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Em 2020 esperávamos por carros voadores e o que temos é o retorno das IST’s

por em 11/02/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Em 2020 esperávamos por carros voadores e o que temos é o retorno das IST’s

Qual foi a primeira experiência de vocês com assuntos no âmbito da educação sexual? Lembro quando tinha mais ou menos uns 11 anos, ao folhear o livro de ciências junto a alguns amigos na escola, encontramos uma página que mostrava as IST’s (infecções sexualmente transmissíveis), com imagens bem pesadas de órgãos sexuais infectados. Nossa reação foi, volta e meia, abrir na página com as imagens e mostrar a alguém despreparado.

Agora pula um pouco, já na faculdade, fui convidado para ajudar a estruturar uma roda de conversas sobre educação sexual para os adolescentes da região. Lembro que no meio daquela conversa básica, eu comentei: “ sabe, acho que o tema em geral da conversa deveria ser sobre consentimento e prazer, evitar colocar medo na galera com imagens de IST’s ou usar clichês de ‘seja legal e use camisinhas!’.” A sala ficou em silêncio, não sei como se resolveu, só sei que nunca mais fui convidado às reuniões.

Decidi começar o texto com esses dois relatos meus que, mesmo com mais de 10 anos de distância entre as experiências, ainda têm algo em comum com os dias de hoje:o medo de falar sobre sexo e suas consequências. No texto de hoje comentarei sobre a volta das IST’s, educação sexual no Brasil e no mundo, em como o SUS vem lidando com essa demanda e o quadrinho Pílulas Azuis.

Afinal o que são IST’s?

No início dos anos 90 o mundo viveu uma epidemia de HIV/AIDS, na época a doença ficou em evidência por levar nomes famoso ao redor do mundo como: Cazuza (1958/1990), Renato Russo (1960/1996), Freddie Mercury (1946/1991), Isaac Asimov (1920/1990), entre vários outros. 

Renato Russo, vocalista da Legião Urbana (fonte)

A epidemia foi controlada por meio de campanhas de conscientização (pois existe um tabu gigantesco em volta da doença), a distribuição de medicamentos pelo SUS, sem falar no avanço científico ao redor do tema. Atualmente pessoas infectadas com o vírus do HIV podem levar suas vidas “normalmente”. O mundo passou esse período de alerta nos anos 90, e, para a surpresa de zero pessoas, não aprendemos nada com o passado e repetimos os mesmos erros, já que as Infecções Sexualmente Transmissíveis voltam a estar em alta em pleno 2020. 

Antes de dar continuidade no texto é importante definir IST, HIV e AIDS:

IST é uma sigla para Infecções Sexualmente Transmissíveis, talvez você conheça como DST (Doença Sexualmente Transmissíveis), porém desde o ano de 2016 a nomenclatura correta passou para IST. De acordo com a diretora do departamento de vigilância, prevenção e controle, “o termo IST é mais adequado por ser já utilizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pelos principais organismos que lidam com a temática ao redor do mundo”. Além de o ‘I’ destacar a possibilidade de uma pessoa ter e transmitir uma Infecção, mesmo sem sinais e sintomas de uma Doença.

Apesar do ‘S’ ser de sexualmente, não precisa ser necessariamente por meio de sexo que se adquire a infecção, outros meios possíveis, como de mãe para filho por meio da amamentação ou parto, ou como por meio do contato da mucosa de uma pessoa infectada. Dentre o grupo das IST estão AIDS, Gonorreia, Herpes Genital, Doença Inflamatória Pélvica, dentre vários outras patologias. 

Matthew McConaughey no filme Clube de Compras Dallas (2013)

HIV, que vem da sigla em inglês de Imunodeficiência Humana, é o vírus causador da AIDS, que ataca o sistema imunológico e afeta a capacidade do organismo se defender. O vírus altera o DNA das células de defesa, faz cópias de si mesmo e se multiplica no organismo, atacando ainda mais o sistema imunológico e continuando a infecção pelo corpo.

AIDS, que vem da sigla em inglês Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, é a manifestação do vírus da HIV. Existem casos de pessoas que possuem o vírus e não manifesta nenhum sintoma da AIDS. Existe uma série de sinais e sintomas decorrentes da patologia, porém evitarei lista-los. Caso tenha dúvidas se possui a patologia é bom sempre estar com os exames de sangue em dia ou procurar o posto de saúde mais próximo.

