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Urbanismo e a Saúde Pública

por em 28/05/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Urbanismo e a Saúde Pública

O que estamos vivemos hoje com a pandemia de Covid 19, em que as pessoas estão ficando muito mais em casa (ou deveriam estar) e descobrindo que poderiam ter uma casa com um quintal para aproveitar um pouco mais o dia, ou que só perceberam agora que nem bate sol na sua casa, é uma situação nova com a qual estamos todos tendo que aprender a lidar meio no susto, mas o conhecimento de como o Urbanismo se relaciona com as questões de saúde pública é bastante antigo. 

Você deve ter estudado na escola sobre a Revolta da Vacina, certo? 

A Revolta da Vacina foi uma rebelião em que as pessoas, moradoras de cortiços do Rio de Janeiro no começo do século XX, se recusaram a tomar a vacina contra a varíola. A medida da vacinação em massa fazia parte de uma série de mudanças que estavam acontecendo na cidade do Rio de Janeiro e que revoltou as pessoas pela forma como foram feitas. 

A cidade do Rio de Janeiro naquela época era a capital da jovem República do Brasil e todas as heranças do recém extinto império queriam ser esquecidas. Era uma época em que a cidade do Rio de Janeiro sonhava em se parecer com Paris. Não combinava mais com a cidade as suas inúmeras vielas no centro, cheias de cortiços que amontoavam pessoas com doenças tropicais como febre amarela, peste bubônica e a varíola. Nesta época já se sabia que lugares com pouca incidência solar, baixa ventilação e onde muitas pessoas dividiam os ambientes, quase sempre com condições muito precárias de higiene, eram locais propícios para disseminação de doenças. 

Toda a cidade do Rio Janeiro passou por transformações e reformas, as avenidas ficaram mais amplas, praças foram construídas, e são desta época também a construção do Theatro Municipal, o Museu Nacional de Belas Artes e a Biblioteca Nacional. 

 

Fonte : http://educacao.globo.com/artigo/reforma-urbanistica-de-pereira-passos-o-rio-com-cara-de-paris.html

O médico sanitarista Oswaldo Cruz era na época o chefe da Diretoria-Geral de Saúde Pública (DGSP) no município do Rio de Janeiro e, junto com o prefeito Pereira Passos, implementou uma série de medidas que iam desde a vacinação forçada das pessoas até a demolição dos cortiços. Muitas pessoas se recusavam a tomar a vacina da varíola e várias delas foram presas e até mandadas para outros estados como forma de punição. Os conhecimentos de microbiologia e vacinação eram recentes e nem todos compreendiam a importância das vacinas e das medidas de higiene para controle das doenças. As medidas visavam a melhora da saúde das pessoas e erradicação de doenças, mas da forma como foram implementadas, à força, causaram problemas desde a própria Revolta da Vacina até o surgimento das favelas no Rio de Janeiro, mas isso é história para um outro dia. 

Pode parecer que a Revolta da Vacina é coisa do passado e que nem faz mais sentido falar disso nos dias de hoje, mas é importante entendermos que a forma como ocupamos o espaço urbano é um fator determinante para a saúde das pessoas. O local onde moramos decide se teremos  acesso a água tratada e coleta de esgoto, se vamos ter contato em maior ou menor grau, com a poluição resultante do trânsito, se na nossa casa bate sol e tem ventilação. 

O acesso a saneamento ambiental no local de moradia é fundamental para que as pessoas não tenham doenças de veiculação hídrica, isto é, doenças causadas pelo consumo da água sem tratamento adequado, como cólera, gastroenterite e diarreia, que podem parecer doenças bastante simples, mas dependendo do indivíduo afetado podem sim levar a morte. 

Conforme falei no meu texto sobre as Chuvas de Verão, Enchentes e Inundações as pessoas que têm menos acesso a cidade, ou seja moram em locais com menos infraestrutura urbana, são as maiores prejudicadas nestas questões porque a desigualdade social que nos atinge é também espacializada nas cidades. Os bairros do centro e das áreas nobres possuem coleta e tratamento de esgoto, água tratada, ruas amplas e ventiladas e os bairros de periferia não, ou o serviço é precário quando existe. 

O simples fato de sua casa ter sol, ainda que em apenas uma parte do dia, é muito importante para vários fatores que acabam influenciando na nossa saúde. 

