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Eram os Vikings existencialistas?

por em 10/04/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Eram os Vikings existencialistas?

Portanto, Skål!!!

Hvernig líða dagarnir á þessum tímum… Opa. Desculpem, me empolguei hahahaha.

Então, espero que esse tempo de quarentena não esteja sendo mais desesperador do que certos pronunciamentos oficiais. Até porque, em tempos de temor generalizado, um tom sombrio vem a reboque endossando o cataclisma social e alimentando incertezas quando ao futuro. Em poucas palavras, é o cenário vivo da crítica nietzschiana niilista.

Porém, apesar de essa ideia ser bastante comum na cultura ocidental, reforçada especialmente pelo cristianismo sustentado sobre as noções de céu, inferno e morte alinhadas constantemente em um sistema de punição-recompensa, ainda assim, lidar com o não mais ser – principalmente em escala como a atual – produz uma sensação mínima de desassossego e máxima de desespero sinalizando a inabilidade em lidar com a questão. Então, como seria viver sob a possibilidade constante do “fim do mundo”?

Uma forma de tentar responder a essa pergunta parte de Ragnarok.

Ragnarok – Armored Dawn

A música da banda brasileira de Viking Metal, Armored Dawn, traz elementos do mundo viking convergindo tanto para a efervescência midiática da cultura escandinava dentre os séculos IX e XI d.C. – a Era Viking – , cujo ápice foi a série homônima, quanto pelo novo movimento interpretativo e analítico que pauta as mais recentes pesquisas acadêmicas acerca do elemento religioso no mundo escandinavo do período.

Ragnarok pode ser dividida em duas partes separadas pelo refrão, que denota uma comunidade familiar sob destino inevitável. Isso porque a primeira parte da letra aborda aspectos comuns à cultura viking como o ideal comunitário, o destino inevitável e julgo universal, o caráter guerreiro também alinhado ao senso de comunidade e família, aceitação da finitude e intimidade com o sagrado. Já na segunda parte vê-se uma crítica clara ao mundo pós-moderno enxergando no retorno às tradições culturais evocando, principalmente, retorno de valores como a honra além da aceitação da finitude e da intimidade com o sagrado.

O diálogo entre o retrato identitário-cultural e a proposta de retorno às tradições remete ao método constitutivo do niilismo nietzschiano e, em seguida, ao existencialismo. Para entender essa relação é necessário compreender dois aspectos cruciais: o que é o Ragnarok e a influência do sobrenatural sobre a mentalidade viking.

A tradução literal de Ragnarok não é um consenso entre os pesquisadores da cultura escandinava viking, mas gira em torno da ideia de um destino dos deuses. Interpretar como julgamento, o que não acontece no mito, é incorrer na interpretação equivocada de ser o “fim do mundo” ou do universo. Portanto, o Ragnarok é uma profecia inevitável, uma batalha que envolve todas as classes de deidades, indicando a renovação do cosmo como um todo. O fatalismo que lhe é inserido deve-se a influência da leitura cristianizada, carregada da noção apocalíptica, não fazendo jus ao significado do Ragnarok. Porque trata-se de uma narrativa acerca de acontecimentos futuros que aborda o renascimento dos mundos natural e sobrenatural além restaurar a ordem cósmica inaugurando uma nova era.

As principais fontes para leitura acerca do Ragnarok são as Eddas, escritos em islandês medieval abordando os mitos nórdicos que se dividem entre a Edda Poética e a Edda em Prosa. A primeira é um compilado de poemas constituintes do Codex Regius que remontam o período em que a Islândia entrava em contato com a tradição escrita, por volta dos séculos IX e X. A segunda é de autoria de Snorri Sturluson, poeta e historiador islandês, e é dividida em três partes nas quais narra o surgimento dos deuses e do mundo (primeira parte: Gylfaginning), a apresentação de sinônimos e metáforas (segunda parte: Skáldskaparmál) e a exemplificação da variedade de versos existentes (terceira parte: Háttatal).

É no Ciclo Mitológico, a parte continente de 16 poemas cujo cerne são os deuses, que se observa mais vezes citações sobre o evento reordenador. Dentre esses poemas, destacam-se “A Profecia da Advinha” (Völuspá) e “Os Ditos de Vafthrúdnir” (Vaftrudnismál).

No primeiro poema, Odin ressuscita uma völva movido pelo seu interesse em saber mais sobre o passado e o futuro. Assim, na conversa entre eles são revelados a origem do universo, dos deuses, dos gigantes, dos homens indo até o momento pós-Ragnarok. Já no segundo poema, Odin vai até o sábio gigante Vafthrúdnir buscando conhecimento e dialogam sobre o universo, a natureza, o passado e o futuro. Há ainda dois poemas diretamente ligados ao Ragnarok que exibem referência ao evento: Baldrs Draumar e Lokasenna. Um diz sobre os sonhos do deus Balder que prenunciam sua morte ao passo que o segundo fala sobre as provocações de Loki aos deuses. O fator mais interessante é que a morte de Balder é orquestrada por Loki e é um dos acontecimentos desencadeadores do Ragnarok.

