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O TDAH e o Meu Caminho para a Gravidade Quântica

por em 05/03/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

O TDAH e o Meu Caminho para a Gravidade Quântica

Olá. Este texto vai ser um pouco diferente do tradicional, pois ele trata essencialmente sobre minha experiência com o TDAH e sendo Físico-Matemático. O público alvo principal que busco atingir é justamente o de pessoas que possuem o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade e desejam trabalhar com ciência de alguma forma. Então se você conhecer alguém que se encaixe nessa descrição, por favor, indique este texto. 

Ok? Para os TDAHs: Vá para o seu local de estudo, coloque seus fones para ouvir algum white noise, pegue seus post-its, canetas coloridas, seu fidget toy favorito e venha comigo ver porque você também pode ser um cientista.

Motivação

Eu tenho 35 anos e apenas 3,5 anos atrás fui diagnosticado com TDAH. Desde que descobri isso minha vida mudou drasticamente, minha confiança no que sou capaz de fazer, minhas atitudes para abordar os problemas comuns da vida, meus métodos de estudo e possivelmente até minha personalidade. Tudo isso porque passei a fazer tratamento e ler livros, artigos, sites e fóruns sobre o tema. Em alguns desses fóruns vi diversos relatos de mães de TDAHs e crianças e adolescentes portadores que envolviam o mesmo assunto: o TDAH tem o sonho de ser cientista, mas acha impossível já que muitas pessoas ao seu redor dizem que a condição impede que ele exerça esta função de alto nível intelectual.

Bom, no ano passado eu finalizei meu Pós-Doutorado em Física Teórica. O objeto da minha pesquisa não passou nem perto de ser algo humilde, se tratava da construção de uma teoria quântica para a gravidade. Se você conhece um pouco de Física já deve ter ouvido falar sobre a busca de uma teoria que unifique a Relatividade Geral e a Mecânica Quântica. Físicos e Matemáticos vem buscando esta teoria há quase 100 anos e até hoje temos algumas candidatas, mas nada plenamente aceito.

Pois bem, isso parece ser bem difícil, não? É sim e eu tenho TDAH. Essas duas situações me levaram a escrever como cheguei até a atual situação mesmo possuindo este transtorno.

Antes do diagnóstico: a escola

Pela minha vida escola parece não haver traços de problemas com atenção ou hiperatividade. Eu sempre fui um bom aluno, boas notas e sem problemas de comportamento. É comum que crianças com TDAH tenham problemas disciplinares em sala de aula ou por não fazer a tarefa. Isso ocorre normalmente por causa da dificuldade de ficar parado fazendo a atividade estipulada (muitas vezes confundido com ser criança simplesmente). Eu não sofri com estas duas características, creio que devido a um senso de honra que criei por causa dos meus pais. Meu irmão, cinco anos mais velho, sempre teve terríveis problemas de disciplina na escola (não vou me arriscar a lista-los aqui). Observando a quantidade de enrascadas que ele se metia, aliado ao discurso dos meus pais sobre a importância da escola e o respeito que se deveria ter com um professor, eu acabei desenvolvendo um medo de ser reprovado e decepcionar os professores. Só hoje entendo que era apenas falta de alguém me observar, pois eu sempre era o último a copiar o conteúdo e último a ir para casa. Como eu ficava no mundo da lua, ficava para trás e nunca conseguia prestar atenção. No fim das contas eu apenas tentava muito, acabava aprendendo em casa mesmo. As tarefas eram feitas em no máximo 30 minutos pelos meus colegas enquanto eu levava a tarde toda.

Hoje não é surpresa que eu me dava bem em matemática e física. Não havia textos longos para ler, bastava eu entender uma equação e usar lógica para aplicá-la. Já português, literatura e geografia eram muito difíceis. Certa vez o prazo para ler um livro estava chegando ao fim e acabei chorando sobre ele. Fiquei várias horas no meu quarto tentando ler o livro Amor de Perdição e não conseguia passar da página 20, sempre que me dava conta eu não estava prestando atenção no que estava lendo, ia voltando várias páginas e não lembrava de ter lido aquelas coisas.

