O futebol pode não ter nascido no Brasil (suas origens remontam à China), mas com certeza o país o adotou e é seu filho mais amado, não é à toa que somos conhecidos como o país do futebol. Se o futebol é o esporte mais amado de nosso país, não é de se estranhar que essa paixão também tenha se estendido aos campos virtuais e, como no futebol real, temos grandes rivalidades. Qual é o melhor? FIFA ou PES? Uma pergunta que sempre era ouvida quando se falava sobre o esporte virtual.
Independentemente de quem tenha ganho a disputa, as duas franquias prezavam pelo realismo, tentando recriar ao máximo o que vimos dentro dos campos reais. Mas nem sempre foi assim, essa mudança rumo à simulação partiu inicialmente do PES e é por isso que o usaremos como base. Então amarre bem as suas chuteiras e nada de 7×1, pois iremos aprender mais sobre a física envolvida no futebol, enquanto jogamos PES.
Pro Evolution Soccer, também conhecida como PES, é uma das séries de jogos de futebol mais influentes dos videogames. Desenvolvida pela Konami, ela conquistou uma base fiel de jogadores ao longo dos anos por priorizar uma experiência mais realista e técnica em comparação com seus concorrentes.
Um ponto marcante da série é o seu foco na autenticidade dentro de campo, mesmo quando, por limitações de licenciamento, nem todos os times e jogadores tinham nomes oficiais (nisso FIFA ganhava de lavada por possuir as licenças). Ainda assim, a comunidade sempre teve um papel importante, criando patches e atualizações que tornavam o jogo mais completo e personalizado. Inclusive, até hoje jogos do PS2 são atualizados com o famoso, e não oficial, Bomba Patch.

Imagem 01: A cada temporada uma nova versão do Bomba Patch é lançada, refletindo as mudanças nos gramados reais. A imagem mostra uma capa do Super Bomba Patch 2026 para PS2.
Desde suas primeiras versões, ainda na era do PlayStation, PES (que no Japão mantinha o nome Winning Eleven) se destacou pela jogabilidade refinada. O controle da bola, os passes e a movimentação dos jogadores foram projetados para simular o futebol real de maneira mais fiel, exigindo habilidade, estratégia e paciência do jogador. Em vez de partidas rápidas e cheias de gols, o jogo muitas vezes favorece construções táticas, valorizando o posicionamento e a leitura de jogo. Mas afinal, quando dizemos que PES sempre buscou simular o futebol real, o que ele tentava simular? A principal reposta é: a física. Vamos lá então!
A física desempenha um papel fundamental no futebol, mesmo que muitas vezes passe despercebida durante uma partida. Cada chute, passe ou defesa envolve princípios científicos que ajudam a explicar o comportamento da bola e o desempenho dos jogadores dentro de campo.
Um dos conceitos mais importantes é o da cinemática, que estuda o movimento dos corpos. Quando um jogador chuta a bola, ele define sua velocidade inicial, direção e ângulo de lançamento. Esses fatores determinam a trajetória da bola, que geralmente segue um caminho parabólico devido à ação da gravidade. A altura e a distância do chute dependem diretamente da força aplicada e do ângulo em que a bola é lançada. No PES, podemos controlar a trajetória inicial da bola alterando a posição do jogador (com o analógico esquerdo do controle) em relação a ela. O próprio chute também pode ser usado na trajetória inicial, já que temos botões para passe, chute a gol, lançamento e cruzamento. Cada botão reflete a maneira como um jogador real bateria na bola.

Imagem 02: Ao chutarmos uma bola, ela realiza dois movimentos durante a sua parábola. Movimento Retardado, no qual o objeto perde velocidade na subida devido à gravidade, e o Movimento Acelerado, no qual ele ganha velocidade na descida. Na imagem vemos uma figura chutando uma bola que sobe e depois desce, gerando os movimentos citados.
Importante também é a aplicação das leis de Isaac Newton, especialmente a segunda lei (F = m·a). Quando um atleta virtual (e o real também) chuta a bola, o jogo calcula a força aplicada e a aceleração resultante, simulando o impacto de maneira coerente com a realidade. Isso faz com que chutes mais fortes percorram distâncias maiores, enquanto toques leves resultam em passes curtos e controlados. Tudo isso apenas apertando e segurando os botões de chute por mais ou menos tempo.

