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O que podemos aprender com os “Gurus de Redes Sociais”?

por em 21/05/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

O que podemos aprender com os “Gurus de Redes Sociais”?

Recentemente o Professor André Azevedo escreveu um artigo[1] bastante intrigante sobre a influência daquilo que ele denomina “gurus de redes sociais” na vida de crianças e adolescentes. Em uma clara resposta àqueles que defendem o Escola Sem Partido, Azevedo aponta para o fato de que, atualmente, os professores têem muito pouca influência sobre seus alunos, mal conseguindo conquistar a atenção dos mesmos em sala de aula e, consequentemente, muito distantes de exercer algum poder de doutrinação sobre eles. Ao mesmo tempo, ainda segundo o artigo, os jovens no Brasil “gastam”, em média, 9 horas por dia navegando na internet, sem um controle mais rigoroso dos pais e expostos a conteúdos “tóxicos” e “anticientíficos”.

As ideias iniciais do autor ganharam mais força após a publicação de um relatório do Googlesobre os usuários de Youtubeno Brasil e comentado por ele mesmo em sua conta no Twitter. Segundo informa a empresa, as opiniões dos usuários de sua plataforma são influenciadas em sua grande maioria pela Família (43,1%), Amigos (34,8%) e Youtubers(20%), seguidos por Jornalistas e Notícias (19,1%), Influenciadores de Instagram (9,6%) e Celebridades de Televisão (6,8%). Neste ponto, a observação de Azevedo é precisa ao reparar que os professores sequer aparecem listados entre aqueles que formam a opinião do público da plataforma de vídeos, que inclui, obviamente, os jovens e estudantes.

É importante que ressaltemos que as principais críticas feitas pelo autor não estão voltadas à tecnologia em si, mas sim ao modelo de negócio da plataforma que, por conta de seu acesso gratuito e irrestrito, faz de seu uso uma rotina viciante e promove uma espécie de idolatria do espectador junto aos canais aos quais se converte em seguidor, no sentido mais amplo e “perverso” da palavra. Desta feita, a mensagem do youtuberpassa a ganhar uma dimensão quase messiânica, produzindo séquitos em seu entorno, uma turba disposta a atacar e difamar pessoas e instituições, entre elas a escola e os professores.

Diante desse quadro, Azevedo faz um apelo “às famílias que se preocupam com a formação de seus filhos”, para que se unam aos professores

na reflexão crítica sobre os gurus de redes sociais que propagam conteúdos obscuros que as crianças e jovens consomem o tempo todo na Internet. E não o contrário, como temos visto. Ao ameaçar a liberdade dos professores, deixando os charlatões digitais à vontade para corromper a inteligência dos estudantes, as novas gerações ficarão ainda mais vulneráveis à desinformação, à pseudociência e aos preconceitos grosseiros que contaminam a rede. [1]

Estou de acordo com o diagnóstico acima apresentado e penso que a participação da família no processo educativo é um dos caminhos essenciais para o desenvolvimento de uma boa educação. Sem precisar recorrer à Finlândia, é possível dizer que dados já antigos apontavam para uma melhora no rendimento do aluno cujos pais fazem perguntas sobre o cotidiano da escola e sobre as atividades a serem desenvolvidas no lar. Acho que isso é algo que nos coloca todos em acordo, certo?

Porém, a minha observação dissonante vai em direção não à critica ao modelo de negócios do Google, mas sim ao modelo escolar e sua relação com as tecnologias, até porque não vejo com bons olhos as saídas fáceis que visam a restringir acesso às coisas ao invés da difícil opção de se ensinar o bom uso das mesmas. Sendo assim, penso que a primeira pergunta que devemos fazer é: por que os gurus de redes sociais conseguem a atenção dos jovens e os professores não? Parece-me que isso não é um tipo de dilema Tostines, em que é impossível adivinhar quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha. Acredito que a difamação aos professores pode ter aumentado após o crescimento exponencial desses sujeitos que esbravejam em seus canais de Youtube, mas o fascínio que eles exercem sobre estudantes nasceu antes disso. Isso se dá por conta da linguagem que usam, ou pelos canais pelos quais comunicam-se com seu público, ou por terem sido supostamente “escolhidos” pelo usuário e não impostos pela “grade” (que palavra péssima!) de aulas?

Neste ponto, a minha pergunta possui uma resposta provisória: a geração que nasceu após o advento da internet não faz uma distinção entre “vida real” e “vida virtual”. Nenhum de seus representantes riu no filme da Capitã Marvelquando Nick Fury insertou um disco de instalação em seu PC. Diante desse quadro é quase desnecessário perguntar quanto tempo eles “gastam” na internet, uma vez que, para eles, essas coisas não se separam. Assim sendo, a escola e os professores apareceriam como uma espécie de imposição de um modelo de socialização anacrônico em relação às suas vidas.

