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Movimentos Separatistas Capítulo 1: O Megazord Curdistão

por em 05/04/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Movimentos Separatistas Capítulo 1: O Megazord Curdistão

Movimentos Separatistas: Onde habitam? Do que se alimentam? Por que eles acontecem? Hoje, na série: Qual a graça em ler sobre movimentos separatistas?

Tá, tá bom, geralmente movimentos separatistas não tem, por assim dizer, graça. Nem pra quem está se separando; nem pra quem está sendo separado e nem pra quem está lendo ou ouvindo sobre isso (é o que o digam todos meus amigos). Mas eu acho um processo interessantíssimo e instigante de tentar entender como total leigo na área da geopolítica. Então eu provavelmente estou escrevendo esses textos mais para mim do que para qualquer outro. Em todo o caso vamos viajar por esse assunto suuuuuuuper legal e que não vai fazer ninguém dormir depois de meia página.

Vamos começar falando do meu preferido, o Curdistão, que é tipo um megazord de país – usando a terminologia técnica da área. O chamo dessa maneira pois a ideia central não envolve apenas uma região se separando de um país já existente e reivindicando sua autonomia, mas sim, quatro. Isso mesmo quatro regiões de quatro países diferentes teoricamente se separariam de suas respectivas pátrias e se morfariam num só megazord que se chamaria Curdistão.

Pode não ser tão simplificado quanto pareceu nessa analogia power-rangerzística, entretanto é um boa introdução pois, resumidamente é isso mesmo: o Curdistão seria um grande país que abrangeria regiões do Iraque, do Irã, da Síria e da Turquia. Pela terminação “istão” e pelos países aqui citados, vocês devem ter percebido que estamos tratando do Oriente Médio. Ótimo lugar para passar as férias, tropeçar num poço de petróleo, pisar numa mina terrestre esquecida ou entrar na bagunça geopolítica que é aquele – perdão pelo trocadilho – barril de pólvora.

Eu acho que todo mundo mais ou menos sabe o que está acontecendo na Síria; alguns devem saber um pouco sobre o governo nacionalista e autoritário do presidente Erdogan (Erdogollum para os íntimos e ouvintes do Xadrez Verbal); e as pessoas devem lembrar também que parece existir conflitos eternos, tanto no Irã quanto no Iraque. Tudo isso é verdade, e está de alguma forma relacionado com a nossa estrela da vez, o Curdistão.

Os Curdos são um povo Iraniano, falantes da língua Curda e, em sua maior parte, seguidores do Islamismo Sunita. Sofreram sua islamização durante as conquistas árabes da idade média, e hoje se estima que haja por volta de 40 milhões de Curdos, espalhados principalmente nas regiões já citadas. As questões étnicas, linguísticas, históricas e religiosas no Oriente Médio são tão ou mais complicadas que suas questões geopolíticas, e eu, como não sou nenhum especialista na área, não quero me alongar. O que eu falei ali em cima já é suficiente para, pelo menos, perceber que eles têm diferenças com seus conterrâneos (me dá uma raiva quando utilizam árabe e muçulmano como sinônimos, ou chamam todos de terrorista. É legal ver que eles são extremamente diferentes até mesmo dentro do próprio país).

Grande parte dos problemas do mundo, em especial do “terceiro”, devem muito ao imperialismo, grande ideologia dominante do século XIX. Não é diferente com a questão do Curdistão. No fim desse século os Curdos viviam dentro do Império Otomano e não causavam grandes transtornos, já que todos os pequenos movimentos nacionalistas eram esmagados com delicadeza – excessiva – pelo governo central. Avançando o calendário, chegamos diretamente em 1919, os otomanos escolheram o lado “errado” da primeira guerra mundial e foram simplesmente repartidos em diversos países e protetorados. Pra variar as potências europeias traçaram a régua e decidiram mais ou menos no uni-duni-tê o que ia ficar para cada uma. O Tratado de Sèvres de 1920, o qual foi o primeiro documento que definia como ficariam as fronteiras no Oriente Médio pós-guerra, previa a criação de um estado curdo. No papel. Na prática os Curdos fizeram algumas propostas de fronteiras, todas recusadas. O tratado mantinha o Império Otomano como um estado fantoche das potências europeias o que, aliado com as severíssimas punições relacionadas a Primeira Guerra (é discutível que elas tenham sido até piores que as da Alemanha), levou a uma revolução comandada por Mustafa Kemal Atatürk, a qual resultou na formação da atual Turquia. O tratado que acabou com essa guerra foi o Tratado de Lausanne, substituindo o de Sèvres e apagou a parte que criava o estado Curdo.

