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Lembrai-vos da guerra… Guerra do Contestado (1912-1916)

por em 19/07/2016 em Ciência | 4 comentários

Lembrai-vos da guerra… Guerra do Contestado (1912-1916)
Entre 1912 e 1916, os caboclos do sertão catarinense pegaram em armas contra tropas federais. O conflito, simultâneo à Primeira Guerra Mundial, foi “esquecido” pela imprensa da época e minimizado pelos livros de História, até o final do século XX.

Salve, salve gente amiga das Ciências!

Hoje conversaremos sobre o maior conflito armado ocorrido no Brasil Republicano. Você pensou na Guerra de Canudos? Talvez em um outro episódio possamos abordar as histórias de Antônio Conselheiro, pois o tema hoje é a Guerra do Contestado.

"Fanáticos" x Legalistas

“Fanáticos” x Legalistas

O conflito desenvolveu-se em decorrência da disputa de uma extensa área situada na atual região oeste de Santa Catarina e o sudoeste do Estado do Paraná, compreendendo aproximadamente 48 mil km² – um território maior que o do Espírito Santo, rico em florestas de araucária e pés de erva-mate – tendo os rios Iguaçu e Uruguai como seus limites norte e sul. A disputa se dava entre estes Estados, uma vez que os limites de fronteira entre ambos à época ainda não haviam sido definitivamente estabelecidos (daí origina-se o termo “contestado”).

Além dos interesses dos governos estaduais, estavam envolvidos também os interesses dos coronéis latifundiários desta região, do capital estrangeiro – representado na figura da empresa estadunidense Brazil Railway Company – e dos próprios colonos que dependiam da terra para seu trabalho e sustento.

Essa empresa havia recebido a concessão para a construção da estrada de ferro São Paulo-Rio Grande do Sul, sendo que como pagamento recebeu do governo a propriedade de toda uma faixa de trinta quilômetros de terras (quinze de cada lado, ao longo da ferrovia), provocando a expulsão da população que nela vivia.

Região do Contestado

Região do Contestado

Os trabalhadores da estrada de ferro, que chegaram a oito mil, eram recrutados entre desempregados e desocupados dos grandes centros do país e mantidos sob um rígido controle; quando acabou a construção, ficaram abandonados à própria sorte.

Toda essa soma de fatores, entre outros, criou um clima de tensão e revolta que, aliado à religiosidade do povo, começou a ser explorado com fins religiosos e políticos pelos numerosos “monges” que viviam na região.

Desde meados do século XIX, a região era visitada por “monges errantes”, os quais não estavam ligados à Igreja ou a qualquer outra ordem religiosa. Estas figuras se tratavam, na realidade, de beatos, curandeiros, profetas populares, que a comunidade escutava e cujos ensinamentos observava.

O primeiro dos “monges” foi João Maria D’Agostini, um homem de origem italiana, que peregrinou pregando e atendendo doentes de 1844 a 1870. Fazia questão de viver uma vida extremamente humilde, e sua ética e forma de viver arrebanhou milhares de crentes, reforçando o messianismo coletivo. É de se ressaltar que não exerceu influência direta nos acontecimentos da Guerra do Contestado, que ocorreria posteriormente.

João Maria D’Agostini

João Maria D’Agostini

O monge João Maria desapareceria (faleceu em 1870, em Sorocaba – SP), deixando espaço para que novas figuras místicas surgissem em uma região devastada pela miséria e o caos social – o cenário perfeito para que as pessoas se agarrassem ao desejo do surgimento de um novo líder que as conduzisse a um plano de vida melhor. Surge então um segundo “monge”, por volta de 1893, este se denominando João Maria de Jesus, mas cujo nome era Anastás Mercaf. Costumava conversar com as pessoas, indicava medicamentos, batizava as crianças e transmitia seus mandamentos, como: “Quem descasca a cintura das árvores para secá-las também vai encurtando sua vida. A árvore é quase bicho, e bicho é quase gente”. Ou ainda: “Quem não sabe ler o livro da natureza é analfabeto de Deus”. Durante a Revolução Federalista (1893-1895), João Maria visitava acampamentos dos revoltosos e fazia críticas à República, anunciando calamidades e sofrimentos. Este segundo “monge” viria a morrer por volta de 1909, deixando os sertanejos novamente carentes de um novo líder.