Nesse sentido, infiro que o Ragnarok faz suscitar, por diversos meios, o não apego à materialização do ser. Inclusive pelo fato de a religiosidade nórdica estar inserida na paisagem natural, na relação com a natureza – típico daquela sociedade – como observado na existência e significado da Yggdrasill, possivelmente símbolo de conectividade entre as dimensões humanas – materialidade, metafísico, morte e fantasia – através de uma ligação de caráter vital. Além disso, o referencial cosmológico era ligado à visão de mundo proporcionando a união entre o cosmos e a realidade. A partir disso, emergem elementos como noção de tempo e espaço, estrutura cosmológica, criação do universo, fronteiras entre deuses e homens bem como destino e morte e critérios de veracidade.

Essa construção da religiosidade nórdica encontra eco na descentralidade política, social, econômica e cultural da Escandinávia viking, uma vez que novas pesquisas apontam para a influência dos inúmeros contatos com outros povos na religiosidade, preservando-se o escopo tradicional mantido, em primeiro plano, pela oralidade antes do contato com a escrita. Essa descentralização reforça ainda o caráter empirista das relações entre homens e deuses.

A relação dos vikings com o sagrado não se dá numa esfera maniqueísta de bem versus mal, tradicional em muitas outras religiões institucionalizadas e que elegem um inimigo a ser derrotado, muito menos com uma distinção entre o laico e o sacro. Apesar da característica guerreira desses povos, a relação com o sagrado era pessoal e utilitária, como um acordo, com o deus ou os deuses a quem se ligavam.

É interessante notar um certo espelhamento entre deuses e homens e que a distinção entre eles não os afasta, mas os aproxima – como citado na música. Através da letra e do mito, nota-se a inexistência de uma cultura de redenção substituída com excelência pelo anseio em cumprir seu papel com destreza a fim de ser acolhido na morada dos deuses, o que é mediado pelos valores morais da época e dos povos, em especial a honra – talvez personificada na figura das Valquírias. E isso tudo se dá sem ferir a liberdade de ser oferecendo como campo de relações o limiar entre a predestinação e o livre arbítrio.

Esse espelhamento também pode ser visto em uma interpretação possível (e particular) do mito em que, havendo o novo panteão, uma nova Midgård e uma nova humanidade, a materialidade do ser é passageira e a consciência da finitude é suscetível até aos deuses. Além disso, a morte parece não ser uma questão central para esses povos. É sentida na esfera da separação terrena e na busca pelo acolhimento entre os honrados sendo, muitas vezes, uma recompensa associada, nesse caso, ao descanso e cumprimento da missão. A finitude não provoca temor ou angústia, exceto por uma ausência de significado ou valor, o que implica em uma medição subjetiva. Também se evidencia quando a religiosidade se constitui modelo para a sociedade, espelhando as realidades interiores nas histórias dos deuses.

NOTA: O título é apenas chamariz para o texto sem a intenção ou risco de incorrer em qualquer anacronismo.

REFERÊNCIA

ARMORED Dawn. Ragnarok. Disponível em: https://www.letras.mus.br/armored-dawn/ragnarok/;

ENCYCLOPEDIA Britannica. Biografia de Snorri Sturluson. Disponível em: https://www.britannica.com/biography/Snorri-Sturluson;

ICELAND Literature Center. Snorri Sturluson – A Biography. Disponível em: https://www.islit.is/en/promotion-and-translations/icelandic-literature/icelandic-titles/nr/894?fbclid=IwAR12OxaORELTBxxCEjAxfvd9mk8AIY-HRMDwFLa0K4FjTzSiPyovHf-h5bU;

LANGER, Johnni. A Religião Nórdica Antiga: conceitos e métodos de pesquisa. Rever, Ano 16, nº 2, mai/ago 2016, p. 118-143;

_______________. Religião e Magia entre os Vikings: uma sistematização historiográfica. Brathair 5 (2), 2005, p. 55-82;

OLIVEIRA, Leandro Vilar. Uma Introdução ao Mito do Ragnarok. Disponível em: http://neve2012.blogspot.com/2017/04/uma-introducao-ao-mito-do-ragnarok.html?m=1;

PALAMIN, Flávio Guadagnucci. Breves Considerações sobre a Edda Poética e a Edda em Prosa. V Congresso Internacional de História. Disponível em: http://www.cih.uem.br/anais/2011/trabalhos/341.pdf;

SOARES, Renan. Roadie Metal Entrevista: Armored Dawn – A ascensão da banda viking brasileira. Disponível em: http://roadie-metal.com/roadie-metal-entrevista-armored-dawn-a-ascensao-da-banda-viking-brasileira/

 

Nota da Editora:

Aproveito para lembrar a todos da #desafioredatoresdeviante, pelo twitter ou pelo e-mail [email protected], para enviar perguntas para os redatores do Portal responderem!

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