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Nem todo ciclone é bomba

por em 16/07/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Nem todo ciclone é bomba

No comecinho do mês de junho, cidades de Santa Catarina e Paraná (principalmente algumas cidades litorâneas) sofreram grande impacto por parte do ciclone bomba, que foi muito noticiado e comentado. Nesse clima de desolação e preocupação que estamos vivendo em meio a pandemia, tenho observado que algumas notícias ganharam tintas muito intensas, deixando as pessoas ainda mais preocupadas.

Mas. então, o que é ciclone bomba? Todo ciclone é assim? Devo me preocupar. Pois vamos falar sobre isso tudo sempre com o objetivo de informar, para que haja alguma calma em meio a tanta preocupação. Eu acredito que ter tudo esclarecido nos ajuda a tomar boas decisões e também nos ajuda e evitar uma preocupação demasiada, que prejudica inclusive nossa saúde mental.

Vamos começar falando sobre o que são ciclones e a partir da definição vamos partir para os tipos de ciclones. Ciclone é uma região de baixa pressão atmosférica (com relação às suas vizinhanças). Em regiões ciclônicas, o ar quente tem a tendência de subir e por isso forma nebulosidade. Sendo assim, ciclones estão associados a tempo ruim, podendo ocorrer chuvas e trovoadas.

Nos mapas sinóticos – que são os mapas que os meteorologistas constroem e analisam a situação meteorológica de uma região específica no planeta, como o Atlântico Sul, por exemplo – as áreas de baixa pressão são representadas pela letra L (low, de low pressure) ou com a letra B (de baixa pressão). Lembrando que estamos falando de baixa pressão em superfície e também vamos nos referir aos efeitos que os ciclones tem na superfície (ventos intensos, por exemplo)

No Hemisfério Sul, os ciclones giram na orientação horária (como os ponteiros do relógio). No Hemisfério Norte, os ciclones giram na orientação anti-horária (contrária aos ponteiros do relógio). Isso ocorre devido aos efeitos da Força inercial de Coriolis. Ou seja, ciclones são fenômenos suficientemente grandes para “sentirem” os efeitos da Força inercial de Coriolis. Isso é importante destacar, porque muitas vezes alegam que a água da privada ou do ralo da pia gira em sentidos diferentes dependendo do Hemisfério e isso não acontece, porque são fenômenos em escala muito pequena e não percebem o Efeito Coriolis (a gente pode dizer que pra pia da cozinha tanto faz se a Terra é plana ou esférica, mas abafa o caso aqui porque não quero ninguém achando que sou terraplanista).

Agora que já vimos a definição de ciclone, vamos falar sobre os tipos de ciclone. Talvez vocês já tenham observado na apresentação da previsão do tempo quando a jornalista fala de um ciclone na costa do sul do Brasil, por exemplo. Na apresentação, normalmente a jornalista frisa que se trata de um ciclone extratropical. Isso significa que temos aqui um ciclone que se formou em latitudes médias (fora da zona tropical do planeta, mais ou menos entre 30ºS e 60ºS (como aqui dei o exemplo do Brasil, estou me referindo ao Hemisfério Sul). Esse ciclone extratropical pode eventualmente se deslocar para a zona tropical (ou seja, passar do Trópico de Capricórnio em direção a latitudes mais baixas, aqui no caso do Hemisfério Sul). No entanto, ele é um ciclone extratropical porque se formou fora dos trópicos.

Quando a gente ouve falar de ciclone extratropical, uma coisa pode ficar certa: estamos falando de um fenômeno que faz parte de um sistema frontal. Em outras palavras, a gente pode dizer que um ciclone extratropical carrega uma frente fria. Ou seja, ouviu falar em ciclone extratropical certamente este vai causar bastante vento na costa, uma frente fria será carregada com ele trazendo bastante nebulosidade por onde passar e consequente mudança de tempo logo depois (queda de temperatura, não necessariamente muito intensa).

