A ditadura militar no Brasil foi um período autoritário que durou de 1964 a 1985, iniciado após o GOLPE militar que depôs o presidente João Goulart. Os militares assumiram o poder sob o argumento de combater o comunismo e restaurar a ordem política e econômica do país, em um contexto marcado pelas tensões da Guerra Fria. Durante esse período, o Brasil foi governado por sucessivos presidentes militares, com forte restrição às liberdades civis e políticas. Centenas de pessoas foram presas, sequestradas ou mortas por agentes do Estado em operações de repressão política. Entre essas vítimas, muitos se tornaram oficialmente desaparecidos políticos, pessoas cujo paradeiro nunca foi esclarecido completamente, deixando famílias por décadas sem respostas sobre o destino de seus parentes.
Um cenário como esse com certeza é aterrador, sendo facilmente mais perturbador que as aventuras em Raccoon City e Silent Hill, pois é algo que aconteceu e ainda paira pela nossa sociedade. Foi com isso em mente que a desenvolvedora Southward Studio (formada por apenas 1 pessoa) criou seu jogo de survival horror, Subversive Memories. Então não se cale e vamos protestar contra a ditadura, enquanto procuramos por pessoas desaparecidas em uma instalação militar e aprendemos mais sobre esse sombrio período da nossa história.
Subversive Memories é um jogo brasileiro de terror psicológico e sobrevivência que mistura ficção, crítica política e memória histórica em uma experiência intensa e atmosférica. A história acompanha Renata, uma mulher que desperta após um acidente sem compreender exatamente o que aconteceu com ela. Em busca de respostas sobre o próprio passado e sobre pessoas desaparecidas, ela explora instalações militares abandonadas, corredores claustrofóbicos e ambientes carregados de tensão.
O jogo utiliza o medo não apenas através de criaturas e ameaças físicas, mas também pela sensação constante de opressão e vigilância. Além de todo contexto histórico, os detalhes com itens da cultura brasileira também chamam atenção. Seja com um filtro de barro em cima da pia, uma estátua de São Longuinho ou até mesmo um quintal com o piso feito de um mosaico de ladrilhos como víamos em casas antigas, tudo é facilmente reconhecível e traz um charme especial para nós brasileiros.
Visualmente, o título aposta em uma estética retrô inspirada nos clássicos survival horrors da era do PlayStation 1. Câmeras fixas, gerenciamento de recursos limitados, quebra-cabeças e ambientação pesada ajudam a criar uma sensação de vulnerabilidade constante no jogador. Ambientado em cenários escuros, instalações abandonadas e corredores marcados pelo medo, o jogo constrói uma narrativa que mistura ficção e memória histórica, criando um paralelo direto com a repressão política, a perseguição e os desaparecimentos ocorridos entre 1964 e 1985.

Imagem 01: O general Humberto de Alencar Castelo Branco foi o primeiro de uma série de militares no poder durante a ditadura. A imagem mostra uma foto em preto e branco de um senhor usando a faixa presidencial e acenando com a mão direita
Durante a ditadura, o Estado brasileiro perseguiu opositores políticos, censurou manifestações culturais e utilizou a violência como forma de controle social. Órgãos de repressão, como o DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) e o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), atuaram na prisão clandestina de estudantes, jornalistas, artistas e militantes. Nem mesmo a igreja se salvou, já que movimentos como a Juventude Agrária Católica (JAC) e a Juventude Operária Católica (JOC) sofreram forte repressão, pois eram considerados “subversivos” devido ao seu trabalho de conscientização política e defesa dos direitos trabalhistas .
Muitos desses presos foram submetidos à tortura física e psicológica, enquanto outros desapareceram sem deixar rastros. O medo constante da vigilância, da denúncia e da prisão fazia parte do cotidiano de milhares de brasileiros.

Imagem 02: As perseguições políticas se intensificaram depois do decreto do Ato Institucional nº 5 em 1968. Na imagem vemos dois agentes do estado perseguindo um homem
É justamente essa atmosfera de tensão e paranoia que Subversive Memories transforma em experiência jogável. A protagonista Renata percorre ambientes carregados de silêncio, abandono e violência implícita, enquanto tenta reconstruir memórias fragmentadas e compreender o que aconteceu com pessoas desaparecidas. O jogo utiliza elementos clássicos do survival horror, escuridão, isolamento, escassez de recursos e sensação de vulnerabilidade para simbolizar o clima de opressão vivido durante o regime militar.
O horror presente na narrativa não depende apenas de criaturas ou ameaças sobrenaturais. Em muitos momentos, o verdadeiro terror surge da memória histórica: salas de interrogatório, documentos ocultos, gravações antigas e referências à censura e à repressão remetem às violações de direitos humanos praticadas durante a ditadura. O desaparecimento de pessoas, tema central tanto na história brasileira quanto no jogo, aparece como uma ferida aberta, marcada pela ausência de respostas e pelo sofrimento das famílias.
O jogo inclusive possui uma mecânica onde podemos fazer com que essas pessoas não sejam esquecidas e suas histórias sejam conhecidas. Ao encontrar a sombra de uma pessoa morta, temos a opção de acender uma vela no local para essa pessoa e com isso, reviver a história dela, impedindo que ela caia no esquecimento. Inclusive essa mecânica é essencial para que seja possível desbloquear o final verdadeiro do jogo.