Ironicamente, enquanto a educação tradicional ataca os processos educativos à distância e o homeschooling, os gurus de redes sociais recorrem a expedientes semelhantes para difundirem suas ideias (ou a falta delas). Podemos até questionar o conteúdo transmitido por eles, mas não podemos duvidar de que o modelo funciona. Vejam, os jovens estão repetindo informações equivocadas, como terraplanismo, nazismo de esquerda, entre outros, não porque entenderam errado a “lição”, mas, ao contrário, porque entenderam muito bem a asneira dita por seu youtuber favorito.

Que fique claro que não prego o fim da escola e dos professores. Sou professor e não faço o tipo suicida. Apenas penso que a educação, desde seu princípio na Grécia, tem um fundamento um tanto conservador, de se olhar para a escola como um instrumento de transmissão da “sabedoria acumulada” pelos mais velhos para as gerações mais novas. A Paidéia, ou o homem ideal grego, representa a busca pela formação de uma espécie de tipo idealizado de ser humano. Por isso, penso que algumas críticas genéricas aos gurus de redes sociais estão carregadas de nostalgia. Assim, ao invés de nos indignarmos diante do fato de que “essa juventude não sai do Youtubee não se informa mais pelos livros”, deveríamos levar também conhecimento para lá. Nesse ponto, estou de acordo com o André Azevedo, quando ele escreve algo que eu defendo há algum tempo: “professores e cientistas não podem deixar de participar das redes sociais, pois espaços vazios são ocupados por charlatões”[2].O próprio André possui um canal de divulgação científica, por exemplo.

No entanto, é preciso pensar a questão para além das plataformas digitais e entendermos como isso pode ser trazido para o próprio ambiente escolar. Cada vez mais acredito que Pierre Levy acertou o diagnóstico feito em seu livro Cibercultura(1999) quando afirmou que, em um mundo onde cada pessoa representa um depositório quase infinito de informações, a função do professor não é a de inserir conteúdos, mas o de colocar os universos dos alunos em comunicação, para, a partir daí, transformar tais saberes em conhecimentos.

Portanto, não se trata apenas de substituir a lousa pelo PowerPoint ou levarmos os alunos ao laboratório de informática, mas a de atualizar o modelo de ensino à uma sociedade que aprendeu a se socializar via aplicativos. Se 8 entre 10 crianças sonham em ser youtubers, por que não as incentivar a criar um canal da turma de colegas da sala de aula sobre os conteúdos das disciplinas assistidas na semana? Ou então, trocar a avaliação em papel pela produção de conteúdo digital, como um podcastsobre o Nazismo ou o Golpe de 64? Usar o Scicast(olha o jabá!) como material de apoio? Que tal levar os vídeos do youtubertóxico para dentro da sala de aula e demonstrar os pontos em que sua “teoria” apresenta inconsistência? Por que não incentivar a criação de contas de Instagramcom imagens de cientistas e suas teorias? Enfim.

You may say I’m a dreamer” e que os professores não recebem formação adequada para isso, mas acho que o caminho para a educação passa necessariamente pela adoção de uma simbiose com o que nós da antiga geração chamamos de “vida virtual” com a “vida real”. Pois, se excluirmos a dimensão ciberespacialda abordagem escolar, excluiremos gerações e continuaremos promovendo uma educação para os pais. É preciso, portanto, encarar que existe um mundo para além da pílula vermelha a ser explorado e, neste caso, parece-me que o antigo ditado ainda é válido, para derrotar o seu inimigo é preciso conhece-lo. Em outros termos, os gurus de redes sociais, por mais incrível que pareça, tem muito a nos ensinar.

[1] @azevedofonseca/não-são-os-professores-que-estão-doutrinando-jovens-são-os-gurus-de-redes-sociais-f002ae0e8714">https://medium.com/@azevedofonseca/não-são-os-professores-que-estão-doutrinando-jovens-são-os-gurus-de-redes-sociais-f002ae0e8714

[2]@azevedofonseca/youtubers-s%C3%A3o-mais-influentes-que-professores-5edfa10c5126">medium.com/…/youtubers-são-mais-influentes-que-professores-5edfa10c5126


Marcos Sorrilha Pinheiro. Professor de História da América na Universidade Estadual Paulista em Franca/SP; escritor de literatura fantástica, autor de “Lino Galindo e os Herdeiros do Trono do Sol”; e pai do Nicolas e do Henrique, meus parceiros de Minecraftnas horas vagas.

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