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Nu com a mão no bolso: Como a cultura exagera o dimorfismo sexual

por em 23/09/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Nu com a mão no bolso: Como a cultura exagera o dimorfismo sexual

Parafraseando o título de um dos livros do biólogo Desmond Morris, os seres humanos são macacos nus. Humanos não são muito peludos (não vale citar o Tony Ramos), tampouco são cobertos de penas. No máximo cabelo, barba, pelos ralos ao longo do corpo e pelos pubianos. Por isso, a maior parte da pele dos humanos fica exposta, o que nos dá uma aparência de macacos recém raspados, nos tornando entediantemente monocromáticos.

Essa mistura de Lex Luthor com Kevin Spacey é o Desmond Morris

Parecemos macacos filhotes anormalmente crescidos. Garotinhos juvenis a vida toda, esteticamente ausentes de atrativos, comparando com a profusão de cores encontradas em diversas espécies de aves e mesmo de mamíferos. Só que provavelmente isso tem tudo a ver com o caminho evolutivo que nos tornou bípedes com as mãos livres e cérebro liberado para usar a criatividade, entender e manipular o ambiente ao redor.

Falo sério quando digo que parecemos macacos nus

Em outras espécies, pelos, plumas, presas e chifres funcionam como marcadores óbvios de dimorfismo sexual. Machos tendem a ser mais chamativos, enquanto fêmeas são mais discretas. Nos humanos, esse dimorfismo sexual é bem mais sutil. Por exemplo, homens tendem a ser mais altos e mais musculosos que as mulheres, mas não muito. Homens possuem barba, mulheres não. Homens possuem ombros mais largos em relação à cintura, enquanto mulheres possuem quadril mais largo que a cintura. A voz masculina é mais grave, enquanto a feminina tende a ser mais aguda e assim por diante. Comparando com outras espécies, homens e mulheres são quase iguais. 

(isso provavelmente tem a ver com o processo de autodomesticação humana que criou um pacote de mansidão que permitiu o surgimento da monogamia e da diminuição da competição intrassexual entre os homens, selecionando-os para serem menos agressivos e fisicamente temerososé muito difícil saber quais dessas “inovações” veio primeiro e empurrou o surgimento da outra).

Mas na ausência de dimorfismo sexual natural óbvio, o Homo sapiens fabrica o próprio dimorfismo. Mais precisamente, humanos são capazes de usar seu poderio cognitivo para aumentar esse dimorfismo sexual utilizando artefatos moldados culturalmente. Você provavelmente pensou em capacetes com chifres e coisas do tipo, ou no Carnaval, onde as pessoas literalmente podem usar fantasias lindíssimas com penas e grandes caudas. Mas esse efeito de exagero do dimorfismo é bem mais cotidiano do que isso. Pense num desfile de moda, ou em como homens e mulheres se vestem de modo a tornar mais evidentes as características físicas típicas de cada sexo.

Nesse texto eu sugiro mais do que uma simples analogia entre o comportamento e as características físicas dos humanos e de outros animais. Humanos forjariam artefatos culturais que permitiriam evidenciar o dimorfismo sexual porque a ostentação de características do sexo masculino e feminino é algo muito básico, digamos, na psicologia dos animais que se reproduzem sexuadamente. E já que os humanos não possuem naturalmente um dimorfismo sexual muito óbvio, comparando com outras espécies, sua engenhosidade dá um empurrãozinho, criando enfeites corporais que vão ter diversas funções nas sociedades humanas, dentre elas, a sinalização de dimorfismo sexual, que vai ser útil tanto na atração de parceiro sexuais quanto no afastamento de possíveis rivais — ou seja, as mesmas funções dos traços de dimorfismo sexual em outras espécies.

E existem duas teorias da biologia evolutiva que ajudam a explicar isso, a teoria da sinalização custosa e o fenótipo estendido.

Teoria da sinalização custosa

Segundo essa teoria, várias características consideradas atraentes no sexo oposto são assim consideradas porque têm a ver com “bons genes”. Esses bons genes são genes associados à produção de um sistema imunológico eficiente. Fêmeas que acasalam com machos que possuem “bons genes” têm mais chances de gerar uma prole capaz de sobreviver até a idade reprodutiva por causa de seu sistema imunológico tunado

Mas para acasalar com machos com bom sistema imunológico essas fêmeas devem saber reconhecer de alguma maneira os machos com os melhores sistemas imunológicos. Ao longo da evolução por seleção sexual ocorre uma espécie de corrida armamentista do bem. Enquanto as fêmeas se tornam cada vez mais hábeis em reconhecer os machos com melhor sistema imunológico, esses machos se tornam cada vez mais hábeis em ostentar esses sinais. É por isso que na grande maioria das espécies sexuadas os machos possuem aparência barroca, espalhafatosa. Ostentar grandes chifres, jubas, e plumagem extravagante é uma maneira de mostrar saúde para a fêmea. Isso porque ostentar essas características custosas requer ter saúde suficiente para isso.