O retorno em pleno 2020

No meio de 2019 a OMS publicou que a cada dia 1 milhão de novos casos de ISTs são diagnosticado. De acordo com a Organização, “há uma relativa falta de progresso em parar a propagação de infecções sexualmente transmissíveis no mundo (…) Este é um alerta para um esforço conjunto, a fim de garantir que todos, em todos os lugares, possam acessar os serviços que necessitam para prevenir e tratar essas doenças debilitantes.”

O último boletim epidemiológico de HIV/AIDS (12/2019) relata que, entre julho de 2007 até julho de 2019, foram registrados em torno de 300.496 casos de infecção pelo HIV no Brasil. Já no caso da AIDS o número da média anual gira em torno de 39 mil novos casos. A sífilis adquirida, outra DST bastante comum no país, no ano de 2018, teve registrados em torno de 158.051 casos. Vale ressaltar que é apenas um resumo de dados complexos, caso queira vê los por completos clica no link (disponível em PDF).

Tivemos um grande avanço em várias áreas da saúde em relação às IST’s, desde de diagnóstico, formas de prevenção, conhecimento da patologia e medicamentos. Então qual o motivo das IST’s voltarem a “moda”? Retornando lá pros dois primeiros parágrafos desse texto, onde comento relatos pessoais, existe um tabu em torno da palavra sexo e quando se fala de educação sexual o tabu é ainda maior.

Alguns dos principais motivos da volta das IST’s:

São doenças silenciosas: De acordo com Mauro Romero Passos coordenador do setor de DST da Universidade Federal Fluminense (UFF) “Por não sentirem nada, as pessoas não procuram o médico e não descobrem que estão infectadas. Caso não saibam, a chance de transmissão do vírus ou da bactéria para os parceiros, com sexo sem proteção, é muito maior.”

Foto: Rodrigo Nunes / ASCOM MS

A não utilização dos preservativos: Há uma tendência na diminuição do uso de preservativos, de acordo com o Ministério da Saúde no Brasil, entre os jovens de 15 a 24 anos de 56,6% e, para os que têm parceiro(a) fixo(a), esse número é de 34%. Aqui existe o que eu chamaria de uma falha de metodologia, por não existirem dados do número de mulheres lésbicas que utilizam-se do preservativo e uma analise das pessoas que usam camisinhas apenas na penetração, porém abrem mão no sexo oral. A porcentagem pode ser ainda maior do que a descrita. 

Vale destacar neste tópico outro dado: as campanhas de conscientização no uso da camisinha (principalmente em um Brasil Bolsonarista e supostamente conservador) são sempre voltadas para casais heterossexuais, a exclusão da comunidade LGBTQIA+ é algo que sempre vale ser destacado. Outro ponto importante é que as campanhas deixam de lado a palavra consentimento, de nada vale saber a importância do uso do preservativo, quando uma das pessoas  não quer utilizá-lo, por “não ser bom” (entre outras desculpas). Por isso é de extrema importância a tão temida em terras tupiniquins Educação Sexual.

Educação Sexual no Brasil e no mundo

Ressalto aqui que no momento que escrevo esse texto saiu a seguinte notícia: “Ministra Damares reconhece abstinência sexual como política pública em construção.” Outra notícia relacionada, quando o já eleito presidente afirmou que: “Quem ensina sexo para a criança é o papai e a mamãe. Escola é lugar de aprender física, matemática, química”. Acho que essas duas manchetes servem para dar uma contextualizada no que ocorre no Brasil quando o tema é sexo.

série Sex Education (Netflix 2019 -)

O pensamento bolsonarista parte de uma ideia simplista e infantil, no exemplo da educação sexual, para seus eleitores é educação = escola e crianças; sexual = sexo, imoral. Logo educação sexual é: ensinar sexo para as crianças na escola. O bolsonarismo se nega a ver contexto, interpretação, dados e metodologia. Ignoram o aumento da taxa de IST’s entre meninos 15 a 19 anos, a taxa de gravidez entre adolescentes acima da média na América do Sul, sem citar os inúmeros casos de crianças abusadas dentro de casa, (muitas vezes por familiares) que costumam ser denunciados após aulas e palestra sobre o tema.