Antes do diagnóstico: a universidade

Saí do ensino médio como muitas pessoas que chegam na universidade. Eu era o melhor aluno da minha escola e tinha um futuro brilhante pela frente. Tive o mesmo choque que a maioria das pessoas que tenta algum curso de exatas: era muito difícil e diferente da escola, eu sentia que não estava preparado. Assistir aulas era mais difícil que nunca e frequentava as aulas apenas para saber o que estava acontecendo nas disciplinas, e novamente tudo se resumia a estudar sozinho. Passei por vários grupos de estudo e nunca me adaptei. Não demorou muito até eu ter certeza que nunca terminaria a graduação de bacharelado em Física, aquilo parecia impossível. Bem a coisa foi andando e consegui terminar em 4 anos e meio (dos 4 previstos). Eu sentia que meu conhecimento era muito volátil, logo que a uma prova passava eu já não lembrava muito do conteúdo do assunto e algumas disciplinas eu nem lembro de ter feito. Resumindo eu me sentia um inútil que não sabia nada de Física. Hoje entendo que nunca tentei fazer a prova para o mestrado em Física por medo de falhar (aquele medo de decepcionar as pessoas).

Antes do diagnóstico: a pós-graduação

Acabei fazendo o mestrado em Ciência e Engenharia de Materiais em um ano. Não entendo muito bem como isso aconteceu, pois acredito que houve uma falha nesse processo. O estilo do meu orientador não era o ideal para mim, ele me dava tanta liberdade que eu não conseguia definir o que fazer e acabava fazendo coleção de artigos e fazendo diversos experimentos com pouco planejamento. Nesse momento eu não percebi, mas experimentei um intenso hiperfoco, do nada ao saber que poderia ganhar bolsa de doutorado se terminasse o mestrado em um ano (eu estava sem bolso no mestrado), eu escrevi minha dissertação em duas ou três semanas. Como eu não tinha outra opção e a pressão era enorme não me restou lugar para viajar ou tempo para procrastinar, eu simplesmente escrevi.

Fiz tantos experimentos diferentes no mestrado que quase tudo que usei para defender o doutorado na mesma área foi herdado dali. O doutorado foi mais difícil, tive depressão pela segunda vez, estava sempre rodeado de pensamentos suicidas, me sentia pressionado a casar com a menina que namorava e ainda me achava um estúpido e péssimo físico, ou seja, síndrome do impostor. 

Novamente eu tinha tanta liberdade (na verdade era falta de planejamento) que não conseguia escrever a tese. Não tinha motivação, não gostava do meu trabalho e minhas esperanças de me tornar um professor concursado (caminho mais comum para um físico) eram nulas devido a extrema dificuldade das provas.

Antes do diagnóstico: a vida de professor

As coisas começaram a mudar quando minha bolsa estava prestes a acabar. Em um lapso de coragem (eu sempre me sabotava e não ia fazer essas provas) eu fiz a prova para professor substituto do departamento de física (a primeira aula que dava na minha vida) e acabei sendo chamado. Esse fio de esperança ajudou muito no momento mais difícil da minha vida, psicologicamente falando. Meu relacionamento de 7 anos tinha acabado de maneira trágica e eu não sabia como iria me sustentar.

Ser professor me fez estudar várias coisas novamente e lembrar que eu gostava de física. Provavelmente não fui um bom professor naquele ano, eu era inexperiente e ainda tinha medo de falhar.

Depois de um ano sem fazer absolutamente nada do doutorado surgiu a notícia de que meu doutorado trancado não poderia ser estendido, se eu não defendesse a tese em cerca um mês e meio, teria a matrícula cancelada e possivelmente teria que devolver o dinheiro dos quatro anos de bolsa. Mais uma vez minhas amigas pressão e falta de opção me ajudaram e escrevi a tese em rapidamente e a defendi.