Sim, existem maneiras mais bizarras de chamar a atenção da fêmea

Por exemplo, pavões machos ostentam uma cauda super colorida e chamativa, quase um carro alegórico ambulante. Para chamar a atenção da fêmea dessa forma conspícua o pavão acaba se tornando vulnerável a parasitas que ficariam bem evidentes se estivessem parasitando essa plumagem mega vistosa. Além disso, o pavão também tem mais dificuldade de se tornar discreto para predadores e uma vez perseguido, certamente vai ter dificuldades para correr com toda sua bagagem “plumosa” pesando e diminuindo a agilidade de sua fuga. Mas correr esse risco compensa para o macho, uma vez que só esses machos que correm mais riscos são escolhidos pelas fêmeas para acasalar.

Dimorfismo sexual do pato mandarim

Outros animais desenvolveram maneiras mais engenhosas de ostentar saúde. Por exemplo, o pássaro caramancheiro atrai as fêmeas produzindo ninhos super simétricos e coloridos. O macho gasta tempo precioso que poderia ser usado para conseguir alimento, se expõe a predadores, tudo isso para achar os melhores adereços para enfeitar seu ninho de amor (é literalmente “ninho de amor”, porque após a cópula o macho destrói esse ninho e outro ninho é construído para cuidar dos filhotes. Depois disso, o “melhor decorador” é escolhido pela fêmea, que impõe um novo desafio: ela vai acasalar com o macho que se desempenhar melhor no ritual de acasalamento, que consiste numa dança ritualista que parece mais um tango solitário.

Parecer atraente custa caro. Mas isso não acontece só com aves ou outros mamíferos, mas também com humanos. Quer dizer, existe uma diferença básica aqui. A sinalização custosa tende a se desenvolver ao longo da evolução em espécies nas quais macho e fêmea copulam mas não ficam juntos cuidando da prole. Como não é preciso o investimento prolongado do macho, a contribuição do macho vai ser o fornecimento desse material genético de qualidade. Espécies com maior cuidado parental, como o Homo sapiens, tendem a desenvolver critérios de atratividade mais complexos, que são funcionais dentro desse contexto de maior cuidado com a prole.

Pássaro caramanchão mandando ver na conquista. Repare a fêmea no “Trono de Ferro” observando o romantismo do cavalheiro.

O gênero Homo provavelmente foi polígino (homens podendo formar haréns) e monogâmico a maior parte da sua história, mas isso não significa que outras configurações de relacionamento não sejam possíveis. Por exemplo, apesar de tipicamente cuidarem mais da prole formando relacionamentos monogâmicos, humanos também podem se engajar em relacionamentos rápidos e com menor investimento parental, como sexo casual. Especificamente nesses contextos de relacionamento rápido, os critérios de atratividade vão ser parecidos com os de pavões e pássaros caramanchões. Ou seja, homens vão ostentar características que indicam “bons genes” e mulheres vão ter olho clínico para enxergar isso.

Não é à toa que mulheres mais interessadas em relacionamentos de curto prazo tendem a considerar mais atraentes homens que ostentam atributos físicos como voz mais grave, corpo mais musculoso, ombro mais largo em relação à cintura e face mais masculina. Isso parece acontecer especialmente em países com maior risco de doenças infecto contagiosas, o que parece corroborar a ideia de que homens com essas características possuem melhor sistema imunológico e que os critérios femininos de atratividade podem variar com parâmetros contextuais, como níveis de patógenos do ambiente. Mas o que de custoso esses homens com características mais masculinas estão sinalizando? Eles estão ostentando níveis elevados de testosterona. Esse hormônio em grandes quantidades é tóxico. Então homens “mais masculinos” estão implicitamente sinalizando que a testosterona teve mais influência em seu desenvolvimento, o que significa que ele tem bom sistema imunológico por ter sobrevivido de maneira saudável mesmo com esses efeitos deletérios no seu organismo (aqui uma revisão sobre hormônios e imunocompetência).

A ideia deste texto é que o dimorfismo sexual humano é muito discreto para sinalizar essas características custosas que tornam homens e mulheres mais diferentes e mais atraentes uns para os outros. Por isso, é preciso uma ajudinha da cultura. E esse empurrãozinho da cultura pode ser interpretado como o que o biólogo evolutivo Richard Dawkins chama de fenótipo estendido.

Fenótipo estendido

Richard Dawkins propôs a teoria do fenótipo estendido como uma consequência da visão de evolução centrada no gene (que ele expôs celebremente em O Gene Egoísta). Segundo a evolução centrada no gene, organismos são meros veículos que permitem aos genes aumentarem sua capacidade de gerar cópias de si mesmos. Em O Fenótipo Estendido, Dawkins afirma que seria ingênuo achar que o fenótipo gerado pelos genes se restringiria apenas ao corpo biológico e ao comportamento propriamente ditos.