A educação sexual é um termo usado para referir-se ao processo que busca proporcionar conhecimento e esclarecer dúvidas sobre temas relacionados à sexualidade. Por sexualidade entende-se o conjunto de comportamentos relacionados ao desejo sexual. Dentre sua função está o combate às ISTs, gravidez indesejada, até experiências sexuais traumáticas. A ONU (Organização das Nações Unidas) reconhece a educação sexual relacionada aos direitos humanos – direitos das crianças e jovens e o direito que toda pessoa tem à saúde, educação, informação e não discriminação.

Vamos observar como outros países lhe dão com educação sexual:

  • Portugal: No ano de 1997, o tema se tornou obrigatório nas escolas; em 2005 foi criado Grupo de Trabalho para a Educação Sexual (GTES) / Educação para a Saúde em Meio Escolar, que determinou que a educação sexual será abordada no âmbito de um programa de promoção da saúde. Os assuntos abordados devem envolver, entre outros, o entendimento da sexualidade como uma das componentes mais sensíveis da pessoa, a compreensão dos aspectos relacionados com as principais IST’s, a maternidade na adolescência e a interrupção voluntária da gravidez, assim como os aspectos relacionados ao uso de métodos contraceptivos e de preservativos (1).

série Euphoria (2019- HBO)

  • Argentina: nossos hermanos implementaram no ano de 2006 o Programa Nacional de Educação Sexual Integral. Os objetivos deste programa são: I) incorporar a educação sexual integral dentro das propostas educativas; II) assegurar a transmissão dos conhecimentos pertinentes, precisos, confiáveis e atualizados sobre os aspectos distintos envolvidos na educação sexual integral; III) promover atitudes responsáveis antes da sexualidade; IV) prevenir os problemas relacionados com a saúde em geral e a saúde sexual e reprodutiva em particular; V) procurar igualdade no tratamento e oportunidades para os homens e mulheres (1).
  • Holanda: O país entende a sexualidade como algo completamente natural e saudável, e a aplicação de programas de educação sexual é compulsória em todo o país. O tema é tratado desde os quatro anos de idade, porém com abordagens diferenciadas de acordo com a faixa etária. O programa de educação sexual do país foca em construção de respeito pelo corpo e sexualidade próprios e dos outros, e inclui lições sobre consenso, IST’s e prazer. A taxa do país de gravidez na adolescência no país está entre as mais baixas do mundo.

Alguns países têm uma visão mais conservadora semelhante a do Brasil, vale uma olhada nas referências, deixarei alguns artigos relacionado ao tema.

As mudanças no tratamento do HIV no Brasil

Existe um número considerável de pessoas com o vírus do HIV no Brasil. Tendo isso em vista, como anda o tratamento delas no nosso Sistema único de Saúde (SUS)?

O SUS oferece testes para descoberta do HIV existindo dois tipos: Exames Laboratoriais e os testes  rápidos (feitos por meio da coleta de sangue, com resultados em torno de 30 min.). De acordo com Drauzio VarelaTemos um dos melhores programas de HIV/aids do mundo – um programa que revolucionou o tratamento e reduziu a velocidade de disseminação da epidemia mundial ao adotar, em 1996, uma política de distribuição gratuita de medicamentos” (declaração de 2018).

Desde o final de 2017 o SUS oferece o chamado PrEp (profilaxia pré exposição), tal medicamento foi uma revolução no campo do HIV, antes dele a única forma de prevenção era o uso de preservativos (que como comentado no decorrer do texto não se faz tão eficaz). Aqueles que aderem à PrEP, que no modelo atual prevê a ingestão de uma pílula por dia, podem realizar sexo sem uso de preservativo, com risco praticamente nulo de se infectar com o HIV.

Em Agosto de 2019 no meu texto “O que vêm acontecendo com o SUS nesse governo?”, comento alguns dos retrocessos proporcionados pelo governo. As mudanças no órgão de controle do HIV, deixando de ser um tópico específico e sendo encaixado em outras doenças como Hanseníase e tuberculose. Levando consequentemente à diminuição de investimento na patologia. Afinal, para o atual presidente, pessoas com HIV são uma despesa para todo o Brasil.