A incidência solar em um ambiente atua não só como a iluminação natural que é importante para regular o ciclo circadiano (famoso relógio biólogico), responsável pelo sono e pela produção de todos os  hormônios que precisamos, mas também como uma importante forma de “higienização” dos ambientes domésticos pois a luz do sol controla a umidade dos ambientes e é capaz de matar ácaros e mofos que podem causar doenças respiratórias. O sol, principalmente agora que precisamos fazer distanciamento social e não podemos sair de casa, é necessário na síntese de vitamina D que é fundamental para nossa saúde mental pois a vitamina D é um ativo importante na formação dos hormônios de bem estar. Ter a possibilidade de tomar sol em casa faz com que protejamos nossa imunidade, nosso sistema ósseo e consequentemente nossa saúde. 

Além de tudo isso, o sol e como ele incide na nossa casa, regula o conforto térmico do ambiente. 

O conforto térmico é um indicador fundamental de saúde pois, residências em que as temperaturas internas sejam muito baixas ou muito elevadas, destoando muito das temperaturas da área externa, são certamente ambientes prejudiciais para as pessoas que residem e que ficam expostas por longos períodos. A ventilação é também importante pois em complemento a insolação, contribui para que a casa esquente durante o dia e refresque durante a noite. Ambientes onde não há ventilação e incidência solar podem ser extremamente frios, úmidos ou até quentes demais, o que adoece as pessoas após longos períodos de exposição. Existem estudos que relacionam doenças vasculares a pessoas que vivem em ambientes domésticos com temperaturas muito baixas. 

A poluição do ar é um dos fatores que mais causa doenças principalmente em áreas mais secas do país ou épocas do ano com menor umidade do ar. Com a matriz de transporte que temos, focada na queima de combustíveis fósseis, a fuligem e os subprodutos da queima contribuem muito para que nosso sistema respiratório fique debilitado. Um bom planejamento urbano pode evitar que as principais vias de transporte estejam próximas de áreas residenciais de forma que a fuligem e o material particulado emitido não seja transportado pelo ar para as residências mais próximas e com isso piorem as doenças. 

Nos bairros onde há casas de alto padrão as ruas são amplas, arborizadas e na maioria das vezes distantes de vias de intenso transporte,  onde, além de estarem longe da poluição do ar, os moradores ficam longe dos ruídos provocados pelo trânsito, que também é um fator de adoecimento das pessoas. O cenário em periferias, comunidades e moradias de baixo padrão é bastante diferente, onde não são possíveis os elementos de promoção à saúde que descrevi, não por coincidência são esses locais onde as pessoas mais possuem as doenças que citei. 

O simples fato de morar em uma comunidade pobre faz com que sua saúde seja diminuída  pois você deixa de ter acesso a elementos que promovem a saúde e que moradores de outras localidades têm acesso facilmente.  

Os dados de números de doentes e mortes em decorrência de problemas de saúde causados pela moradia em local inadequado, são muitas vezes difíceis de se obter porque as causas das mortes são difusas, mas um planejamento urbano justo e a disposição das residências no espaço urbano de forma igual é, sem dúvidas,  um instrumento eficiente de promoção a saúde pública. A especulação imobiliária regula também os preços dos imóveis nas diferentes áreas das cidades, dependendo da localização do imóvel em relação ao sol e a equipamentos públicos como parques, o que é uma forma bastante cruel de exclusão. 

Em tempos de pandemia de Covid 19 pedir para as pessoas ficarem em casa para barrar a disseminação desenfreada do vírus é também pedir para que uma parte das pessoas tenha que permanecer mais tempo em um ambiente insalubre e que pode fazer com que outras doenças sejam desenvolvidas.

Minha intenção com este texto não é desencorajar ninguém a ficar em casa, pois o distanciamento social é nossa melhor alternativa no momento, e sim mostrar que nossos problemas de saúde pública possuem raízes históricas e que as vezes ironicamente momento diferentes da história do país podem se confundir.

A nossa desigualdade social é bastante grande (e antiga) e em momentos de crise como o nosso ela aparece mais, mas só com boas políticas públicas poderemos tentar resolver esses problemas. 

Até a próxima. 

 

Referências Bibliográficas 

Revolta da Vacina de 1904! Ooops, 2018! Não, pera…

Como as cidades podem favorecer ou dificultar a promoção da saúde de seus moradores? 

Visita aos Cortiços do Rio Imperial

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