Organismos vivos frequentemente modificam o ambiente ao seu redor, tornando o ambiente mais amigável para sua sobrevivência, o que também aumenta suas chances de se reproduzir. Por exemplo, cupins e formigueiros criam estruturas colossais que ajudam a manter a sociedade organizada, protege, permite o armazenamento de alimento e consequentemente aumenta o sucesso reprodutivo. Aranhas tecem teias, que servem como escudo protetor e campo minado. Qualquer predador que não seja esperto o bastante para capturar a aranha sem encostar na teia pode virar presa em vez de predador. A teia se torna uma extensão do próprio corpo da aranha, de modo que a vibração de qualquer fio é identificada prontamente, gerando um comportamento em resposta. Minhocas também tornam o ambiente subterrâneo mais amigável por meio de suas excreções.

Além de outras espécies, o pássaro caramanchão pode ser visto como um caso clássico de fenótipo estendido também. Animais capazes de criar esses ninhos simétricos e organizados esteticamente estão sinalizando capacidades cognitivas necessárias para fazer isso, do mesmo jeito que um artista sinaliza sua criatividade de acordo com a qualidade da sua obra.

Isso sugere que alguns animais vão usar sua capacidade de manipular o ambiente para sinalizar atributos que aumentam sua atratividade, não apenas características físicas como penas chamativas. Por exemplo, o pássaro caramanchão sinaliza bons genes com seu corpo, mas também com sua capacidade de construir ninhos gourmetizados.

Nos humanos

Humanos fazem a mesma coisa. Por exemplo, num texto anterior, mostrei evidências de que indivíduos interessados em relacionamentos de curto prazo tendem a se engajar mais em atividades arriscadas, como fumar e consumir álcool exageradamente. Isso porque esses hábitos prejudicam a saúde, então ostentar uma noite de bebedeira envia involuntariamente a mensagem de que a pessoa tem saúde suficiente para fazer isso sem se prejudicar. Assim como em outras espécies, entre humanos, quem tende a se engajar mais nessa ostentação são os homens.

Como os seres humanos possuem o dimorfismo sexual muito sutil, algumas dessas formas de usar a cultura para ostentar características atraentes também funcionam como formas de exagerar o dimorfismo sexual. Humanos podem fazer isso com seu vestuário, ou com seu padrão de consumo.

Por exemplo, um estudo mostrou que usar carros com designs mais masculinos faz homens serem considerados mais masculinos e mais atraentes, assim como mulheres que usam carros mais femininos são consideradas mais femininas e mais atraentes. Na verdade, para a literatura científica dessa área não é novidade que homens que ostentam carros mais caros realmente conseguem se tornar mais atraentes (uma revisão recente).

Só muda a cultura, mas a mania de ostentar atributos úteis na seleção sexual continua

Não é por acaso que homens e mulheres tendem a gostar de diferentes tipos de roupas. Homens tendem a usar roupas que favorecem as formas de seu corpo, assim como as mulheres usam as que favorecem suas formas corporais. É muito comum que diferentes culturas criem vestimentas masculinas que aumentem o peitoral e a largura dos ombros em relação à cintura. Também é muito comum que roupas femininas tendam a exaltar a largura do quadril em relação à cintura.

Cosméticos tendem a exagerar esse dimorfismo sexual também. Mulheres frequentemente usam maquiagens que tornam sua face mais rosada, bochechas maiores, pele com cor mais uniforme, diminuindo também as rugas.

Claro, homens e mulheres não escolhem tão livremente sua vestimenta, afinal, os tipos de roupas disponíveis para escolher já são convencionados culturalmente. Mas o que estou tentando afirmar é que a cultura é moldada com base nas diferentes escolhas que homens e mulheres tendem a fazer. Como seus corpos são diferentes, automaticamente vão escolher diferentes adereços para seu corpo. E a cultura vai responder a isso criando normas, convenções e etc.

Isso não significa que as roupas foram criadas com o objetivo de exaltar características sexuais secundárias de cada sexo. Muito provavelmente a vestimenta começou a ter importância por motivos de seleção natural. Os sapiens saíram da África várias vezes e colonizaram regiões com climas muito diferentes. Provavelmente a criatividade humana começou a ser aplicada numa saída para se proteger do frio da Europa. Mas uma vez suprida essa necessidade de se proteger da temperatura, outros processos se impuseram sobre essa já estabelecida cultura de criar roupas com peles de animais. É como criar uma espada para se proteger e aos poucos ir acrescentando pedras preciosas nessa espada de acordo com a patente do guerreiro. Um processo de complexidade escalonada se impõe a algo que era muito básico, construído para ajudar na sobrevivência.

Isso tudo significa que os seres humanos são mesmo macacos nus que se vestem de cultura, mas essa cultura não pode ser pensada como uma superação da biologia. A cultura é uma continuidade da biologia. É uma forma de se adaptar ao ambiente de forma mais rápida do que conseguiríamos esperando por milhões de anos de evolução biológica.

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