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As consequências políticas da viagem no tempo: Uma resenha de Snowglobe

por em 15/09/2020 em Entretenimento, Notícias | Nenhum comentário

As consequências políticas da viagem no tempo: Uma resenha de Snowglobe

Especular sobre viagem no tempo é meio difícil. Para isso, você precisa conhecer um pouco de teoria da relatividade ou de alguma hipótese quântica sobre o tema (muito embora ter uma teoria quântica sobre o tempo seja difícil e pouco consensual). Tá ok, você também pode só ver Interestelar, se estiver sem tempo (trocadilho péssimo). Mas em Snowglobe, novo livro de Fábio Barreto (de quem eu já era fã ouvindo as participações no Rapaduracast), a viagem no tempo é um pano de fundo diferente de um thriller pessoal. Em vez de focar nos paradoxos e na hard science envolvida na viagem, Barreto já começa o livro fazendo o leitor se perguntar sobre as consequências políticas e econômicas da viagem no tempo. Seria o fim de todas as guerras ou apenas início de novas? Governos se uniriam ao contemplar um futuro devastado por guerras, a fim de evitá-lo? Como o mercado reagiria? As perguntas são muitas, mas o foco da história é outro.

Snowglobe tem em torno de 300 páginas, que li em uns 15 dias. Realmente trata-se de um thriller, e a cada página a expectativa e a curiosidade aumentam. A história começa com Erick assistindo por acaso na TV a notícia de que a  que a empresa M.A.S.E mandou um tripulante para o futuro. O frenesi é o mesmo do vôo à Lua no século XX. Mas dessa vez a fronteira expandida foi a temporal, não a espacial. O leitor se dá conta de que a história terá a vida de Erick como um dos epicentros da narrativa quando descobrimos que ele é o cientista da M.A.S.E. responsável por projetar a máquina do tempo, e que até então ele não tinha conseguido atingir seu objetivo. Como diabos a empresa está divulgando as primeiras imagens de uma viagem temporal?

Erick também tem um conflito emocional e familiar em jogo. Seu compromisso com o conhecimento o levou a devotar a vida à carreira, se afastando da família e do amor. Ironicamente, ele pensa que abdicar da família agora terá valido a pena quando descobrir como viajar no tempo e puder se dedicar à família. Essa ambivalência lateja em cada fala do personagem. Barreto tem bastante sucesso em transmitir a angústia e anestesia emocional do personagem em cada frase. Ele é como um vigilante com uma identidade secreta e uma vida dupla.

Snowglobe começa a esquentar quando Becca, a empresária cheia de sucesso e personalidade que Erick deixou, nota alguns desaparecimentos estranhos ocorrendo quase ao mesmo tempo que a divulgação da viagem no tempo. Os desaparecidos são seu amigo jornalista Andrew McNab e ninguém menos que seu ex, Erick. O que houve com eles? Esses desaparecimentos estariam conectados de alguma forma? Teriam a ver com a M.A.S.E?

O misterioso e obsessivo antagonista é Peter Stanton, CEO da M.A.S.E. (que me lembrou muito de Ozymandias, de Watchmen). Becca parece desconfiar que o sumiço de seus amigos tem a ver com a ânsia de Stanton em divulgar a viagem temporal. Existe algo de podre nessa história, e ela vai investigar.

Enquanto assistimos as pistas do grande mistério serem coletadas, ficamos sabendo das consequências mundiais da viagem no tempo por intermédio das negociatas de Stanton mundo afora. As ações da M.A.S.E. sobem instantaneamente e tudo indica que Stanton vai virar o guru dos governos que puderem pagar por isso. Governos e empresas no mundo inteiro estariam interessados em se aproveitar dessa tecnologia para descobrir sobre seu próprio futuro e mover os pauzinhos no presente para concretizar ou evitar o futuro revelado. A M.A.S.E. viraria uma espécie de Oráculo de Delfos mundial (sem os alucinógenos e sem as charadas).

Claro, isso tudo poderia ter um lado ruim, como a maioria das novas tecnologias tem. Viajar até o futuro e enviar informações para alertar as pessoas no passado teria o poder de salvar economias, pessoas e até o meio ambiente, mas isso também geraria uma nova dimensão de disputas por recursos (e pela própria viagem). As pessoas brigariam no presente para garantir ou evitar as previsões (é algo parecido com a série Flashforward, que eu super recomendo).

A narrativa de Fábio Barreto é clara, instigante. Com seu estilo direto de contar a história, faz o leitor empatizar com os personagens revelando e criando mistérios na medida certa.  Mas eu acho que cometi um erro de expectativa ao ler Snowglobe. Eu sou um fã de ficção científica hard e de distopias. Sendo assim, eu esperava um pouco mais de detalhes não apenas sobre como exatamente a máquina do tempo foi criada, mas também sobre as consequências políticas dessa tecnologia disruptiva. Embora os personagens sejam extremamente cativantes, algumas vezes me pegava pensando “Ok, mas como é o mundo do futuro? Como ficou a relação entre os países depois que o viajante temporal apareceu no anúncio em rede mundial?”. Barreto torna essas coisas não mais que um pano de fundo, explorando apenas o suficiente para justificar a aventura íntima de cada personagem. O autor explicou essa intenção desde o início, eu é que não sabia.

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