Imagem 03: Ao chutarmos uma bola, aplicamos uma força a ela. Essa força, dividida pela massa da bola, resulta em uma aceleração maior ou menor. A imagem mostra uma figura chutando uma bola representando a força aplicada.
O efeito Magnus também está presente no jogo, sendo um dos elementos mais marcantes da jogabilidade. Lembra daquelas faltas cobradas pelo Ronaldinho Gaúcho, em que a bola fazia uma linda curva, tirando a barreira e o goleiro da jogada e entrando direto no gol? Então, esse é o efeito Magnus. Ele ocorre quando a bola gira após ser chutada com efeito, fazendo com que sua trajetória se curve no ar. Isso acontece porque o giro altera a pressão do ar ao redor da bola, criando uma força lateral. Presente no PES, essa mecânica não é apenas estética: ela exige precisão e entendimento do tempo e da direção do chute, refletindo o mesmo princípio físico observado no futebol real.

Imagem 04: O efeito Magnus é uma manifestação direta do princípio de Bernoulli. Na imagem vemos como a rotação da bola impacta na sua direção.
Outro efeito existente em campo e que podemos usar no jogo é o “efeito knuckleball”. É um tipo de chute caracterizado por uma trajetória imprevisível, na qual a bola quase não gira no ar. Diferente do efeito Magnus, que gera curva através da rotação, o knuckleball aproveita a falta de rotação para fazer a bola “flutuar” e desviar repentinamente, confundindo goleiros e defensores.
A forma mais simples de aplicar o chamado efeito knuckleball na bola é por meio da famosa “bicuda”: um chute seco e direto, atingindo exatamente o centro da bola, com o mínimo de rotação possível. O famoso Cristiano Ronaldo é especialista em aplicar esse efeito.

Gif 01: O efeito knuckleball em ação. O gif mostra uma cobrança de falta onde a bola cria uma trajetória inesperada.
Além disso, PES simula fatores como atrito e colisão. O contato entre jogadores, disputas de bola e até o quique da bola no gramado seguem padrões inspirados na física. O atrito entre a bola e o campo influencia sua desaceleração (o jogo simula até o ar rarefeito dos estádios localizados em grandes altitudes onde a bola corre mais devido à menor resistência do ar), enquanto as colisões entre jogadores envolvem massa e força, afetando o equilíbrio e a posse de bola (inclusive as estatísticas dos atletas virtuais são baseadas nos atletas reais).
Gif 02: Bugs de colisão acabam gerando situações hilárias. No gif vemos a cabeça de um jogador atravessando o corpo de outro, no jogo.
Outro detalhe interessante é como o jogo representa o “peso” da bola. Diferentemente de títulos mais arcade, PES busca transmitir uma sensação mais realista, onde a bola não gruda no pé do jogador e pode escapar caso o controle não seja preciso. Isso reforça a ideia de que o movimento depende de leis físicas e não apenas de comandos diretos.

Imagem 05: A famosa Jabulani da Copa de 2010 ficou famosa por sua instabilidade aerodinâmica. A imagem mostra a famosa bola Jabulani.
Chegando ao fim, podemos dizer que Pro Evolution Soccer funciona quase como um laboratório interativo de física aplicada ao esporte. Ao jogar, o usuário aprende intuitivamente conceitos como força, movimento, rotação e resistência do ar, mesmo sem perceber. Essa combinação entre ciência e entretenimento é uma das razões pelas quais a franquia é tão admirada: ela transforma princípios complexos da física em uma experiência acessível, dinâmica e envolvente.
Com o passar dos anos, a série passou por mudanças significativas (o próprio FIFA virou EA Sports FC), incluindo a transição para o modelo gratuito com eFootball. Essa mudança gerou reações diversas entre os fãs, especialmente em relação à qualidade inicial do jogo e à adaptação ao novo formato. Ainda assim, a marca PES permanece relevante (principalmente para nós brasileiros), tanto pelo seu legado quanto pela tentativa contínua de inovar dentro do gênero de jogos esportivos.

Imagem 06: Infelizmente a Konami ainda não cativou os fãs com o seu EFootball. Na imagem vemos o logo do novo jogo ao lado da imagem de Cristiano Ronaldo.
E por hoje é só, espero que tenham gostado. Deixe aí nos comentários se você foi do time PES ou do time FIFA e o que achou do texto. Até a próxima.
Fontes: Wikipédia, Techtudo, Azeheb Blog, WordPress Institucional UFPEL, SSRN e Trevisan, Márcio. A História do Futebol para quem tem pressa. Rio de Janeiro: Valentina, 2019.

