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O início do Urbanismo no Brasil – Parte 2

por em 02/04/2021 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

O início do Urbanismo no Brasil –  Parte 2

Continuando nossa saga sobre o urbanismo no Brasil, vocês lembram que a gente falou bastante aqui sobre o Plano Agache? Ele foi um plano de ordenamento e embelezamento da cidade do Rio de Janeiro lá dos anos 1920. Você pode ler ou relembrar dele aqui

Acontece que em 1930 o Brasil era ainda na maior parte agrário, a maior parte da nossa população vivia na zona rural. Os problemas urbanos já existiam e continuaram a existir como já falamos aqui. A atividade industrial ainda estava se consolidando para se tornar a principal atividade econômica nas cidades. 

Apesar da nossa industrialização no Brasil ter sido tardia, já nos anos 1940 e 1950 as migrações se intensificaram. A partir dos anos 1970 a população urbana passou a ser maioria e em crescimento até próximo os dias de hoje em que quase 90% das pessoas do Brasil vivem em áreas urbanas.  

Figura com gráficos de barras da proporção entre a população urbana e rural no Brasil de 1940 a 2010. Em 1940 a população urbana era de 31%, foi aumentando a cada década chegando a 84% em 2010.

Nesses anos os problemas urbanos foram aumentando vertiginosamente, imagina uma cidade que até pouco tempo atrás também era rural e que no intervalo de poucos anos passou a ter muito mais gente para morar, comer, se locomover, usar serviços de saúde etc? 

Problema urbano não faltava e as pressões para que houvesse política urbana também. 

O Plano Agache do Rio de Janeiro inaugurou uma sequência de outros planos em cidades maiores, mais a passos lentos e com demora de alguns anos.  

Plano Doxiadis do Rio de Janeiro – 1965

Ainda no Rio de Janeiro em 1965 foi concebido o Plano Doxiadis na gestão de Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara/Cidade do Rio de Janeiro.  

Uma curiosidade: Brasília tinha acabado de ser inaugurada em 1960 e toda parte administrativa do governo federal que ficava na antiga capital (Rio de Janeiro), foi transferida para o novo Distrito Federal em Brasília. Carlos Lacerda que era um crítico dessa mudança acabou sendo eleito governador do Estado da Guanabara, que foi criado em substituição ao Distrito Federal. A hoje cidade do Rio de Janeiro foi um estado do período de 1960 a 1975, quando o estado do Rio de Janeiro e o Estado da Guanabara foram unificados. 

Na figura é possível ver o presidente Juscelino Kubitschek no primeiro plano com o braço direito levantado, acenando. No fundo é possível ver uma parte dos prédios do congresso nacional e o povo na rua na inauguração de Brasília. Foto em preto e branco. Fonte: http://memorialdademocracia.com.br/card/brasilia-e-a-nova-capital-do-pais

Havia um sentimento geral de incerteza desse “abandono” da cidade que era o distrito federal e acabou ficando vazia com um monte de prédio histórico sem ocupação, somado a um empobrecimento da região, que tinha muitos servidores públicos e que foram transferidos. 

Para tentar conter esses e outros problemas, depois de 37 anos do Plano Agache que nunca foi totalmente implementado, o Plano Doxiadis foi mais moderno na percepção de que as cidades precisam se desenvolver juntas. Ele já considerou no desenvolvimento da cidade do Rio de Janeiro a área metropolitana com todos os municípios do seu entorno. 

O Plano foi elaborado em uma parceria entre a Comissão Executiva de Desenvolvimento Urbano do Estado da Guanabara e a empresa Doxiadis Associates, do arquiteto grego Constantino Doxiádis e a intenção era preparar a região para o ano 2000. Já havia uma percepção de que a população crescia em ritmo acelerado e que os problemas urbanos iriam aumentar. A estratégia para lidar com uma região em que eram previstas 8,4 milhões de pessoas foi um planejamento a longo prazo. 

Os 37 anos que separam os dois primeiros planos diretores do Rio de Janeiro foram importantes para uma nova abordagem menos romântica da cidade. Isso não isentou o plano das críticas que o Plano Agache também sofreu na época, de que o plano era feito por estrangeiros e que não conversava com a realidade do Rio de Janeiro e do Brasil de 1960. 

Ele foi elaborado em uma forma que se parece mais com a forma que elaboramos os planos diretores hoje, primeiro fazendo um diagnóstico dos problemas e depois propondo soluções. Ele também foi baseado em duas finalidades principais: criar infraestrutura física do estado e resolver problemas urgentes sem que os encantos do Rio de Janeiro fossem perdidos. 

Inovações Plano Doxiadis

O que se destaca é abordagem que foi feita com relação às favelas, que segundo o plano deveriam ser urbanizadas e readequadas, dentro das possibilidades, nas próprias áreas onde estavam. Havia também uma grande preocupação em relação às moradias que seriam necessárias quando a população chegasse a quase 9 milhões de habitantes no ano 2000. 

Já havia também, acompanhando a tendência da época, a supervalorização do transporte individual e focado em carros. A indústria automobilística estava se implantando e havia uma valorização de avenidas onde os carros novos pudessem circular. 

Foi dessa época o projeto de implantação das vias de circulação que ligam vários pontos da cidade e da região metropolitana do Rio de Janeiro com nomes de cores, linha verde, linha vermelha e linha amarela, essas implementadas em governos de anos posteriores e as linhas que nunca chegaram a ser implementadas: linha azul, linha lilás e linha marrom. 