Pois bem, e onde o ciclone bomba entra nessa questão? Um ciclone bomba é um tipo especial de ciclone extratropical. E ele é especial porque a queda de pressão no centro do ciclone é muito rápida, o que origina ventos muito intensos. É um fenômeno meteorológico de extremo interesse, porque ventos intensos podem provocar muita destruição. Na literatura, outros termos para se referir ao ciclone bomba são: ciclogênese explosiva, bombogênese, explosive cyclogenesis, weather bomb, winter storm, etc. Reparem que coloquei alguns termos em inglês porque muito material de Meteorologia está nesse idioma, então é importante mencionar.

No Atlântico Norte, o Met Office (órgão máximo de Meteorologia do Reino Unido) costuma inclusive nomear ciclones bomba (como fazem com os furacões no Golfo do México e adjacências). Espere, ciclone bomba não é a mesma coisa que furacão (a gente já vai falar disso). Lembrando que ciclone bomba é um tipo especial de ciclone extratropical. O Met Office dá nomes a esses ciclones bomba porque eles são tão preocupantes para o Reino Unido (por conta dos ventos que podem causar) que dar nomes a eles tem como objetivo facilitar a comunicação, informando a população sobre as últimas observações e previsões a respeito da trajetória daquela tempestade e dessa maneira, fica mais fácil alertar e providenciar a evacuação de áreas.

Na literatura há também um limiar para classificar um ciclone extratropical como ciclone bomba e esse limiar tem a ver com a taxa da queda de pressão. Bom, essa ideia de ciclone bomba não é nada nova. Já na década de 50, a Escola de Bergen (que proporcionou os alicerces da previsão do tempo moderna) já discutia esse tipo de fenômeno. Tor Bergeron, meteorologista sueco que fez parte dessa escola (sediada na Universidade de Bergen, na Noruega), estudou os ciclones extratropicais e notou que por volta dos 60ºN, ciclones com uma taxa de redução de pressão de 24hPa em 24h eram considerados “explosivos”.

SANDERS e GYAKUM (1980) observaram que para diferentes faixas de latitude, tem-se diferentes taxas de queda de pressão em 24h para caracterizar um ciclone extratropical como ciclone bomba. Acima de 60º de latitude, a taxa de queda da pressão no centro do ciclone deveria ser de 28hPa em 24h para que um ciclone extratropical seja considerado bomba. Já por volta de 25º de latitude, essa taxa deveria ser de 12hPa em 24h. Esses autores chamaram essa taxa de “1 bergeron” em homenagem a Tor Bergeron, mencionado anteriormente.

Bom, antes de eu falar rapidinho sobre furacões (e eu vou falar rapidinho mesmo, isso teria que ser assunto de outro post), acho que a gente já percebeu uma coisa: nem todo ciclone extratropical é um ciclone bomba, pois é necessário que haja uma queda rápida da pressão atmosférica em seu centro para que ele seja classificado dessa maneira. Aqueles que acompanham notícias sobre tempo e clima já devem ter notado que agora só se fala de ciclone, fala-se por exemplo que “outro ciclone deve atingir o sul do país”. Pois bem ciclones extratropicais são fenômenos extremamente comuns. Quando a gente ouve falar de frente fria, há um ciclone extratropical junto. Alguns provocam muita ventania e ressaca no mar, porém a maioria deles não causam tantos danos assim, como o ciclone bomba. Por isso não se assuste com títulos das notícias e seus bigodes. Leia toda a notícia, procure se informar em sites oficiais (INMET e CPTEC-INPE, por exemplo) e em sites de notícias confiáveis. E não se deixe levar por sensacionalismos, que podem agravar nosso estado de preocupação.

E o que fazer em caso de ciclone bomba? Pois então, se sua região é afetada por esse tipo de fenômeno (litoral da Região Sul do Brasil), a recomendação é a mesma de uma tempestade: não saia ao ar livre durante a tempestade, procure uma edificação segura. Siga todas as recomendações da Defesa Civil e se for possível, procure colocar sua casa num seguro que tenha cobertura contra fenômenos meteorológicos.