João Maria de Jesus

João Maria de Jesus

Este chegaria em 1912 na forma de um terceiro “monge”, Miguel Lucena de Boaventura, o qual se intitulava José Maria D’Agostini – na verdade um soldado desertor da Polícia Militar do Paraná. Como ninguém conhecia ao certo a sua origem, como aparentava uma vida reta e honesta, não foi difícil granjear em pouco tempo a admiração e a confiança do povo. Um dos fatos que lhe trouxeram fama foi a presunção de ter ressuscitado uma jovem (provavelmente apenas vítima de catalepsia patológica). Teria também curado a esposa do coronel Francisco de Almeida, vítima de uma doença incurável. Com este episódio, o monge ganha ainda mais popularidade e credibilidade, especialmente ao rejeitar terras e uma grande quantidade de ouro que o coronel, agradecido, lhe queria oferecer.

Se dizendo irmão do primeiro monge, opunha-se à República, a qual chamava de “a lei do diabo”, que, em seu modo de ver, permitia todos os males e sofrimentos pelos quais os sertanejos estavam passando. Era a favor de um novo mundo, o Reino Milenarista, que muitos identificavam com a monarquia. Mas esse novo mundo nada tinha a ver com a velha monarquia brasileira, autoritária, violenta e sob o controle da grande propriedade rural: seria o mundo em que vigoraria a “Lei de Deus”, em que todos teriam terra para plantar, em que haveria paz, prosperidade e justiça.

O "monge" José Maria ao lado de três "virgens"

O “monge” José Maria ao lado de três “virgens”

Em fevereiro de 1912, José Maria participou de uma festa religiosa em um lugar chamado Taquaruçu, no município de Curitibanos, em SC. Depois da festa, em vez de voltar para casa, 300 camponeses ficaram ali, cantando e rezando por dias. Davam vivas a São João Maria e à Monarquia. Para o prefeito de Curitibanos, aquilo cheirava a conspiração. Transmitiu um telegrama a Florianópolis pedindo uma força policial para desbaratar o ajuntamento de “fanáticos que havia proclamado a monarquia” no sertão (na verdade, o que não se admitia era a contestação ao poder das oligarquias).

Quando a polícia chegou, os sertanejos fugiram. Alguns seguiram José Maria até a vila de Irani, no município de Palmas, hoje oeste catarinense, então administrado pelo governo paranaense. O governo do Paraná tomou aquilo como uma provocação do Estado vizinho e mandou um destacamento de 64 homens a Irani. A ordem era levar os “invasores fanáticos” amarrados para Curitiba.

Acossados, os sertanejos tiveram que lutar. José Maria mandou alguns de seus homens para espionar a movimentação da tropa.  Ao se aproximar da vila, num brejo, a tropa foi surpreendida por camponeses de facões em punho. Morreram 23 pessoas na batalha, incluindo José Maria. Entretanto, ninguém ficou triste, pois o “monge” havia profetizado não só a sua morte, como também o seu retorno. Os sertanejos estavam tão certos disso que, em vez de enterrá-lo, só cobriram o corpo com algumas tábuas. Era o início da contenda.

"Fanáticos" de um dos redutos

“Fanáticos” de um dos redutos

Depois da primeira batalha os “fanáticos” se dispersaram, para alívio do governo e das oligarquias locais. O sossego durou até outubro de 1913, quando uma menina de 11 anos, Teodora Alves Ferreira, começou a ter visões de José Maria em sonho. A “virgem” Teodora era neta de Eusébio dos Santos, um fazendeiro que havia combatido em Irani e acreditava na ressurreição do monge. Nos sonhos, José Maria mandava os caboclos se juntarem de novo para criar uma cidade santa em Taquaruçu e esperar o fim do tempo de sofrimento.

