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“E se eu pintasse o cabelo?” – Parte I

por em 08/07/2020 em Ciência, Notícias | Nenhum comentário

“E se eu pintasse o cabelo?” – Parte I

Não sei se existe uma explicação psicológica para isso, mas parece que essa quarentena fez com que quase todo mundo apresentasse o surto “e se eu pintasse o cabelo?”. Algumas pessoas ainda estão pensando na arte, outras já executaram… você é uma delas?

Para quem não é leitor assíduo das textos do Portal Deviante, nossa série sobre cabelos chegou justamente na parte sobre como funcionam as tintas de cabelo. Quando comecei a escrever, percebi que um texto só ficaria muito grande, então “por que não fazer disso uma minissérie spinoff?” e aqui estamos nós.

E por que dois parágrafos contando essa história? Porque o texto de hoje é justamente sobre isso! A história das tintas de cabelo!

Nossa história começa por volta de 1500 A.C. com os egípcios, que pintavam o cabelo (e suas perucas) com henna, para cobrir os cabelos brancos!
Anos depois, gregos e romanos também usaram outros diversos corantes naturais, tais como índigo e açafrão para modificar a cor de seus cabelos. Corantes naturais, porém, são temporários, mas por análise de amostras de cabelos, estudos mostraram que os romanos conseguiram criar uma tinta preta permanente, milhares de anos atrás!

Representação de mulheres egípcias.

Eles usavam uma mistura de óxido de chumbo e hidróxido de cálcio, que interagem com as ligações de enxofre presentes na queratina, gerando sulfeto de chumbo. Claro que eles não sabiam da parte química do que estavam fazendo e como vocês devem imaginar, além de conseguir mudar a cor do cabelo, essa tinta também passou a matar os usuários. Depois de perceberem isso, os romanos modificaram a “fórmula” do corante preto, passando a utilizar sanguessugas que permaneciam fermentando em vinagre por dois meses em vasilhas feitas de chumbo. A mistura que obtinham como resultado era passada no cabelo e a pessoa ficava no sol esperando a tinta agir.

Durante o império romano, por volta de 300 A.C., era obrigatório que as prostitutas tivessem o cabelo loiro como identificação da profissão. Algumas usavam perucas, mas outras usavam plantas ou sementes queimadas passadas no cabelo para chegar nessa coloração. Ao mesmo tempo, as mulheres nobres que nasciam com os cabelos claros, escureciam os fios com extratos de plantas e minerais.

 

The Emperor Commodus Leaving the Arena at the Head of the Gladiators (detail) by Edwin Howland Blashfield (1848–1936), Hermitage Museum and Gardens, Norfolk, Virginia.

Com o tempo, os cabelos loiros passaram a ser usados por toda a população, sendo que os mais ricos chegavam a passar pó de ouro no cabelo. Há publicações que usam o imperador romano Commodus, que reinou de 180 a 192 D.C, como exemplo de quem usava pó de ouro no cabelo (esse imperador é aquele interpretado por Joaquin Phoenix no filme Gladiador).

No início da era comum, outras civilizações como os Gaul e os Saxões tinham os cabelos naturalmente claros e pintavam o cabelo e as barbas com cores diferentes, como laranja, vermelho, verde e azul para intimidar os oponentes no campo de batalha. Então, se você achou estranha a descrição do Daario Naharis nas Crônicas de Gelo e Fogo, saiba que foi baseado em algo real! E um exemplo de pigmento que se tem relatado em literatura para esse tipo de uso é o extrato de uma planta da família do repolho para a coloração azul.

Daario Naharis como descrito nos livros das Crônicas de Gelo e Fogo (arte original por deviantart.com/justanor)

Apesar de experiências desastrosas como o uso de chumbo 1500 anos antes da era comum terem dado local ao uso de corantes naturais, ainda houve muitas ideias tão perigosas quanto essa, mesmo em tempos mais recentes da nossa história. Na Londres de 1600, foi publicado um livro chamado “Delights for ladies”, que continha receitas e dicas domésticas para mulheres. Nesse livro era recomendado o uso de vitríolo (Oyle of Vitrioll, em inglês) para clarear os cabelos pretos, alcançando um tom de castanho. No livro era também altamente recomendado que não se permitisse o contato da solução com a pele. Essa recomendação faz muito sentido quando a gente descobre o que é o tal vitríolo: ácido sulfúrico!

Já na Itália de 1700, mulheres venezianas passavam soluções de lixívia no cabelo e ficavam com a cabeça no sol por horas, para ficar com os cabelos loiros… porque olha só como as coisas mudam: nessa época o cabelo loiro começou a ser associado à pureza e aos seres angelicais… Mas voltando à tintura utilizada: sabe o que é lixívia? Ela era obtida a partir das cinzas de algumas árvores específicas daquela região e é basicamente hidróxido de sódio, a famosa soda cáustica!