Essa é a base para entender as questões modernas sobre os Curdos. Alguns grupos mais radicais têm o sonho do Curdistão unificado juntando um pouco de cada país. Outros entendem que isso é praticamente impossível.

Na Turquia é impraticável um seccionismo, devido a anos de preconceito e discriminação – houve épocas em que era proibido o uso da língua falada curda no país – além do fato de um dos principais partidos políticos turco-curdos, o Partido Trabalhista Curdo (o qual é considerado um grupo terrorista por grande parte das potências mundiais) estar combatendo o governo Turco atualmente. Eles são um ator importante na geopolítica da região, providenciando tropas e apoio em conflitos como o da Síria e do Iraque, além de serem uma grande inspiração ideológica para todos os partidos curdos. Na realidade há conflitos incessantes desde pelo menos 1984, quando houve um levante curdo que levou a um grande número de mortes de civis e destruição de vilarejos curdos. Recentemente, o governo tinha conseguido um acordo de cessar fogo com os rebeldes, o qual foi revogado em decorrência, principalmente, da guerra civil Síria. Falando nisso, lá vamos nós ligando os pontos geopolíticos que estão na mesa. A guerra civil na Síria também está relacionada com os curdos.

Já me dá um calafrio só de pensar em falar sobre esse conflito tão complexo e intrincado, então eu vou tentar não me alongar e me manter falando da questão curda. Bom, eu imagino que vocês tenham uma leve noção do que está acontecendo na síria. Primavera Árabe bombando; “presidente” Bashar Al-Assad apoiado pela Rússia e Irã; ISIS fazendo bagunça; EUA bombardeando e depois tirando o time de campo; ONU não resolvendo nada; a população morrendo e o país completamente avassalado. Essas coisas triviais. Vamos começar lembrando que o conflito na Síria não é aquele tipo clássico de briga de gangue, em que várias pessoas tomam um ou outro lado e se batem até a maior parte ficar inconsciente ou fugir. Não, a guerra lá está mais para uma briga de bar: aquela que começa com uma pessoa dando uma cadeirada nas costas de um outro cidadão e, o resto da galera – que só precisava de uma desculpa para se digladiar também – entra na dança, largando socos e pontapés mais ou menos aleatoriamente conforme seus interesses. E quem os curdos são nessa brincadeira? Eu acho que eles são aquele cara que ficava ali no bar, meio “escanteado” pelo resto do pessoal, e tinha certo receio disso. Não confiando plenamente em suas capacidades de “peitar” o seus algozes, ele se mantinha quieto. Mas quando alguém bateu nele sem motivo, não pôde mais suportar e entrou pra batalha.

Foi mais ou menos assim mesmo. Os Curdos são a o maior grupo minoritário da Síria e a sua língua é a segunda mais falada no país. Eles estão geograficamente concentrados no norte do país, nas fronteiras com Turquia e Iraque, região na qual está localizado alguns poços de petróleo Sírios. Entre os manifestantes no começo dos protestos de 2011 (os quais foram o estopim do conflito) estavam curdos, que historicamente foram oposição ao governo central de Assad. E o caldo foi engrossando: na medida em que o exército respondia com brutalidade – matando civis – as tensões foram escalando. Entretanto, os curdos participavam das rebeliões sem ideais nacionalistas. Isso até 2012.

O presidente do Curdistão Iraquiano, Masoud Barzani (spoiler: mais para frente vocês entenderão, mas eles meio que tem um país lá) chancelou a criação de uma coalizão de partidos curdos na Síria, para buscar mais apoio internacional, a qual foi batizada de Conselho Nacional Curdo (CNC); além desse, outro partido relevante é o Partido da União Democrática (PUD), criado em 2003 e um pouco mais revolucionário que o CNC. Eles acabaram por se fundir e formar o Comitê Supremo Curdo (CSC), para preencher o vácuo de poder deixado pelo retirada de tropas de Assad das províncias do norte. Também foi estabelecida uma milícia, as Unidades de Proteção do Povo (UPP) (que teoricamente existe desde 2004, mas só virou algo significativo durante a guerra). Após a morte de alguns cidadãos curdos pelo exército, as UPP decidiram embarcar no conflito, avançando em território sob domínio Sírio, tomando muito da região norte.