A experiência com a Guerra de Canudos, no final do século XIX, parece não ter surtido efeito no governo federal. Organizou-se uma expedição para combater o reduto dos “jagunços no Sul” e, tal qual no Nordeste, a empreitada malogrou. Mais uma vez, a tropa foi surpreendida pelos sertanejos escondidos no mato. A vitória deixou a “sagrada” Taquaruçu em estado de êxtase. Os caboclos se julgavam invencíveis e acreditavam ter a ajuda do Exército Encantado, um pelotão celeste invisível comandado por São Sebastião, o santo guerreiro, que tinha como combatentes José Maria e todos os rebeldes que tombaram em Irani. De tão confiantes, chegaram a queimar todas as armas tomadas dos inimigos, consideradas “impuras”.

Entretanto, sabendo que não poderiam resistir por muito tempo, mudaram a “cidade santa” de lugar. Surgiu o reduto de Caraguatá, distante cerca de 30 quilômetros de Taquaruçu, em terreno mais acidentado. Em fevereiro de 1914, quando o governo mandou canhões para bombardear Taquaruçu, a maioria dos caboclos já havia ido embora. Mesmo assim, o bombardeio deixou noventa mortos.

Bandeira utilizada pelos sertanejos, encontrada em um dos redutos

Bandeira utilizada pelos sertanejos, encontrada em um dos redutos

Em Caraguatá, pequenos comandos de caboclos armados, os piquetes, atacaram fazendas, estações de trem e cidades. A vila de Curitibanos foi ocupada em 26 de setembro de 1914 (conta-se que os sertanejos avisaram a população antes, para que as pessoas pudessem fugir). As casas do prefeito e de seus partidários foram incendiadas.

Conhecedores do sertão, os rebeldes usavam táticas de guerrilha contra os militares. Para antecipar os movimentos do inimigo, usavam espiões. Chamados de “bombeiros”, eles se disfarçavam de tropeiros ou pedintes para poder entrar nos acampamentos das tropas. Depois, relatavam o que viam e ouviam aos chefes do reduto, que preparavam a defesa.

Utilizando do mesmo artifício, as tropas federais passaram a contratar vaqueanos, peões de fazenda ou capangas de coronéis armados para guiar as tropas e lutar contra os “fanáticos”. Mas os caboclos eram criativos. Infiltravam seus “bombeiros” entre os vaqueanos para guiar as tropas federais para emboscadas.

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Com a destruição de Caraguatá por uma epidemia de tifo, os “jagunços” (outro termo usado pelas forças militares) se espalharam por vários outros redutos. Para garantir a sobrevivência, roubavam gado em fazendas vizinhas. Famintos e desesperados, muitos começaram a desertar. Alguns saíam dos redutos para se alistar no Exército. Os remanescentes fundaram o reduto de Santa Maria.

O Exército não estava mais disposto a engolir outro revés. No final do ano, o general Setembrino de Carvalho foi incumbido de destruir a localidade. Carvalho era um militar experiente e tinha 7000 homens à sua disposição. Montou uma operação complexa e atacou os quatro lados do reduto após cortar o abastecimento dos “jagunços”. Utilizou inclusive pequenos aviões de reconhecimento (pela primeira vez no Brasil a aeronave era utilizada para fins bélicos) contra os sertanejos.

Aviação na Guerra do Contestado

Aviação na Guerra do Contestado

Em Santa Maria o clima era de terror. O líder, Adeodato Manoel Ramos, executava quem ameaçasse desertar. Centenas morreram de fome. Em março de 1915, uma frente de 2000 soldados entrou no vilarejo. Todas as 5000 casas foram queimadas e mais de 600 caboclos morreram.

Os sobreviventes de Santa Maria se juntaram outra vez, ainda sob o comando de Adeodato, nos redutos de São Miguel e São Pedro, e resistiram até o final de 1915. Mas foram finalmente derrotados por um piquete de 1000 vaqueanos.

