Nas últimas vezes que fui ao supermercado, aqui no Japão, encontrei prateleiras vazias onde devia ter arroz. No lugar, um aviso: “estoques limitados, safra fraca, agradecemos a compreensão”. E os preços praticamente dobraram em um ano. O quê? arroz em falta no Japão!?

O arroz faz parte da identidade, cultura, memória e até política neste país. Mesmo com a queda do consumo per capita nas últimas décadas, a variedade japonesa, chamada Japônica, continua sendo um símbolo nacional. Com um grão mais curto, ovalado, glutinoso, perfeito para ser moldado em onigiris, sushis, ou servido puro: a forma tradicional e popular que acompanha qualquer refeição é cozida apenas com água, sem nem um sal, mas há um prazer no sabor puro e simples do arroz japonês.

Ele costuma ser consumido em todas as refeições, inclusive no café da manhã. Também é base para muitos doces tradicionais, como o mochi, popularmente acompanhando um chá da tarde. Inclusive a JAXA (agência espacial japonesa) tem estudos sobre o cultivo de arroz.

Porém, desde o verão passado, está ocorrendo uma crise. Os preços dispararam, e supermercados começaram a limitar as vendas.

Apesar da diversidade morfológica, o arroz tem uma base genética relativamente pequena. Quer dizer, a maioria das variedades modernas descendem de poucos ancestrais domesticados, o que facilita o melhoramento genético, mas também torna a espécie mais vulnerável a doenças, pragas e mudanças climáticas. Esse é um dilema comum da agricultura moderna: produtividade vs. resistência.

Uma espécie de arroz selvagem (Zizania palustris), difícil de ser colhida ou consumida.

O arroz (Oryza sativa) é uma planta que foi domesticada há mais de 9 mil anos no sul da China. Faz parte da família das gramíneas, assim como o trigo, milho e a cana-de-açúcar. É uma planta adaptável, mas suas variedades têm preferências bem específicas.

A variedade Japônica, cultivada no Japão, Coreia e partes da China, se dá melhor em climas temperados e dias longos no verão. Seus grãos são curtos e arredondados, e liberam mais amido quando cozidos, o que dá aquela textura grudenta. No Brasil, consumimos mais a variedade Índica, comum no sul da Ásia, adaptada ao clima tropical das regiões produtoras como Rio Grande do Sul e Mato Grosso. Esse tipo tem grãos mais longos, soltos, e é mais tolerante ao calor.

O arroz passou por um processo de domesticação complexo. As variedades selvagens de arroz se dispersavam naturalmente com a ajuda do vento ou de animais. Mas, com o tempo, os humanos começaram a selecionar plantas com grãos mais firmes, que não se soltavam facilmente da espiga. Isso era ótimo para a colheita, mas não tanto para a planta, que passou a depender dos humanos para se reproduzir.

Podemos até inverter a perspectiva e dizer que foi o arroz quem nos domesticou: ao selecionar plantas menos independentes, criamos uma espécie de simbiose, e agora os humanos garantem que a espécie arroz continue firme e forte sendo reproduzida aos milhões. Mas isso significa que, se pararmos de cultivar o arroz que consumimos, ele não vai continuar existindo naturalmente.

Desde a era da “revolução genética” na ciência, o arroz tem sido alvo de muitos estudos. Em 2002, ele se tornou o primeiro cereal a ter seu genoma completamente sequenciado, antes mesmo do milho e do trigo. Esse feito foi importante para o avanço do melhoramento genético, pois foram observados marcadores moleculares que permitem identificar rapidamente genes relacionados a características desejáveis, como resistência a doenças, tolerância à seca ou qualidade do grão.

Nos últimos anos, pesquisadores têm usado edição genética com CRISPR/Cas9 para alterar genes específicos no arroz. Um exemplo notável é a modificação de genes responsáveis pela estrutura da planta, fazendo com que as folhas cresçam em ângulos mais verticais. Isso permite maior densidade de plantio e mais fotossíntese por área, aumentando a produtividade sem precisar expandir a área cultivada.

Estudo genético para desenvolvimento de cultivar de arroz. (https://www.isaaa.org/kc/cropbiotechupdate/article/default.asp?ID=18216)

Outros grupos estudam genes relacionados à tolerância ao calor e à salinidade — uma preocupação cada vez mais em alta diante das mudanças climáticas. Pesquisas no Instituto Internacional de Pesquisa do Arroz (IRRI), nas Filipinas, e em universidades japonesas como a Universidade de Tsukuba, estão criando linhagens que sobrevivem melhor a eventos extremos, como inundações curtas (arroz “sub1”) ou períodos prolongados de seca.