Imagem 03: O jogo possui imagens fortes, principalmente quando acompanhamos as histórias de pessoas assassinadas pela ditadura. A imagem mostra a protagonista revivendo uma sessão de tortura aplicada por agentes do governo
Em uma clara referência a Alan Wake, a principal arma usada por Renata ao longo da jogatina é uma lanterna. Como os inimigos são feitos de sombras, ao direcionarmos o feixe de luz na direção das criaturas, elas tomam dano e são derrotadas, porém é um recurso limitado já que a lanterna funciona a base de pilhas, um item escasso ao longo do jogo.

Imagem 04: Tirando alguns confrontos obrigatórios, o mais recomendado é fugir dos inimigos devido à escassez de recursos. Na imagem vemos a protagonista atacando um inimigo do jogo usando o feixe de luz da lanterna
Se na vida real não podemos usar uma lanterna para revelar mais detalhes e identificar os responsáveis pelas atrocidades cometidas durante esse lamentável período, graças aos esforços de pessoas corajosas, temos outras ferramentas, como é o caso da Comissão Nacional da Verdade.
A Comissão Nacional da Verdade foi um órgão criado pelo governo brasileiro em 2011 para investigar violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, com foco principal nos crimes praticados durante a ditadura militar.
A comissão teve como objetivo esclarecer casos de perseguição política, tortura, assassinatos e desaparecimentos forçados cometidos por agentes do Estado. Para isso, reuniu documentos, depoimentos de vítimas, testemunhas e militares, além de analisar arquivos públicos e privados relacionados ao período.
Além de reconstruir fatos históricos, a comissão buscou preservar a memória das vítimas e fortalecer a defesa da democracia e dos direitos humanos no país. Entre os temas investigados estavam os desaparecidos políticos, os centros de tortura, a censura e operações militares como a Guerrilha do Araguaia (um movimento guerrilheiro existente na região amazônica brasileira entre as décadas de 60 e 70). Apesar de não ter poder de julgamento ou punição, seu trabalho foi importante para ampliar o conhecimento público sobre os abusos ocorridos durante o regime militar e para dar visibilidade às histórias das vítimas e de seus familiares.

Imagem 05: A Comissão Nacional da Verdade foi criada e instalada durante o governo da presidente Dilma Rousseff. A imagem mostra diversas pessoas lendo um documento durante uma coletiva de imprensa
Trata-se de um ponto importante, já que o tema dos desaparecidos políticos permanece profundamente sensível na história brasileira. Para muitas famílias, a ausência de respostas definitivas representa uma ferida aberta que atravessa gerações. A preservação da memória dessas vítimas é vista como parte importante do compromisso democrático com a verdade, a justiça e os direitos humanos. Algo que Subversive Memories nos traz de forma jogável.
Mais do que apenas um jogo de terror, Subversive Memories busca provocar reflexão sobre censura, violência estatal e os traumas deixados por regimes autoritários. Ao aproximar terror psicológico e acontecimentos históricos reais, o jogo mostra como o medo pode existir tanto no sobrenatural quanto na própria experiência humana. A obra transforma o silêncio, a censura e os desaparecimentos da ditadura em símbolos de um horror coletivo que ainda ecoa na memória do Brasil.

Imagem 06: Obras que abordam a Ditadura Militar (como o filme Ainda Estou Aqui) ainda se fazem necessárias para que não nos esqueçamos das atrocidades ocorridas nesse período. Na imagem vemos os atores do filme Ainda Estou Aqui com destaque para Selton Mello e Fernanda Torres
E chegamos ao fim. Espero que tenham gostado. Subversive Memories é um jogo essencial para quem gosta de terror e mais ainda para nós brasileiros que não podemos nos esquecer nunca desse período. Deixe aí nos comentários suas críticas e sugestões. Até a próxima.
Fontes: Survival Horrors, Reddit, Wikipédia, Toda Matéria e Dom Evaristo Arns. Brasil: Nunca Mais. Vozes de Bolso, 2011.