Desde 1914 começara uma “profilaxia” na região. Sob o comando das forças federais, os vaqueanos iniciaram uma caçada aos rebeldes remanescentes. Um desses mercenários, Pedro Ruivo, era conhecido por tirar fanáticos presos da cadeia de Canoinhas e degolá-los à beira do Rio Negro.

Com a resistência quebrada e os rebeldes derrotados, o conflito foi formalmente encerrado em 1916, com a assinatura de um tratado entre Paraná e Santa Catarina, que dividiu o território litigioso entre os dois – acabando o “contestado”. Para os caboclos que sobreviveram, restou trabalhar nas fazendas dos coronéis. Muitos “esqueceram” o movimento. Os descendentes não gostavam de falar do conflito e viam o passado dos pais e tios com vergonha. Somente ao alvorecer do novo século é que a “guerra santa” do Contestado passou a ser revisitada. O saldo trágico, para pouco mais de quatro anos de contenda, diverge entre 10 e 20 mil mortos.

Cemitério do Contestado, no município de Irani - SC

Cemitério do Contestado, no município de Irani – SC

Vale a pena lembrar: Além de benzer, curar e batizar, o “monge” José Maria reunia gente ao seu redor lendo o livro História do Rei Carlos Magno e seus Doze Pares de França, com ensinamentos de guerra.

Nos anos de 1984/1985 um grupo de jornalistas realizou uma vasta pesquisa que resultou no documentário em vídeo chamado “Contestado: A Guerra Desconhecida”. Nesse período foram entrevistados os últimos sobreviventes da guerra. Homens ainda fortes e lúcidos, valiosos testemunhos de tantas lutas e horrores, que auxiliaram na miríade de interpretações que o conflito possui.

Do lado dos vencidos, nenhum falava muito a vontade acerca dos combates e mortes. Temiam, mesmo depois de 70 anos, serem perseguidos, pois os vencedores incutiram que eles seriam fanáticos e criminosos. Do lado dos vencedores, nenhum orgulho especial pelo que fizeram, pelo contrário. Foram ouvidos um ex-soldado e um ex-vaqueano. O primeiro, mais instruído, pôde, depois da guerra, fazer uma reflexão sobre o que levou a odiar os sertanejos, e concluir ter sido usado para matar brasileiros. O vaqueano, que era pago por fazendeiros, contava atrocidades sem se gabar, mas com naturalidade. Um outro depoente, que não combateu em nenhum dos lados mas acompanhou os acontecimentos, sonhava em se casar com “uma jaguncinha” e acabou fazendo-o.

Síntese do Conflito

Síntese do Conflito

Sugestão de leitura:

ESPIG, Maria J & MACHADO Paulo P. (orgs.) A Guerra Santa Revisitada - Novos Estudos Sobre o Movimento do Contestado. Fpolis, Ed. UFSC, 2003.

ESPIG, Maria J. & MACHADO Paulo P. (orgs.) A Guerra Santa Revisitada – Novos Estudos Sobre o Movimento do Contestado. Fpolis, Ed. UFSC, 2003.

 

VALENTINI, Delmir J. Da cidade Santa à Corte Celeste: Memórias dos Sertanejos e a Guerra do Contestado. Caçador: Universidade do Contestado, 2000.

VALENTINI, Delmir J. Da Cidade Santa à Corte Celeste: Memórias dos Sertanejos e a Guerra do Contestado. Caçador: Universidade do Contestado, 2000.

 

SERPA, Élio. A Guerra do Contestado (1912-1916). Fpolis: Ed UFSC, 1999.

SERPA, Élio. A Guerra do Contestado (1912-1916). Fpolis: Ed UFSC, 1999.

Sugestão de vídeo:

Minissérie em 3 capítulos, realizada pela RPC TV (muito interessante):

Link para assistir todos os capítulos: http://redeglobo.globo.com/rpctv/contestado/platb/

 

História do Brasil – Guerra do Contestado. Documentário em 2 partes, elaborado pelo jornal O Estado de S. Paulo:

 

Olhar Contestado – Desvendando Códigos de um Conflito:

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