanded role for the dorsal auditory pathway in sensorimotor control and integration. Hear Res. 2011 Jan;271(1-2):16-25. doi: 10.1016/j.heares.2010.09.001. Epub 2010 Sep 17. PMID: 20850511; PMCID: PMC3021714.
Santos da Rosa, N.; Fernández-Macías, L.; Mattioli, T.; Díaz-Andreu, M. Dance scenes in Levantine Rock Art (Spain): a critical review. Oxford Journal of Archaeology, Oxford, v. 40, n. 4, p. 342–366, 2021. DOI: 10.1111/ojoa.12237.
Biografia:
Bruna Sá, baiana em terras pernambucanas, bióloga, amante das plantinhas miúdas que todo mundo chama de mato. Cursando a formação tradicional dos vilões (o doutorado).