Alguns meses depois fui surpreendido por uma oportunidade, ir morar em outra cidade e ser professor tempo integral em uma universidade lecionando física e cálculo. Eu morri de medo quando soube que precisaria dar aulas de cálculo, pois achava que era meu ponto mais fraco. Acabei me enchendo de coragem e aceitei o desafio. Parti para um lugar desconhecido e sem amigos.

O diagnóstico: a vida de professor e pesquisador

Até agora não falei muito sobre o TDAH, mas acredite que chegarei lá. Nessa nova universidade eu não tinha a opção de continuar as pesquisas do meu doutorado por falta equipamentos e eu não queria apenas dar aulas para sempre. Não sei exatamente em que momento aconteceu, de repente eu me senti confiante e decidi que queria um futuro intelectualmente mais satisfatório. Minha decisão foi me tornar físico teórico.

Passei a gastar boa parte do meu salário com livros e fui lutando contra minha falta de atenção e procrastinação para, no meu tempo livre, estudar tudo que havia visto na graduação. Foi difícil e doloroso, mas minha vontade me fez começar a bolar estratégias de estudo e para não me boicotar. Meus grandes aliados foram sites, livros e fóruns sobre esses assuntos. Em cerca de um ano e meio eu havia estudado tudo da graduação, minha mãos doíam de tanto fazer contas e eu produzia montanhas de papéis com exercícios e anotações. Eu havia encontrado o amor na física teórica, mais especificamente na física-matemática. 

O ponto de virada aconteceu por causa do Nerdcast 535, em que falaram sobre o TDAH. Eu já havia visto algo sobre o assunto e como muitas pessoas achava que era só “preguiça com desculpa”, mas ao ouvir o podcast fiquei assustado com as semelhanças em vários comportamentos meus do dia a dia. Como eu morava longe de casa desde os 18 anos, não tinha uma pessoa para me alertar sobre os problemas que a falta de atenção provocavam, sem falar nas comorbidades que costumam acompanhar ela.

Após ouvir esse episódio procurei um psiquiatra e psicoterapia. Eles não tinham dúvidas, eu tinha TDAH e minha hiperatividade não era fisicamente muito perceptível era mais mental.

É incrível o que pode acontecer quando você simplesmente sabe o problema que tem. Passei a consumir tudo que podia sobre o assunto em busca de soluções e acabei entendendo inúmeros aspectos da minha personalidade. O exemplo mais típico era a velocidade com que eu dava aula. A principal reclamação dos meus alunos nunca foi sobre minha capacidade, vontade ou conhecimento, foi sobre eu “dar aula na velocidade da luz”. Eu acabava fazendo muitas contas de cabeça para economizar tempo devido a ansiedade e acabava prejudicando eles.

A medicação e a terapia fizeram de mim uma pessoa muito melhor através do autoconhecimento. Além de ter mais confiança, diminuir o medo de errar e entender como estudar de forma efetiva do meu jeito, me tornei mais consciente sobre as dificuldades de cada um e como a oportunidade faz toda diferença.

Rapidamente eu estudei tudo que veria no doutorado em Física, aprendi a programar e comecei a criar cursos extracurriculares para ensinar tudo o que eu ia aprendendo no meu tempo livre.

A Relatividade Geral

Chegou um momento que eu não sabia mais o que estudar e então pensei “o que todo físico gostaria de saber, mas poucos tem coragem de tentar é estudar relatividade geral”. Como de costume comprei vários livros e comecei a estudar o assunto. Rapidamente percebi que ali havia um novo mundo, uma matemática diferente da que eu havia visto. Tive que parar e estudar Geometria Diferencial para depois voltar para a Relatividade Geral. Foi realmente bem difícil, fui bem fanático em otimizar meu tempo, abdicar de vida social e testar vários livros diferentes para me adaptar.

