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Estudar no Exterior: o caminho das pedras com Débora Cabral

por em 15/08/2019 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Estudar no Exterior: o caminho das pedras com Débora Cabral

Olá, pessoal!

Temos hoje mais uma entrevista de nossa série de entrevistas com pesquisadores brasileiros que estudaram fora do país. O objetivo é trazer para vocês o caminho das pedras, a opinião de quem viveu a experiência e conselhos para quem está passando pela experiência. Espero que gostem!

Hoje iremos falar com a Débora Cabral, também conhecida como Debbie!!!

Olá, Debbie, você pode nos falar um pouco sobre você?

Claro! Bom, tenho 38 anos, nasci e morei em Brasília a vida toda, até setembro do ano passado, quando me mudei para o País de Gales para fazer um programa 1+3 (mestrado mais doutorado). Minha história na academia não foi muito linear, mas acredito que as coisas só aconteceram como aconteceram para eu estar onde estou hoje, cursando o que estou cursando, com a experiência que já tinha adquirido com 17 anos de sala de aula. Tenho duas graduações, em História e Letras-Português, e um mestrado em Linguística, tudo pela Universidade de Brasília. Como eu disse, nada seguiu um trajeto muito coerente. Quando terminei o bacharelado em História, eu dava aulas de inglês. Pensei em fazer o mestrado em Letras-Inglês, mas a seleção foi cancelada. Ou seja, o destino meio que me empurrou para a minha paixão na época (2008), que era o feminismo. Fiz então o mestrado em Linguística antes da graduação em Português. A minha experiência profissional, depois do mestrado me levou para o ensino superior. Dei aula na UnB, como professora substituta, na UNIDESC, nas Faculdades Fortium até ser chamada para dar aula no Ceub.

O Ceub foi um divisor de águas porque foi lá que descobri a riqueza de trabalhar com textos jurídicos. Eu dava aula para calouros do curso de Direito. Dei aula também para vários cursos, mas esse é o que vai fazer o link com o que estudo agora. Nas aulas, comecei a me deparar com sentenças muito absurdas. Você não acreditaria. Coisas no nível: “seu processo não deveria existir porque é muito custoso para o Estado. E você deveria agradecer o assédio porque é feia.”. Essa petulância dos juízes me instigou e comecei a estudar como que pela linguagem eu poderia identificar a parcialidade deles em situações menos óbvias. Foram 3 anos em que fiz pesquisas e estudei junto com dois colegas de trabalho (Beijo, Lali e Ti). E resolvi que era isso que eu queria fazer! Passei dois desses três anos me preparando, estudando as faculdades, conhecendo os professores em congressos, para tentar o doutorado fora.

Apesar de termos o prof. Malcom Coulthard morando em Santa Catarina, que trouxe a linguística forense efetivamente para o Brasil, essa ainda é uma área insipiente. Então resolvi tentar universidades nos EUA e no Reino Unido, onde essa é uma área já estabelecida, inclusive com linguistas atuando como peritos forenses em tribunais. Falei demais. Pode fazer a próxima pergunta.

Conta um pouquinho pra gente da sua experiência no exterior.

Bom, estou há 10 meses morando em Cardiff, no País de Gales. A saudade é MUITO FODA! Mas está sendo, sem dúvida, a melhor experiência da minha vida. Vim com o dinheiro bem certinho, não tive bolsa. Então passei uns micro perrengues. Por exemplo, como o visto demorou para sair, eu só consegui chegar 4 dias antes das aulas começarem. E ainda tinha que achar apartamento. Como Cardiff é uma cidade universitária (mesmo com toda a minha pesquisa sobre a cidade, eu não tinha ideia do quanto isso afetaria moradia, por exemplo), quase todos os apartamentos com preços acessíveis (sem ser dormitórios) estavam alugados. O fato de não conhecer bem a cidade também não ajudou.

Terminei alugando um flat mais caro do que poderia. Para piorar, o alarme de calor na cozinha estava com defeito e disparava quase toda semana. Comecei a ter crise de pânico depois que um vizinho veio me xingar por disparar a porcaria do alarme. Então, minha alimentação foi para o lixo. Só comia sucrilhos com leite, e grão de bico, que já vem cozido na lata. Nem sopa eu esquentava. Tomava temperatura ambiente para não disparar a porcaria do trem.