Agora vamos falar rapidinho de furacão: furacões e tufões são sinônimos de ciclones tropicais. Nesses casos são ciclones que se formam dentro da zona tropical do planeta e eles tem características muito mais destrutivas, pois podem atingir ventos de 120km/h e que podem ultrapassar os 200km/h. Visualmente, uma importante característica dos ciclones tropicais é a presença de um olho (uma área central sem nebulosidade). Mesmo quem não é meteorologista ou de área relacionada facilmente identifica um ciclone numa imagem de satélite, porque sua aparência é inconfundível. O Brasil já foi acometido por um ciclone tropical: foi o Furacão Catarina, em 2004. O curioso do Furacão Catarina é que nosso litoral não reúne as características necessárias para a formação de furacões. O Catarina foi um ciclone extratropical que ao se deslocar para águas mais quentes, adquiriu todas características de ciclone tropical.

É importante falarmos sobre furacões porque houve muita confusão por parte das pessoas, chamando o ciclone bomba de furacão. Outra coisa: ciclones bombas não são fenômenos que acontecem todos os dias, porém não são exatamente incomuns na costa brasileira. BITTENCOURT et al. (2013) usaram duas metodologias distintas para identificar ciclones explosivos em dados de 1957 até 2010 e encontraram 85 casos com uma metodologia e 144 casos com outra, dentro de um universo de 3483 ciclones identificados.

Outro ponto relevante é destacar que não é possível fotografar um ciclone, seja ele um ciclone extratropical comum, um ciclone bomba ou ciclone tropical (furacão ou tufão). São fenômenos muito grandes, com diâmetros de centenas de quilômetros. Para ver esses fenômenos e contemplar toda sua área de nebulosidade, precisamos de imagens de satélites. Os satélites ficam orbitando nosso planeta e capturando imagens dele, simplificadamente podemos dizer que é uma câmera bem distante apontada para nosso planeta Sendo assim, se você recebeu uma suposta imagem do ciclone bomba do começo de julho, provavelmente é a foto de um tornado (que é um fenômeno pequeno, com extensão de alguns quilômetros e que pode ser fotografado em solo por alguém maluco o suficiente) ou é a foto de uma tempestade qualquer (que pode ou não estar associada com um ciclone bomba. Mais uma vez, deixamos aqui um importante conselho: cuidado com as fake news. Procure portais de notícias confiáveis e no caso de informações meteorológicas, procure os órgãos oficiais.

Espero que tenham gostado de mais um texto da Dona Samantha e por hoje e só. As referências estão abaixo, para quem quiser saber mais a respeito dos temas apresentados.

Referências:

https://meteoropole.com.br/2011/10/qual-a-diferenca-entre-ciclone-e-furacao/

https://meteoropole.com.br/2017/09/como-se-formam-os-furacoes/

Sanders, F., and J. R. Gyakum, 1980: Synoptic-Dynamic Climatology of the “Bomb”. Mon. Wea. Rev., 108, 1589–1606, https://doi.org/10.1175/1520-0493(1980)108<1589:SDCOT>2.0.CO;2.

Scicast 384 – Furacões e Ciclones

Bitencourt, Daniel Pires, Fuentes, Márcia Vetromilla, & Cardoso, Camila de Souza. (2013). Climatologia de ciclones explosivos para a área ciclogenética da América do Sul. Revista Brasileira de Meteorologia, 28(1), 43-56. https://dx.doi.org/10.1590/S0102-77862013000100005


Samantha Martins é meteorologista e mestre em Meteorologia pela Universidade de São Paulo. Tem experiência com observações meteorológicas e divulgação científica através de palestras na Estação Meteorológica do IAG-USP. Atualmente escreve no blog Meteorópole, colabora com o Portal Deviante e participa de alguns podcasts.

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