Como disse o grande Lev Landau “a Relatividade Geral é provavelmente a mais bela das teorias”. Fiquei apaixonado por aquilo. Nesse momento um professor meu amigo me falou sobre um professor antigo dele, um matemático maluco que trabalhava numa universidade na cidade ao lado e que havia sido orientado pelo famoso Roger Penrose (claro que o nome do Penrose vivia aparecendo nos livros que eu estava estudando). Aquilo tudo parecia algo tirado de um filme, mas resolvi arriscar, entrei em contato com esse professor falando da possibilidade de fazer pós-doutorado com ele. Fui então convidado a participar da disciplina de Relatividade Geral que ele ia lecionar, acho que foi uma espécie de teste. Creio que passei no teste, dois meses depois era eu quem estava lecionando essa disciplina para o professor e o outro aluno matriculado (eu acho isso engraçado).

Em 2018 a vida acadêmica foi me dando vários golpes (quem já passou por essa área sabe como os egos tornam as pessoas inimigas) e tomei uma decisão importante, resolvi pedir demissão da universidade e passar um ano fazendo o pós-doutorado vivendo do dinheiro que havia guardado.

Imagem retirada do canal PBS space-time

Então fizemos uma reunião para definir um tema de pesquisa para mim, a proposta desse professor me deixou surpreso “podemos trabalhar na segunda quantização da gravidade, o que acha?”. O que significa isso? Significa encontrar uma teoria que unifique a Relatividade Geral e a Mecânica Quântica, talvez o maior problema em Física dos últimos anos.

Ele me deu um caminho inicial, usar o formalismo matemático que ele aprendeu com o Penrose, Formalismo Espinorial de Infeld-Vaerden. Não se preocupe, isso não é fundamental para o que estou contando. Era mais uma novidade em matemática que eu deveria vencer.

Vou pular os detalhes, passei por um ano difícil e isolado estudando tudo sobre esse formalismo, sobre teoria de campos em espaço-tempo curvo e sobre topologia algébrica até que um breve instante de iluminação (imagino que os grandes gênios tenham isso com frequência) me fez ter uma ideia de como bolar a teoria. Por fim finalizei o trabalho já sabendo que não seguiria a carreira acadêmica (nesse meio tempo eu fui contratado como cientista de dados), o pós-doutorado foi uma espécie de conquista pessoal, um presente que eu queria me dar para me mostrar do que sou capaz. Não publicamos a teoria e não sei se ela está disponível em algum lugar. Eu a deixo disponível aqui para os curiosos e interessados: “Construção de uma nova teoria quântica da gravidade num contexto espinorial de segunda quantização”

Muito ainda teria que ser feito em cima dessa teoria para verificar o significado das grandezas observáveis e da possibilidade de as medir, mas isso não será feito por mim…

Hoje

Bom, eu escrevi isso tudo apenas para pode dizer que, apenas quando entendi qual era o problema comigo, tive a oportunidade de desenvolver estratégias para melhorar minha vida e fiz terapia que conseguir ir até onde eu queria.

Como eu disse muitas vezes, nada foi fácil, precisei tentar muito, preciso até hoje. Ainda tenho depressão, mas tenho maneiras de lutar contra isso. Agora sou muito feliz no meu trabalho fora da academia, me sinto confiante, perdi o medo de errar, continuo cientista e pesquisador, aprendi a entender o próximo, não nego desafios e continuo sonhando alto.

Se você tem TDAH ou acha que tem, não acredite no que qualquer um fala sobre a medicação e procure ajuda profissional (psiquiatras e psicólogos), apenas com terapia e medicação você vai superar as dificuldades. Se você conhece alguém nessa situação, por favor, mostre esse texto para pessoa (se ela conseguir ter atenção pra ler ele todo hehe). Quem sabe ele possa ajudar ela a acreditar em seu potencial e lutar pelos seus sonhos.

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