Eu sei que você, meu querido leitor, já tá ficando cansado de mim. Pareço um disco arranhado, uma série repetida, um dia da marmota. Quase todas as vezes que venho aqui, trago um pedaço das intrépidas entradas no mato que realizo de forma recreativa e voluntária.

Mas não desista de mim! Assim como em um disco arranhado, se você fechar os olhos e prestar bastante atenção na música, notará uma nova nota, um timbre diferente, um instrumento de fundo. Nas séries que assistimos sempre, mesmo sabendo os diálogos de trás para frente, se você cerrar os olhos nos cantinhos escusos, pode notar detalhes que sempre estiveram ali, como uma piscadinha dos produtores para os fãs. Afinal, não é assim que surgem os easter eggs?

Por fim, mesmo no dia da marmota, com todo seu roteiro cravado como pedra na sua mente, sempre existe a oportunidade de fazer algo diferente, de testar algo novo, de tomar uma nova rua (que pode ser sem saída, mas o que vale é a vontade). Tudo isso pra te convencer a vir comigo em mais uma empreitada no matagal e conhecer mais três coisas que a nossa querida e resiliente Mata Atlântica, que abraça como uma mãe a magistrambólica metrópole que se levanta sob os Campos do Piratininga, esconde nos seus caminhos mais longínquos (ou nem tanto, Paranapiacaba não fica tão longe assim do centro).

Duguetia lanceolata

A primeira que eu encontrei foi uma frutinha muito curiosa, que se destacou muito pela sua cor vermelha e formato distinto no meio da mata. Quando encontramos ela, meus companheiros de trilha a apelidaram carinhosamente de “brinquedo de cachorro”. Sabe aquelas bolinhas pontudas que usamos com nossos doguinhos? Realmente ela parecia, obviamente sem a mesma solidez do seu parente de plástico.

Em minhas pesquisas descobri de quem se tratava. Essa primeira frutinha era a Duguetia lanceolata, mais conhecida pelo nome de pindaúva, biribá perovana ou mesmo pindaíba. O nome pindaúva vem do tupi-guarani que significa “árvore dos caniços ou varas”, fazendo referência aos brotos que surgem na base do caule que os indígenas usavam para fazer suas casas.

A fruta em si é comestível (a que eu encontrei já estava semiconsumida) e com relatos de que é saborosa na literatura, chamando bastante atenção de aves e outros animais. Suas cascas e folhas são usadas como fitoterápicos, com ações cicatrizantes, antimicrobianas e anti-inflamatórias. Alguns estudos apontam possível atividade antinociceptiva (reduz precepção e transmissão de estímulos que compreendem o fenômeno da dor) além de presença de metabólitos que agem contra o protozoário Trypanossoma cruzi e os fungos Candida albicans, Cryptococcus neoformans e Saccharomyces cerevisiae (todas as referências no final do artigo).

Dentro das pesquisas em saúde aplicada, o artigo mais recente sobre a pindaíba é de 2022 de um grupo brasileiro (VAI BRASIL!) que realizou a caracterização química de uma molécula previamente descrita que está presente no extrato das folhas da planta, além de verificar a ação contra formas do protozoário Leishmania, causador da leishmaniose, que tiveram resultados bem animadores!

Como curiosidade, estima-se que a expressão idiomática “estar na pindaíba” refere-se ao fato do fruto da pindaíba ser facilmente derrubado quando está maduro. Entretanto, pelas fontes dessa informação que pesquisei, é difícil estimar se a expressão veio antes ou depois da associação com fruto.

 

Psychotria nuda

Outro elemento encontrado nessa jornada foi a Psychotria nuda. Com seus frutos de cor anis (achei muito chique essa descrição no portal da Embrapa), me chamou a atenção por parecer muito com frutos de café. Tem uma característica mais ornamental, conhecido popularmente como cravo-negro, encontrado em florestas bem úmidas e em beira de corpos d’água, nativa da Mata Atlântica.

Essa planta já é muito bem descrita quanto aos seus ativos, sendo que o uso mais recente que eu encontrei foi a aplicação in vitro do extrato das folhas para observar a atividade contra o Mycobacterium tuberculosis, a causadora da tuberculose. Os resultados mostraram que nessa planta tem muitos metabólitos secundários promissores, mas são necessários mais estudos de cada um isoladamente e em conjunto.

 

Roridomyces roridus

Para finalizar, o último achado dessa aventura foi um amiguinho muito bonitinho chamado Roridomyces roridus. Geralmente eu não escrevo sobre fungos por fugir muito da minha área de domínio e habilidades de reconhecimento, mas esse me chamou atenção pela sua forma e beleza.

Esse cogumelo é conhecido como gorro pingado, exatamente por conta desse aspecto meio “melado” que me chamou atenção. Apesar de a floresta ser relativamente úmida, esse organismo se destacava.

Curiosamente, existem poucas informações sobre este cogumelo associado a sua presença na Mata Atlântica, sendo mais referenciado em locais como os EUA e a França. Nesses catálogos, descobri que este cogumelo pode ser bioluminescente, o que deve ser lindo à noite.

Esse pequeno ser vivo me fez mudar as buscas que geralmente faço nesses textos, pois, de forma surpreendente ou não, a ligação entre fungos e pesquisas em saúde são escassas, nesse caso, inexistentes. Usando o PubMed, Scielo e outras bases confiáveis, muito se encontra sobre a descrição e descoberta em diversos locais, mas não encontrei descrição de metabólitos secundários, nem mesmo outras pesquisas.

Isso me traz uma questão interessante: fungos são subvalorizados em pesquisas em saúde por algum motivo? Limitações técnicas? Restrições de uso? Essa é pra você, caro leitor, que acha que estamos aqui para ensinar, mas na verdade, cada busca é um aprendizado, tanto para você, quanto para mim.

 

Referências bibliográficas:

https://www.colecionandofrutas.com.br/duguetialanceolata.htm

https://www.arvoresdobiomacerrado.com.br/site/2017/04/03/duguetia-lanceolata-a-st-hil/

http://cncflora.jbrj.gov.br/portal/pt-br/profile/Duguetia%20lanceolata

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35796444/

https://www.embrapa.br/busca-de-publicacoes/-/publicacao/995056/psychotria-nuda-cham–schltdl-wawra-rooting-of-stock-plants-in-different-phenophases-and-environments

https://www.ecoregistros.org/folha/Psychotria-nuda&idlugar=36658

https://inpn.mnhn.fr/espece/cd_nom/463334/tab/archeo

de Carvalho Junior AR, Oliveira Ferreira R, de Souza Passos M, da Silva Boeno SI, Glória das Virgens LL, Ventura TLB, Calixto SD, Lassounskaia E, de Carvalho MG, Braz-Filho R, Curcino Vieira IJ. Antimycobacterial and Nitric Oxide Production Inhibitory Activities of Triterpenes and Alkaloids from Psychotria nuda (Cham. & Schltdl.) Wawra. Molecules. 2019 Mar 15;24(6):1026. doi: 10.3390/molecules24061026. PMID: 30875889; PMCID: PMC6471101.