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Gramática da prática – gêneros textuais

por em 26/11/2021 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Gramática da prática – gêneros textuais

Vamos falar de gêneros textuais? Quem são? Onde vivem? O que comem? Por que diaos eu preciso saber isso?

Vem comigo que você vai entender.

A gente passa a vida toda se comunicando. E não é só porque a gente fica curioso com a vida alheia, não. A gente se comunica por necessidade. Somos seres sociais e, além daquele bate-papo com amigues, precisamos nos comunicar para resolver problemas, para registrar coisas (de forma que não se percam no tempo), para nos informar, enfim…

A medida que essas formas de comunicação foram ocorrendo, elas foram tomando forma, tendo uma “cara” específica, para que a comunicação ocorresse de maneira mais efetiva. Aí alguém percebeu isso e deu o nome de gênero para essas formas estruturadas de comunicação.

Como gêneros são essas formas estruturadas de interação, eles podem ser textos escritos, textos orais ou até imagéticos! E todo gênero implica uma situação de comunicação (um porquê de existir), um interlocutor específico (que compartilha certos conhecimentos com que está produzindo o texto), uma linguagem específica – com determinados tempos verbais mais predominantes que outros ou uso de jargões (palavras específicas de áreas do conhecimento), por exemplo.

A compreensão e identificação desses gêneros te ajudam a interpretar melhor os textos, a escrever textos melhores e até a se virar melhor em outras línguas! Quanto mais contato temos com um gênero, mais fácil e “automático” fica nosso ajuste da linguagem. Daí também a importância de que, ainda na escola, estudantes entrem em contato com uma grande diversidade de gêneros: esse conhecimento nos capacita para as diversas interações que teremos na vida, seja no ambiente privado, como entender a ironia em um meme, seja no ambiente público, produzindo um bom currículo, por exemplo.

Vamos ver alguns exemplos?

Gênero: receita de comida

  • Para que serve?

Para passar instruções de forma que um prato de comida possa ser reproduzido

  • Para quem é escrito?

Para quem quiser reproduzir aquele prato

  • Que informações são (normalmente) compartilhadas por quem escreve e por quem lê? 

Tamanhos de colheres e xícaras, quantidades, nomes de utensílios de cozinha, …

  • Como o gênero é estruturado?

Normalmente há duas partes essenciais em uma receita:

  1. nome do prato;
  2. os ingreditentes e
  3. o modo de preparo.

Mas os gêneros não são completamente engessados, podem haver variações como uma imagem da comida no início, uma dica ao final, um video que acompanhe a receita…

  • Quais as principais características linguísticas?

Cada parte vai ter sua característica. A primeira parte, dos ingredientes, é formada por uma lista com quantidades e ingredientes, portanto, números e substantivos serão predominantes. Não há verbos nessa parte. Se houver, serão poucos.

A segunda parte é a de instruções e, por isso, ela vai estar recheada de verbos (ações) e advérbios (como fazer essas ações). Um ponto interessante é que as frases serão, em sua maioria, sem um sujeito explícito, seja pelo uso do imperativo (‘mexa’, ‘aqueça’, ‘molde’, ‘unte’), seja pelo uso do infinitivo (‘mexer’, ‘aquecer’, ‘moldar’, ‘untar’).

Faça uma pesquisa rápida no Google por ‘receitas de baião de dois’ e veja os resultados. Coloco aqui os primeiros resultados de texto que apareceram para mim, mas fique a vontade para fazer sua própria pesquisa:

Veja quão próximas estão das estruturas e a linguagem que descrevi. Como disse, gêneros não são engessados, mas eles carregam sempre a mesma “cara” de forma que você olhe e identifique “ah! Isso é uma receita”. Este é um gênero bem comum em nossas vidas e talvez essa estrutura não tenha sido uma surpresa para vocês. Então vamos ver outro gênero?

Gênero: Artigo científico

  • Para que serve?

Um artigo serve para apresentar uma pesquisa em uma área muito específica do conhecimento. Há artigos de revisão bibliográfica apenas. Nesse caso, o objetivo é apresentar uma compilação de trabalhos sobre um mesmo tema.

  • Para quem é escrito?

Normalmente para pesquisadores da mesma área, mas nada impede que pessoas de outra área ou jornalistas que fazem divulgação científica leiam.

  • Que informações são (normalmente) compartilhadas por quem escreve e por quem lê? 

As pessoas compartilham boa parte dos conceitos e jargões da área.

  • Como o gênero é estruturado?
  1. título;
  2. resumo;
  3. palavras-chaves
  4. introdução;
  5. revisão bibliográfica;
  6. metodologia;
  7. resultados;
  8. discussão;
  9. conclusão.

Assim como qualquer gênero, podem haver algumas diferenças. Por exemplo, pesquisas mais qualitativas não costumam dividir entre resultados e discussão. As duas coisas são apresentadas juntas.

  • Quais as principais características linguísticas?
  1.  linguagem formal: você não vai encontrar gírias, ou abreviações de palavras que não sejam técnicas. O texto deve seguir as normas gramaticais
  2. muitas orações subordinadas: Isso significa que as sentenças serão bem longas e cheias de ‘contudo’, ‘por isso’, ‘caso’, ‘ao passo que’, …
  3. muitas paráfrases: para que a pessoa se certifique que quem a lê está entendendo, ela vai usar um monte de “isto é”, “ou seja”. Além disso, todo seu trabalho se sustenta em pesquisas anteriores, então verbos ‘de fala dos outros’ como “explica”, “argumenta”, “discute”, “disserta” são bem comuns
  4. muitos exemplos
  5. jargões: termos técnicos específicos de cada área

O artigo é predominantemente escrito no presente, mas a metodologia é escrita no passado.

Entender a lógica de comunicação ajuda a entender melhor o gênero.

O Resumo serve para que outros pesquisadores não percam tempo lendo algo que não lhes interessa. Portanto, ele carrega todas as informações do artigo de forma resumida.

A introdução contextualiza o problema identificado, aponta os principais trabalhos da área que já abordaram o assunto de maneira diferente e explica como que aquele artigo supre um vazio (seja metodológico, seja teórico).

A revisão bibliográfica traz de maneira crítica e aprofundada outras pesquisas que foram feitas naquela área, quais foram seus resultados e como elas contribuiram para dar sustentação à sua linha de raciocínio e para a sua pesquisa.

A metodologia explica o passo a passo e, por isso, ela está no passado. Aqui o artigo mostra como fez o que fez, daí sua carcaterística descritiva, mas com pitadas de narração, já que a ordem cronológica pode ser muito importante.

Os resultados são bem descritos, já que só apresentam, cruamente, os dados encontrados.

A discussão é a interpretação desses dados.

A conclusão resume o que foi dito, mas também aponta os pontos fortes e fracos da pesquisa e direcionamento para futuras pesquisas.

Vá ao Google Acadêmico, ou ao site de periódicos da Capes e procure um artigo. Veja como, entendendo cada uma das partes, fica mais fácil entender o texto.

Conclusão

Quanto mais lemos, ouvimos ou vemos um gênero, mais fácil ele vai ficando. É um exercício interessante parar para pensar em como estruturamos outros textos no nosso dia a dia, como memes ou uma ligação para marcar uma consulta médica. Se curtiram, posso pensar em mais textos assim. Basta deixar seu comentário.

Entender o porquê de fazermos textos diferentes para situações diferentes e como fazer isso é entender que podemos brincar com a língua para alcançarmos os melhores resultados :p

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