Essa história começa a mudar em 1863, quando o químico August Wilhelm Hofmann, presidente do Departamento de Química do Imperial College de Londres, sugeriu que seu assistente William Henry Perkin tentasse sintetizar a quinina, princípio ativo da quina, uma planta com propriedades antimaláricas. O garoto de 18 anos testou diferentes rotas, sendo que ao purificar o resultado de sua segunda tentativa com a adição de etanol, foi obtida uma solução de coloração púrpura, capaz de tingir seda. Assim, nasceu o primeiro corante sintético da história!

Flores de malva.

O composto foi chamado de mauveína, devido à coloração ser parecida com as flores de malva. Perkin abriu uma empresa e sintetizou diversos corantes, além de continuar com suas pesquisas em outras áreas, porém a história das tintas para cabelo continuam com seu professor, Hofmann. Após a síntese da mauveína por seu assistente, o professor produziu um derivado da molécula, capaz de mudar de coloração após exposição a um agente oxidante, a p-fenilenodiamina, que é uma das bases para a maioria das tintas permanentes até hoje!

Em 1907 foi criada a primeira coloração com objetivos comerciais, pela companhia que mais tarde se tornaria a L’Oréal. O químico francês Eugène Schueller utilizou a p-fenilenodiamina em combinação com amônia e peróxido de hidrogênio para a criação da tinta chamada de Aureole (essa tinta só depositava a cor, mas não conseguia clarear o cabelo).

Eugène Paul Louis Schueller, químico francês, fundador da L’Oreal.

Em 1931, nos EUA, o diretor de filmes Howard Hughes queria fazer uma nova “It Girl” e com isso criou o filme “Platinum Blonde”, o qual era estrelado pela atriz Jean Harlow, que tinha o cabelo num tom de loiro tão claro, que, por ações de marketing, foram promovidos concursos em que o cabeleireiro que conseguisse chegar naquele tom receberia um prêmio de $10.000. Ao mesmo tempo que a atriz nunca admitiu que pintava o cabelo, foi daí que surgiu o chamado loiro platinado tão famoso até hoje.

Jean Harlow, a primeira loira platinada.

Há boatos sobre as formas perigosas em que o cabelo da atriz teria chegado a uma cor de cabelo tão clara naquela época, que indicariam que sua morte precoce (aos 26 anos) teria vindo por tal escolha estética. Nada foi comprovado, porém uma coisa é certa: a descoloração ainda era uma coisa insegura de se fazer, apesar de já ser de conhecimento que tipos de compostos promoviam o “branqueamento” (alvejantes, por exemplo).

Só na década de 50 foi lançado um produto para o clareamento dos cabelos de forma segura. O Miss Clairol foi criado pelo químico Lawrence Gelb, que vinha estudando formas seguras de promover a descoloração do cabelo há 20 anos. Como nessa época havia certa relutância em se pintar o cabelo (voltou a ser algo “mal visto”), o produto foi vendido indicando a possibilidade do uso em casa e com um resultado tão natural, que ninguém saberia que o cabelo era pintado.

Propaganda da tintura Miss Clairol, dizendo que a cor é tão natural que somente o cabeleiro saberia com certeza.

Essa tinta acabou popularizando a modificação da cor do cabelo e na década seguinte esse tipo de discrição já não se fazia mais necessária, visto que colorir o cabelo já era considerado como algo normal. Até 1968 os passaportes dos EUA tinham a informação da cor do cabelo do passageiro, mas a partir do ano seguinte, essa informação caiu em desuso uma vez que as pessoas modificavam a cor do cabelo facilmente.

Atualmente, estima-se que, nos EUA, cerca de 70% das mulheres utilizam algum tipo de tintura capilar, e no caso dos homens acima dos 40 anos ao menos 10% pintam os cabelos. Dados do Inmetro de 2004 indicam que no Brasil, 26% da população adulta pintava o cabelo na época da pesquisa, sendo que as mulheres representavam 85% desse total. Em outra pesquisa mais recente foi mostrado que em 70% dos lares brasileiros há pelo menos uma pessoa que pinta o cabelo.

 

E você? Já fazia parte dessa parcela da população com cabelos coloridos ou passou a pintar o cabelo nessa época de quarentena? Depois de toda essa história, no próximo texto vamos ver do que são feitas e como funcionam as tinturas capilares!

 

Referências:

Oliveira, R. A. G. et al. A química e toxicidade dos corantes de cabelo. Química Nova, v. 37, n. 6, 2014.

History of haircolor

The colorful history of hair dye

Hair coloring

Hair dye: a history

From 1500 BC to 2015 AD: The Extraordinary History of Hair Color

Mauveína, C26H23N4

Infográfico: a relação do uso dos salões com tinturas dentro do lar

 

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