Ao mesmo tempo o CSC administrava como um governo paralelo a região, reorganizando a economia e protegendo os cidadãos, além de hastear a bandeira curda em alguns prédios, um ato extremamente simbólico. Em meio a isso o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (conhecido pela sigla em inglês: ISIS) avançava por essa mesma área, além de combater os rebeldes sírios e o governo. As UPP então entraram em choque o com o ISIS, a fim de defender a região.

Em 2014 foi aprovada uma constituição interina e eleições foram realizadas. Na prática, a Síria Curda não mais fazia parte do país Síria. Estava formada a Federação Democrática Do Norte da Síria. Esse novo país tem constituição e um sistema de governo um pouco peculiares. Essa constituição é inspirada, principalmente, nos pensamentos de Abdullah Öcalan, um dos líderes fundadores do Partido Trabalhista Curdo, um socialista libertário, que hoje está preso pelo governo da Turquia. E o que ela tem de tão inusitado?

Pouca coisa: ela prevê liberdade total de mídia e religião, igualdade de gênero, descentralização das províncias, democracia direta, secularização da educação, respeito à declaração dos direitos humanos e uma economia mais sustentável. A questão das mulheres é especialmente interessante: desde os primeiros estágios da Guerra Civil foi criada uma divisão das UPP, chamada Unidades de Proteção das Mulheres, uma milícia formada apenas por mulheres, voluntárias que lutam ativamente e são muito importantes nos conflitos armados. Além disso, a constituição infere que todos os cargos de governo devem conter dois “chefes” com mesma autoridade: um homem e uma mulher. Isso é bem significativo levando em conta a região onde está localizado o “semi-país”. Algumas coisas ainda podem ser flores nesse conflito sangrento que parece não ter previsão de acabar.

Chegamos no Irã. A questão curda nesse país é distinta das dos outros três à medida que nunca houve um movimento grande e unificado; entretanto o conflito praticamente não parou desde 1918. O nacionalismo curdo aqui é bem menos acentuado devido aos laços étnicos com o povo persa (lá em cima eu falei que eles eram um povo iraniano). Por isso eu não irei me estender muito. Há uma grande parte da população Iraniana de etnia curda no oeste do país (por volta de 6 milhões), há grupos armados em conflito com a República Islâmica do Irã e uma boa parte da população não apoia nem a autonomia do país nem a junção com as outras nações curdas, talvez por não terem uma organização tão eficiente como a dos outros países.

E por fim a Região do Curdistão Iraquiano, ou “Curdisraque”, ou ainda “Curdistão do Sul”, fica localizada, vejam só, no norte do Iraque. Na realidade ela fica no sul do Grande Curdistão, o qual nós já vimos, ao que parece, vai ser complicado de acontecer. Falar da história dos curdos no Iraque vai começar a soar repetitivo, já que: perseguição desde sempre, revoltas, ditador sanguinário gente fina, campo de batalha para várias guerras, o de sempre. A maior diferença é o sucesso “pero no mucho” do Iraque Curdo.

Datando dos anos 60, o partido Curdo já atuava ativamente pela autonomia da região, sendo liderados por Mustafa Barzani (onde que eu já ouvi esse nome antes?). Logo começaram a ganhar muita força política, a ponto de expulsarem os representantes legais de Bagdá das cidades do território curdo, promovendo, adivinhem, descontentamento do governo. Depois de algum tempo de conflito armado os curdos conseguiram negociar sua autonomia. A região curda virava um “estado” da “federação” Iraquiana, podendo eleger um governador e um parlamento, ganhando assim teoricamente uma grande liberdade política.