As alterações foram polêmicas e, enquanto o governo nega os impactos, os especialistas repercutiram negativamente. No exemplo a Sociedade Paulista de Infectologia “a política brasileira sobre HIV vinha sendo reconhecida internacionalmente. (…) Enquanto muitos países, a exemplo dos Estados Unidos, divulgam políticas para eliminar a transmissão do HIV nos próximos 10 anos, estamos vivenciando um retrocesso no Brasil.”

Quadrinho Pílulas Azuis

Confesso que ao ler as primeiras páginas de Pílulas Azuis, sem saber direito do que se tratava a história, achei apenas um clichê romântico, até que uma dos personagens fala “eu tenho AIDS, sou soropositivo e meu filho também.” O quadrinho, baseado na vida do autor Frederik Peeters e sua esposa Cati, é um obra bem íntima, contando o dia-a-dia do casal, desde uma ida ao médico até o medo deles em terem relações sexuais, uma história linda de amor e aceitação. 

Sidney Gusman, jornalista e editor do Universo HQ, sobre o quadrinho “ Na trilogia Matrix a pílula azul representa a fuga para a vida ilusória. Nesta magnífica HQ autobiográfica do suíço Frederik Peeters, ela é a garantia de que a realidade continua. Sempre cercada de incerteza, medo, desejo, dor, angústia, alegria, fé compaixão e principalmente amor.”  

Acredito que Pílulas Azuis seja surpreendente, por eu nunca ter me imaginando na situação do autor, a patologia da AIDS ainda hoje é rodeada de preconceitos dos anos 90, muito se evoluiu em seu tratamento, porém pouco evoluímos no conhecimento da população em geral. Mesmo não existindo cura, pessoas com o vírus do HIV podem, desde que diagnosticadas e tratadas corretamente, terem relações sexuais e viverem suas vidas naturalmente.

Quando o assunto é sexo no Brasil, existem muitos outros assuntos a serem abordados como patriarcado, masculinidade frágil, o medo da liberdade sexual, entre vários outros, talvez fale desses temas em um texto futuro. Vale sempre uma olhada nas referências e nos links do decorrer do texto. Por hoje é isso, feliz 2020!!

Referências:

. Artigos e livros:

  1. MATOS, M. G; et. al.  Educação sexual em Portugal e em vários países da América Latina.  PSICOLOGIA, SAÚDE & DOENÇAS, 2009, 10 (1), 149-158 Disponível em PDF (link)
  2. RACHID, M; SCHECHTER, M. Manual de HIV/AIDS. 10 ed. RJ, Thieme Revinter publicações, 2017. 
  3. PEREIRA, G. F. et.al. HIV/aids, hepatites virais e outras IST no Brasil: tendências epidemiológicas. Rev. bras. epidemiol. vol.22  supl.1 São Paulo 2019 Epub Sep 26, 2019. Disponível em PDF (link)

Textos por aí:

Texto do coleguinha aqui no Deviante “Precisamos falar sobre Camisinha

Texto do coleguinha aqui no Deviante  “A camisinha é segura contra as IST’s

Texto do Politize! “Educação sexual ao redor do Mundo” 

. Séries e filmes:

Clube de Compras Dallas: Conta a história de um homem hétero sexual diagnósticado com AIDS que passa a contrabandear medicamentos para o estado do Texas. Vencedor de 3 Oscar e 2 Globos de ouro, o filme tem atuações incríveis por parte do seu elenco, uma história que fala bastante sobre preconceito e aceitação. 

Sex Education:  Por ter uma Mãe terapeuta sexual, Otis passa a ser conselheiro de seus colegas de escola. Disponível na Netflix é uma série que fala sobre a importância de se falar sobre sexo na adolescência. 

Euphoria: Disponível na HBO, a série retrata de forma bem crua a sexualidade, machismo, relacionamentos abusivos, consumo de drogas, dentre vários temas pertinentes dessa geração. 

Cartas para além do Muro: Documentário disponível na Netflix, narra a evolução do vírus HIV no Brasil, passando por três gerações, mostrando o estigma de quem vive com a doença. 

 

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