Aí chegou o inverno. O frio nem foi o pior dos problemas. Foi só aprender a vestir muitas roupas que fiquei bem. Mas a escuridão é um pesadelo. Houve dias que tinha só 6 ou 7 horas de dia claro. Nem dá para falar de sol porque chove demais nesse país. Não tinha ideia do que a falta de vitamina D faz com a nossa cabeça. Eu só queria dormir… Ah! E as contas de gás e energia que começaram 30 libras nos primeiros meses passaram a 75 no inverno! Então a grana estava beeeem apertada. Tudo isso tendo que assistir aulas e fazer provas em uma outra língua, com uma estrutura de pensamento diferente da que eu estava acostumada. E a solidão?! Nossa senhora! No começo foi bem difícil.

Mas agora tudo está mais fácil. Conheci pessoas incríveis, que me dão muito apoio e colo aqui. Me acostumei com a forma de escrever e pensar e criticar… enfim, as coisas estão melhores.

E do ponto de vista acadêmico, como está sendo a experiência de estudar fora?

Então, como disse tive um período de adaptação. Mas nunca vi serem oferecidos a rede de suporte que tive dentro da universidade e o feedback completo que tive das avaliações. Tudo! Aprendi mais nesses meses que estou aqui do que em toda a minha vida acadêmica. Os professores são incríveis. Todos muito acessíveis. Cada estudante tem um ‘personal tutor’ com que você pode conversar sobre tudo! A faculdade oferece workshops de escrita acadêmica, além de encontros individuais com um professor para te ajudar a melhorar seus pontos fracos.

O e-mail é bombardeio diário de palestras e eventos e oportunidades que a faculdade oferece. Eles têm um centro de carreira que te ajuda a escrever o currículo ou ‘cover letters’ (uma ‘carta de capa’ para seu currículo), além de orientarem a respeito de empregos. Infelizmente, mesmo meu visto permitindo trabalhar até 20h/semana, não são todas as vagas que contratam estudantes que não são do Reino Unido ou União Europeia.

A biblioteca é um mundo a parte! A universidade tem umas 4 espalhadas pela cidade. Pelo menos uma fica aberta 24h. O acervo é imenso, além do acervo online de artigos que eu não teria acesso porque são pagos.

E, no dia-a-dia, pode nos contar como tem sido?

Ah! Todo mundo no Brasil me perguntava, “E aí? Curtindo muito? Já conheceu várias cidades e castelos?” kkkkkkkkkkkkkkkk! Minha resposta era sempre a mesma…. que nada. Só faço estudar… E minha rotina era esta: acordar umas 4 da manhã (não me pergunte por que, mas descobri, ainda no Brasil, que esse é o horário que meu cérebro funciona melhor), estudar em casa ou na biblioteca até umas 15h, dar uma caminhada no parque para espairecer e voltar pra casa para jantar sucrilhos e dormir.

Agora no verão, e morando em outro flat, que estou dividindo com uma amiga, eu faço a primeira parte dos estudos no parque, de 6 da manhã às 9, quando a biblioteca que gosto abre. E aí estudo até umas 16h, quando volto pra casa, cozinho cogumelos com espinafre e vou dormir. Hehehehehe! Claro que tenho minhas idas aos pubs e, às vezes, vou estudar no gramado do castelo. E isso em si já é espetacular!!! Mas minha vida se resume a assistir aulas, estudar, ter orientações, e estudar. Minha orientadora é a melhor pessoa do universo, by the way! (Te amo, Tereza!!)

Quais as melhores coisas de estudado fora?

O quanto eu aprendi. A estrutura da universidade e tudo que ela oferece, os professores que conheci, o valor que dão ao pensamento crítico. Tudo isso é impagável. Mas também as pessoas que conheci e toda a experiência de estar em contato com uma cultura (ou várias) diferente.

Tem alguma mensagem final que gostaria de deixar para nossos leitores?

Uma mensagem prática seria se planeje. Eu demorei 2 anos buscando as faculdades e os professores com quem eu gostaria de trabalhar. Isso foi muito bom por um lado, mas pouco prático por outro. É muito mais difícil conseguir bolsas para lugares e departamentos específicos. Uma opção é ver que bolsas já existem e o que essas universidades têm de bom para oferecer. É uma forma menos difícil (porque nada é fácil), mas você corre o risco de você não ter um orientador tão apropriado para sua pesquisa… ao mesmo tempo, tentar a primeira opção, te deixa a mercê apenas da CAPES e CNPq, competindo com todas as áreas de todo o país… Enfim, cada escolha com seus prós e contras, não é mesmo?

Uma mensagem filosófica seria que tudo na vida tem um tempo para acontecer. Eu hoje com quase quarenta anos pude vir fazer um mestrado fora e, se tudo der certo, continuar aqui para o doutorado.

Se você tem interesse em contar a sua história, ou acha que a história de algum amigo ou amiga é interessante, é só entrar em contato através do e-mail [email protected].

 

 

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