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Efeitos colaterais e hidroxicloroquina

por em 23/06/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

Efeitos colaterais e hidroxicloroquina

Como todos sabem, a internet é um lugar que pode nos alegrar, nos entreter e até nos instruir. Porém, no outro lado da moeda, essa mesma tecnologia pode nos desanimar, nos desinformar e nos estressar.

Dito isso, esse texto será um pouco diferente, gostaria de compartilhar com vocês um problema masoquista que tenho. Mas agora você está – espero – se perguntando qual seria essa problemática que me assola.

Bom, talvez você até se identifique, mas eu tenho um “grave vício” que é ler comentários de notícias ou redes sociais. Ou seja, eu me “puno” lendo as pessoas vomitarem em seus teclados e escreverem absurdos! Agora, não sei o motivo, e estou parando, ou tentando parar com esse mal que me assola.

Contudo, hoje vou falar sobre um comentário eu vi, que nada mais é do que uma imagem. Eu fiz um passeio para o fundo do poço, que são os comentários, e capturei uma imagem infeliz sobre a hidroxicloroquina (HQ).

Então, vamos começar. Esse comentário, que encontrei em uma notícia sobre a HQ, é baseado, não em uma fake news em forma de imagem, mas uma meia-verdade que busca alimentar a bolha de pessoas que acabam compartilhando-a. Vou deixar a imagem abaixo.

 

Efeitos colaterais da dipirona vs hidroxicloroquina

 

A imagem não está tão legível, mas basicamente estão escritos do lado esquerdo alguns efeitos colaterais, os quais são referentes à dipirona (comercialmente Novalgina®). Ao pesquisar a bula da Novalgina®, que vou deixar nas referências o link, podemos observar que, basicamente, na imagem acima, informações são jogadas, embora corretas, para que qualquer leigo interprete-as de forma equivocada, mas é preciso ler a bula na íntegra para entender sobre o que está dizendo ou procurar um profissional da saúde.

Agora, vamos primeiro analisar a imagem acima e destacar os chamados “distúrbios cardíacos” (síndrome de Kounis). Para entender melhor essa síndrome, trouxe dois artigos sobre ela (um em inglês outro em português), que vou deixar nas referências. Basicamente, a Síndrome de Kounis ocorre pela liberação de mediadores inflamatórios durante a desgranulação dos mastócitos. Com relação aos mastócitos, eu comentei já em um texto anterior, mas basicamente ele está intimamente ligado a reações alérgicas desencadeado por diversas coisas, tais como antibióticos, analgésicos (aqui entra a dipirona), anticoagulantes, anestésicos, entre diversos outros.

Nessa Síndrome, relatada primeiro em 1950, descobriu-se uma relação direta entre anafilaxia (alergia sistêmica) e sintomas coronários. Dito isso, vale ressaltar que uma reação desse tipo é alérgica, portanto, tem fatores genéticos, pessoas podem ter predisposição, várias medicações ou moléculas podem desencadear. Por esse motivo, caso tenha reação alérgica a qualquer medicação, pare seu uso imediatamente.

Vale ressaltar que reações alérgicas (ou reações de hipersensibilidade) estão intimamente relacionadas com o sistema imunológico e com como o organismo da pessoa vai reagir a esse medicamento, que é diferente para cada um. Também, alergias não se desenvolvem no primeiro uso, são necessárias pelo menos 2 doses para seu desenvolver essa reação.

Se olharmos os outros efeitos listados, a maioria está ligada a alergia, mas, para que a imagem seguisse uma linha de narrativa, foram postos, de forma superficial, apenas os tipos de distúrbios, que vão de problemas cardíacos até distúrbios de pele (que a síndrome de Stevens-Johnson, a qual foi exposta na imagem, também tem origem alérgica). Entretanto, é fundamental analisarmos todo o mecanismo de ação, além da frequência que tais impactos ocorrem.

Nesse contexto, se o paciente souber que tem alergia a tal medicação, ele não irá ingerir tal medicamento, e vai utilizar outro similar.

Por outro lado, para fazer uma pontuação sobre efeitos colaterais, resolvi olhar a bula da hidroxicloroquina, a qual estará nas referências. Um desses efeitos que se comenta é com relação ao sistema cardíaco. De acordo com a bula:

 

“Toxicidade crônica deve ser considerada quando ocorrerem distúrbios de condução (dificuldade da passagem do estímulo elétrico) (bloqueio de ramo/bloqueio átrio-ventricular) bem como hipertrofia biventricular (espessamento da parede dos ventrículos). A suspensão do tratamento leva à recuperação”.

 

Essa toxicidade, como colocada, não tem relação com o mecanismo da dipirona, que ocorre por uma hipersensibilidade, e sim é um bloqueio na corrente elétrica que passa pelo coração. Por esse motivo é de extrema importância que, caso tal medicação seja utilizada, seja feita a utilização no hospital, sendo acompanhado por um eletrocardiograma, o qual vai verificar essa condução elétrica.

Um ponto que poder ser levantado é que, como todos já sabem, ou deveriam, nunca confiar em um post ou comentário. Na dúvida considere-o como mentira e pesquise diversas fontes. Além disso, caso seja algo científico, procure por fontes científicas e não aquele canal do Youtube que tira informações de você sabe onde.

 

 

Bibliografia:

 

Bula Novalgina®: https://www.novalgina.com.br/bulas/solucao-oral-50mg.pdf

Bula da Hidroxicloroquina: https://img.drogasil.com.br/raiadrogasil_bula/SulfatodeHidroxicloroquina400mgEMS.pdf

Artigo Síndrome de Kounis (Inglês) – Biteker M. Current understanding of Kounis Syndrome. Expert Review of Clinical Immunolody. 2010.

Artigo Sindrome de Kounis (Português) – Juste JFM, et al. Complicações cardíacas em síndrome de Kounis tipo I induzida por metamizol. Revista Brasileira de Anestesiologia. 2013.

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