Agora é bom revelar duas coisinhas sobre a geopolítica da região: a primeira é que por ali passam algumas rotas de comércio e dutos de gás que interligam o Oriente Próximo; a outra começa com “pe” e rima com “capitólio”: PETRÓLEO. Achou que não ia rolar petróleo em um texto sobre Oriente Médio achou errado. Naquela região tem bastante petróleo, tipo, bastante mesmo: 45 bilhões de barris, segundo reportagem do The Economist. Isso coloca, a região do Curdistão Iraquiano apenas, como décimo país com maiores reservas de sangue preto do mundo, na frente de nações como EUA, China e Brasil, e corresponde a mais ou menos 31% de todo o petróleo do seu país de origem. Óbvio que não iriam entregar uma mina de ouro assim sem mais nem menos.

No início a autonomia não foi efetiva, já que no Iraque vigorava um sistema de partido único, o qual foi mantido no recém criado estado. Portanto os representantes da região curda estavam sempre alinhados com Bagdá. Além disso, a partir dos anos 70 conflitos começaram a escalar rapidamente na área, como a guerra Irã-Iraque, a guerra do golfo e a invasão americana. Fora que o Ditador Saddam Hussein não era assim tão fã dos curdos, realizando políticas de apagamento da cultura e até campanhas genocidas.

No fim da guerra do Golfo em 1991, houve uma revolta contra o governo ditatorial que, após algumas tensões, levou a criação de um estado independente controlado pelos dois maiores partidos da região: o Partido Democrático Curdo (PDC) e a União Patriótica do Curdistão (UPC). Isso não melhorou em nada a vida de quem vivia por ali, devido a nada menos que dois embargos econômicos: o de Saddam Hussein ao novo país e o das Nações Unidas a Saddam Hussein. No decorrer da década a prosperidade foi recuperada e os curdos ainda providenciaram tropas em apoio da invasão americana no Iraque, os peshmerga. Em geral os Curdos – de todos os países – tentaram manter relações amigáveis com os EUA. Eles têm a clara noção de que só terão um país próprio se tiverem apoio ianque. É uma pena mas é assim que funciona. Em outro texto eu posso explicar melhor.

Desde a deposição de Hussein, a região do Curdistão apresentou índices econômicos, de qualidade de vida e de liberdade política um pouco melhores que os do Iraque. Sempre houve tensões, principalmente durante o levante de 2014, quando o governo curdo entrou em conflito direto com o ISIS na região. Uma questão interessante sobre o governo: lá em cima no texto eu comentei que quem acertou um acordo na Síria foi o presidente do Iraque Curdo, Masoud Berzani; e quem liderou o povo desde a abertura democrática foi Mustafa Barzani. Pois é, eles são filho e pai. Além disso, o atual primeiro ministro se chama Nechirvan Barzani, neto de Mustafa e sobrinho de Masoud. Resumindo é uma família só que “manda” há décadas. Isso já gerou controvérsias sobre o fato de serem autoritários, envolvidos com máfias da região, acusados de lavagem de dinheiro e etecetera. A boa e velha política para um “país” tão jovem.

Acabamos praticamente sem sair do lugar. O tão sonhado Grande Curdistão ainda não é um Megazord montado, apenas alguns pedaços estão mais ou menos morfados. Porém, tivemos uma viagem pelo Oriente Médio, em que pincelamos alguns conflitos existentes em uma das regiões mais efervescentes do mundo. É legal ver como estão acontecendo processos do outro lado do planeta em lugares que a gente nem fazia ideia que existiam. E ainda por cima, estarmos presenciando em tempo real o desenrolar dessa história acontecer: em 25 de setembro de 2017 o governo do Iraque Curdo realizou um referendo para a criação de um país, resultando em 93% de votos pela secessão, apenas para ser considerado pelo governo central como ilegítimo, ressuscitando algumas tensões na área. Esperaremos os próximos capítulos e façam como o E.T de Varginha nos disse e busquem conhecimento.


Augusto Forest Cainelli. Nunca achei que eu ia dar um carteiraço desse na minha vida mas vamos lá: sou técnico em viticultura e enologia pelo IFRS e atualmente curso o terceiro semestre de Engenharia Química na UFRGS. Meu sonho é conseguir aliar as coisas que eu realmente amo nessa vida: romances policiais, jornalismo investigativo, Roma antiga, técnicas de culinária francesa, geopolítica mundial, interpretações profundas de filmes e séries, produção musical, e essa lista não acaba mais. Enquanto eu tento organizar tudo isso em minha mente, eu incomodo as pessoas a minha volta com informações aleatórias sobre esses meus hobbies.

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