No Japão, há também um esforço para desenvolver variedades mais nutritivas. Uma das mais conhecidas é o Kinmemai, um arroz branco que retém parte da camada nutritiva do grão polido. Outras variedades têm sido selecionadas por seu teor elevados de aminoácidos essenciais ou por liberar menos açúcar no sangue, visando consumidores com preocupações metabólicas.

Em uma tentativa de aproveitar áreas de água salgada, variedades experimentais de arroz tolerante à salinidade são cultivadas em regiões costeiras do Vietnã e Bangladesh. Outro exemplo internacional é o desenvolvimento do arroz dourado (Golden Rice), geneticamente modificado para produzir carotenoides precursores da vitamina A, especialmente importante em regiões da África e sudeste asiático, onde a deficiência dessa vitamina é um problema de saúde pública.

No Brasil, a Embrapa também tem papel central no desenvolvimento de variedades adaptadas ao nosso clima, como o arroz BRS Esmeralda e BRS Pampa, resistentes a doenças tropicais e adaptados a sistemas sustentáveis como o plantio direto.

Comparação da cor do arroz comum com o “arroz dourado”.

A crise atual no Japão é resultado de vários fatores que se acumularam: um verão muito quente e aumento de pragas, o aumento do turismo e da demanda em restaurantes, o crescimento do consumo doméstico com a alta dos preços de outras bases culinárias (como pão e macarrão) e também a própria política agrícola do governo atual.

Por décadas, o governo japonês pagou fazendeiros para plantar menos arroz. Em vez de estimular a produção, a política era de reduzir áreas plantadas, para evitar excesso de oferta e manter os preços altos. Em um país com população rural envelhecida (a idade média dos agricultores é 69 anos), a prioridade virou sustentar pequenos produtores e garantir estabilidade no campo, mesmo que isso significasse menos arroz.

Mas essa estratégia não previa uma crise. Um alerta de “mega terremoto” causou uma onda de compras emergenciais no verão passado.

O ministro da agricultura foi demitido do cargo após causar indignação com uma declaração de que nunca precisou comprar arroz porque seus eleitores o presenteavam com sacos do produto.

As reservas estratégicas de arroz foram abertas, mas demoraram a chegar às prateleiras, e muitos consumidores acabaram ficando sem. A reserva estratégica sendo vendida é a safra de 2020, que foi apelidada de “arroz velho velho velho”, originalmente designada para ração animal, mas agora sendo vendida nos mercaodos. Até programas de televisão já apareceram testando a qualidade do grão, concluindo que é mais duro, porém perfeitamente comestível.

O sistema de distribuição do arroz no Japão é rigidamente controlado, ainda centrado nas Cooperativas Agrícolas (JA), que funcionam meio como sindicatos rurais e têm grande influência sobre políticas públicas. Parte do arroz é vendida diretamente a lojas, fora do controle da JA, o que dificultou o rastreamento de estoques durante a escassez. Além disso, muito do arroz armazenado é integral, e precisa ser tratado antes de chegar ao consumidor, e não há capacidade de beneficiamento suficiente para atender toda a demanda.

Para tentar conter a crise, redes de supermercados começaram a vender arroz importado dos EUA, da variedade Calrose, que também é do tipo Japônica. Embora historicamente mal visto pelos consumidores japoneses, o Calrose foi reposicionado como a alternativa viável: bom para arroz frito, para sushi de casa, ou como solução temporária enquanto a nova safra não chega. Eu mesma tenho comprado arroz jasmin da tailândia, que é mais fino e solto, e agora está praticamente o mesmo preço do arroz japonês.

Agricultores cultivando campo de arroz.

 

A escassez atual expôs vulnerabilidades. O Japão precisa decidir se quer continuar com políticas que protegem produtores pequenos, mas limitam a produção, ou se vai flexibilizar o sistema, permitir exportações em anos bons, e criar uma rede mais confiável. E, principalmente, precisa lidar com o envelhecimento dos agricultores e atrair novas gerações para o campo. Este problema está evidente nesta crise, mas é algo a ser e sendo observado em muitas partes do mundo.

Cada vez mais vemos o trabalho no campo sendo desvalorizado e pessoas migrando para os grandes centros urbanos. Mesmo com o auxílio da biotecnologia, automação e de sistemas inteligentes, ainda são necessárias políticas que incentivem e facilitem o acesso a essas tecnologias e proporcionem uma boa qualidade de vida para atrair a população jovem para a produção. Aliás, que população jovem? O Japão, assim como Coréia, e outros países, em uma tendência global, enfrenta uma crise populacional, pois é cada vez mais custoso e difícil criar filhos, o que leva a uma baixa taxa de nascimentos e uma diminuição da população e consequentemente de força de trabalho.

Então teríamos que discutir políticas públicas, que vão desde o incentivo à criação de filhos, à aceitação de imigrantes como importante força de trabalho, entre outras.