Cyberpunk 2077 é um jogo lançado em 2020, desenvolvido pela CD Projekt Red, que apresenta um universo distópico, caótico e recheado de tecnologia, corporativismo e de humanos cada vez mais desumanizados, física e psicologicamente.
O que nos torna nós mesmos?
Sobre o jogo (com alguns spoilers)
Cyberpunk conta a história de V, uma personagem que vive na cidade fictícia de Night City (seria o equivalente à Califórnia, mas com muito mais neon, propagandas e caos corporativo). V é cheia de implantes, próteses e sonhos, sendo um deles se tornar uma lenda através de grandes feitos. Independentemente da escolha do início (marginal, corpe ou nômade), V acaba com um “biochip” implantado em seu cérebro, contendo toda a memória e personalidade de um astro do rock rebelde chamado Johnny Silverhand, e a partir daí acompanhamos o desenrolar de uma batalha de sobrevivência e de identidade, uma vez que ambas as personalidades estão lutando dentro de V para se sobressair e tomar as rédeas e o controle daquele corpo. E aí entram várias discussões e dilemas, porque afinal de contas, o que realmente nos torna… nós?
O cérebro muda o tempo todo
Existe uma ideia intuitiva de que nossa identidade é uma característica fixa, algo que carregamos do nascimento até a morte (é o “meu jeitinho”, diria a Xuxa). A neurociência mostra justamente o contrário.
Nosso cérebro está em constante reorganização. Novas experiências alteram conexões neurais, memórias são reconstruídas sempre que são lembradas, crenças mudam, habilidades são adquiridas (por isso que a terapia funciona, faça terapia se puder!). Em certo sentido, ninguém termina o dia exatamente igual a quem era pela manhã (sim, aquela frase do Heráclito sobre o rio cabe bem aqui).
Ainda assim, sentimos uma continuidade. Existe um “eu” que parece atravessar todas essas mudanças.
Por quê?
Porque identidade não é uma fotografia. É uma narrativa construída continuamente pelo cérebro.
Aquilo que nos torna nós mesmos
Anos atrás, em 1995, foi lançado um anime chamado Ghost in The Shell: o Fantasma do Futuro, que abordava um futuro em que qualquer parte do corpo é facilmente substituída por próteses, e a mente é composta por dados digitais.
Naquele momento começou todo esse dilema pra mim, do que é ser “humano” e quais os limites do que nos torna… nós, uma vez que podemos substituir praticamente tudo.
Cyberpunk traz essa camada de discussão, mas de uma forma um pouco mais sarcástica e dura, uma vez que praticamente não existe mais nenhum limite para o corpo, em que quanto você tem para gastar delimita quantas propagandas vão saltar nas suas lentes ópticas (mas hey, você pode ver no escuro e ter os olhos da cor que quiser, o que são uns ads de vez em quando?), e quanto mais cedo você for substituindo suas “peças”, maiores são as chances de se tornar uma lenda (e vemos trechos do jogo onde crianças começam a ter peças e direcionamentos de acordo com patrocínios, e compras — para serem atletas, artistas etc.).
E aí, uma vez que o corpo não é mais limite de nada, então podemos pelo menos contar com a nossa identidade, não é mesmo? Até que surge esse biochip, colocando outra personalidade pra brigar com a sua, e eventualmente tomar o domínio do seu corpo.
Quando o biochip de Silverhand começa a tomar conta de V, a gente começa a questionar: afinal, o que seria a identidade?
Apesar de muitos avanços e discussões na neurociência nas últimas décadas, ainda não há um consenso sobre como a experiência subjetiva emerge da atividade cerebral. A gente sabe muito sobre mecanismos que envolvem percepção, memória, atenção e tomada de decisões, por exemplo, mas não sabemos ainda explicar por que esses processos estão acompanhados de uma sensação de “existir”, experimentar o mundo a partir da perspectiva em primeira pessoa.
David Chalmers, um filósofo (talvez inspirado por Ghost in the Shell, será?) publicou em 1996 um livro chamado “The Conscious Mind” que discute entre outras questões, justamente o que torna algo consciente, além do processamento das informações, mas com vivências qualitativas para a experiência (sentir uma música, perceber as sensações de uma cor, se emocionar e refletir sobre n assuntos ao ver uma obra de arte).
Quando o cérebro muda, a identidade pode mudar
Essa ideia deixa de ser filosófica quando observamos pacientes neurológicos.
Em doenças neurodegenerativas, familiares frequentemente dizem que “a pessoa já não é mais a mesma”, mesmo antes de perder completamente a memória.
Após uma lesão no lobo frontal, algumas pessoas tornam-se impulsivas, perdem o controle emocional ou passam a tomar decisões completamente diferentes das que costumavam tomar. Um caso clássico que mudou a história da neurociência é o de Phineas Gage, um cara gente boa de 28 anos que sofreu um acidente em uma explosão em 1848, e teve uma barra de ferro atravessada em seu crânio e, a partir daí tornou-se explosivo, agressivo e com muitas dificuldades de planejamento. Pra ver mais sobre esse caso, dá uma lida nesse link da Letícia Pichinin.
Isso não significa que exista um “verdadeiro eu” escondido em alguma região cerebral. Significa que aquilo que chamamos de identidade depende do funcionamento de redes neurais extremamente complexas.
Quando essas redes mudam, nossa maneira de existir também muda.
Em Cyberpunk 2077, essa questão ganha uma discussão maior, que queria compartilhar e trocar com vocês: se o Johnny preserva suas memórias, sua personalidade, seus desejos e sua percepção de si mesmo — e mais que isso, ele as experiencia por meio das tomadas de controle sobre o corpo da V, ele continua sendo uma consciência? E se a V permanece capaz de refletir sobre si, de fazer escolhas e de perceber suas próprias mudanças, o que significa dizer que um está “substituindo” o outro?
Bora conversar mais sobre isso no post? :)