O plano Doxiadis ficou conhecido também como Plano Policromático por causa disso. 

Na figura é possível ver o mapa do Rio de Janeiro com os traçados das vias expressas desenhadas nas cores dos seus nomes. Podemos ver as linhas Vermelha, Amarela, Verde, Lilás, Azul e Marrom. Fonte

Saindo um pouco do Rio de Janeiro e olhando esse período no resto do Brasil, foram concebidos planos para cidades importantes do país: Plano de Porto Alegre 1938 (Plano Gladosch) e Plano de Curitiba 1943 (Plano Agache, sim ele mesmo!) e o Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado para São Paulo em 1972. 

É importante ressaltar que antes dessas datas que marcam esses planos, haviam sido elaborados vários documentos que tinham como intenção o ordenamento ou planejamento urbano. Porto Alegre teve vários Planos de Melhoramentos antes do Plano Gladosch. São Paulo teve o super conhecido Plano de Avenidas Prestes Maia e tantos outros exemplos.  

Os marcos desses planos famosos são justamente entender as cidades por completo, (é claro com as limitações da época) como uma junção de setores que precisam ser planejados em conjunto. Era super comum que as cidades maiores elaborassem planos específicos para determinados bairros, ou para transporte rodoviário, ignorando que as cidades são múltiplas e que precisam de soluções que integrem todos. 

Esse conhecimento de que as cidades são organismos que precisam de vários setores funcionando e que o planejamento é fundamental para lidar com todos os problemas que podem surgir, acabou se consolidando mais recentemente no Brasil. 

Plano Gladosch de Porto Alegre – 1938

Do Plano Gladosch de Porto Alegre (1938) podemos ressaltar que ele é uma espécie de junção de outros 4 estudos que já vinham sendo produzidos por administrações municipais durante 20 anos. Já tinham sido feitos os Planos de Melhoramentos (em áreas já urbanizadas) e planos de avenidas em anos anteriores, e o esforço agora era de juntar tudo isso e fazer um plano único. Para isso foi solicitado pelo urbanista Arnaldo Gladosch, o responsável pela elaboração, um levantamento de dados sobre Porto Alegre, não só das informações cadastrais (como ruas, lotes, casas, dados da população etc) como também um levantamento planialtimétrico do município para ajudar no reconhecimento das áreas.

Um levantamento planialtimétrico é uma planta detalhada em que vão constar todas as altitudes da área medida, pode ser um terreno, um bairro, ou uma cidade. Hoje na execução de um plano diretor, essas informações são básicas e precisam ser fornecidas, mas naquela época era um pedido muito trabalhoso e que levaria tempo e dinheiro. Por isso demorou alguns anos para ficar pronto. 

Um super avanço também foi a criação do Conselho do Plano Diretor (órgão que atua até hoje) e que devia avaliar as informações apresentadas nas entregas que foram feitas antes da apresentação final do plano. Também foi um avanço importante.

O Plano Gladosch foi apresentado em 9 partes ao Conselho do Plano Diretor.  O que é muito marcante é o nível de detalhamento das plantas e projetos apresentados. O plano se assemelha na forma como são apresentados hoje os planos diretores.  

Plano Gladosch quase decolou

Após a enchente de 1941 em Porto Alegre muitas informações e documentos da prefeitura foram perdidos e com a tragédia os esforços se concentraram nas áreas que passaram dias alagadas e em todas as reformas e melhorias que seriam necessárias. Isso fez com que o Plano Gladosch nunca fosse totalmente implementado, um pouco por um desinteresse da prefeitura que acabou mudando de foco após a enchente e também por parte do Gladosch que passou a se concentrar na reconstrução de Porto Alegre.  

Esses anos que se passaram entre o Plano Agache e os Planos Doxiadis e Gladosch fizeram com que os planos produzidos fossem incorporando práticas que não eram comuns para a época. Além da parte técnica do urbanismo que foi aprofundada, a questão urbana e de como lidar com problemas urbanos que as cidades já tinham foi amadurecendo também.

É interessante pensar que algum dia já se pensou no planejamento urbano sem se considerar uma cidade como um todo, ou mesmo uma região metropolitana. Hoje nos grandes centros urbanos todas as cidades do entorno afetam a maior cidade e também ocorre o contrário. Fazer planejamento para qualquer questão urbana sem considerar que as pessoas se deslocam pelas cidades para trabalhar, estudar, para lazer etc  é impensável. 

O que hoje fazemos como prática comum foi uma grande inovação para a época em que foi produzido e é muito legal ver como esses conhecimentos foram construindo o que hoje é o urbanismo e o planejamento urbano. 

 

Volto em breve para continuar com nossa saga. 

 

Até a próxima! 

 

Referências Bibliográficas

Santana. F; T de M e  Almeida. L;C Plano Agache: Um Projeto de Ordenamento Territorial na Cidade do Rio de Janeiro. VII Congresso Brasileiro de Geógrafos. 2014. Disponível Aqui 

Silvio Belmonte de Abreu Filho. Tese de Doutorado. 2006 Doutor em Arquitetura UFRGS Faculdade de Arquitetura. Porto Alegre como Cidade Ideal. Planos e Projetos Urbanos para Porto Alegre. Disponível Aqui

Histórico Planos Porto Alegre. Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Disponível Aqui

 

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